sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

O justicialismo não favorece a verdadeira justiça

O justicialismo é uma doutrina muito divulgada que satisfaz sobremaneira os nossos espíritos vingativos e castigadores. Sendo de génese popular já subiu todos os degraus da inteligência nacional e deu origem a um sistema tão coerente como muitos outros, com alicerces na realidade que fazem inveja àqueles que nunca se firmaram e já caíram no esquecimento da maioria.
A doutrina é velha mas só agora se pode dizer bem implementada e com alguma eficácia. O sistema que corporiza esta doutrina conseguiu o apoio de amplas camadas populares e eruditas, umas autodidactas, outras formadas nas mais ilustres Universidades. Todos se renderam à forma expedita como o justicialismo averigua e condena, fazendo disto um espectáculo entusiasmante.
O sistema assenta na jurisprudência de que os orgãos de comunicação social são os fiéis depositários. São estes que possibilitarem a colocação em prática desta doutrina. Eles estão no centro nevrálgico porque passam por si o âmbito do sistema, os limites da sua acção, as penas a aplicar, as possibilidades de remissão e perdão. O sistema judicial é livre para acompanhar o sistema justicialista, mas se o não fizer este segue o seu caminho autónomo.
A averiguação dos factos faz-se de modo sério mas também de forma a rentabilizar o investimento feito. A comunicação social define os processos que são válidos para descobrir a verdade. Servem segredos de alcova, o coscuvilhar de toda a vida privada e pública, porque à partida nada está arredado de ter significado para um processo. O próprio sistema judicial dá com gosto o seu contributo para esta averiguação justicialista. O facto de todos poderem participar dá uma garantia acrescida de que nada escapará que tenha significado.
Também é na comunicação social que se define toda a matéria da acusação. Esta nunca pode pecar por defeito, antes que peque por excesso. Todos os contributos de todas as proveniências, desde alcoviteiras a delatores, são acrescentados de modo a traçar perfis psicológicos e sociológicos o mais condicentes com a realidade. Isto ajuda sobremaneira a recorrer àquela velha norma, não escrita como todas as outras, de que, se o acusado não confessa mas tem todas as características de quem era capaz de cometer um dado crime, é mais que provável que o tivesse feito. Condena-se segundo o “código” justicialista.
Aos acusados é dada o grande prazer de poderem falar para todas as rádios e televisões, jornais e revistas e até para os blogs mais na berra. A exposição pública tem desvantagens, mas também vantagens a explorar. E ao passo que ao comum dos mortais só são dados uns cinco minutos de glória, estes podem contar com um dia e na melhor das hipóteses com uma semana, até serem substituídos por outros e esquecidos. Há sempre um novo processo em gestação, a preparar-se para romper a casca do ovo e explodir no universo de algum.
Aos acusados cabe-lhes a tarefa gratificante, mesmo que já no anonimato, de desmontar a acusação, sem o que estarão condenados a suportar a vingança social. Nunca se livrarão de uma suspeição latente e sempre ávida de objecto, mas podem sempre atenuar a gravidade da acusação e arranjar algumas atenuantes, afinal também eles são vítimas sociais. Também eles têm que aprender a gerir as suas aparições nos média, não podem ser em excesso. A melhor cura é o tempo.
Mas o mais importante deste sistema é que ao primeiro rumor já todos os intervenientes estão condenados. A pena é para se aplicar logo e com a severidade exemplar, não se corra o risco de três semanas depois estar tudo esquecido. O sistema justicialista não é complacente com ninguém e quanto mais alto estiverem os acusados na escala social mais empenho existe em aplicar esta forma peculiar de justiça. Todos achamos que o sistema judicial, aquele que tem orgãos próprios, funcionários e juízes, age em sentido divergente com este.
O sistema justicialista formou-se, cresceu, está numa certa maturidade. Nasceu como uma forma de reagirmos e encontrarmos um paliativo para o real desleixo legal e prático que atribuímos ao sistema judicial. Corresponde a uma exigência de efeito imediato que este sistema não permite. Mesmo que se fique pelos efeitos psicológicos, não nos podem ser assacadas culpas de a realidade se não compadecer normalmente com os nossos desejos.
No sistema judicial andaram-se anos e anos a pensar como se haveriam de reforçar os direitos das pessoas. Legislou-se no sentido de diminuir as penas e de permitir toda a espécie de actos processuais que facilitem a defesa dos acusados. De súbito todos levam as mãos à cabeça e dizem que se exagerou, que agora só chega à barra dos tribunais quem quer, só é condenado quem permitir que o seja. Perante isto o sistema justicialista ganhou o protagonismo principal e contribui para desacreditar cada vez mais o sistema em que deveríamos acreditar.
O problema é que já não temos paciência, já não cedemos tempo nem espaço ao antigo sistema. Quando este necessita de alguma acção mais visível, quando se torna pública a existência dum processo, logo todas as pessoas, quase sem excepção, querem saber tudo sobre ele, para no sistema justicialista levantar um processo paralelo. Nisto reside o nosso erro de querermos emitir logo uma sentença. Podemos pugnar por melhor justiça, mas não podemos querer ser nós a aplicá-la, muito menos já.
O problema é também que o sistema de justiça se demite das suas obrigações. As informações passam para o sistema justicialista num conluio comprometedor. Quando seria necessário que todos respeitassem os actos judiciais, tal contribui para dar razão aos que pretender retirar o que resta de credibilidade às únicas pessoas capazes de aplicar uma justiça mais rápida e eficaz, menos comprometida e conspurcada por tarar sociais momentâneas, os juízes.
Os juízes podem queixar-se de que necessitavam de processos de actuação mais expeditos, de tipologias mais vastas, que lhes fosse dada a possibilidade de aplicarem uma justiça menos dependente da descrição pormenorizada do que é permitido e do que é proibido, uma justiça que atenda à verosimilhança dos actos, e que não permita que se invoque qualquer omissão da Lei. Os juízes podem queixar-se do seu medo, de, na dúvida, serem levados a não aplicar o rigor da Lei, mas tal sucede porque não vêm na sociedade apoio para fazerem o contrário. Mudar o sistema judicial? Se os juristas acham que se construiu um sistema muito bonito, com tanto floreado, vai-se deitar tudo abaixo? Deixe-se ficar e colabore-se com o triunfante sistema paralelo do justicialismo, parece pensar toda a gente.

