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sexta-feira, 27 de maio de 2011

Calem–se as vozes que morreu um Poeta

Recordo dele o seu riso estridente, o seu sarcasmo penetrante que não feria, antes estremecia com a consciência de quem o ouvia. Não visava agredir, humilhar ou sequer apoquentar quem era o alvo da sua fina ironia. Com a idade e a progressão académica, em que sempre se empenhou, foi burilando essa sua característica que era um hino à vida e que foi sacrificando a uma imagem menos controversa, quiçá mais rica.
O Luís Dantas encarnava de modo quase perfeito a figura do ser solidário, do poeta desinteressado de bens materiais, mas que tinha com a vida uma cumplicidade própria, inimitável e pouco acessível a quem não tenha acompanhado o seu percurso de vida. O seu riso não visava repelir, antes era seu intuito atrair, chamar ao convívio, integrar.
Elevou-se a pulso, sem deixar de viver os aspectos da vida que mais agradam ao ser homem e porque não ao ser homem português. Sem esquecer a irreverência da sua juventude, fazendo-a conviver no seu espírito com a maior ponderação da sua fase mais madura, que aliás cedo começou, o Luís Dantas manteve-se fiel aos traços mais vincados da sua personalidade moldados por um começo difícil e que ele venceu com o seu imenso valor.
Aproveitou os horizontes que essa Lisboa, outrora longínqua, proporciona a quem a quiser descobrir e explorar naquilo que ela tem de mais encantador. Viveu intensamente no meio no qual melhor se integrava, pese embora nas suas curtas arremetidas à Ponte de Lima natal e inesquecível, encontrasse sempre forma de encontrar o enquadramento apropriado à sua vivência singular.
Terá o Luís Dantas morrido como seria seu desejo? Decerto que não quereria avançar tão rapidamente e inesperadamente, mas há algo de poético na sua morte, que remete para outras vivências de poetas para quem a tragédia nunca andou muito longe. Calem-se as vozes que morreu um Poeta.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Recuperar o Natal é salvar o Menino

O Natal de hoje é fruto de um percurso histórico, resultado da confluência de várias culturas. Num acontecimento desta natureza mesmo aquilo que possa ser fruto da imaginação depressa passa a ser património, imaterial, diz-se agora, mas parte integrante da festa, da celebração, da comemoração. Podemos já não saber bem o que estamos a comemorar, porque há aspectos que se vão adicionando à medida que outros se vão esquecendo. Podemos concordar em que há aspectos nefastos dos tempos mais recentes, mas não estaremos decerto de acordo quanto ao passado a que, por hipótese, haveríamos de regressar.
É natural que historicamente se tenha feito o possível por tornar a festa natalícia apelativa, mas temos de considerar que vivemos num tempo já de escolaridade geral em que decerto só o simples facto de à festa corresponder um período de férias foi suficiente para lhe dar uma relevância maior. Podemos pois procurar num outro passado momentos de uma vivência mais genuína, menos interesseira. Encontraremos decerto sempre nos primórdios uma simplicidade que, com o tempo, vai descambando, mercê de uma abrangência cada vez mais global.
Será que o Natal ainda hoje merece ser celebrado?
O Natal, o nascimento tem em si próprio todas as propriedades necessárias para merecer uma celebração. Nesta festa celebra-se o nascimento de um Menino específico, para uns o Messias prometido aos Judeus, que haveria de ser rejeitado e perseguido por estes, para ser acolhido e adoptado como Cristo por boa parte da humanidade nos séculos seguintes. Independentemente do percurso histórico que o cristianismo haveria de ter, pode-se atribuir a esse Menino, na sua exemplar inocência, uma representatividade mais vasta.
Para muitos, pese embora este Menino tenha existido, a sua importância é maior como símbolo de todos os meninos que, antes de chegarem a este mundo, já estão condenados a sofrer dissabores imensos. Na verdade facilmente podemos generalizar neste sentido, porque encontraremos aí uma convergência de praticamente toda a humanidade, mesmo daquela que possa não ter tido historicamente símbolos próprios desta natureza. Um Menino acolhe-se sempre no seio de qualquer comunidade minimamente sensível aos valores humanos.
Terá já o Natal, que universalmente se celebra, novos motivos e aliciantes ou por outro lado terá sido adulterado e estará perto da paródia daquilo que foi?
A forma de ver o Natal como mais uma festa tem levado ao desejo de uma participação cada vez maior de cada um. A uma festa nunca se diz não, mas pode já não ser entusiasmante assistir a uma festa exclusivamente do Menino. Já havendo a possibilidade de todos entrarem na festa, de todos darem e receberem presentes, mesmo que não haja propósito para isso, de haver comida farta e ocasião para uma congratulação efusiva, a maioria de nós alinha sem esforço.
Não correremos assim o perigo de esquecermos o Menino que precisa de ser salvo e será suficiente limitarmo-nos a integrá-lo numa festa mais vasta em que a referência a ele será puramente ocasional?
Preocupamo-nos cada vez mais em comer e beber desmesuradamente, em mandar mensagens despersonalizadas aos milhões para listas de endereços, que isto de postais pessoais dá trabalho a mais e discrimina muitas pessoas, em dar presentes cada vez mais foleiros, para receber, se possível, presentes cada vez melhores. Cada vez menos fazemos do Natal aquele regresso à infância, aquela celebração do Menino, da simplicidade que nos pode trazer a paz.
Podemos especular mesmo sobre o Menino, por fraco que ele seja, que há em nós. Acima de tudo porque, podendo ser pouco significativo, nos pode levar a pensar na incógnita da existência e na forma de a tornar digna. No Natal encontram-se todos os meninos concretos que nós fomos, os que são e os que serão, o Natal celebra-se dentro dos limites da nossa existência colectiva, que o mesmo é dizer dentro do universo infantil, que é aquele em que a comunhão universal é mais genuína e solidária, ou antes, pré-concorrencial. Se conseguíssemos manter este espírito mais tempo tudo poderia ser mais verdadeiro.
No geral nós imaginamos a nossa vida pessoal como uma curva que sai de uma inocência original, um período de vida que subestimamos, quando não desprezamos mesmo. Ao amadurecer deixamo-nos, porque não temos poder para a isso nos opormos, somos levados a integrarmo-nos num processo em que a racionalidade e a perversidade se digladiam. Essa luta vai esmorecendo até atingir de novo um estado de singeleza na velhice. Quando estamos no topo dessa curva olhamos para os extremos com afastamento, displicência, se não antipatia.
Também em relação ao percurso histórico muitos de nós o imagina como trazendo-nos de um paraíso original, passando por um período de todas as lutas e que, no decair da curva, nos levará, eventualmente pelo cansaço, a uma paz universal. A humanidade na parte mais alta da curva foi capaz de todas as malvadezas, e todos nos interrogamos se já teremos ultrapassado o seu ponto culminante e se teremos a inteligência suficiente para aceitar a descida e aproveitáramos essa queda da impetuosidade para salvar o futuro.
A celebração do Natal, se for genuína, ajuda-nos a sermos mais optimistas, a considerar que a humanidade pode compreender que este caminho que ela vem seguindo a conduz ao abismo. A euforia do consumismo, a absurda competitividade económica, o abuso das condições naturais da Terra, a falta de colaboração para obter um caminho saudável, estão a criar um homem sem raízes, destravado, egotista, egoísta, que facilmente descamba para o anti-social, o catastrófico, o patológico mesmo. Independentemente da crença em quem cá pôs o Menino, cabe-nos salvá-lo.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

As Feiras Novas e as noites mal dormidas

Explicar a força da atracção que as Feiras Novas sempre exerceram não é tarefa fácil. Outrora seria pela centralidade, pela existência de um espaço ideal para a Festa, por ocorrerem num tempo que sempre foi de festa, as colheitas. Mas a economia mudou, as pessoas mudaram, os seus gostos são outros, as suas profissões são muito mais variadas, a sua mobilidade é imensamente superior.
Há uns trinta anos para trás a dimensão das Feiras Novas era outra, menor, mas elas não eram vividas menos intensamente. As Feiras Novas instalavam-se, adoptavam o seu ritmo, percorriam um ciclo tradicional, mas sempre revigorado.
Hoje as Feiras Novas visitam-se, há movimentos de vai e vem que se desenrolam por períodos curtos, seja de dia, seja de noite, as pessoas não vivem o ciclo completo das festas, vem ver uma parte ou outra do programa. Quem vem de longe, em particular os mais jovens, mesmo que se instalam perto do recinto das festas acabam por viver as festas duma forma parcelar.
A expansão do espaço das Festas não alterou significativamente as suas características. O Largo, o Passeio, a Avenida, a Alameda e o Areal são ainda o núcleo do espaço festivo. Mas hoje nem sempre se passeia por todo o espaço, escolhe-se a zona em que se vivem as Festas, o programa a que se quer assistir, os amigos com quem se quer estar. Só se tal ainda for possível que as Festas são imprevisíveis e ocasião de novos conhecimentos.
Também se procura a música que mais se aprecia, a tradicional concertina no Largo e Alameda de S. João, as bandas musicais no Largo de Camões, a nova música pela Rampinha Acima. No restante espaço a música confunde-se com o ruído da feira, baralha-se. As pessoas jogam, divertem-se, compra-se e vende-se, marralha-se.
As Festas misturam-se com a Feira, esta outra força atractiva, indissociável das festas anuais. Também esta é uma característica rara e que constitui uma mais valia porque a feira dá vida, entusiasmo e movimento, não falando dos extraordinários valores monetários envolvidos. As Feiras Novas nasceram assim, como feiras anuais, com os festejos próprios de uma qualquer outra Festa.
Preservar esta característica é uma obrigação que se impõe. Só que a gestão do espaço terá que ser mais rigorosa para que a Feira não abafe a Festa. Também a pressão dos estabelecimentos ambulantes de comes e bebes se torna insuportável porque vai condicionar o espaço disponível para a tradicional feira. Limitar as Festas a uma cervejaria imensa e presente em todo o canto e esquina pode ser a sua asfixia.
As Feiras Novas sempre começaram com a chegada dos garranos vindos das serranias circundantes, onde os pastos são propícios à sua manutenção. Se hoje já não vêm em grandes manadas em que os poldros cavalgavam humildemente atrás das suas progenitores, mas vêm agora em camionetas devidamente apetrechadas para o efeito, o espectáculo é diferente, mas o interesse o mesmo.
A manutenção do garrano passa pela defesa do seu habitat e pela sua valorização comercial. Mas o garrano nunca foi, presumo, uma máquina de guerra, um cavalo vistoso para desfiles, um bom fornecedor de carne. O garrano tem que ser defendido com o amor de quem o não valorize por estes aspectos. E uma feira é sempre de uma grande importância na sua defesa e a feira anual de garranos nas Feiras Novas ainda é dos poucos espaços em que o seu comércio se pode fazer. Deve-se-lhe dar outra dignidade.
Depois a feira continua, a festa complementa a feira, como a feira complementa a festa. Afinal todos ficam satisfeitos, quer quem goste do dia, quer quem goste da noite. Mas seria pouco honesto dizermos que concordamos com a evolução que as festas vêm tomando e que se faça dos aspectos mais controversos o seu atractivo principal. Não será mais possível regressar à pureza original, mas decerto será possível limitar os estragos que novos comportamentos e novos aderentes sempre trazem.
Talvez o que pessoalmente mais me desgosta é a perca do encanto da noite. Tudo hoje é mais previsível e servido em doses super. Mas se a noite de hoje tem o esplendor que a noite de outrora não tinha, falta-lhe a originalidade, a espontaneidade dessas noites em que ainda sobrava areal com a sua areia limpa a brilhar à luz da Lua e a que o estourar dos foguetes e as suas artificiosas luzes emprestavam chispas que faziam repentinamente da noite dia e do “sono” de alguém mal dormido uma explosão de alegria para todos.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A leitura é um acto de humildade

Sempre que há alguém que diz que faz sentido mas não compreende de forma capaz aquilo que eu escrevo fico preocupado. Sempre que há alguém que diz não encontra sentido naquilo que eu escrevo a minha reacção não é assim tão rápida porque vai depender de quem o afirma. Admito não ser fácil para muitos dos bem intencionados encontrar o sentido, mas só na medida em que será igualmente difícil encontrar o “não sentido”.
Já para os mal intencionados seria tudo extremamente fácil, qualquer “não sentido” serviria para a colagem pretendida. Admito que muitos não me chegam a ler, já sabem antecipadamente que eu não direi nada de novo, o que eu digo estão eles cheios de saber, para que irão perder tempo? A isto chama-se aversão, mas contra isso eu nada posso fazer. Felizmente há sentimentos destes que nos ajudam a uma das nossas cada vez mais importantes tarefas: A gestão do tempo.
Cada um lê aquilo de que gosta. Eu assim faço, a não ser que também o tenha que fazer por obrigação. Fazia-o quando estudava e faço-o agora porque não aprendi tudo. E quando o faço garanto que é com humildade. A humildade pressupõe que não há preconceito, que se não está abaixo nem acima, que se pretende apenas compreender bem quem escreve, mesmo tendo que mergulhar nas suas intenções mais primárias.
Se ao ler nos indignarmos, com humildade nos interrogamos sobre a natureza da nossa indignação. Se aderirmos à leitura havemos de nos interrogar sobre a natureza da nossa adesão. Também nos podemos preocupar com a qualidade da escrita mas é um princípio de conclusões limitadas. Elevar o uso de certos termos ao nível do pretensiosismo torna normalmente caricato quem faz esse reparo, porque há ideias que não dispensam o seu uso.
Serão raros os casos em que há duas palavras que tenham o mesmo significado. Há aquela velha diferença entre a via erudita e a via popular, mas isso só se aplica aos latinismos e a língua portuguesa incorpora cada vez mais termos doutras origens. E na verdade chega-se a incorporar termos perfeitamente dispensáveis porque haveria outros de origem mais remota ou de uma outra língua estrangeira e já adoptados anteriormente que serviriam perfeitamente. Simplesmente não há polícias da língua.
Também não falta quem diga que a escrita sobre certos temas exigiria uma linguagem mais aprimorada, com base mais científica. Infelizmente sabemos que há muitos que a usam mas que não a sabem aplicar à realidade. Ou a aplicam a despropósito, isto é, a propósito de tudo e de nada, só para mostrar que são capazes de usar termos que poucos entendam. Ou a aplicam a propósito mas referindo-se a uma realidade que não é propriamente aquela que está debaixo dos nossos olhos.
Isso nota-se particularmente no domínio das ciências sociais. Efectivamente a transcrição de livros científicos que relatam a realidade americana e outras não pode ser feito linearmente. A diferença nas estruturas sociais, a diferença de complexidade de fenómenos que influenciam a vivência pessoal e social e ocorrem em distintas sociedades e tempos é por demais evidente e esquecida.
Somos obrigados a desconfiar daqueles que se referem à realidade local ou nacional nos mesmos termos com que os grandes financeiros nos brindam para nos iludir. O mesmo diremos de todas as outras linguagens fechadas, como o marxismo, de todo o saber vertido em “catecismos” de fácil consulta aos iniciados e de conclusões pretensamente inquestionáveis.
De qualquer modo longe de mim dizer que a qualidade da escrita nada tem a ver com as ideias que se pretendem transmitir. Só que estas têm que ser descaroçadas, retirando-lhes tudo aquilo que possa desvirtuar a sua pureza. Para se compreender o valor intrínseco de uma ideia, tanto é necessário ir à sua génese, como também retirar-lhe aquilo que não constitui mais do que apêndices que se lhe colaram por ocasião do seu nascimento ou da sua evolução semântica.
Quando escrevo a minha primeira preocupação é abordar a realidade, a presente, a histórica, até a previsível, eliminando todos os possíveis efeitos alucinatórios provocados pela ofuscação ou pela resplandecência. A realidade onde vivem, viveram ou viverão as pessoas é mutável, fugidia, para a recolher com a inteligência não chega abrir os olhos.
A segunda preocupação é utilizar as palavras que traduzem as ideias que eu quero transmitir, mas com o significado mais usual no meio em que vivo e em que essas palavras são usadas. No entanto, como a minha Universidade é a vida e a minha Aldeia o universo, a repercussão dessas palavras pode ser local, nacional ou mundial e eu uso-as indiscriminadamente, conforme a que acho mais adequada à situação e não ao leitor, este que me perdoe.
Como escrevo e o faço para me aperfeiçoar, para procurar a verdade, para estruturar o pensamento que de outra forma não é mais que uma névoa que nos paira no cérebro, acho que posso partilhar essa preocupação e as minhas construções mentais com os outros. Mas não irei lá, neste meu propósito, se não encontrar naqueles a quem me dirijo a humildade intelectual necessária para me entenderem e entenderem o mundo de que eu procuro falar.
É verdade que Santos da beira da porta não fazem milagres. Pessoas, perfeitamente alheias ao que se passa no universo, julgam conhecer aqueles que moram perto de si. Para cúmulo é para esses que normalmente reservam os seus sentimentos mais odiosos. É normal que se crie uma barreira que, para confundir, pode provir da reserva mental ou da venal inveja.
Acho que é benéfico para o homem mergulhar de vez em quando na realidade alheia, sem ideias feitas. Verá que é a melhor forma de se libertar da seborreia mental criada por anos e anos de apatia mental, da paralisia em que coloca as suas faculdades só porque não é agora ocasião de pôr em causa verdades assumidas ou o tempo não chega para tratarmos da higiene mental, ou outra desculpa qualquer mais ou menos plausível e aceitável.
Leia e, se tiver tempo, mergulhe no que lê ... com humildade!

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

As Feiras Novas e a tormenta do tempo

Irá estar bom tempo? Irá estar mau tempo? Esta dúvida começa a consumir-nos já lá para meados de Agosto, por via deste antagonismo velho e de certo modo já gasto e ultrapassado que mantemos com os de Viana. É pela Agonia que começamos a preocuparmo-nos se acaso somos nós a ter que emprestar os panais aos de Viana, se são eles que os haverão de emprestar a nós lá para o terceiro fim-de-semana de Setembro.
Tradição sem fundamento, essa história de que para uns terem bom tempo terá que calhar aos outros sofrer as amarguras de algum temporal. Mas que serve tão só para atestar uma anacrónica rivalidade que unia e desunia estas duas comunidades cujos destinos, é bom que se diga, nunca se harmonizaram em proveito de todos. Não cabe aqui saber de quem é a culpa
Para não sairmos do domínio festivo, no qual todos queremos ser os melhores, também é bom que se diga que eles, os de Viana, se pelam por ter umas festas iguais às nossas. Eles lá vão copiando o troar dos nossos bombos à hora do almoço, levam-nos o fogo de artifício para a noite, roubam-nos as concertinas. Só há uma coisa que eles não são capazes, o Canário é mais nosso que é deles, de cantar ao desafio.
Foi com estas coisas do turismo, da massificação, hoje já tudo passa por genuíno mesmo quando o copiamos, é da pura lavra quando é estranho. No entanto não sejamos maus e até não tenhamos medo de comparações. Nós todos recebemos. Afinal eles caem cá nas nossas Feiras Novas como tordos, eles sabem que só cá bebem das fontes tradicionais.
E por falar em beber até o temos cá bem melhor do que o de Perre, eles sabem disso e também não escapam sem beber uma sidra. A propósito falou-se dum projecto que, mesmo sendo uma cópia das Astúrias, não deixava de ter fortes raízes nesta região. A promoção da sidra como produto regional seria, sem dúvida, uma boa ideia que terá surgido a Daniel Campelo mas que parece ter sido relegada lá para outra geração.
Infelizmente a nossa iniciativa privada deve estar à espera que lhe entreguem algum projecto de bandeja, com mercado, fontes de financiamento e matérias-primas garantidas. Mas deixemos isso que afinal estávamos a falar de Festas que sempre é do melhor que sabemos fazer, e já nos estávamos a desviar para a crítica maldizente e verrinosa.
Uma das coisas que antes das Festas também nos apoquenta é de saber se vai haver vinho novo. Sempre o Locas, o Cachadinha ou o Chessman da Veiga providenciaram para que ele não faltasse mas com isto da ASAE a dúvida instala-se cada vez mais. Eles já andaram por aí a ameaçar o sarrabulho, o frango de pé descalço e qualquer dia metem-se com o nosso néctar.
O melhor talvez seja estar calado que ninguém nos ouve, quanto mais lê. A festa é uma brincadeira e como tal tem que haver alguma permissividade, licenciosidade, chamem-lhe também o que quiserem mas não nos chateiem muito. Não somos daqueles que se contentam em que no cortejo etnográfico se faça vinho e se dê vinho novo a beber. Na tasca é bem melhor.
Talvez haja quem goste de mais limpeza, de mais higiene. Na verdade podemos e devemos melhorar. Acima de tudo só permitir que se instalem tascas em sítios não térreos, embora saibamos que numa Festa é o ar que está permanentemente poluído de poeiras, de aromas, assim como o está também de sons. Afinal ainda há por onde escolher.
Todos nós gostamos de dar alguns remoques, de contribuir para que se viva melhor a Festa. Só que há duas maneiras de resolver os problemas: Ou ir solucionando as questões ou deixar que eles se acumulem. E então surgem os profetas a querer que se corte o mal pela raiz e se comece tudo do zero. Não parece ser essa a opção correcta mas os responsáveis têm que fazer um esforço extra para não agravar a situação, antes para melhorar o ambiente.
O carácter das nossas Festas tem que ser preservado, conquanto que os jovens já lhe imprimiram também um cunho mais actual. Quem não conhece as Feiras Novas até julgará que cá decorrem duas festas paralelas que se não cruzam e decorrem de costas voltadas. Felizmente que ainda há muitos pontos de contacto e interligação e essa integração tem que ser reforçada.
Nas Feiras Novas sempre se dispensou a segregação, sempre houve uma grande irmanação entre pessoas de origens bem distintas. Sempre houve uma grande liberdade para ser diferente mas com o crescente afluxo de novas pessoas à festa é natural que se cometam excessos e que haja sempre alguém que se não consiga enquadrar no espírito festivo. Felizmente condescendência não nos falta.
Uma festa não pode decorrer com excessivos apertos, com liberalidades exageradas, nem com artificialismos despropositados. A verdade é que a monotonia também não é o melhor caminho. Por isso torna-se imperioso fazer alguma inovação sem que se não subverta o espírito da festa. O corte radical com uma tradição não é por certo a maneira ideal de progredir.
A quem até aqui chegou proponho que vamos lá gozar a festa e deixemos essa tarefa de a pensar lá mais para o Inverno. Que se dane a chuva e a trovoada, as enxurradas e o nevoeiro que nós vamos persistir na festa. Dança para aqui e para acolá. Vai ao centro e volta à roda. Levanta os braços bem no ar. Faz estalar as castanholas. Vem daí também dançar.Ataquem os foguetes, os gigantones que se aprestem, toquem os bombos, que a folia vais começar.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