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

A nossa difícil relação com o poder – a nostalgia

Neste País tão cheio de gente nostálgica falar de nostalgia é terapêutico, se a análise for minimamente consistente. É normal que a pessoas guardem na memória e lhes sirva de referência aquilo que de bom ocorreu no seu passado. Só que o seu cultivo pode ser excessivo e assumir contornos de endeusamento, de modo a fazer que o próprio se esqueça de outros momentos importantes e, o que é pior, o leva a fechar os olhos àquilo que se vive hoje e é diferente.
A nostalgia dos bons momentos pode levar à rejeição ou aversão daquilo que no passado ou no presente está em contradição com esses momentos mais felizes. Nem sempre estamos preparados para aceitar o menos bom. Outras vezes colocamos mesmo no nosso tempo interior e em referência a um dado período um buraco negro atroz. Mas seria para nós benéfico se investigarmos a razão porque encontramos no nosso passado ocasiões em que vivemos situações medíocres ou mesmo desprezíveis.
Também o tempo colectivo nos deixa a nostalgia daqueles momentos de que nos deram conhecimento no tempo da escolaridade ou na propaganda do antigo regime. A própria forma como obtivemos notícia desse passado levou muitos de nós a renegá-lo agora ou pelo mesmo a desvalorizá-lo significativamente. E nada mais importante para a nossa própria higiene mental do que saber com a exactidão possível o real valor dum passado que tanta influência exerce sobre o nosso presente.
O facto de nos terem pintado um dado cenário edílico leva-nos a ter uma nostalgia dum tempo que afinal não vivemos, mas de que sentimos necessidade. Até porque o mesmo acontece com quem ganhou aversão a esse passado, que o apresenta como a justificação para todas as nossas carências actuais, para a nossa baixeza e mesquinhez, para a forma reles com que nos tratamos uns aos outros, para a nossa incapacidade de separamos o trigo do joio.
Já quanto ao tempo colectivo em que nós próprios participamos, que coincide com o nosso tempo individual, a ideia que sobre ele temos depende muito da valoração que damos à nossa própria acção. A abstracção com que conseguimos ver esse tempo colectivo depende muito de nós, da nossa formação, das nossas intenções, mas temos que se aceitar como perfeitamente humano que interpretemos o colectivo confundindo-o com o pessoal. Só que não é intelectualmente honesto.
A nostalgia reforça qualquer afirmação porque dá um cariz pessoal mesmo ao colectivo com a força que isso implica numa sociedade em que o individualismo prevalece. Esta visão do colectivo como uma emanação do pessoal é um grande erro se cultivada por preguiça intelectual, por economia sentimental. O facto de este tipo de vivência nos limitar a atenção ao presente e nos estreitar o caminho do futuro é subalternizado.
A nostalgia é um sentimento que aprisiona, que se reforça com a passividade, que aumenta com a desilusão, que elimina o voluntarismo, que corrói silenciosamente as energias necessárias a uma atitude positiva perante o futuro. Quando recordamos um momento passado, e quantas vezes o fazemos para obter informação que nos ajuda a perceber o presente, e a memória nos traz um sentimento é uma simplificação confrangedora. Se for a nostalgia é uma limitação comprometedora.
A nostalgia deixa-nos sem argumentos lógicos. É o resultado de uma apreciação subjectiva, perfeitamente datada e localizada em que o distanciamento entre nós e a realidade colectiva possivelmente não é o mesmo de agora. Havia muito menos poderes e salvo o da polícia política eram menos obsessivos. Porém os casos de nostalgia pessoal normalmente só são compreensíveis num determinado contexto. Aliás todos nós percebemos isto e temos períodos da nossa vida que apreciamos mais.
Para agravar esta maneira de ter memória do passado somos levados a definir nele períodos que requerem uma certa consolidação. O mais normal é aceitarmos a divisão culturalmente instalada com infância, adolescência, juventude, maioridade e outras subdivisões menores. Já quanto à memória do colectivo temos de aceitar as grandes divisões que a história nos impõe.
Há imensa gente a falar de uma qualquer nostalgia que sente de um poder particularmente benévolo com que conviveu ou cuja memória lhe enaltecem. E no geral não é por terem ficado mais pobres, por serem mais infelizes, por terem menos poder. Quem não viveu directamente pode ser vítima de efabulação mas não se pode ignorar que há pessoas que têm consciência de uma realidade vivida.
A nostalgia complica em muito a nossa relação com o poder porque este se dispersou, tem muitas mais fontes e exercesse em muitos mais domínios do que no passado. O poder como que nos persegue e imiscui-se em cada vez mais aspectos da nossa vida, em geral com as desculpas que nos quer defender, que não será decerto de extraterrestres, será dos outros que somos afinal nós mesmos. Caso evidente é o uso cinto de segurança.
Por muito que às vezes possamos entender que ambicionamos regressar a um poder paternal ou maternal, hábil em tornar ténues os poderes paralelos que outrora se exerciam, por mais poderes que nos vamos apercebendo que existem, o poder do dinheiro, das corporações, dos marginais, dos homossexuais, das seitas secretas e nem tanto, dos políticos, dos intermediários, do comércio por grosso, dos financeiros, de lobbies de toda a ordem, não nos podemos assustar e fugir à luta.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Uma despedida … até um dia destes!

Não é impunemente que nos vimos, embora muitas vezes esporadicamente, durante pelo menos vinte anos. Que se exerce o poder numa comunidade fechada, peculiarmente aberta ao mundo de forma que em cada momento só nos vissem por uma janela estreita e devidamente seleccionada. Isto é, sempre estivemos abertos ao mundo, mas por outras janelas que entretanto se foram fechando e somos agora vistos quase só por uma janela que Daniel Campelo abriu.
Daniel Campelo deixou marcas. Marcas naqueles que encontramos e naqueles que nos visitam e antes de nos verem já o viram a ele à janela. Também deixou marcas na paisagem, mas não tantas. Uma vez um casal passeava na Ponte Medieval e, antes de se me dirigirem, falavam um para o outro na obra que Campelo tinha feito ali mesmo, debaixo dos seus pés. Queriam saber se o rio alguma vez tinha passado naquela ponte, mas eu pedi-lhes desculpa e antes de lhes responder disse que a Ponte tinha mais de 600 anos e até o lajedo era anterior a Campelo. Campelo não tem culpa, mas até equívocos destes se criaram.
Daniel Campelo não criou uma nova comunidade, mas não há dúvida que assumiu o lugar de líder natural da comunidade existente. Marcou mesmo a nossa identidade e até quebrou uma certa resistência urbana à uniformidade. O bem geral é sempre um refúgio que serve aos políticos para se justificarem. Não há no entanto progresso sem ideias pessoais, a não ser que queiramos que elas se desenvolvam apenas lá fora e aqui todos tenhamos que aceitar o unanimismo. Atrevo-me a um abalanço geral mesmo reconhecendo que nem sempre acompanhei o seu desempenho com a mesma atenção.
A nossa relação com o poder nem sempre é fácil. E Daniel Campelo foi durante 16 anos a personalização do poder. Não há nada de acintoso nas críticas políticas que se lhe possam fazer. Se há algo de pessoal tem a ver com o gosto de cada um e também Daniel Campelo, por mais aceites que as suas ideias tenham sido nesta comunidade limiana, não pode exigir que todos gostem do que ele gosta. Assim na nossa relação com ele enquanto poder, houve momentos de euforia e de asfixia, de aproximação e evidente distanciamento.
Daniel Campelo entrou na gestão autárquica pela mão de Fernando Calheiros há vinte anos numa altura em que o cavaquismo estava no seu auge e ambicionava tudo levar à sua frente. Roubada uma vereação quase inteira ao CDS, o PSD lançou-se à conquista de uma Câmara na qual, aliás, sempre tinha estado a partilhar o poder e concitou contra si todas as outras forças políticas que se uniram, prescindindo da sua representação e elegeram o CDS que habilmente continuou a juntar a si uma vasta selecção de apoios de origem multipartidário.
As relações políticas de Daniel Campelo sempre foram melhores com o PS do que com o PSD e levaram aos célebres orçamentos do queijo limiano. Estes deram origem a episódios que, para o bem e para o mal, para o louvor e para o ridículo, levaram a um mediatismo nacional pouco habitual para um autarca. Para mim, maugrado a hipocrisia de muitos políticos, a imagem de Ponte de Lima ficou diminuída, afunilada. Só dirigindo os holofotes de imediato para jardins e velhos monumentos e esquecendo o restante, é que esta questão foi sendo esquecida.
Cada um sabe dos seus sentimentos pessoais mas eu sou amigo do mundo rural. Esquecendo a desgraçada vida dos antigos lavradores, agradava-me o antigo equilíbrio aqui existente. No entanto defender o ruralismo como Daniel Campelo o faz é um absurdo, de um conservadorismo atroz. A autarquia poderia ter feito muito mais para obviar aos aspectos negativos que o impacto do progresso alheio na nossa estrutura secular teve. Não chega fazer da defesa dos despojos uma teoria, o ruralismo. Até porque a nossa identidade já não é rural, embora tenha algo de rústico. Já só estamos plantados no ambiente rural.
A fábrica do queijo lutou para cá sobreviver mesmo sem leite, tal a incúria de todas as autoridades e o crime do corporativismo salazarista. A vida rural que assentava na pequena produção leiteira já havia levado a machadada definitiva por motivos de monopólio primeiro e depois económicos, higiénicos, de organização. Daniel Campelo apareceu como o defensor de um mundo rural já moribundo. Acho que foi a primeira mentira que fez pensar a Campelo que as mentiras também podem ser aproveitadas para obter efeitos políticos.
Melhor teria feito Daniel Campelo se tivesse comprado uma quinta e com pouco custo mantê-la a produzir segundo as práticas seculares. Era uma forma de preservar para a gente nova uma visão idílica do passado. Antes comprou quintas e quintas e manteve umas ao abandono, outras plantou-lhes jardins e subverteu todo e qualquer princípio de defesa da tradição. A capa de defensor do mundo rural não corresponde ao conteúdo.
Mas a defesa do ruralismo teve decerto outros intuitos de carácter político. Convém que se mantenha uma certa subserviência que está associada à ruralidade. Neste meio deste povoamento disperso e deste individualismo extremo, as exigências das pessoas são poucas e postas com moderação. Até os próprios autarcas se deixam contagiar por este ambiente pouco exigente. Mas há uma correspondência efectiva e um elogio a fazer em termos de exigência no que se refere à gestão financeira e patrimonial a partir de uma segura gestão corrente.
Permita-se-me um conselho: Quando se vê que muitos autarcas do Norte são chamados a exercer funções no Governo e pouco depois regressam ficamos apreensivos. Será que a gestão autárquica lhes fecha os horizontes, não estão preparados para verem além do seu quintal, da sua paróquia. Andará por aqui provincianismo, parolice, que pecado é este? Tendo Daniel Campelo a ambição de exercer um cargo com uma influência mais vasta, será que seguiria estes exemplos se a oportunidade lhe surgir? Esperemos que não. Um abraço amigo! Até sempre!