As Feiras Novas nos terrenos da iniciação…

As Festas, as Feiras Novas, Festas porque outras não havia assim e ainda não há. Só estas tinham o sortilégio do imprevisto, da surpresa, da novidade que era mais um brinquedo, uns novos saltimbancos, novos “Robertos”, novas personagens reais, novos divertimentos para grandes e pequenos.
Mas havia também o antigo, aquilo que sempre conhecera, que sempre aqui viera, que às vezes eu julgava vir de tão longe e que afinal vinha de tão perto. Mesmo assim lembro-me, e já lá vão mais de quarenta anos, de virem homens e mulheres que davam um colorido um pouco diferente às Festas e que eram da Covilhã, Viseu, Lamego ou Águeda, que eu julgava bem longe.
O homem das bengalas vinha da região da Régua ou Lamego, já não sei bem, com um filho, uma filha ou com os dois, percorria todo o País com a sua mercadoria e uns cobertores para dormir, ficava nos alpendres do mercado municipal, se outro sítio mais cómodo não arranjasse ou se chovesse. Tantas vezes com ele falei quando o tempo não permitia que se fizesse algum negócio.
Alguns já tinham a sua barraca, a sua tenda que fechada com um pano à volta servia de dormitório e abrigo para a chuva. Lembro-me de andar a acordar pessoas nas Festas de 1972 quando o rio galgou as suas margens com uma rapidez inesperada e logo estava no passeio marginal. Dormiam nas barracas junto ao paredão e o rio já ali, prestes a avançar.
Mas foi nos inícios dos anos sessenta que eu mais vivi aquilo que as Festas traziam de diferente. Para quem passava pelas experiências da iniciação as Festas eram um abrir de possibilidades imensas. As Festas sempre proporcionam a desinibição que não existe noutros momentos e os contactos fortuitos que só surgem por essa ocasião. O novo afinal é “velho”.
Não vos vou falar de quando Salazar, por pressão das senhoras do Movimento Nacional Feminino, por estas prometerem apoio aos militares deslocados para as colónias portuguesas, resolveu fechar as casas de passe e tornar ilegal a prostituição que aí se praticava.
Como tal se passou nos finais de 1962, no ano seguinte todo esse pessoal feminino, que nas referidas casas se abrigava, passou a deambular por caminhos e calçadas à procura de satisfazer o “vício” de alguém e tratar do seu próprio sustento, já que outro “emprego” já era difícil de arranjar.
Nesse ano nas Feiras Novas houve uma invasão inusitada a fazer concorrência àquelas que já para cá vinham nessa ocasião e se abrigavam nos cafezinhos que se espalhavam um pouco por todo o lado. Libertas da clausura, numa dada perspectiva, mas decerto também abandonadas à sua sorte noutra, essas mulheres desafortunadas procuravam que em tão pouco usual ajuntamento lhes fosse proporcionado algum aconchego para … o estômago.
Mas valha a verdade que não era desta iniciação que eu queria falar, mas de outra, que, por ocasião das Festas, se permitia. Era a iniciação ao jogo, a vários jogos, mas ao caso ao jogo da roleta, velha banca circular com um fuso a meio onde rodava o maquinismo que nos trazia ou não a sorte procurada.
Uma barra de ferro, artisticamente pendente sobre a mesa, tinha na sua extremidade uma pequena palheta de cartão semi-rígido que, ao rodar, ia batendo nas várias dezenas de suportes que na mesa estavam aparafusados em círculo. Nos seus intervalos estava colocado um maço de tabaco que sairia a quem apostasse na cor que o abrangia.
A mesa tinha cinco cores principais e seis de mais pequena dimensão intercaladas naquelas. Dentro da mesma cor o prémio variava e podia ir de um “Provisório” a um “Porto” ou “Paris”. Os maços de tabaco mais longo, um Gigante, estavam nas cores mais pequenas que, por terem menos probabilidades, recebiam assim um prémio superior.
Posta em marcha a roda, os circundantes, sempre muitos e ansiosos, eram convidados a fazer a sua aposta. Uns tinham a fezada numa cor e apressavam-se a jogar nela. Mas havia quem jogasse em mais de uma cor à espera que não fosse a sorte fugir-lhe. Eram aqueles que apostavam acima de tudo em não perder e não queriam arriscar tudo.
A roleta ia perdendo a sua embalagem até que o “Banqueiro” dava a ordem para não se fazerem mais apostas. Mas havia sempre quem tentasse ser o último a apostar para poder calcular com mais alguma probabilidade o sítio onde a roleta iria parar. Como porém, mesmo assim, era difícil obter êxito, havia também quem sempre imaginasse que por qualquer arte do diabo a roleta haveria de parar na cor aonde menos dinheiro houvesse em jogo. E apostava aí.
O problema era quando a palheta ficava nas cores de menores dimensões. Raramente alguém aí apostava e então era tudo para a casa, uma tristeza para os apostadores, o desalento geral, mas uma alegria, embora contida, para o banqueiro. Há que apostar, dizia o habilidoso crupiê que, com seus ágeis pés e mãos, dizia-se, mas ninguém via, que dava o toque necessário para a roleta vir a parar onde a rodada lhe ficasse menos pesada.
Claro que nem sempre podia ser assim, pois havia que incentivar os fregueses, dando-lhes alguns prémios. O homem da roleta até se lamentava: Que azar! Em lugar do “Benfica” podia sair o Mata-Ratos que estava ao lado. Porém, como cada aposta era de 1 escudo e os maços melhores custavam entre 3 e 4 escudos, mesmo seguindo a lei das probabilidades, o banqueiro ganhava sempre.
Quem ali conhecia a lei ou se preocupava com isso? Nesta luta desigual todos nós não atribuíamos a culpa aos exploradores da banca, que afinal eram quem nos proporcionava tão entusiasmante passatempo, mas à tão malfadada e madrasta sorte. E até o crupiê às vezes falhava e lá levava uma banhada das grandes, desfalcando a sua reserva de maços de tabaco.
Em gente tão compenetrada na sua tarefa de não se deixar derrotar sem luta, esses momentos em que o lado poderoso do jogo se via espalhado no chão eram aproveitados para descomprimir e dar mesmo azo a uma alegria esfusiante, se fora caso disso. Era bom ver o banqueiro ter que se socorrer da sua reserva de tabaco guardado debaixo da banca.
Sinal de imaturidade, calculismo primário, tentativa de ludibriar os outros, ainda estará por saber o que leva tantas pessoas a apostar em inferioridade manifesta. O encanto do jogo reside em vivermos essa possibilidade de algum ganho, mesmo que pequeno, correndo apenas o risco de alguma perca que não ponha em causa a nossa estabilidade financeira.
O jogo, se não se torna vício, é, e sempre será, um exercício que encantará a juventude, lhe permite estabelecer balizes, correr riscos controlados, ter o treino necessário para que nas situações reais da vida seja capaz também de fazer opções cujo desfecho não está garantido. O jogo não é para vencer a qualquer custo e é conveniente que todos ganhem mas não é necessário que assim seja.
O jogo fortalece o carácter. Ajuda-nos a saber até onde podemos ser levados pela sorte e quando é necessário que estudemos, nos esforcemos para sermos recompensados. Na nossa juventude só estava mal esse prémio prejudicial que era o tabaco. Era uma associação entendida por nefasta. Mas a verdade é que, seja onde for que o mal esteja, jogo ou tabaco, só vicia aqueles que o permite.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O real e o simbólico na nossa vida

Todos vamos precisando de símbolos para nos relacionarmos intelectual e afectivamente. Muitos interiorizamo-los e assumimo-los como nossos, a quase todos vamos utilizando sem conhecer o seu criador. Muitas pessoas antes de nós já sentiram a sua necessidade e promoveram a sua criação. Nós já herdamos símbolos de alta complexidade, mas não podemos dizer que ficaremos por aqui. Outros se seguirão e uma pessoa só é tida por moderna se acompanhar esta sucessiva re/criação.
Um símbolo tem a subjectividade de quem o cria, mas que é depurada por quem o aceita e usa. O símbolo ganha solidez à medida que ganha precisão, sem que se possa dizer que ganha verdade. Este processo de que ninguém em particular é responsável corresponde a uma decisão que foge bastante ao conceito democrático. Mas a todo o tempo podemos aferir da adequada representação simplificada de um acontecimento, da mitificação de uma pessoa particular, da repercussão de uma data, da influência de um local.
Um símbolo consistente, que vingou, com certeza que não se vai diluir facilmente no tempo, na terra. Pode perder o sentido, ser substituído, deixar de ser utilizado, de ter defensores e apologéticos, mas permanece onde foi criado. Já não será verdadeiro, mas em última hipótese será o símbolo duma mistificação. Por isso quando se trata de um símbolo vivo há dificuldade de quem foi um símbolo de qualquer coisa, e não uma mistificação, deixar de o ser e regressar ao antecedente.
Estamos pois muitas vezes a criar problemas ao tornar certa pessoa como símbolo, sabendo que ela não vai suportar sê-lo toda a vida ou simplesmente é impossível que o seja, porque as suas características se vão alterar. Mas estes símbolos pessoais têm quase sempre uma alternativa, seguindo aquela máxima de que não há insubstituíveis. Simplesmente esta via quase sempre não tem sido seguida, o que tem dado origem a retrocessos e anacronismos.
Compreende-se a necessidade de criarmos símbolos, de os usarmos, mas não de nos apropriarmos deles. A realidade mostra-nos que, quando alguém pretende ser a personalização de um símbolo ou ter a sua representação, não conta com a relatividade das coisas e entra no caminho penoso de se achar a razão de ser do próprio símbolo. Para o compreendermos, para nele acreditar, temos que o limpar dessas apropriações que são uma dificuldade acrescida.
Mas existem símbolos que se criaram mesmo com o propósito de serem adoptados pelas pessoas. Muitos estavam ligados ao exercício de profissões mas com o seu declínio também os símbolos foram ficando para a história. Muitos tinham o intuito de transmitir a autoridade e destes temos um que persiste: O agente da G.N.R. de bigode e semblante grave faz com que o agente se sinta possuído das virtudes ou maldades simbolizadas.
Há símbolos desagradáveis de que gostaríamos de nos ver livres, porque já não dizem nada à nossa sensibilidade. Esta por sua vez já exigiria outros símbolos mais adequados à realidade de hoje. Com muitos dos antigos já não conseguimos pensar a realidade. As tentativas para criar novos símbolos quase sempre não vão além disso numa realidade tão mutante. Há uma dificuldade muito grande em a perseguir, em aceder-lhe e torná-la inteligível ou pelo menos aceitável através da simplificação de um símbolo, que tanto facilitaria a nossa vida.
O nosso passado tornou-nos dependentes dos símbolos. Sendo a principal preocupação a subsistência, havia pouco tempo para o estudo e até para o simples olhar para a realidade. Por isso os eruditos tinham tempo e imaginação para adequar a realidade às capacidades de entendimento dos que tinham que trabalhar para a sua subsistência e da sua intelectualidade. Um dos seus problemas é que, como quem os criou queria que a situação de subalternidade se mantivesse, os símbolos transmitem essa dependência.
Um símbolo será sempre uma aproximação à realidade mas pode ser mesmo uma mistificação da mesma. Quando a mente humana se preocupa mais com este aspecto não raro encontra discrepâncias exageradas e acha-se manipulada. Umas vezes achamos que os estamos a usar com uma certa inocência mas às vezes até nos sentimos perseguidos pelos símbolos de uma realidade que, se alguma vez existiu, já jaz estagnada.
A simbologia é um mundo à parte, que adquire cada vez mais autonomia à medida que cada vez menos podemos ver a realidade nua e crua, como ela eventualmente será. Passamos séculos a lutar contra certos símbolos para chegar à conclusão que não podemos viver sem esses ou outros. Mas vá lá que conseguimos vencer a pretensão de certas correntes de opinião que caminham pelo sentido inverso: Criam símbolos e lutam por adequar a realidade a eles.
Os diferentes símbolos não têm que ser coerentes por semelhança ou antagonismo nem podem ter mais valor que a realidade. A sua comparação é relativizada pelo tempo e pelo espaço. Mas de qualquer modo, mesmo que uns símbolos nos digam pouco ou nada, nós não os podemos ignorar e temos que procurar o seu sentido, ainda existente ou já perdido. Pormo-nos à sua margem não é de todo possível, nada conseguiríamos compreender dum mundo só por eles inteligível.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

As Feiras Novas são aquela Festa…

De repente um acontecimento que ainda havia de vir passava a condicionar o tempo. Já não era mais o tempo de praia, dos mergulhos nas límpidas águas do nosso Lima. Com o fim de Agosto a temperatura já diminuiu bastante, o Sol é já menos agressivo, o clima tornou-se mais ameno e apaziguador. Houve como que um abrandamento do ritmo da vida.
Nos campos a vivacidade das plantas foi-se perdendo e o espírito virou-se para as colheitas. Até os jovens parecem contagiados. Há sempre um tempo de sementeira e um tempo de colheita e todos nós nos viramos para recolher à nossa maneira o fruto de uma época de labuta.
Aproxima-se, não mais uma, mas a festa das festas, a suprema festa, o culminar de todas as festas que ao longo do ano se vão realizando. Quão inigualável é esta festa!
Não tardaria muito as aulas recomeçariam e era necessário encará-las com o espírito renovado pela satisfação de se ter vivido mais um ano de uma despreocupada juventude. O momento não podia ser mais oportuno para uma despedida e um até breve, que o tempo de aulas se tornaria mais leve.
Durante o resto do ano tudo se podia comemorar, sempre haverá razões para fazer uma festa. No ciclo da vida rural, da sementeira à colheita sempre há motivo para celebrar. Mas agora que os frutos vão ficando maduros, agora que se aproxima a necessária acomodação a um Inverno áspero e inclemente, celebra-se o sucesso possível de um ano de esforço e empenho.
Quaisquer que tivessem sido as vicissitudes por que passamos, algum ânimo terá sempre sobrado, algumas energias ainda teremos para dar vivacidade, emprestar uma alegria efusiva e contagiante a esta festa de louvor à vida. No final as nossas forças sairão mais renovadas.
As Feiras Novas são aquela festa que qualquer outra não consegue ser. O tempo é bem escolhido, é o momento próprio para a celebração. À festa não faltam as habituais pessoas de todas as Serras e Vales do Alto Minho e mesmo para além, algumas de bem longe. Chegada a época, espalha-se o chamamento.
Em crianças pressentíamos, como que pelo cheiro, o ar transmitia-nos a nova com maior velocidade que os ronceiros carros que transportavam os divertimentos. De súbito, como um frémito entre a criançada, todos os olhos se virassem para um só lado.
Era de lá, daquela estrada que bem se via do Largo de Camões que se esperava que tudo surgisse. Enfim chegaria a efectiva certeza de que a festa se faria. Para nós, jovens despreocupados, todos os anos se repetia a magia do nascimento. Se sabíamos que o arraial era o resultado da conjugação de muitos esforços, a nós só a ansiedade da espera nos ocupava.
A velha estrada de Viana era o caminho que tudo trazia e o Alto de S. Gonçalo era o nosso limite visual. Uma carroça, uma velha camioneta de carga e aí estávamos nós prontos a uma correria para confirmar se já se tratava mesmo das primeiras traves dos carrinhos, dos carris para o carrossel ou outro qualquer equipamento que viesse dar forma à festa.
Ou até, quem diria, as bancadas de um qualquer circo, que também eles cá vinham por vezes nesta altura. Anualmente visitavam-nos os espelhos que nos desfiguram, os comboios fantasmas, as motas que trepavam o poço da morte, os cavalos em que com alguma imaginação galopávamos, os carrinhos de choque, os aviões que subiam na vertical, as cadeirinhas, qual baloiço que arremessávamos pelo ar. Cada um teria a sua preferência mas todos eram bem vindos.
Fosse o que fosse o primeiro que pusesse as suas rodas no areal, já nos tinha à perna. Logo era assaltado pela miudagem pronta a ajudar à medida das suas forças na edificação da cidade fantástica de cor, bulício e alegria que nos três dias de festas nos faria rodopiar pelas suas ruelas sempre apinhadas de gente sorridente e atrevida.
Com sorte arranjaríamos umas fichas como paga de algum serviço mais leve, como ir buscar uma bebida ou chegar uns tacos de madeira para nivelar bem o que começava por serem estranhas armações que haveriam de levar em cima com ferros e madeira que dariam formas aos tão esperados divertimentos.
Se por acaso fora um circo a nossa persistência podia vir a ter o almejado prémio. Não só ver mas viver mesmo alguma da magia do circo. Até nos podiam dar por tarefa vender durante os espectáculos umas fotografias das trapezistas, uns bolos ou rebuçados ou os pirolitos de bolinha que matavam a sede de tanto rir.
Gostava sobretudo desta vida de bastidores em que tão brilhante era o frenesi de trás do palco como o esplendor colorido dos que actuavam à luz dos holofotes. Haveria sempre tempo para percorrer todas a festa, uma e outra vez, sempre se mostrando diferente, sempre novas caras, outro colorido, outra animação.
A festa dos jovens era fascinante, a sua recordação entusiasmava-nos o ano inteiro, ajudava-nos a aceitar melhor os horrores da disciplina e do estudo que tanto tempo nos ocupava. O tempo de festa era imenso enquanto durava e persistente depois de ter terminado. Era um tempo que não terminava nos nossos sonhos.
Só três dias de euforia, mas que únicos pela diversidade dos atractivos, pela liberdade impar que nos proporcionava, pela ausência de qualquer medo de perca ou rapto, eram sempre dos mais felizes que nesse já longínquos anos podíamos viver. E todos os aproveitávamos bem.
O desmontar do arraial era uma tristeza. Saber que só para o lado a festa se repetiria era confrangedor. Até que as aulas recomeçassem, lá deambularíamos por esta cidade fantasma, gastando o tempo nas barracas de bonecos que sempre ficavam mais uns dias. E quase sempre era a chuva que fazia o seu aparecimento para nos convencer que tudo tem o seu fim.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Como não alimentar a nossa inveja

No relacionamento humano há um sentimento que valoriza as relações mais afastadas e inquina as mais próximas: a inveja. Naqueles que vagamente conhecemos e/ou com quem mantemos relações distantes e virtuais facilmente encontramos motivos de admiração que subtraímos ao lodaçal do sentimento da inveja. Os próximos são sempre piores.
Em quem, senão nos que utilizam o mesmo caminho que é o “nosso”, havemos de alimentar a nossa cobiça? No entanto, se há quem queremos que confie em nós são precisamente os que partilham esse caminho. Normalmente, porque os queremos ao nosso lado, escusamos de lhes manifestar qualquer rivalidade.
Até que é a interactividade que permite que se crie uma emulação salutar, como base para dar bons resultados. Mas é a proximidade que leva à aversão ou ao desrespeito dos outros. Por isso muitos, quando são suficientemente independentes, se afastam e isolam de relações que suspeitam serem potencialmente geradoras de inveja. São as pessoas avisadas que se retraem nos relacionamentos e os restringem ao essencial.
Porém nós não podemos assentar a nossa vida nesta desconfiança permanente. Temos que saber conviver com ela, exorcizá-la ao máximo mas ser realista. Alguma inveja é sempre inevitável porque ela é apanágio das sociedades livres em que nós queremos viver.
Paradoxalmente no regime de Salazar a inveja não despontava facilmente. Quase todos se sujeitavam a aceitar o seu lugar pré-estabelecido. Éramos humildes e resignados mas só o éramos à força.
Hoje a inveja é dos tais sentimentos sempre latentes, ora incómodos ora prontos a explodir destemperadamente em caso de grave conflito e/ou quando acharmos conveniente. È a inveja que muitas vezes nos faz pôr mal dispostos por não podermos negar a sua existência mas nos dá força para lutar.
De qualquer maneira é possível falar do invejoso como aquele, secretamente ou não, faz da inveja o principal alimento da sua vontade de vencer, de ultrapassar os outros e que utiliza o seu eventual sucesso de modo mais egoísta do que seja considerado normal.
Em liberdade qualquer um pode sonhar “subir na vida” com ou sem respeito pelas regras sociais. Mas o invejoso quer é mesmo subir na vida e leva essa liberdade ao extremo, torna-se exacerbadamente individualista ao ponto de só acreditar em si e de estar sempre alerta, não vão os outros passar-lhe à frente.
Que se cuidem aqueles que se cruzem no seu invejado caminho, é o pensamento do inveterado invejoso, no seu fraco entendimento. Porque invariavelmente ele leva a sua avante. Tem um estilo que lhe permite estar bem na sociedade ou nalgum grupo mais restrito e mais permissivo.
O invejoso procura o “bom” relacionamento social. Aí sempre poderá conseguir os apoios que lhe faltam, mas sabe que vai encontrar resistências. Pelo que não descura o “mau” relacionamento, mesmo que a desgosto, na necessidade que sente de suprir a falta daqueles apoios.
O invejoso, pela sua sensibilidade ao antagonismo, tem imensa dificuldade em manter amizades, principalmente se não encontra receptividade para que lhe alimentem o ego e não vê de onde possa vir ajuda para os seus planos ascensionais. A contra-gosto vai tolerando manifestações de indiferença, mas ser repudiado é que ele não tolera.
Tudo se agrava se quem ele “quer” que se comporte como seu submisso apoiante toma destas atitudes. Quem se coloca fora dos seus planos reais ou virtuais de poder ser utilizado como apoio à sua ascensão pode vir a ser vítima da sua raiva. Não só descarta as pessoas que lhe “falham” mas até as toma por traidoras mesmo que nunca tenha feito qualquer pacto com elas.
Este invejoso é aquele presunçoso que sempre que pode se envolve numa teia social. Ambiciona a liderança mas mede bem os passos que dá. Carece de aliados e dá-se bem nos círculos em que vigora o elogio recíproco. Mantém quanto pode escondido o seu jogo e nunca o abre à totalidade dos seus confrades. Preguiçoso, está sobremaneira preparado para ocupar o vazio.
Este invejoso, no seu mercadejar constante, não conhece a lealdade. Coisa pouca ou nenhuma afinal no seu universo de valores. Tudo para ele é temporário e quebradiço. Às quebras dos comportamentos esperados dos outros chama traição, às suas inflexões chama conveniências.
Actuando sempre sob reserva mental, abre o jogo só àqueles de quem precisa no momento. Nunca prescinde do lugar que já tenha ocupado. Se pode armadilha o caminho aos outros. No geral porém é imprudente ao subestimar exageradamente a força dos seus opositores.
Este invejoso designa-se popularmente por “cão que não conhece dono”. Assume facilmente a postura de dono para exigir subserviência. O impudor e a arrogância até o levam a confundir qualquer outro sentimento mais nobre com este, sinal de que nunca pensa retribuir
Em relação a algumas pessoas que poderiam ser incluídas nesta classificação, a nossa reacção, se pode assumir a reserva mais arreigada, não deve ultrapassar a simples desconfiança, o normal “estar de pé atrás”. Temos de achar o equilíbrio entre não deixarmos que a suspeita viva permanentemente no nosso espírito e não nos deixarmos passar por parvos.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

O que nos faz ser piedosos, beneméritos e mecenas

Todas as culturas valorizam o acto de dar mais do que o contributo obrigatório e legal para o conjunto da sociedade. Quando alguém está interessado em dar, não nos preocupamos normalmente com as razões que o levam a isso. A essas pessoas também se costuma dizer que, se querem fazer bem, não olhem a quem.
Há pois gente disponível para dar e outros para receber. Aqueles que estão sempre disponíveis para dar são poucos mas os que se dispõem a receber são muitos e entre estes há os gananciosos, sem receio do ridículo. Mas também há quem a essa disponibilidade acrescente alguns escrúpulos e até mesmo quem de todo se mantenha indisponível, uns para dar e outros para receber.
Os que recebem podem merecer de nós os sentimentos mais díspares mas teremos que convir que não faltarão no mundo seres humanos que suscitem a nossa piedade. Mas haverá muitas outras razões igualmente plausíveis que justificam plenamente o exercício da benemerência ou do mecenato.
Por hábito nós, justiceiros primários sempre prontos a atirar a primeira pedra, diremos que os que nada dão são avarentos e às vezes até enchemos de sangue a cara e manifestamos a nossa indignação em relação àqueles que tanto têm e se comportam dessa maneira.
Mas na realidade se há quem não dê por princípio, também há aqueles que não dão por saturação, quando se pede para tudo e todos acham que têm razão. Depois, mercê muito da pedinchice televisiva, há sempre gente disposta a dar cobertura moral a todos os pedintes que, pelas mais variadas razões, vão proliferando a todos os níveis da sociedade.
Pedem os que não podem e os que podem trabalhar, os que esgotaram e os que não esgotaram a sua conta bancária mas que a querem sempre bem recheada para sustentar os seus vários vícios e até os que a querem engordar para uma reforma livre de perigos e uma “capela” num cemitério qualquer.
Os meios de comunicação, em particular a televisão, entram nestes esquemas com uma tal leviandade que nem perante a fraude evidente chegam a pedir desculpas aos patos-bravos que vão caindo na esparrela de alimentar espectáculos de gosto mais que duvidoso.
Dir-se-á que a satisfação pessoal que estes já obtiveram com a sua dádiva resultará, não do facto de terem prescindido dela, mas de terem podido prescindir a favor de outrem, seja este quem for, e isso já os terá recompensado sem terem que esperar outra compensação ou reconhecimento.
O problema é que isto é uma abstracção difícil de conseguir e haverá sempre outras motivações atrás destes gestos magnânimos. Mas não há dúvida que no processo psicológico que determina a predisposição para dar, e concomitantemente para não dar, o sentimento de restituição é o mais primário e facilmente descortinável de todos.
Aqueles que acham que ainda não receberam o suficiente da sociedade não estarão predispostos a dar aquilo que lhes pode ou não fazer falta e entre outros aqueles que, mesmo queixando-se, pensam já ter recebido algo, pensarão também que podem dar alguma coisa em troca.
Mas também haverá aqueles que, mais do que no passado, estarão a pensar no futuro e assim estarão a pensar para eles, que não para os outros, em fazer um investimento em vez da tradicional restituição. As pessoas ao fazerem-no podem ser movidas por diferentes forças, desde a bondade até a um máximo de calculismo e quando assim é só se satisfazem com um reconhecimento imediato.
Depois podemos ir mais além do domínio da restituição ou do investimento, isto é das nossas motivações mais profundas, e pensar que a classificação de uma dádiva também pode derivar da forma como nós tivermos obtido os meios de que dispomos para satisfazer a nossa generosidade. Aqui a divergência é naturalmente maior.
Do lícito ao menos lícito, do duvidoso até ao ilegal, do que sendo legal é moral até ao plenamente imoral, longos são os caminhos percorridos até que se descubra o verdadeiro lugar onde posicionar a licitude e a moral que, independentemente dos méritos de cada um e da sua oferta possam servir de motivo para realçar ou denegrir essa atitude pessoal.
Daqui a dificuldade em haver acordo entre os intervenientes, os que testemunham e acima de tudo entre aqueles que são chamados a valorar estas atitudes. Mas todos podemos convergir em que tudo tem um preço e que se a dádiva for grande até poderemos prescindir dos outros critérios e achar que, não o sendo na globalidade, o resultado final pode acabar por ser positivo.
E lembramo-nos de Champalimaud que no fim da sua vida, controversa quanto baste, deixou 500 milhões de Euros a uma fundação para fins humanitários. Não duvidemos que isto suavizou sobremaneira as críticas que podíamos atribuir a tanta ganância. O mecenato tem os seus efeitos.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Quem tem direito a atirar a primeira pedra?