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

A nossa difícil relação com o poder – o deslumbramento

A maioria de nós ambiciona ter uma relação fácil com o poder, pouco mais do que isso. Que o poder não seja injusto para nós, que consigamos dizer da nossa justiça quando nos aprouver. Hoje é importante ter voz. Podermos falar ou ter quem fale por nós numa relação transparente e leal. Já não é aquela máxima da “paz e sossego” se lida à letra, mas de certa forma a frase ainda pode servir.
Claro que aqueles que se apropriam de modo fraudulento da nossa representação ou aqueles que a adquirem por métodos legítimos mas a vêm a aproveitar para outros fins, a desrespeitar a nossa vontade, não nos deixam estar sossegados. E há sempre algo que ocorre inesperadamente e nos tira a paz.
Como estamos quase sempre calados, até porque se falássemos todos ao mesmo tempo ninguém se entendia, há quem venha falar por nós e, arrogando-se o estatuto de intérpretes da nossa vontade, diz coisas que nós não diríamos ou fala de uma forma diferente da nossa. Mesmo quando falamos quase sempre não o fazemos no momento e no lugar certo. Mas podemos estar seguros de que alguém se aproveita e falará por nós.
Alguns destes ainda se desculpam, que falam assim por ser a maneira de se fazerem ouvir, que aplicam o exagero ou outra forma específica porque só existem duas opções: Ou ocupam um lugar que está vazio ou reforçam a voz que já ocupou o lugar de onde a voz se ouça melhor. Mas o problema é que não é só esta razão que os move, os seus propósitos são no geral bem diferentes dos nossos. Eles movem-se numa lógica de poder e têm do poder uma noção demasiado lata, mesmo quando se dizem liberais.
Todos nós, os não políticos, gostaríamos que o poder se desenvolvesse só o necessário e amoldado a nós, capaz de satisfazer as nossas necessidades do presente e do futuro. Todos nós gostaríamos de ter algum poder e influenciar o restante, disso não fugimos. Hoje, mesmo que tenhamos tido essa ideia, sabemos que é inglório lutarmos pela anarquia, a anarquia já não é possível num mundo de relações complexas que exigem a submissão a algum poder.
No entanto o nosso problema com o poder não está resolvido. Ele consiste muito em deixarmo-nos deslumbrar pelo poder dos políticos. Eles aparecem nos telejornais, dão entrevistas, fazem declarações e nós ficamos embasbacados. Até pequenos títeres de província, caciques de aldeia, quando têm uns minutos de tempo de antena depressa passam a figuras nacionais e a terem a sua eleição garantida.
A nível dos políticos nacionais este poder mediático imenso está mais repartido entre situação e oposição e dá origem a batalhas mais renhidas que têm o duplo efeito de nos causar repulsa e deslumbramento. A gravidade do problema reside em que isto é sinal de que já perdermos a noção, eu diria mais, ainda não chegamos à noção do que é razoável, do que é ponderado, proporcional, apropriado, aplicável na prática.
Assim admiramos os políticos, as suas excentricidades, as suas arrepiantes vulgaridades. Cobiçamos a sua vida por coisas fúteis, condescendemos com poderes excessivos de figuras pueris a quem entregamos mais facilmente o poder. As figuras mais sérias só nos atraem esporadicamente, que no geral ainda nos suscitam temor. Permitimos que o poder seja usado a propósito e despropósito, que no meio das influências legitimas se disfarçam intuitos desonestos.
Todos nós, os não deslumbrados, gostaríamos de exercer algum poder a propósito e de ter alguma influência legítima sobre outros ao mesmo tempo que aceitaríamos ponderar a opinião dos outros em relação ao que nos coubesse fazer e não dissesse respeito somente a nós mesmos. A colaboração com os outros é o caminho e a partilha o objectivo final a atingir.
Quanto ao deslumbramento, nem sequer sabemos se alguma vez acabará. Mas o grave está em que nem nós próprios podemos ter a certeza de que estamos perfeitamente imunes a esse mal. Haverá algumas noções que nos ajudariam a exercer o poder de uma forma moderada e justa. A mais forte é mesmo a noção de partilha que convertida em sentimento muito ajudaria à convivência humana. Mas não haverá dúvida de que o vazio de poder é um impedimento a essa partilha.
Para exercer o poder é melhor retirá-lo a alguém do que ocupar o vazio. Este é aproveitado pelos mais perversos que o utilizam como justificação não de um poder específico e limitado mas de um poder geral, suficientemente lato para permitir todos os sonhos de poder. Invertendo a questão dá a teoria de “ou nós ou o caos”. Nesta situação o deslumbramento é quase inevitável.
Quando temos consciência de que haverá outras pessoas prontas a exercer o poder com uma eficácia semelhante à nossa, quase automaticamente somos levados a exercê-lo com mais cuidado, de forma mais participada, de modo a suplantar por essa via todos os outros possíveis utilizadores. A democracia só avança se houver um número cada vez maior de pessoas habilitado a exercer o poder e se um maior número tiver uma participação genuína no poder.
A desculpa de muitos, que nos é apresentada a nós e também de certeza a eles próprios, é que as alternativas seriam bem piores do que a sua. Há realmente casos em que as alternativas sobram, no entanto de duvidosa qualidade, mas geralmente escasseiam e é nestes casos que a porta está mais aberta a todos os oportunistas. Porém este facto não dá direito a ninguém de excluir os outros da participação na gestão da coisa pública.
É o querer a exclusividade na gestão que leve muitos a não fomentarem qualquer tipo de participação. Quando a preocupação pela defesa do poder suplanta a preocupação pela sua melhoria permanente e pela sua partilha o resultado é sempre desastroso. A opção adoptada por muitos é a teimosia com recurso a argumentos laterais, o prescindir do aperfeiçoamento próprio, a exclusão do contributo dos outros. O poder torna-se um vício e o deslumbramento é o elemento viciante.

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Seremos ainda uma sociedade conservadora?

Normalmente associa-se o Minho ao conservadorismo, a um atraso atávico, onde não entram ideias modernas, nem inovações. Há um certo erro nesta visão porque, paralelamente à formal, sempre no Minho se desenvolveu uma cultura de transgressão em muitos aspectos do comportamento. O Minho não é uma sociedade imóvel, apática. Só que as referências parecem não ter mudado e a transgressão não significa mais nada além disso mesmo, não representa uma vontade de mudança
Para caracterizar esta sociedade podemos recorrer a um aspecto da vida, um domínio de acção a que se possa atribuir a responsabilidade por todos os outros? Será de atribuir o conservadorismo à religião? Com certeza que a religião está associada a alguns comportamentos de contenção e sobriedade mas que as pessoas assumem também levadas por outros motivos. De certo que quem associa religião a conservadorismo também associa modernidade a excesso, o que é excessivo.
Haverá sempre alguns aspectos da vida que voluntariamente ou não assumem temporária e conjuntural a prevalência sobre outros. Qualquer domínio da actividade humana pode mesmo assumir uma importância desmedida e até alterar certezas tidas por absolutas. As forças e fraquezas próprias surpreendem-nos por vezes. Para sabermos se um domínio da actividade trava ou acelera a mudança exige-se um olhar sobre o que lhe é intrínseco e sobre o exterior hipoteticamente afectado.
O grande travão do desenvolvimento económico tem sido os próprios factores económicos. É a economia que se mostra incapaz de gerir convenientemente as suas insuficiências e os seus excessos. O grande travão do desenvolvimento cultural tem sido a própria cultura que não controla as suas próprias fontes de financiamento. Também o grande travão ao desenvolvimento político democrático são as próprias forças instaladas que condicionam a nossa visão das relações sociais, do ambiente e mesmo das formas de economia possíveis.
Não somos atrasados, entendemos é mal toda a organização social que extravase o domínio da nossa aldeia. O nosso mundo vivencial pode aumentar mas o conhecimento relacional mantém-se. De tal modo que gente que hoje é erudita, cultivada, cosmopolita, mas que tem a sua origem nesta terra, cultiva ainda essa visão estreita que lhe ficou da infância e para não perturbar as relações cá vividas assume, quando cá está, essa forma de comportamento reservado e obsequioso que nos caracteriza.
Tais pessoas são capazes de se baixarem ao nosso nível, embora usando uma visão estereotipada e essa sim ultrapassada, mas nós somos incapazes de nos elevar até eles, de colocar os problemas que eles colocam, porque para nós tudo se resume a uma realidade trivial e a alguns medos que a imprensa nos trás. A nossa visão do mundo desenvolveu-se com muito pouca formação, pouca mais informação e está condicionada pelo passado, pelo presente e pela falta de uma visão esclarecida do futuro.
Tal como o fazem com as aldeias os meios de comunicação social também vão criando e mantendo os seus estereótipos que falam daquilo que se desenrola nas grandes metrópoles, no sexo, na política e nalguns outros sectores mais especializados, mas que em nada nos ajudam a perceber a realidade. Limitamo-nos a ser caixas de ressonância, repetidores de umas vozes mais tonitruantes que por acaso se façam ouvir.
Ter voz própria nunca aqui foi uma ambição particularmente sentida. Há uns loucos que de vez em quando despontam e falam em dissonância com todos. Mas aí o discurso é incoerente e repentista. E como podia deixar de ser assim, como é que se poderiam desenvolver vozes personalizadas e com suficiente ligação à realidade nesta terra de fundos caminhos, altos muros, espessos bosques, culturas exuberantes?
Faltam-nos as grandes planuras, horizontes largos, visões diversificadas? Mas também nós podemos subir a altos miradouros, vislumbrar de lá planícies verdejantes, outros montes mais longínquos, ainda e sempre barrando-nos a paisagem. Só que não podemos permanecer lá tanto tempo quanto queríamos. Temos a beira-mar, essa imensidão líquida de que não nutrimos medo, antes nos atrai sempre. Faltam-nos os barcos para nos fazermos ao mar.
Podemos sonhar, só que os nossos sonhos não coincidem com os sonhos dos outros. Estes, aqueles que têm acesso à largueza da mundividência, têm os seus sonhos construídos noutra base, assentes em pilares de outra flexibilidade, movimentam-se melhor, aspiram a outros céus. A nós até este verde persistente e sombrio nos enche, não deixando espaço para outras cores, para outros odores, é um travão aos nossos sentidos. Somos duros, de cintura firme, de imaginação paralítica.
Não está em causa a beleza do local, a ternura da paisagem, a amenidade da aragem, o vigor que brota do próprio solo. Está em causa a saturação, o excesso, a asfixia, a necessidade de subir ao monte para respirar, evitar a paralisia, o atrofiamento, o definhamento e a necessidade de exercitar a voz. Principalmente exercitar a voz quando as vozes dominantes são monocórdicas. E conservadorismo existe quando isto acontece.

sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Votos contados, vale a pena falar?

Votos contados, não vale a pena falar, dirão os mais cépticos, dirão também os mais arrogantes. Vale sempre a pena falar, diremos nós, porque estamos a falar do homem, do seu modo de encarar a vida, os outros, e porque devemos alertar para o desdém com que alguns inteligentes serão tentados a encarar quem os produziu e para os abusos que alguns serão tentados a cometer sobre os mesmos.
Votos contados, vamos ao trabalho, que não querem ouvir falar mais em votos, dirão os mais fracos, dirão também os mais apressados, desejosos de pôr em prática aquilo que congeminaram à revelia dos eleitores. Vale a pena deixar trabalhar quem tem obrigação disso, mas também vale a pena aproveitar para pensar porque as coisas correram assim e não doutro modo qualquer.
E valerá a pena ser oposição, mas convenhamos que aqui deveríamos ter uma conduta mais comedida. Nas eleições nacionais é comum fazer-se oposição logo a partir do dia seguinte à eleição, sem um balanço feito, sem uma autocrítica, muitas vezes sem ter em conta as consequências dessa posição. Tanto nas locais como nacionais impor-se-ia que um balanço completo fosse feito porque o idealismo político de cada um comporta decerto alternativas mais flexíveis dos que as mostradas durante as campanhas eleitorais.
Porém mesmo quem se propunha trabalhar com os vencedores não pode ou não deve abdicar assim de rompante das suas ideias e passar a partir da derrota a perfilar outras, só porque aparentemente saíram vencedoras. Pelo menos haveria que ver se foram as pessoas ou as ideias que venceram, porque estas só parcelarmente são tidas em conta., e, se uma pessoa está bastante convencida da validade das suas, mais se deve empenhar na sua defesa.
Afinal o que faz as pessoas votarem? O que faz as pessoas mudarem de voto de umas eleições para outras, como acontece tão drasticamente em Ponte de Lima? Será apenas um benefício imediato, nem que seja só um bom relacionamento com os poderosos, que levará tantos milhares de eleitores a redireccionar nas autarquias os votos em relação ao que se praticara nas legislativas?
Mas as pessoas também gostam de se olhar ao espelho e de olhar do mesmo modo o seu grupo, a sua aldeia, a sociedade em que se integram. Será apenas o benefício mediático que levará a entregar a gestão da imagem àqueles que contribuem para projectar a imagem básica do concelho, mas também, reconheça-se, acrescentaram a essa imagem, para o bem e para o mal, algo da sua lavra?
Ou serão tão só as pessoas, umas com que nos identificamos porque elas se identificam connosco, e votamos nelas, e outras com quem não temos ligação, que nos são avessas, indiferentes ou fracamente apelativas e que não merecem o nosso voto? Afinal de que tipo de pessoas gostamos mais, aqueles que se identificam mais com o nosso estado de espírito, ou daqueles que nos dão ânimo para enfrentar o futuro?
Desde finais dos anos oitenta, desde que entramos na Comunidade Europeia e dela começamos a sentir a influência, desde a queda do muro de Berlim, que a política deveria ter deixado de ser vista com o empirismo de outrora. O relacionamento político pode estar enfim a um nível diferente do relacionamento social, inter-pessoal, familiar mesmo. A política pode dar um contributo para a dignificação humana que a própria família, abandonada à sua sorte, é incapaz de dar.
Quem votou neste ou naquele candidato a autarca deve ter para nós a mesma dignidade, mesmo que vejamos que houve factores que influenciaram o sentido do voto, sejam efeitos psicológicos ou materiais, do âmbito da coacção ou do constrangimento, da chantagem ou da sedução. Se houve quem se deixasse “levar” isso só revela a nossa falha política quando nos propomos defender os direitos e a dignidade dos outros.
Afinal o ser indefeso, que pode ser vítima, mas também o abutre pronto a cair sobre a presa, é o princípio e o fim de toda a actividade política. Elevar a dignidade do homem é também colocá-lo em situação de ser elemento de uma relação aberta, leal, igual entre quem é chamado a trabalhar na organização do Estado e quem tem que delegar em alguém as funções que ele próprio não pode ou não quer executar.
Quando há muito poucos a queixarem-se, há, do outro lado, muitos a rejubilar, porque é sempre bom estar do lado dos vencedores. No entanto a liberdade é suficiente para que possamos atribuir culpas próprias aos que se queixam e nenhum valor aos que enaltecem a vitória porque o seu contributo poderá ter sido nulo.
Aqueles que perdem fazem bem em repensar o seu enquadramento e a sua intervenção política nesta sociedade que, não os tendo escolhido, não formula desta forma qualquer juízo explícito de valor. O que não podem é ignorar, querer teimosamente persistir no erro e arrastar as organizações em que se inserem para um abismo permanente. O eleitorado perdoa melhor àqueles que são fracos mas ganham e não perdoa aos que perdem, mesmo sendo um pouco mais fortes. Ou será que só são teimosos?

sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Dados lançados…votos à urna!