A busca de reconhecimento social assume diferentes importâncias para as distintas pessoas e nos diferentes ambientes que constituem o todo social. Também cada pessoa em si lhe atribui diferente valor nas várias etapas da sua vida. E acima de tudo em cada momento cada um vê o seu reconhecimento, e o reconhecimento que faz dos outros, por prismas diferenciados.
Normalmente a plausibilidade do reconhecimento depende do respeito por aquilo que em cada momento é considerado mais válido pelo senso comum. Pelo que não é de esperar grande reconhecimento quando os nossos valores conflituam com os prevalecentes na sociedade.
Mesmo assim, e ainda bem, podemos ver serem tolerados ou aceites valores contraditórios no domínio pessoal e social. Porém esta situação nem sempre satisfaz os objectivos das pessoas. Em alternativa não raro recorremos à falsidade baseada na discrepância total entre aquilo que é importante para cada um e aquilo que cada qual faz transparecer como tal para os outros.
Muitas vezes ocorre a situação de se instalar no nosso espírito a dúvida entre cada uma de duas atitudes das mais próximas no espectro das reacções que podemos esperar da parte do grupo social ou da sociedade no âmbito do qual “queremos” actuar. Entre a rejeição, a tolerância, a aceitação e a plena integração social há um vasto leque de hipóteses a considerar.
Nunca pode ser aferida com precisão e a cada momento aquilo que é mais consensual na sociedade. Nem mesmo podemos ter certezas sobre muitos dos valores que se dizem patrocinados pelo Estado ou por outras organizações transmissoras de valores que interferem na vida social. Não raro os seus diferentes componentes estão em desacordo quanto a aspectos fulcrais.
Este tipo de dúvida surge muito mais facilmente no espírito das pessoas esclarecidas e sinceras do que entre os ignorantes e os falsos. Estes últimos não têm tempo para estas lucubrações. Agarram-se às certezas que consideram suficientes para os ajudar a obter o que ambicionam ter e preocupam-se só em ter um grupo social com que se identifiquem e que lhes possa servir de apoio. Os mais capazes destes obtêm mesmo apoios fora dele.
Mas o facto de termos dúvidas não nos pode inibir de tentar influenciar os valores sociais que achamos que devem ter uma solidez bastante no domínio da sociedade. Pode ser mesmo uma questão de sobrevivência porque mesmo as pessoas que estão de paz com a sua consciência, por julgarem estar a corresponder àquilo que é socialmente mais valioso, não raro são vítimas indefesas da perversidade, dos volte faces sociais.
O conflito permanente entre valores pessoais e sociais torna-nos vulneráveis pelo que devemos ser cautelosos, sem ser calculistas, nesta questão crucial para a nossa vida que é termos de percorrer com maior ou menos regularidade o percurso entre a confrontação, a condescendência, a convivência e a vivência irmanada.
A procura de uma estabilidade dinâmica, que não prescinda da procura de avanços para os valores que mais prezamos, é pois a melhor postura que podemos assumir perante a vida e a sociedade. Mesmo que saibamos que esta não valorize sobremaneira este modo de agir e no seu “egoísmo” nos queira agrilhoar a uma postura estática e de preferência subserviente.
Nós temos direito de mudar, de nos adaptarmos, de intervirmos e, se nos é imposto um limite, ele deve ser o princípio da lealdade para com aqueles com quem convivemos regularmente. Este princípio é porém caracterizado por só ser válido se for reciprocamente aceite.
Aos valores sociais não se pode exigir qualquer lealdade quando nós os não partilhamos ou não reconhecemos aos outros a sua representação. Este princípio é pessoal, embora possa ser alargado às pessoas que o partilham.
Porém a natureza das diferentes relações sociais que estabelecemos, suspendemos e reatamos levam-nos a não podermos partilhar com a maioria dos outros qualquer convergência, se não casuística, em relação a princípios.
O facto de ser para certas pessoas quase um constrangimento estar a pensar e abordar estas questões não se podem inibir de o fazer. O embaraço de muitos que estão mais sujeitos à exposição pública é porém compreensível. É mesmo legítimo não gostar de que se ponham em causa princípios basilares da sua vida mais pessoal, mas não o é proibir que os outros o façam.
Existem aqui princípios que, mais para além do que a lealdade, devem ser aceites por todos: ser humano, humilde e condescendente. Há elementos de falsidade contidos em muitas vidas que lá estão contra a vontade consciente dos que as viveram. Mas por isso não podem ser branqueados, como não devem ser usados para humilhar ninguém. Quem tem direito a atirar a primeira pedra?
Normalmente nós, se gostamos de uma pessoa e a adoptamos até como exemplo a seguir, condescendemos com ela do mesmo modo como faríamos em relação a nós próprios. Porém se não gostamos dela somos intolerantes e exigimos a ela aquilo que estamos longe de exigir a nós mesmos.
O único aspecto que podemos lamentar é não gastarmos, para pensar os outros, o mesmo tempo que gastamos para os endeusar e adorar ou para os denegrir e aviltar. Nem mesmo nos chega dizer que queremos para os outros exactamente o mesmo que queremos para nós próprios. Ninguém acredita nisso.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

As impressões que se trocam nas filas de espera

Quase todos nós odiamos as tradicionais bichas, as filas que se desenvolvem um pouco por todo o lado. Elas formam-se para apanhar o autocarro, marcar uma consulta médica, mandar uma encomenda pelo correio, fazer pagamentos nas finanças, ser atendido no banco, até para levantar dinheiro no Multibanco.
Umas são devidas à burocracia, outras ao tradicional deixa andar até à última hora, coisas que eventualmente se corrigiriam, mas outras há que não têm fim à vista. Por exemplo a fila para comer num refeitório, até num restaurante.
Hoje em dia até há um novo tipo de fila de espera que ocorre na Internet sempre que utilizamos um servidor obsoleto cuja lentidão deriva da grande quantidade de tentativas de acesso para uma capacidade limitada. Estas são particularmente chatas porque, embora nos não obriguem a estar de pé, nos põem a olhar para o visor sem hipótese de interactividade. Até desconhecemos o nosso lugar na fila e por isso o seu fim.
Acho que a cara com que encaramos qualquer fila é sempre igual, mas aqui não vemos os concorrentes/companheiros de jornada e não podemos trocar umas impressões com eles, que isto de conversas não é para este terreno movediço que repentinamente até nos pode colocar em filas diferentes, que o mesmo é dizer, podemos deixar de nos ver.
As impressões que trocamos nestas ocasiões estão como que a meio caminho entre o vazio, a ausência de qualquer contacto ou ligação e a conversa que assenta em ideias partilhadas ou que se querem construir no sentido de fortalecer qualquer contacto ou estabelecer uma ligação duradoura.
Mas nem as impressões ou conversas chegam para colmatar uma falha que nós atribuímos à organização e que nos deixa sempre pendurados, sem estarmos previamente preparados para ocupar o tempo. O estar numa fila só serve para criar ansiedade desnecessária.
Este problema resulta em muito de normalmente não irmos para uma qualquer fila com quem queremos, é quase sempre uma incógnita que se nos depara. Só numa fábrica, num escritório será possível criar hábitos de se juntarem as mesmas pessoas numa bicha para almoçar, por exemplo. Mas até isso pode ser um aborrecimento, o estar sempre com os mesmos no trabalho e na fila para o refeitório. Às tantas nem respiramos.
Já, se não “escolhemos” as companhias, mais difícil se torna o estar a falar de coisas vagas com quem “conhecemos” há tanto tempo sem com ele convivermos. Além da maldade que é o trabalho nestes lugares, esta é a pior de todas as filas que podem existir, porque nos colocam na imensidão do nada.
Infelizmente teremos que continuar a preparar-nos para entrar em filas de toda a ordem porque as promessas do seu desaparecimento não podem ser encaradas com a mesma benevolência com que as encaramos a elas. Nós as acharíamos perfeitamente evitáveis, quando o bem almejado não escasseia.
Já quando se trata de um bem raro, como os bilhetes para um bom espectáculo, porque existe muita procura há escassez de tempo e as filas tornam-se inevitáveis. Mas aí corre-se por gosto. Só que também aí a ansiedade é possível.
Mas também quando se quer mostrar às pessoas que o objectivo a atingir não é fácil de alcançar, quando ele implica esforço e não pode ser colocado à disposição de todos, cria-se propositadamente uma fila para lhe dificultar o acesso. É a técnica do conta-gotas.
Perversão ou necessidade da economia e da organização, a formação das filas tem de ser encarada com alguma boa disposição. Se não é possível trocar impressões, conversas, se até o olhar se torna cansativo, se as pernas se tornam pesadas, resta-nos ao menos criar com pequenos passos a ilusão de que vamos estando mais perto do seu fim.
Cada vez mais perto, que atrás desta outra virá e incessantemente, com passos maiores ou diminutos, nos aproximaremos do seu término. Desde o nascimento que assim é e com a agravante que na vida muitos passos têm que ser dados no escuro.
Já nos dão à partida um lugar numa fila em que nem tudo está à vista, cujas regras desconhecemos, mas que se nos vão revelando irracionais, inumanas, imprecisas. Falta a luz que ilumine o nosso caminho.
Para lutar pela sobrevivência, pela segurança, pela dignidade, rodeados de gentes desleal, egoísta, cínica, resta-nos pisar alguns, saltar sobre outros, pedir desculpa que lá vamos nós, para cínicos, cínicos e meio. Onde estará o ponto de equilíbrio?