Depois das legislativas as eleições autárquicas serão subestimadas, dirão pouco a muitos, só alguns as relevarão, a esses dirão muito mais. O apelo interior ao voto, que cada um de nós sente nestes momentos, será nas autárquicas menor, sem dúvida, o apelo exterior com que a toda a hora nos acometem será nas autárquicas quase sempre maior, a proximidade produz os seus efeitos. O mais relevante do que se espera será que em muitos sítios as opções sejam outras.
São outras as funções a cumprir pelos eleitos autárquicos, outras são as qualidades exigidas, as expectativas criadas são doutra natureza e são estes factores que teremos que analisar e avaliar de modo a tomarmos uma decisão, porque ela nos é imposta. Mas levantar-se-á sempre o problema de como é possível que uns partidos não consigam pessoas de qualidade, disponíveis e empenhadas em exercer funções autárquicas “a tempo inteiro” e para outros parece sobrarem as pessoas e o seu problema é a escolha.
Como é possível que uns que até têm bastantes votos nas legislativas se desunhem para arranjar candidatos que concorram sob a sua bandeira e não os conseguem, senão à última hora, e outros agreguem a si com tanta facilidade pessoas de diferentes origens, prontas a desfilar sob bandeira alheia? Como é possível que uns nem com a preocupação de qualidade consigam as boas graças do eleitorado e outros nem precisem de preocupar com ela porque alberguem sob o seu manto gente de qualidade muito díspar e conseguem o apoio popular?
Essencialmente porque uns aparecem esporadicamente nas campanhas eleitorais, antes delas votam os eleitores ao desdém, depois do desastre enterram a cabeça na areia à espera que o flagelo passe. Para que é que eu me meti nisto, dizem os mais desiludidos pela sua fraca prestação. Má hora a que não resisti à vaidade de aparecer numa lista, dizem aqueles que nunca se deveriam ter metido, por não terem a humildade bastante.
E porque há outros que já ocuparam quase todo o espaço, que conseguem dar a ideia de que há falta de necessidade de haver no terreno outras organizações além das que os próprios controlam, que procuram convencer os outros de que são capazes de conciliar o interesse de todos. Para esses quem surge de forma meteórica não está interessado em defender os interesses de ninguém a não ser de si próprio. Quem procede desta maneira e é portador de tal estado de espírito não vai a lado algum. Vai passar o resto do tempo a olhar para si.
Então será que “ Os dados já estão lançados”? No geral nas autarquias os dados são mais antigos e os votos mais previsíveis. Quase tudo se passa como se o processo de decisão já esteja concluído há muito e como se tudo o que ocorreu depois não seja suficiente para abalar a decisão já tomada. As eleições são periódicas e, sejam quais forem os resultados esperados, deveriam obrigar-nos a uma reflexão mais ou menos longa. Porém a nossa preguiça mental não nos leva a tal, muito menos a reconsiderar votos feitos.
Se formos benevolentes é sempre tempo de dizermos que podemos fazer escolhas, que nem tudo está previamente decidido, que se não nos deixamos condicionar pelos outros também não nos devemos deixar condicionar por nós mesmos, que escolhas antes feitas nos não devem condicionar agora, que tanto nos podemos ter enganado então, como podemos estar enganados hoje. Sermos capazes de recolocar a indecisão e avançar a partir dai para as decisões é uma qualidade e não falta de coerência, como por vezes se diz.
. Quer dizer que o importante é sabermos como tomar as decisões. E neste aspecto o mais importante ainda é o sabermos que o que foi importante, o que pesou há anos pode-se revelar hoje perfeitamente irrisório, assim como podemos estar seguros de que o que nos parece importante hoje se pode revelar amanhã como um conjunto de pormenores ridículos que só foram levados em conta devido ao nosso “agrado” de momento.
Se nós adoptarmos um bom método de tomada de decisões podemos enganar-nos mas não temos razões para nos sentirmos diminuídos. Mas será que nos podemos decidir correctamente se a toda a hora nos surgem novos candidatos, novas caras ou então pessoas que nós conhecemos com outra roupagem? Será legitimo que nós nos deixemos levar por aqueles que já conhecemos há muito, que de algum modo nos acompanham, que de alguma maneira nos ajudam a superar este sentimento ambíguo de orfandade? Ou será melhor entregarmo-nos a um desconhecido, por mais méritos com que o cubram, e por mais convencido que ele esteja que nós o conhecemos?
Ninguém toma decisões sem “pensar”. Se muitas vezes não usamos todo o capital intelectual e tomamos reacções rápidas é porque o ritmo de vida adoptado nos convida a não gastarmos muito tempo a pensar e às tantas convencemo-nos mesmo que já sabemos tudo e decidimos pelo gosto de momento, pelo agrado, pelo mimo que nos é feito. Para os intelectuais o valor das nossas decisões depende da leviandade com que as tomamos, isto é, da maneira como nos deixamos impressionar por leves sentimentos ou por simples emoções de agrado.
Qualquer acusação de manipulação social não tem fundamento. É tão legítimo lutar pela manutenção de um ascendente já conseguido pelo apelo constante àquelas impressões leves, como o é o apelo a sentimentos fortes e cujo deslocamento até é muitas vezes mais do que evidente. Assim as nossas decisões não devem ser contestadas pelo seu valor, mas são os políticos que devem ser realistas e criar os laços que possam ser mais fortes do que os do adversário.
Se nas autarquias um partido tem uma votação interior à votação nas legislativas é porque os seus candidatos locais não têm o valor correspondente ao dos nacionais. Ou tão só não têm a persistência, não se querem submeter à exposição a que todos os políticos estão obrigados. Não se queira que a população veja da mesma forma um meteoro e um satélite geostacionário. Alguns laços ou pelo menos a disponibilidade para os estabelecer são elementos essenciais nas eleições locais. Não chega passar, olhar, andar por aí, nem chega sequer ter boas ideias, é preciso estar de alma e coração cá, com a gente de cá.

sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

Teremos caciquismo em Ponte de Lima?

Veio à luz do dia uma ideia controversa sobre a existência de caciquismo, fenómeno que não é decerto exclusivo nosso, mas que, segundo alguns, adquire em Portugal uma dimensão desmedida. Essa ideia, só pela sua originalidade de referenciar o caciquismo na Madeira, nos Açores e no restante Pais e por excluir Ponte de Lima desse cenário, é uma injustiça que nos leva a abordar este assunto.
O caciquismo provém dos primórdios da política em Portugal quando se digladiavam progressistas e regeneradores em plena Monarquia, continuou com republicanos e democratas na Primeira República, teve um interregno de 48 anos com a ditadura, em que foi substituído pelo controle institucionalizado, e refloresceu com a democracia de Abril, talvez porque os excessos extremistas levaram ao extremar de dois campos, que entretanto se foram movendo e recentrando continuamente.
O caciquismo que existe em Ponte de Lima só se particulariza porque é válido em termos de eleições autárquicas e não tem a mesma expressão nas eleições de âmbito nacional. Casos semelhantes poderão existir noutro local, mas não é a regra genérica no País. O facto de cá haver um tão grande deslocamento de votos só pode resultar de um caciquismo particularmente egoísta, agressivo e persistente. Só o caciquismo pode manter uma tal hegemonia política, consegue impedir a alternância
Aqui não se trata de uma caciquismo global, absorvente, idêntico ao existente na Madeira porque aí é válido para todas as eleições e abrange mesmo outros aspectos não directamente políticos, afecta a vida corrente e todo o relacionamento social. Em Ponte de Lima não vamos tão longe, embora o panorama existente logo após o 25 de Abril não fosse muito distinto daquele que ainda existe na Madeira.
Houve em Ponte de Lima uma evolução que tentou acompanhar aquilo que se desenrolava a nível geral do País. Não está garantido que tenhamos evoluído menos do que os outros. Efectivamente os outros, aqueles que estão afastados de Ponte de Lima há muito ou os que sempre estiveram, têm quando vêm a Ponte de Lima, quando cá se instalam ou mesmo só quando a Ponte de Lima se referem o mesmo comportamento, a mesma forma de estar, as mesmas ideias que cá se propagam.
Então será que estas pessoas também são vítimas do caciquismo, que este tem um braço gigante? E que portanto o caciquismo já hoje se não exerce sorrateiramente, no “porta a porta”, no convívio desportivo, cultural, familiar, no caso extremo no confessionário? Pois teremos concluído que o caciquismo de hoje não prescinde dos velhos métodos, mas tem novos contornos, é uma influência de diferente natureza, exerce-se de forma indirecta, pela comunicação social, pelo acesso aos meios de informação.
Classicamente o caciquismo era exercido por duas forças que se digladiavam no terreno com altos e baixos mas com um certo equilíbrio a prazo. Esse caciquismo clássico não tinha substância intelectual, era uma influência exercida sem convencimento. Era um caciquismo primário que se desenvolvia pelo ascendente adquirido à base do poder económico, com dádivas, apoio e protecção e ponha em confronto dois “senhores”.
Hoje não há tanta ostentação do poder económico, obtém-se aquele ascendente através da ostentação do poder político, do poder de influência, dos bons relacionamentos. Os senhores da autarquia estão sempre presentes e espalham a sua influência, criam a sua rede de ligações. Porém nada mais legítimo se não fora este sistema ser baseado no uso e abuso do poder autárquico o que leva ao fim de um certo tempo a que uma só força política possa exercer o caciquismo, consiga arranjar pessoas que no terreno dêem a cara, exerçam a influência e controlem a situação.
O cacique de hoje tem que intervir no apaziguamento dos conflitos, no encaminhamento das energias dispersas, na criação de um clima de suficiência e satisfação para que se crie a onda, para que a comunicação social a tenha que levar ao seu destino. Este caciquismo moderno pode prescindir do existente na Madeira onde o regime é de maior constrangimento, mesmo de coacção institucional.
Aqui como lá o caciquismo está em permanente actividade, aproveita todas as oportunidades para dizer que existe, mas reconheçamos que cá só aparece para cobrar o pagamento devido nos períodos eleitorais, tem algum pudor em se exercer institucionalmente. A comunicação social facilita a sua vida, encarrega-se de manter viva a chama, mas o caciquismo sabe que não é seguro confiar nela e aqui é que pode haver coação ilegítima.
Se no geral o caciquismo intervém a todos os níveis e em todos os terrenos, mas fundamentalmente ao nível mais básico, actua logo na primeira instância do relacionamento social e aproveita toda e qualquer dependência que possa existir entre as pessoas. Se estas pressões podem ser imorais, só serão ilegítimas se exercidas sobre os meios, como a comunicação social, que devem estar disponíveis a todos os sectores sociais e políticos. De qualquer forma o caciquismo é condenável.
O caciquismo imiscui-se até nos relacionamentos familiares, mas não promove directamente a exclusão a não ser em casos extremos. O caciquismo lava as mãos sobre os efeitos dessa intromissão, não se preocupa que as pessoas, na sua vulnerabilidade, ponham em causa valores que deveriam defender dentro da família, dentro do grupo, na sociedade. Por isso não haverá evolução enquanto na política se não defender a promoção da liberdade, independência, da solidariedade, da partilha.

sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

As Feiras Novas e as noites mal dormidas

Explicar a força da atracção que as Feiras Novas sempre exerceram não é tarefa fácil. Outrora seria pela centralidade, pela existência de um espaço ideal para a Festa, por ocorrerem num tempo que sempre foi de festa, as colheitas. Mas a economia mudou, as pessoas mudaram, os seus gostos são outros, as suas profissões são muito mais variadas, a sua mobilidade é imensamente superior.
Há uns trinta anos para trás a dimensão das Feiras Novas era outra, menor, mas elas não eram vividas menos intensamente. As Feiras Novas instalavam-se, adoptavam o seu ritmo, percorriam um ciclo tradicional, mas sempre revigorado.
Hoje as Feiras Novas visitam-se, há movimentos de vai e vem que se desenrolam por períodos curtos, seja de dia, seja de noite, as pessoas não vivem o ciclo completo das festas, vem ver uma parte ou outra do programa. Quem vem de longe, em particular os mais jovens, mesmo que se instalam perto do recinto das festas acabam por viver as festas duma forma parcelar.
A expansão do espaço das Festas não alterou significativamente as suas características. O Largo, o Passeio, a Avenida, a Alameda e o Areal são ainda o núcleo do espaço festivo. Mas hoje nem sempre se passeia por todo o espaço, escolhe-se a zona em que se vivem as Festas, o programa a que se quer assistir, os amigos com quem se quer estar. Só se tal ainda for possível que as Festas são imprevisíveis e ocasião de novos conhecimentos.
Também se procura a música que mais se aprecia, a tradicional concertina no Largo e Alameda de S. João, as bandas musicais no Largo de Camões, a nova música pela Rampinha Acima. No restante espaço a música confunde-se com o ruído da feira, baralha-se. As pessoas jogam, divertem-se, compra-se e vende-se, marralha-se.
As Festas misturam-se com a Feira, esta outra força atractiva, indissociável das festas anuais. Também esta é uma característica rara e que constitui uma mais valia porque a feira dá vida, entusiasmo e movimento, não falando dos extraordinários valores monetários envolvidos. As Feiras Novas nasceram assim, como feiras anuais, com os festejos próprios de uma qualquer outra Festa.
Preservar esta característica é uma obrigação que se impõe. Só que a gestão do espaço terá que ser mais rigorosa para que a Feira não abafe a Festa. Também a pressão dos estabelecimentos ambulantes de comes e bebes se torna insuportável porque vai condicionar o espaço disponível para a tradicional feira. Limitar as Festas a uma cervejaria imensa e presente em todo o canto e esquina pode ser a sua asfixia.
As Feiras Novas sempre começaram com a chegada dos garranos vindos das serranias circundantes, onde os pastos são propícios à sua manutenção. Se hoje já não vêm em grandes manadas em que os poldros cavalgavam humildemente atrás das suas progenitores, mas vêm agora em camionetas devidamente apetrechadas para o efeito, o espectáculo é diferente, mas o interesse o mesmo.
A manutenção do garrano passa pela defesa do seu habitat e pela sua valorização comercial. Mas o garrano nunca foi, presumo, uma máquina de guerra, um cavalo vistoso para desfiles, um bom fornecedor de carne. O garrano tem que ser defendido com o amor de quem o não valorize por estes aspectos. E uma feira é sempre de uma grande importância na sua defesa e a feira anual de garranos nas Feiras Novas ainda é dos poucos espaços em que o seu comércio se pode fazer. Deve-se-lhe dar outra dignidade.
Depois a feira continua, a festa complementa a feira, como a feira complementa a festa. Afinal todos ficam satisfeitos, quer quem goste do dia, quer quem goste da noite. Mas seria pouco honesto dizermos que concordamos com a evolução que as festas vêm tomando e que se faça dos aspectos mais controversos o seu atractivo principal. Não será mais possível regressar à pureza original, mas decerto será possível limitar os estragos que novos comportamentos e novos aderentes sempre trazem.
Talvez o que pessoalmente mais me desgosta é a perca do encanto da noite. Tudo hoje é mais previsível e servido em doses super. Mas se a noite de hoje tem o esplendor que a noite de outrora não tinha, falta-lhe a originalidade, a espontaneidade dessas noites em que ainda sobrava areal com a sua areia limpa a brilhar à luz da Lua e a que o estourar dos foguetes e as suas artificiosas luzes emprestavam chispas que faziam repentinamente da noite dia e do “sono” de alguém mal dormido uma explosão de alegria para todos.

sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

Fundação Manuel Pimenta, por um futuro mais solidário

Na presença de vários convidados e jornalistas tomaram posse na Casa da Arrifana em Moreira do Lima os orgãos sociais da Fundação Manuel Pimenta cujo lema é ”Por um futuro mais solidário”. Para demonstrar o papel social que cabe a este tipo de fundações usou da palavra Noé Gomes, Presidente do Conselho Fiscal.
Esta Fundação em particular pretende intervir nas áreas da saúde e educação de modo a promover projectos próprios ou a apoiar projectos alheios que se revelem merecedores de tal apoio.
O primeiro projecto a apoiar é desta natureza e far-se-á no âmbito da geminação da Cidade de Viana do Castelo com a Vila do Cacheu, primeira localidade onde os portugueses aportaram na Guiné e durante muitos anos o grande entreposto comercial dos nossos navegantes na costa ocidental de África. Trata-se da construção de uma maternidade anexa ao Centro de Saúde local.
No entanto o primeiro acto formal que envolve a Fundação foi a assinatura de um protocolo de colaboração com a Universidade Lusófona que, integrando a Universidade Lusófona da Guiné, pode colaborar nesta e noutras acções naquele País.
Esta preferência deve-se ao facto do Dr. Manuel Pimenta ter feito o seu serviço militar na Guiné e ter ficado sensibilizado com uma realidade que ele sabe não ter melhorado. Também o nosso conterrâneo Eng. Montenegro Fiúza, sendo o administrador daquela Universidade da Guiné, desempenhou um papel primordial na assinatura deste protocolo.
O Prof. Dr. Manuel Damásio, Reitor da Universidade Lusófona enalteceu esta acção da Fundação Manuel Pimenta e realçou a necessidade, a determinação, a certeza do êxito de todas as iniciativas que visem retirar do atraso parte significativa do mundo lusófono que ainda vive problemas dramáticos.
Conseguir dar dignidade a todos, elevar os índices culturais e científicos, dar projecção à lusofonia no mundo são também objectivos que norteiam a acção da Universidade Lusófona e para esta todas as colaborações são importantes e bem vindas.
Manuel Pimenta realçou que a sua iniciativa de criação da Fundação, tendo sido pessoal, teve o pleno apoio dos seus dois filhos que se irmanaram no mesmo espírito solidário. Vincou que a Fundação se não destina a obter reconhecimentos mas visa atingir os objectivos traçados dentro das suas possibilidades, tão só para cumprir a função social da empresa que dirige.