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Um boato sabe-se como nasce mas não como terá fim

Se não gostamos de boatos, sempre damos seguimento a alguns. Quando procuramos certificarmo-nos podemos recorrer às pessoas erradas que, não tendo a nossa perspectiva, dão continuidade ao boato, passam a outrem como uma certeza absoluta a dúvida que nós lhe formulamos.
Talvez a solução fosse perante a dúvida calarmo-nos. Mas o problema é que nas nossas mentes a dúvida pela-nos. O querer ficar sem dúvidas é normal e nada diz sobre qual seria o lado para o qual tenderíamos se nos coubesse desfazer a nosso prazer a dúvida em causa.
Nós convivemos mal com a dúvida. Nós queremos despejá-la depressa, queremos ter certezas. Nem que, perante a demora da verdade, nos sejam dadas só inconfirmadas certezas.
Os piores de nós nunca aceitarão dúvidas, perante a sua própria má vontade já terão certezas. Uns nunca aceitarão boatos, porque rejeitarão a sua natureza. Outros, pelo contrário estarão sempre à espera de boatos que tragam dúvidas, que de preferência nunca se resolvam, porque certezas já eles têm.
Mas mesmo entre os menos maus não faltará quem também esteja à espera do boato, quem queira achincalhar os outros e não é com dúvidas que o fará. O boato já lhe dará as certezas de que precisa.
A leviandade levará muitos a arremeter com as falsas certezas que tem e os outros que se desunhem. Também para estes se a verdade nunca vier ao de cima, tanto melhor.
Um boato na verdade nunca deixa de o ser, mesmo que as pessoas se cansem dele, mesmo que seja esclarecido pela imprensa ou pelos visados, desmentido por todos.
Mas também é verdade que aquilo que nasceu como boato, por mais que se confirme, para muita gente nunca será verdade. Nunca será mais que uma maquinação urdida para tentar destruir alguém.
Um boato faz o seu percurso, seja às claras seja subterraneamente, às escondidas, está sempre pronto a renascer, de preferência nas alturas mais incómodas, com a perversidade que cada um lhe possa dar, porque são as pessoas que lhe dão a substância e a qualidade.
O boato é como uma bomba de relógio que alguém leva com mais ou menos apego, com mais ou menos alarido, mas de que não tem o controlo. Transporta a tal dúvida que ninguém quer. Em quem tenha muitas dúvidas, mas gostava que ele fosse verdadeiro, o boato cria um medo tremendo porque lhes incute um indesejável comprometimento.
O boato também não é nada cómodo para quem, sabendo que ele é verdadeiro, gostava que ele redundasse em mentira. Porque o boato só fere verdadeiramente quem “sabe” que ele é verdadeiro, e só tem por desejo que se fale o mínimo dele, que passe por ser esquecido ou melhor ainda que se transforme em calúnia, o que será bastante difícil.
O boato é como uma bolha de sabão que tem o seu ponto óptimo para rebentar e causar estragos. Quando se confirma já pode vir tarde mas também pode tornar-se um escândalo. Tanto pode ser uma certificação, como constituir uma extraordinária surpresa. Para o boato deslizar bem quanto menos se estiver à sua espera melhor.
Para uns o boato desempenha bem o seu papel quando é falso. Porque mesmo que isso se venha a provar, pelo menos parte do seu efeito perdurará, às vezes todo o efeito pretendido por quem o lançou.
Para outros a sua plena justificação consegue-se quando se vem a atestar a sua veracidade. Há verdades, certezas absolutas que mesmo assim não são facilmente assumidas. O boato é a forma encontrada por muita gente para não correr riscos, para não ser abafada, logo que fale ou manifeste intenção de o fazer ou então porque se não sente com legitimidade para falar mas com obrigação de o fazer.
O boato, caso se não provar, pode sujar quem o espalhou e lhe deu asas, a ele aderiu e o difundiu. Mas haverá sempre quem veja com maus olhos um boateiro, original ou não, por mais consciente que este seja.
Muitas vezes nunca se consegue descobrir onde esteve a origem, o ponto de ignição do boato. Naturalmente que é das primeiras coisas que queremos saber porque daí derivará muita da sua credibilidade. Mas todo o seu sortilégio está nesse desconhecimento.
Se quem lhe dá origem quer, pelo menos numa primeira fase, passar despercebido, o mesmo acontece com muitos do que lhe dão continuidade, porque sempre podem ser acusados de eles ou organizações de que façam parte estarem na sua origem.
Aqui a imprensa tem um papel melindroso. Não faltará quem queira passar despercebido na correia de transmissão do boato e queira ver a imprensa a revelar em primeira-mão, num estado virginal, a novidade que lhe dá gozo. Ora a imprensa não pode contribuir para “peditórios” destes.Numa sociedade democrática ao boato ser-lhe-á sempre atribuída uma natureza ofensiva, um carácter insidioso.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

O sentimento persecutório no diálogo social

Um diálogo sem barreiras tem que ser assumido como tal entre as partes. Se ele parece pertencer ao domínio da liberdade, também se tem que dar às pessoas a liberdade de o aceitar ou não, mas não de o condicionar.
Mas quando o diálogo se faz através dos meios de comunicação pode haver condicionamentos externos aos intervenientes. Estas pessoas submetem-se a um estatuto editorial que, seja mais ou menos permissivo, nem sempre é respeitado. Mas é nos meios do Estado que há mais litígios a este propósito.
Neste diálogo mediado há intervenientes activos e outros que só o são passivamente. Temos pessoas das mais diversas origens e formações. Em tempos os limites ponham-se a nível de conveniências sociais, de susceptibilidades, de melindres, o que tornava o diálogo difícil.
Hoje o problema coloca-se ao nível da preparação das pessoas para se questionarem abertamente sobre valores que possam estar implicitamente contidos no tema em discussão., o que nem sempre acontece.
O diálogo sem barreiras pode parecer, mas não é uma coisa comum, não é tão vulgar como dão a entender os debates na televisão. A realidade é bem diferente. Só que a habituação faz com que, mesmo que os não partilhemos, já não pomos reservas aos valores que lá são transmitidos.
O nosso mundo se parece se expandir porque a televisão chega a todo o lado, mas está cada vez mais restringido por essas câmaras manipuladoras. Nós deixamo-nos persuadir muito mais por quem aparece na televisão, do que por quaisquer outras pessoas que a ela não tenham acesso.
Nós expomo-nos muito mais àquelas pessoas que nos “dão” um bocado do seu tempo, e a quem atribuímos qualidade, do que aos vizinhos e amigos. Os nossos diálogos são cada vez mais através dos “média”. Há pessoas que já não dialogam com mais ninguém.
Temos a obrigação de nos interrogarmos sobre se estamos a ser condicionados na forma e no conteúdo da nossa relação com o mundo. Se estamos a configurar o nosso espírito para a aceitação e rejeição de certos princípios e até para a ignorância de outros.
Se vemos quase toda a sociedade a aderir a este espartilhamento, que nos resta de liberdade individual? Cada vez menos nos apercebemos que estes diálogos estão tão cheios de barreiras que mais parecem monólogos. Os nossos interlocutores estão cheios de certezas absolutas e verdades infalíveis.
Só nos abrimos àquilo que é discutido na televisão e da maneira como lá é apresentado. Simulamos diálogos que nunca existiram e importamos certezas que criam barreiras que não sabemos controlar. Por isso cada vez mais nos fechamos em mundos irreais a que a publicidade dá um particular colorido.
Assimilando desta maneira as nossas certezas, de forma acrítica, passiva, nunca as chegaremos a controlar, justificar, tornar coerentes com o nosso paradigma cultural. Criamos artificiosamente um verniz que cobre o nosso vazio.
Não é por aqui que chegaremos a ter algum “fundo” para discutir seja o que for. Persuadidos que estamos por verdades temporárias mas inquestionáveis, ficamos inibidos de manter diálogos sobre a realidade que não sejam uma versão tosca do que se passa nas pantalhas televisivas.
A simples divulgações pela televisão das principais questões do momento já nós dá (?) a panorâmica suficiente para termos uma visão actualizada do mundo. ¿Para quê insistir que há outras verdades bem mais profundas, que a televisão é um filtro demasiado fino, que se devem ouvir outras pessoas?
Enchem-nos de lugares comuns cheios de apriorismos “incontestáveis”. Para conversar com verdade temos de nos alhear quanto possível dos modelos televisivos. O nosso património espiritual pode ser fraco mas deve ser um edifício coerente, o que esta assimilação não garante.
Estamos cada vez mais vulneráveis àquilo que chamamos demagogia, que mais não é que o uso pelos outros das suas capacidades de persuasão. Aquilo que é mentira e o que é verdade passam mais facilmente sem contestação pelo filtro da nossa consciência
Um homem livre é aquele que não descura o núcleo duro das certezas que ao longo da vida vai elaborando, mas não deixa de as testar quando achar conveniente e de, sem sofreguidão, as alimentar sempre que pode com novos dados e experiências.
Um homem digno pode deixar cair verdades que passou a achar questionáveis, mas não está imune a louvores ou críticas. Ao encontrar razões para as abandonar e aderir a novas, não renega mesmo assim o seu passado, nem quem possa ter um passado idêntico.Há quem ponha em causa as razões da mudança de outros e alimente no seu ego pensamentos persecutórios, mesmo que só de carácter psicológico. Tais pessoas são indignas e em relação a essas, às que querem ser cada vez mais na mesma, devem ser criadas fortes barreiras pessoais e sociais.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

A dignidade humana defende-se pelo diálogo franco e leal

Quando iniciamos uma conversa com alguém, invariavelmente já carregamos connosco imensas verdades, não só sobre aquilo que nós somos, como sobre aquilo que os outros são, até sem os termos visto antes ou sem os vermos há muito, e sobre aquilo que nós queríamos que os outros fossem.
Aquilo que nós somos advém do que pensamos ser, daquilo que os outros pensam que nós somos e daquilo que nós queremos ser. Nisto está muito do que nós queremos que os outros pensem de nós.
Aquilo que os outros são advém obviamente das comparações que fazemos, do percurso que lhes adivinhamos, do que eventualmente sobre eles nós já conhecemos, das certezas que lhes atribuímos.
Existe pois uma zona de conflito permanente que nós atribuímos a erro ou precipitação dos outros e os outros normalmente retribuem do mesmo modo. Esse conflito pode existir sempre porque, para lá disto, nós podemos ter um conflito interno que interfere no nosso relacionamento.
Tal conflito será tanto menos grave quanto menos o que os outros pensam de nós esteja longe do que nós somos e/ou daquilo que nós queremos ser, e esta opção é nossa.
Igualmente será tanto menos grave quanto menos o que pensamos dos outros esteja longe do que eles pensam de si próprios e do que eles próprios querem ser e da importância relativa que atribuem a este dois aspectos.
Nunca conseguimos que haja um equilíbrio perfeito nos nossos relacionamentos. Basta a nossa constante procura de um equilíbrio interno, a busca incessante de uma nova centralidade interior, para podermos estar a colocar os outros num diferente enquadramento.
O nosso gosto pelos outros não é eterno. Por vezes deixamos de gostar deles mesmo sem eles mudarem ou passamos a não gostar deles caso haja uma alteração na maneira como se nos apresentam.
O nosso desejo de manter uma relação saudável fazer-nos-á avaliar as partes em que sempre dividimos os outros e pesar se aquelas de que gostamos compensam as que rejeitamos. O certo é que mesmo que isso aconteça a relação pode deteriorar-se irremediavelmente.
Independentemente da divergência de opiniões, a harmonia pode existir se tivermos o mesmo conceito de dignidade humana. O nosso conceito de dignidade pode-nos levar a, mesmo assim, manter uma concordância sólida de valores.
Mas nem sempre se consegue sustentar uma forte convergência na defesa da dignidade das partes. Quando tal não acontece facilmente se cria um crescente espaço de indefinição e desagrado entre o que os outros são para nós e aquilo que nós gostaríamos que eles fossem.
Esta situação leva, quantas vezes e quando menos esperamos, ou nós ou as pessoas com quem falamos a arrogarem-se o estatuto de conselheiros, atribuindo-nos mais ou menos ascendente sobre os outros. Ou até de justiceiros se formos mais atrevidos.
Mesmo que procuremos não nos pormos a jeito, há tanta gente com tantas certezas adquiridas que, se nós não aceitarmos alguma condescendência, não chegamos a admitir conversar com quem não sabemos se vai dar de modo intempestivo largas a esses laivos de arrogância e agressividade.
Para além de os outros não serem obrigados a ter certezas, não são obrigados a revelá-las e muito menos a defendê-las. Não podemos entrar na contestação sistemática às certezas dos outros, muito menos sem o seu assentimento, sem deixarmos às suas faculdades a avaliação e a tomada de todas as decisões que os afectem.
Não podemos praticar quaisquer actos de coacção confundindo-os com eventuais poderes de persuasão. As nossas certezas podem-no ser só para nós. A sua natureza e a forma pelas quais nós as adquirimos devem-nos fazer pensar sobre a forma como as queremos transmitir. Não será normal que o façamos por meio diferente daquele pelo qual as adquirimos.
Na realidade assumimos muitas “verdades” por uma questão de fidelidade à família, ao grupo, à sociedade. Maugrado haver uma sociedade cada vez mais livre, com características de heterogeneidade e essa fidelidade estar longe de ser generalizável, em relação a toda a gente.
Muitos têm dificuldade em “beber” das fontes e outros não se sentem obrigados a aderir a elas pelas mesmas vias pelas quais nós aderimos. Muitos não podem pôr em causa as suas próprias certezas e não nos cabe a nós fazê-lo. Seja qual for a sua natureza e a forma de aquisição, essas certezas fazem-lhes falta, como as nossas nos fazem falta a nós.
Mesmo que nós não precisemos já de certezas que em nós advieram de qualquer decisão não consciente, isso não nos dá o direito a contestar as dos outros. Se nós já as substituímos, os outros podem não as substituir facilmente e podem continuar a precisar de certezas assim adquiridas.
Quando conversamos franca e lealmente com alguém respeitamos-lhe o ser, e mesmo quando pensamos poder influenciá-lo, não devemos ter preocupações de ascendente, nem ultrapassar as barreiras que ele possa ter instituído para defesa da sua integralidade.