Falta-nos um autarca-modelo

Não se pode caminhar para uma autarquia às cegas, acreditando que se vai ter todo o poder do mundo porque os senhores que lá estão dão mostras disso. Como não há nada mais errado, como muitos desses poderes são fictícios, exercidos à margem da Lei, ou não são mais do que ameaças, convém saber dos verdadeiros poderes que as autarquias, e não as pessoas particularmente, devem exercer. Não falando do simples ascendente que tais pessoas adquirem, que não sendo ilegal, não nos deve condicionar.
Quando se luta pela direcção de uma autarquia local, além de que se deve saber para que se luta, e esse é um aspecto pessoal, é essencial que se saiba pelo que se luta. Por exemplo é bom que se saiba em que medida a autarquia é poder, se este é próprio ou delegado ou se há simplesmente uma representação. Também quando há poder delegado convém saber quem tem mais peso nessa delegação de poderes, se é quem está acima, outra autarquia, o governo ou é quem está abaixo, outras autarquias, a população.
No geral a população só escolhe representantes, que vão permanecer como tais ou que vão colher poderes provenientes doutras instâncias. Em qualquer caso os candidatos têm que enquadrar os seus objectivos dentro do conteúdo funcional do órgão para que se propõe. Funcionando nós no quadro duma república gestora de um Estado que se quer democrático, devemos saber que a soberania reside em ultima instancia no Povo e é por este delegada em orgãos nacionais.
No global é o Governo o depositário da parte mais significativa dos poderes soberanos e em particular do poder executivo, não prescinde deles, simplesmente os delega, lhes fixa claramente os limites quando os atribui às autarquias. Doutra maneira não poderia ser porque só assim assegura a unidade do Estado.
Há no entanto quem extravase das competências delegadas das autarquias e pretenda fazer vingar uma visão do poder em sentido inverso, partindo da base para o topo, elevando à categoria de poder soberano a sua capacidade de representação. Esta visão do poder em cascata em sentido ascendente é própria de quem está a lutar para fazer das autarquias um trampolim para outros voos, para alcançar poderes mais vastos ou simplesmente para reforçar o poder da sua força politica a nível geral.
Concomitantemente com esta pretensão de muitos autarcas há uma questão de estilo, há uma tendência pessoal para o exagero como também para a vaidade e cada vez menos para a modéstia. Muitos autarcas vão aproveitando a sua experiência para ir aplicando o seu estilo pessoal, para dar asas à sua imaginação, ao seu ego. Poucos autarcas irão aperfeiçoando o seu estilo de modo a fazê-lo corresponder a um perfil sóbrio e adequado à função.
A exuberância de muitos autarcas é utilizada para esconder muita da incompetência, da incapacidade para ponderar as decisões, da falta de sensatez para avaliar opções decisivas. Se os eleitores tivessem uma noção mais precisa do que se deve pedir a um autarca, se houvesse uma espécie de autarca-modelo que servisse para aferir as condições dos candidatos para exercer as suas funções, se estes candidatos tivessem um guia a seguir tudo seria mais fácil.
Infelizmente aqueles que foram apresentados por autarcas-modelo são dos piores exemplos que existem nas nossas autarquias. Mas isto devesse à maneira como eles foram referenciados, utilizando o seu mediatismo como factor principal que os alcandorou a esse título. Desacreditados esses, ficamos órfãos, todos passaram a ser considerados no patamar dos corruptos ou daqueles que pouco falta para lá estarem. O autarca de hoje tem que provar não ser corrupto, o que é tarefa difícil face à atmosfera nebulosa que os rodeia.
No fundo todos estamos à espera de varrer os dinossauros que proliferam nas autarquias, o que só vai ocorrer daqui a quatro anos, para que se possa abrir uma nova fase na democracia autárquica. É que estes que lá estão, além de todos os defeitos que foram agregando a si, são hipersensíveis a qualquer referência que se faça, a qualquer dúvida que se levante, fazendo da dúvida uma suspeita e da suspeita uma condenação.
Tem que haver uma esperança, mas a simples renovação não garante que as coisas passem a funcionar dentro de parâmetros aceitáveis em que a honorabilidade das pessoas não esteja permanentemente em causa. A vaidade, a ganância, a sofreguidão também residem nos mais novos. Mas o aumento efectivo das nossas expectativas será uma forma de responsabilizar os autarcas e de estes sentirem que lhes é exigido uma outra postura e um mais rigoroso cumprimento das obrigações a que se impõe.
Por sua vez, também as alterações legislativas dificilmente serão de molde a garantir a detecção atempada, o castigo exemplar, o banimento da actividade autárquica de quem se não mostrar digno da confiança dos eleitores. Perante o descrédito da aplicação da justiça temos de confiar preferencialmente na pressão social, no aumento do peso da sociedade, numa cultura de informação e de preparação atempada de alternativas.

sexta-feira, 4 de Setembro de 2009

Porque são diferentes as eleições autárquicas?

A maioria de nós não está vinculado a qualquer partido político mas poucos lhes serão manifestamente indiferentes. Haverá também alguns equidistantes em relação a dois dos partidos mais significativos, mas não em relação a todos. Quase todos nós temos a tendência para em cada momento “cairmos” mais para o lado de um do que para o lado de outro ou dos outros. No fundo para estarmos mais à esquerda ou mais à direita.
Mesmo aqueles que estão vinculados ou têm uma ligação forte a um partido político o terão atraiçoado seja em eleição presidencial, legislativa, autárquica e desde há uns anos nas eleições europeias. Mas é nas autárquicas que se encontra o terreno de eleição para essas democráticas traições. As autárquicas contribuem muito para isso porque aqui o histórico pesa muito mais e até quem está no poder a nível nacional tem muitas vezes dificuldade em conseguir candidatos autárquicos a condizer. A qualidade deixa muito a desejar e convida à traição.
É uma verdade comummente aceite que as eleições autárquicas se perdem, não se ganham. Quer dizer que as eleições se resolvem por arrastamento, quem ganhou uma vez dificilmente não repete a proeza. Quando alguém sai dum partido e muda para outro para concorrer ao mesmo cargo arrasta atrás de si uma legião de seguidores e quase sempre consegue ser eleito. Quem se mantém não precisa de revelar grandes dotes. O que está vale sempre mais do que se propõe vir.
A procura de razão para estes factos leva a pensar que há ocasiões em que os eleitores não gostam de apostar no desconhecido que é sempre quem não tem experiência autárquica do mesmo tipo. O eleitor odeia a descontinuidade salvo se se sentir directamente atingido ou ofendido. Por isso a traição do nosso eleito é tolerada mesmo que nos obrigue a votar num partido diferente e é bem vista se nos permite votar ao mesmo tempo na mesma pessoa e no partido do nosso agrado. Já hoje ninguém se sente constrangido a não fazer trair.
Afinal os partidos não são parte credível nesta questão, as suas indicações são sempre colocadas sob suspeição. Embora todas estas razões possam estar na mente do eleitor, no momento de votar parece haver uma ou mais razões mais profundas para que isto aconteça desta maneira. Uma razão imediata é a cobertura mediática que é dada e o facto de que o ela ser positiva ou negativa é indiferente, ela acaba por proporcionar um saldo positivo a quem dela beneficia.
Outra razão mais longínqua será a manutenção de uma maneira própria de ver o poder local, já não de proximidade ou de afastamento, mas de indiferença próxima. Por mais cordata que seja a população sempre houve ocasiões em que enfrentamos e afrontamos o poder. Mas para nos levantarmos contra o poder local é preciso um motivo muito forte. Mesmo quando o poder local era exercido sob mandato do poder central não era aquele que sofria os efeitos da nossa oposição.
Quando o poder local passou a ser eleito houve de tudo um pouco nas escolhas que os partidos fizeram e que o eleitorado sufragou. Fora alguns equívocos resolvidos nas eleições seguintes, as mudanças verificaram-se depois disso mais por desistência do que por derrota. E esta só ocorreu por evidente falta de jeito demonstrado num mandato infeliz. O crivo para ver a competência autárquica é mais grosso, não é comparável ao usado para a escolha do governo. Há mesmo muita leviandade no eleitorado autárquico.
A entrada em cena de algumas figuras mediáticas viria alterar um pouco a forma de eleição nos grandes centros urbanos onde também o voto político mais se faz sentir. Nos outros locais é o mediatismo que tem reforçado o poder dos que já estão no terreno. Entre pequenas realizações e grandes obras tudo é aproveitado para ter algum tempo de exposição pública que extravase o território. A fama sentida pelos de fora vale mais do que a sentida pelos da casa. Um autarca “querido” do País nunca é traído pela sua população.
Se o eleitorado vê com alguma leviandade a escolha dos autarcas já os interessados não brincam. A luta mais eficaz é subterrânea. Interessa obter apoio seja qual for o método, aliciamento, coacção, sedução. O cerco vai-se apertando sobre Juntas, associações e particulares. Qualquer pretexto é utilizado, agravando-se o método à medida da relutância, com coação moral e económica, com discriminações positivas e negativas, usando os poderes autárquicos de modo arbitrário e pessoal.
Aqueles que se deixam coagir a qualquer título porque disso tiram benefício pessoal ou relacional, económico ou outro, arrastam atrás de si muitos que apostam em manter a mesma cobertura e não vêm razão para mudar. Oferece-se protecção utilizando hierarquias sociais já estabelecidas, lideranças formais e informais e aceita-se protecção que não altere substancialmente o relacionamento normal com o meio social. Os eleitores não se querem chatear muito.
As hierarquias estabelecidas não aceitam com naturalidade lideranças informais. No entanto não tardam a tentar integrá-las sob o seu abrigo protector. A rejeição absoluta quase não existe, existe sim uma tentativa permanente de corrosão e corrupção moral que desvaloriza a ideologia e arrebanha os incautos. No poder local a ideologia funciona pouco e à medida que os mandatos se prolongam cada vez menos influência têm. Porque temos uma relação diferente com ele não vemos no autarca o político nacional do mesmo partido que odiamos, mas no geral ele é mesmo igual, às vezes pior, depende da sua heterodoxia.
Nas escolhas autárquicas os sentimentos ditos pessoais, sem serem provenientes de qualquer aprofundamento de relações realmente pessoais, contam imenso. Quem está no poder, desde que aberto a esse tipo de relações de falsa proximidade, tem uma evidente vantagem. A maioria das pessoas, se diz preferir uma pessoa dura, não dialogante, daquelas de pôr tudo na “ordem”, só aceita essa dureza para os outros, de resto vota preferencialmente em quem for mais permissivo, quem prometa defendê-lo directamente ou por entreposta pessoa.

sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

Já pensou em quem votar nas autárquicas?