sábado, 12 de maio de 2007

A suspeição turva irremediavelmente o nosso espírito

É vulgar uma discussão acalorada sobre uma acusação determinada redundar num seguinte dilema em que uns pretendem que uma determinada norma é genérica o suficiente para englobar o caso e outros que essa norma tem uma aplicação restritiva e não lhe é aplicável.
Normalmente isto acontece assim porque todas as nossas divergências descambam para a existência ou não de dois pesos e duas medidas, para a existência de uma questão de favorecimento na aplicação da Lei.
Porque há a ideia, geralmente razoável, de que nada é inocente e há sempre alguém a beneficiar propositadamente destas dúvidas e pretendidas incoerências. Quem redige as leis ou quem as aplica é sempre acusado de, com algum propósito escondido, ora encobrir ora descobrir.
Para activar mais esta permanente suspeição temos ainda as normas legais que determinam que em caso de dúvida os suspeitos são inocentes, o que subjectivamente levará alguns a serem mais expeditos em tentar a sua sorte no desrespeito da Lei.
A suspeição assume às vezes um carácter quase obsessivo, em tudo vemos uma tentativa de enganar alguém. Mas na prática, para nosso desespero, o que mais se aplica é a conclusão de sermos todos inocentes, de alguma forma até vítimas de uns tantos mal intencionados.
Só que esta conclusão não é suficiente para nos deixar sossegados. Passado algum tempo lá voltamos às ideias antigas e vá de acusarmos tudo e todos de estarem conluiados no desrespeito da lei para obter benefícios indevidos. É uma conspiração que se urde no silêncio.
As suspeições retroactivas são as mais difíceis de esclarecer. Vêm normalmente à baila por comparação com casos recentes o que torna complicado fazer o enquadramento legislativo adequado.
Há ainda o perigo de estarmos a comparar casos em que a natureza só aparentemente é semelhante. As circunstâncias mudam, as opiniões mudam, são diferentes os valores em que o legislador se fundou para elaborar a legislação aplicável. O nosso juízo só pode por em dúvida aquilo que conhece.
A suspeição tem uma autonomia invejável. Faz o seu caminho por tudo que é sítio, por tudo que são épocas, mesmo as mais remotas, por todos os grupos, famílias e gerações. A suspeição corrói-nos as raízes.
Há uma necessidade premente de controlarmos a suspeição. Em vez de constituir aquele alerta que às vezes nos falta, corre o risco de se tornar um anestesiante que faz de nós inoperantes e cismáticos. Quanto mais suspeição manifestamos mais enganados somos.
Ninguém gosta que lhe vendam gato por lebre. Isso tanto vale para a actividade económica como para a social e política. Mas não podemos confundir todo o comércio com usura. Não vamos a lado nenhum enquanto não retirarmos do nosso espírito este farisaísmo doentio que herdamos.
Historicamente já houve tentativas de, começando pela actividade económica e perante a dificuldade de separar o legítimo do ilegítimo, se proibir tudo o que fosse para além da troca directa.
Ora se se confirma que o mal está no vil metal, não é acabando com ele mas seguindo-lhe as movimentações que podemos ter algum sucesso. Mas nós lançamos antes as nossas suspeições para os vizinhos e extasiamo-nos a olhar para aqueles que são efectivamente ricos, não se sabe como.
Quanto o mal não está na Lei e ela é desrespeitada sentimo-nos feridos com isso, com a impotência de a pôr em prática por parte de quem detém o poder. Mas quando o mal está nela, mais nos sentimos despeitados, porque percebemos que os poderosos chegam com os seus tentáculos à sua feitura.
Um clima de suspeição generalizada só termina quando a exigência e o rigor forem aplicados naquele acto de concepção e regulamentação da estrutura mais apropriada a uma boa convivência social, simplificando e limitando ao máximo a existência de dúvidas, preparando devidamente quem as deva passar à prática.
Os benefícios que alguém pode usufruir de alguma actividade, de alguma posse, no fundo o resultado de uma outra posse ou duma actividade anterior, devem estar devidamente regulamentados para que os benefícios ilegais possam ser perfeitamente identificados.
Mas as leis, mesmo as punitivas, não podem ser o reflexo de espíritos persecutórios e doentios, como por vezes os nossos correm o risco de ser. Na realidade nós comprazemo-nos quando alguém é apanhado nas malhas da Lei, vai a inquérito, é arguido, mas a partir daí já só nos vem a compaixão, condoemo-nos irremediavelmente, afinal quem é culpado de quê?
Na verdade os nossos estados de alma são tão variáveis, tão facilmente assumidos, que não resultam de raciocínios lógicos mas já quase os temos à mão para corresponderem aleatoriamente às incompreensões que se vão manifestando no nosso espírito.
A maioria de nós, com mais ou menos sacrifício, podemos ter que assumir vários papéis, em vários cenários, em diferentes contextos sociais, mas não está preparado para isso. Alguns há que são capazes de representar vários estados de alma e simultaneamente beneficiar de todas as situações através de qualquer imaginário artifício. Não suspeitemos de todos.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

A mensagem que encontrou mensageiro em Abril

Muitos lutaram antes do 25 de Abril para que o regime vigente à altura sucumbisse. A contribuição de cada um para essa revolução nunca foi demasiado relevante, as próprias organizações permanentes da oposição nunca adquiriram dimensão significativa. Também não foi um povo inteiro que se levantou.
A conjugação de factores que determinaram aquela ocorrência não surgiu por acaso, mas os factores imediatos são doutra natureza e são tanto de ordem interna como externa. São o isolamento internacional, as necessidades económicas, são o inimigo principal de Salazar, mas que ele nunca conseguiu identificar com precisão. São, como ele dizia, “os ventos da história”.
Os protagonistas, aqueles que quiseram evitar o suicídio, porque neles o medo suplantou a vergonha, foram os militares, porta-bandeiras de uma causa de que pouco mais conhecimento tinham que o comum dos cidadãos: Umas breves leituras em momentos de desalento, uns contactos com outros militares.
A falta de preparação dos militares para a democracia, a sua incapacidade de separar as suas obrigações como militares e cidadãos, o facto de os valores democráticos não terem o enraizamento necessário na sociedade em geral, levou à tomada de atitudes precipitadas e à colagem dos militares às forças sociais e políticas que foram apresentando maior dinamismo.
Em alguns aspectos salvou-se o resultado, noutros nem por isso. Podemos dizer que os povos das colónias quiseram ser livres, tiveram a liberdade, mas não assumimos a responsabilidade de uma descolonização menos sofrida, que comportasse menos dramas tanto aos “circunstanciais” colonizadores como aos “não preparados” colonizados.
A maior vergonha neste aspecto resultou do abandono daqueles que tinham sido o suporte local da administração e do exército coloniais, porque, ao contrário dos outros, o seu destino era previsível: A morte.
Internamente, embora que por processos tortuosos, chegou-se a uma situação em que as feridas deles resultantes sararam. Acabou-se com o sistema de monopólios, liberalizou-se a actividade económica, alargaram-se a segurança social e as possibilidades de acesso aos patamares mais altos do ensino e às diferentes profissões.
O que se cumpriu, porque comporta em si a Liberdade, porque passou ao lado de um processo ditatorial, sem sentido, mas hasteado como bandeira por alguns, é de tal maneira importante para configurar o nosso futuro que aquilo que muitos dizem faltar cumprir não lhe é comparável.
Porque tudo se tem que fazer com as pessoas que somos, com o País que somos, no sítio em que estamos, todas as culpas por não estarmos numa melhor situação nos têm de ser endereçadas a todos nós em conjunto, sabendo nós que não temos o dom da omnipotência e da ubiquidade.
Quem fez o 25 de Abril poderia tê-lo feito com objectivos diferentes, nunca tão vastos como aqueles que se propalaram, nunca tão míseros como aqueles a que alguns os quiseram reduzir. Mas restituída a soberania ao povo, a este cabe decidir, é o povo que mais ordena.
Só existe democracia quando o povo não renuncia ao seu poder soberano, antes o delega periodicamente em quem o possa exercer em seu nome no dia a dia. Este estado maduro, no qual o povo está seguro que delega o poder mas não renuncia à democracia já o teríamos atingido há anos, creio.
Mas é sempre bom relembrar no que consiste o essencial da democracia, para que as franjas marginais se não tentem a capturar em seu proveito e capricho o poder que ela faculta, mas que deve, tão só, assegurar o bem e a liberdade de todos.
O 25 de Abril foi o despoletar das energias populares que levaram o País a viver esta imensa Liberdade de nos podermos expressar. Cabe-nos a nós não ter vergonha do passado e aprofundar a democracia, desenvolver e melhorar a sociedade para que a herança a transferir seja de valor superior.
Se não havia uma mensagem precisa, detalhada, como os mais fracos estariam à espera, se a mensagem foi sendo usurpada por uns e por outros e deturpada em conformidade com a ideologia de cada um, se só a experiência nos foi avisando dos muitos perigos que qualquer sistema comporta, fomos nós que ficamos a ganhar.
Também a experiência nos vai ensinando que ela mesma, permanecendo como tal, vai sendo esquecida e perdendo os seus efeitos positivos. Há que tornar a experiência em sabedoria e esse é o nosso maior desafio. Qualquer dia, se nos deixarmos andar nesta quietude intelectual, o 25 de Abril tem o mesmo significado popular do 1 de Dezembro ou do 5 de Outubro.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

As imagens podem simplificar a comunicação

A evolução não se faz sem sobressaltos. Os períodos negativos apresentam-se-nos com uma inevitabilidade que nos entorpece e paralisa. Mesmo em períodos de progresso sofremos as consequências dos efeitos perversos, o que nos leva a fazer pensar se os benefícios compensam os prejuízos que podem advir.
Mas quando decidimos avançar, quando nada podemos fazer para suavizar essas consequências, para diminuir ao grau de perversidade que está subjacente às acções a empreender, ainda temos uma solução minimizadora.
Actuar preventivamente, aumentar as resistências nas pessoas que possam vir a ser vítimas desses efeitos nefastos. É um pouco a teoria de que o mal deve estar presente no mundo para que seja visível e evitável. A não estar presente na paisagem deve estar presente na mente das pessoas.
Os drogados que parasitam pelos locais de estacionamento fazem mais pelo combate à droga de que cem campanhas de sensibilização. As crianças de hoje, sujeitas a este espectáculo degradante, adquirem resistências que os actuais drogados não têm. E afastamos a necessidade de o verem mais tarde.
Como vítimas de um processo de auto-destruição que sucessivas gerações têm tolerado ou incentivado, a sua emersão numa sociedade hedonista tem de ser combatida com essa imagem capaz de provocar uma emoção forte e ser memorizada pelas gerações vindouras.
Este método tem sido usado com algum sucesso noutros domínios o que só prova que nada se deve esconder e deitar para baixo do tapete para que se não veja. Mas em consequência da proliferação de imagens fortes também elas vão perdendo o seu efeito.
O mundo de hoje exige cada vez mais clareza, que se vá para além do efeito imediato que a imagem pode provocar. Exige-se que o fenómeno que deu origem à imagem destinada a causar aversão se investigue, se explique.
É por esta via que as pessoas podem ter cada vez mais resistências próprias àquilo que é intrinsecamente mau, mesmo sem curar de saber qual o melhor caminho, que a escolha deste o devemos deixar ao nosso espaço de liberdade. Mesmo sem esta consideração a verdade é que a indicação de um caminho se mostra cada vez menos capaz de produzir um efeito positivo.
O uso vulgarizado da imagem vai mesmo fazendo que o seu efeito se perca mais rapidamente. A tal ponto que as pessoas, em vez de resistirem àquilo que com a imagem se quer mostrar, podem ganhar resistência à própria imagem. È o que acontece a alguns muçulmanos que, em vez de aderir à condenação do holocausto, negam a veracidade das suas imagens.
Quer dizer que, mostrada a imagem, nos não podemos convencer que ela revela tudo, antes devemos aproveitar o efeito pretendido, quando ocorra, para conseguir uma adesão mais fácil a uma explicação que nunca se pode ficar por aí. Se uma imagem, como uma referência breve, não produz esse efeito então nós temos de ir desde logo mais longe à procura duma explicação convincente.
Somos um País em que vivemos muito da imagem. Pagamos para aparecer na televisão, seja num concurso foleiro, seja na Praça da Alegria, seja até no programa Fátima. Só que não seleccionamos as imagens no sentido de lhes atribuir um objectivo definido. Tudo passa à mesma velocidade. A imagem aqui é o que prejudica a clareza da comunicação.
Misturamos tudo, aquilo que são maus exemplos são mostrados conjuntamente e ao mesmo nível dos bons exemplos. Sem invocar juízos apriorísticos, antes apresentando-os como resultado de uma opção pessoal, os maus exemplos devem ser mostrados com a carga depreciativa a que se devem associar.
Em Portugal cria-se a ideia de que tudo é indiferente, e embora só já em sonhos, ambicionamos ter alguém capaz de cortar a direito e nos venha dizer claramente aquilo que é permitido e aquilo que não o é. O sebastianismo moral é uma das suas características. Enquanto desbundamos.
E parece que nós temos gosto em vivermos neste pântano. Quando conversamos com alguém, quando nos vemos atrapalhados, isto é, pairamos na incoerência, na indefinição e na indecisão há uma estratégia adoptada quase unanimemente: Promovemos a confusão, lançamos imagens isoladas, com conexões contraditórias, efeitos antagónicos de modo a não haver conclusões.
Ou então simplificamos exageradamente, localizamos o mau num espaço demasiado restrito como se pudesse ser imputável. É esta visão redutora que historicamente tem dado origem a regimes ditatoriais, mas principalmente no século vinte deu origem ao comunismo e ao nazismo.
Por isso a tão fraca qualidade das nossas conversas, e em consequência dos nossos escritos. Não podemos andar à procura de pessoas com muitas afinidades connosco e falar só sobre assuntos específicos. As nossas conversas devem ser amplas mas sem deslizar para a generalidade e a indefinição.
Por outro lado temos de ter a consciência de que as pessoas facilmente põem os seus interesses imediatos, mesmo quando eles não estão em causa, à frente de qualquer outra consideração. E quando assim é não há conversa que resista, com facilidade se desconversa.
Também os assuntos de interesse nacional são discutidos muitas vezes nesta base. Confundem-se perspectivas, imediatas ou de futuro, planos pessoais e colectivos, locais e nacionais A gravidade desta situação é que, por ser muito geral, contribui para a indecisão e a paralisia dos órgãos do Estado.

sábado, 14 de abril de 2007

Precisamos de ter certezas e … … … cumplicidades

Quando queremos comunicar com a generalidade das pessoas, quando não escolhemos nem segmentamos o auditório ou o leitorado, seja pela oralidade ou pela escrita, é nossa obrigação falarmos com a nossa própria voz.
Há na conversa sempre aquela possibilidade de puxarmos a nossa maneira de nos expressarmos mais para aqui ou mais para ali, de modo a nos aproximarmos da terminologia e da postura mais adequadas para quem ouve.
Na conversa há mesmo a possibilidade de acrescentarmos explicações complementares e até marginais, que na economia da linguagem escrita são de todo dispensáveis e quiçá prejudiciais.
Com as limitações de tempo e espaço, não podendo usar aquelas técnicas para “levarmos a água ao nosso moinho”, tendo que usar uma linguagem universal, que podemos fazer para sermos lidos?
Este jornal, tão difundido na nossa emigração, com certeza que encontrará uma dificuldade acrescida. A maioria dos nosso emigrantes têm uma terminologia mais rica em Francês, ou na língua do País de acolhimento, do que em Português. O contrário se passa connosco. Se acrescentarmos as diferentes vivências são enormes as dificuldades que temos que enfrentar.
É nossa obrigação mantermos a continuidade do discurso, não é vã pretensão, que as pessoas se vão habituando a interpretar o texto pelo contexto, com o esforço que isto requer, e a serem capazes de ler escritos de várias proveniências.
A facilidade de leitura é hoje fundamental, porque ninguém está para fazer grandes esforços para, muitas vezes, ter acesso a coisa nenhuma. Daí a necessidade de o jornalista de hoje ser cada vez mais “directo”, mais”asséptico”, mais “redutor”.
Mas não há volta a dar, os “factos” nunca são os factos, nunca ninguém tem uma visão global, unitária de um acontecimento e o consegue resumir e embalar num invólucro em vácuo e o envia directamente e de modo a ser deglutível, sem um aditivo sódico, pelo destinatário, qualquer que ele seja.
Assim, não sendo eu jornalista, não convirjo nesta orientação, assumo claramente que não falo a verdade, falo com a consciência da mais perfeita contingência. Mesmo quando parece que falo de certezas falo só naquilo que é verdade para mim e o poderá ser também para quem comigo consiga estabelecer um mínimo de cumplicidade, historicamente falível e intelectualmente descomprometida.
É na facilidade de estabelecer esta cumplicidade que reside a diferença entre conversa e escrita. A relação social, a conversa, quando nos aproxima, leva-nos a adequar a linguagem, a fazermos pequenas concessões, nós não vamos estar a desconversar constantemente a propósito de tudo e de nada, sem que isso queira dizer assentimento.
Na escrita temos de manter uma linha de rumo, temos de nos convencer que estamos a falar para estranhos, que teremos sempre leitores novos, que não podemos nem queremos escolher, que não sabem nada de nós, o texto tem de ter o valor só por si, na medida em que outrem o possa fazer, pelo menos parcialmente, seu.
Na escrita só a tempos podemos e devemos repensarmo-nos e repensar os outros, os eventuais leitores. Não temos “feedback” suficiente mas temos mais tempo para especular sobre a forma de, sem nos chegarmos a aproximar, pudermos urdir cumplicidades.
Aparentemente não há nesta situação uma relação social. Na realidade há uma relação social não explícita que inevitavelmente se estabelece entre quem comunica e quem aceita de forma activa a comunicação. Não nos podemos esquecer que, de parte a parte, estamos a acrescentar a nós mesmos algo de novo.
E isso não depende da qualidade do contacto, do carácter positivo ou negativo que advenha do conhecimento que se estabelece, da mais ou menos valia que ele possa constituir. Todos os nossos contactos com o mundo exterior nos afectam seja ténue, seja marcadamente.
Perante a fraqueza do ensino é mesmo pela comunicação social, pelos contactos com amigos e menos amigos, com a Internet, até com a publicidade, que nós apreendemos mais do mundo. Esta situação deve levar-nos a estudar melhor todo o género de comunicação, que a que prevalece não é mais a dos meios familiares. Não nos podemos deixar levar pela aparência.
Porém na vida prática não podemos ter a dúvida metódica sempre presente. Precisamos de certezas, nem que elas sejam só temporárias. Precisamos de cumplicidades nem que elas sejam só parcelares. Precisamos de ter confiança em alguém e de desconfiarmos o suficiente de todos.
Não se trata de dividir o mundo entre o Bem e o Mal. Toda a dicotomia é redutora, não nos permite pensar mais para além. Só por simplificação podemos atribuir a “Bondade” à Natureza e a “Maldade” à Insídia. Mas toda a simplificação não dá clareza, antes perturba as nossas palavras.
Devemos estar preparados mas não obcecados com a Naturalidade ou a Insídia. Toda a luz que consigamos projectar sobre a realidade favorece o estabelecimento de uma relação saudável entre as pessoas, ajuda a que a não deixemos inquinar por aquela perspectiva primária que sempre nos persegue.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Critiquem-me por ser gordo, orelhudo ou vesgo mas não por ser político

Entre dois copos, pelo meio da descrição que o amigo de ocasião lhe fazia dalgumas desventuras lá na aldeia, Guerrinha já começava a magicar nos versos que haveria que verter para o seu testamento, dito do Judas, lá para mais perto da Páscoa. O número de quadras talvez dependesse dos copos que viesse a beber.
Para o Judas arder bem, era necessário que as quadras deitassem as suas chispas bem dirigidas, que todos se haveriam de rir. Embora ele próprio, o Judas, não estivesse ainda bem arquitectado, que poderia surgir uma figura mais bonita, mais característica, mais popular. Só lá para o Carnaval lhe seriam definidas as feições.
As histórias tragicómicas iam chegando de todo o lado, que aqui é tão só o concelho de Ponte de Lima. Havia aqueles que para sua alta recriação, para a sua vingançazinha, se dirigiam ao Guerrinha. Mas havia também os doutores lareiros, velha classe, hoje em decadência, e cuja falta os Presidentes de Junta nunca conseguiram suprir.
Estas pessoas sabiam efectivamente de tudo e se não sabiam perguntavam e tinham amigos que, como humildes, essa era a sua grande arma. Levavam e traziam. Na Vila ficavam ao corrente do que mais invulgar se passava. Na aldeia informavam-se do mais rocambolesco que ocorria por lá.
Sem exagerada maldade, mas com malícia quanto bastasse, quanto homem mal casado e mulher folgazã, quanto amigo do alheio ou vigarista encartado, viam o seu nome mais depressa na lama lá longe do que perto da porta de casa. Quando aí chegasse já estava o caldo entornado.
Nem todas lá chegavam, mas qualquer história de malandrice ou malandragem estava sujeita a vir a cair no testamento. Tudo era sugerido que não se podia referir explicitamente ninguém. As referências eram porém normalmente suficientes para que se chegasse a uma identificação das vítimas, que o crime, esse era claro, da carne ou da carteira.
Fossem padres ou sacristães, criados ou morgados, ricas donzelas ou viúvas rapioqueiras, todos que se metessem em altas cavalarias estavam sujeitos a cair na voz popular. Mas não era o Judas que ia afectar a normalidade da vida, que uns continuariam a dizer que sim e outros que não.
Hoje fala-se, fala-se, fala-se, mas ninguém vê nada e todos se recusam a pôr em letra de forma aquilo que sabem. Além de que há assuntos que, por tão triviais, já não despertam a curiosidade pública. Mas continua a haver outros que assumem hoje uma enorme dimensão e que não são referidos.
O testamento na Vila de Ponte de Lima foi recuperado pela delegação de turismo e vem sendo agora feito pelo grupo de teatro Unhas do Diabo. Mas diga-se em abono da verdade, que este Diabo tem fracas unhas, é demasiado subserviente em relação ao poder, não fosse por ele pago.
Perante os poderosos de perto os lareiros de hoje vergam demasiado a cerviz. Há que bater nos que estão longe, lá para a capital, que esses não metem medo a ninguém, e provocam algum riso mesmo que forçado. Antigamente a piada estava em vir em letra de forma aquilo que só se falava e já tinha alguma graça nos lugares em que nem todos iam.
Aproveitar o Judas para pretender fazer política é mesquinho, para não dizer ordinário. A tradição consegue-se manter respeitando os pressupostos que presidiam à queima do Judas antes do 25 de Abril. Porque falar de política hoje é para todos os dias e todas as horas, quando houver assunto para isso.Fazer crítica social, de costumes, de comportamentos é mais salutar, menos banal mas menos pretensioso do que fazer crítica política de natureza primária. Acho que ninguém me criticou mas, se a alguém aprouver fazê-lo, critiquem-me por ser gordo, orelhudo ou vesgo, mas não por ser político. Mas se descobrirem que sou ladrão, insidioso ou outra coisa qualquer, façam favor também.