As forças políticas distinguem-se por objectivos, práticas, organização, afectação de novos membros, etc. A conduta dos partidos num dado momento depende de tudo isto, neste factores encontra-se a justificação para muito do que acontece, por exemplo na escolha dos candidatos aos orgãos do poder local.
O Partido Comunista renova-se fechando-se e procurando nos seus membros novas escolhas e velhas confirmações. Os mais pessimistas dirão que estagnou, os outros dirão que está numa atitude defensiva, de aposta na estabilidade. Aos candidatos interessa manter a chama.
O Bloco de Esquerda com uma votação superior nas europeias, mas com uma organização incipiente quedou-se nas boxes. Pouco vocacionado para o poder local, mas atraindo a juventude, caber-lhe-ia o papel de manter um bom extracto da população integrado na luta política. A abertura da juventude, a dispensa das subserviências que campeiam nos outros partidos, criaria uma outra perspectiva de olhar a vida pública.
Também o Partido Socialista falhou na organização. Este partido tem-na não a tendo. Porque a organização também serve para perpetuar erros, para prolongar inércias, para tornar a apatia uma falsa base da estabilidade. É uma organização fechada, endogámica, em que os membros alternam entre períodos de nojo e períodos de um activismo que porém não ultrapassa a pesca à linha.
Ou há peixe na linha ou novo período de nojo vem aí. Vivem angustiados por estarem num partido vitima da chacota quando está no poder e de excessivas expectativas quando na oposição. Não cultivam o emblema do partido, a solidariedade, e amaldiçoam a sua ingratidão, como se tivesse de lhes dar tudo.
Irrelevante para a captação de votos para o todo nacional, quem vota no partido fá-lo à revelia da estrutura local. Porque não tem sido útil ao poder local tem sido vítima do voto útil nas guerras locais passadas entre o CDS e o PSD e perspectiva vir a sê-lo na luta que se avizinha.
As perspectivas de renovação são nulas sejam a nível interno sejam pela captação de novos membros. Decerto que os membros locais vão um dia atribuir a culpa à pouca importância que o José Sócrates tem dado às estruturas partidárias mas é tão só revelador do vazio de ideias, do conformismo, do imobilismo. O PS local é um deserto com umas “estrelas cadentes” a luzir lá dentro, de que se não conhece uma ideia e que tudo devem ao PS nacional.
O PSD local é o paradigma da instabilidade permanente. Bem implantado na classe mercantil, no funcionalismo, no meio agrícola tem sempre gente activa, dentro e fora do partido, com a camisola bem agarrada ao corpo, pese embora o desconsolo dos mais clubistas que só celebram vitórias longínquas. A maioria dos seus membros bole muito mas é politicamente amorfa e sem valor.
Votam maioritariamente no PSD nacional mas a nível local, quando têm perspectivas de se alcandorarem ao poder todos se aliam contra eles. Traições também lhes não faltam. Até neste momento, uma ocasião única para apelar às suas hostes no sentido de se unirem à volta de uma candidatura inovadora, a traição continua a corroer o ânimo dos seus adeptos.
Nunca repetiu uma candidatura em duas eleições sucessivas e viu falhada a sua tentativa de pescar na casa do vizinho CDS há vinte anos atrás no auge da arrogância cavaquista. Tem uma história triste de sucessivos líderes perdedores e de eminências pardas sempre presentes, mas ausentes para assumir as derrotas. Tem uma história triste nas gestões partilhadas com o CDS em diferentes ocasiões, com a AD ou sem a AD, formal ou informalmente.
No último mandato foi colaboração no Executivo camarário, oposição na Assembleia Municipal, manifestando o exemplo típico de uma liderança bicéfala. O actual líder será a esperança de pôr termo a esta situação pela ausência aparente de compromissos com os velhos lobbies herdeiros do carrascão e do chã das cinco. Chegar-lhe-ia os votos sociais-democratas para ganhar, pelo que terá que saber vestir a camisola e apelar à quebra da subserviência que muitos dos seus correligionários ainda têm perante as forças retrógradas, ruralistas, paternalistas e castradoras que o CDS representa.
Este CDS local já não tem qualquer semelhança com o nacional nem com o que localmente lhe esteve na origem. Resistiu à arrogância cavaquista, solidificou-se numa heterodoxia original e de índole pessoal. O CDS aproveitou as divergências alheias, congregou voto de esquerda com voto de direita tradicional e a partir de Daniel Campelo aproveitou o mediatismo, mesmo que patético, de lutas perdidas e outras de duvidoso ganho.
O actual candidato geriu bem o seu perfil de escudeiro, numa corte em que os papéis estavam bem definidos com peões de brega, bobos da corte e outros cargos menores. A sua tentativa de passagem a chefe da orquestra manifesta-se muito difícil. Aparentemente, maugrado as lutas intestinas, os indefectíveis parecem permanecer firmes na defesa da fortaleza, as muralhas não aparentam um desmoronar eminente.
A adesão a este projecto que seria chamado a gerir o espólio do deslumbramento final de Daniel Campelo, os ímpetos napoleónicos do resistente Gaspar Martins, é uma incógnita. No fundo quem nele acreditar é porque acha que Daniel Campelo continuará como a eminência parda a dar coesão a uma equipa disforme, desconexa e sem outro cimento que não o oportunismo de querer navegar num barco vencedor. A pureza ideológica não levaria o CDS a lugar nenhum e com Daniel Campelo uma certa heterodoxia funcionou. Mas tal deve-se à sua liderança natural, a erros alheios e a um outro conjunto de circunstâncias exteriores favoráveis.
Para manter a sigla, o CDS tradicional continuou a abdicar da sua afirmação. Na prática o executivo de Daniel Campelo sempre se manifestou mais favorável às políticas socialistas do que a quaisquer outras. Poder-se-ia ver aí aquela democracia cristã que a nível europeu deu origem, numa estreita aliança com os partidos socialistas, à Europa Comunitária. Mas haverá uma doutrina que sobreviva a Campelo? Não virá ao de cima o que é mais próprio de cada elemento desta controversa equipa? É caso para eles próprios estarem apreensivos.

sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

A luta do amor contra a indiferença e o ódio

Numa visão optimista do mundo podemos partir do princípio de que todos aceitamos que cada um de nós seja uma força difusora de amor pelo mundo no pressuposto de que o amor é o sentimento mais belo e que na sua plena vivência corresponderá ao estado de perfeição da humanidade. Quem faz apelos nesse sentido decerto que também o “sente” e que o faz com sinceridade. Mas não estamos livres de muitos, na ocasião em que o fazem, o estarem a fazer com cinismo. E não haverá pessoas avessas ao amor?
Não falta quem pense ser livre de fazer o que quer, desde ser indiferente a espalhar o ódio. Melhor será então ser pessimista quanto à nossa natureza. Pelo menos devemos estar precavidos contra os comportamentos dúbios das pessoas sem que nos deixemos arrastar pela suspeita permanente. No entanto, se todos reconhecemos que estamos muito longe de ser exemplo de virtude, achamos poder contribuir para que quem puder viva mais o amor.
Uma manifestação de amor é também conseguir compreender os outros e desculpabilizá-los se for caso disso. Em primeiro não podemos duvidar da sinceridade de quem faz apelos ao, pese embora não deixem na sua vida prática de contribuir para a incompreensão, para litígios pessoais e colectivos, para que se difundam sentimentos como o ódio. Digamos que, nos intervalos dos momentos em que os corações se abrem, sobra muito tempo para a destilação do fel. A contradição da vida é que nem sempre a vontade chega para seguirmos um caminho mais perfeito. Todos nos podemos interrogar onde, se não é em nós, residirá a fonte de tanto mal.
Algum defeito original ou o resultado da acumulação de sucessos negativos no passado? Se potencialmente possuímos tanto amor porque fazemos tão pouso uso dele? Porque nos esquecemos e nos deixamos levar num enredo do quem não conhecemos o início e o fim? Porque tão poucas coisas dão certas e as que dão tudo fazemos para não acreditar nelas? Porquê a nossa dualidade? Questões que são quase todas suficientemente óbvias para obter respostas triviais.
Nós acumulamos ressentimentos, quando não ódios e é isso que nos torna indisponíveis para um amor constante. Como é natural preocupamos mais com aquilo que rejeitamos do que com o que nos agrada. Damos mais importância aos inimigos que aos amigos. Temo-los em conta para os vencer e não para os melhorar. Pouco nos preocupamos em apaziguar o ódio que campeia. É muito mais fácil pôr o nosso ódio em cima do alheio.
O amor que podemos estar prontos a dar será em estado puro? Encontrá-lo assim será improvável. É na vida que aprendemos o amor nos seus fundamentos mas depressa o relativizamos. No enredo em que a nossa vida particular se torna o amor pode ter muitas facetas, ter dado origem a muitos outros sentimentos, apresentar-se adulterado e já irreconhecível. Se identificarmos amor com inocência é sempre em estado imperfeito que dele tomamos conhecimento.
Normalmente as pessoas só reconhecem o amor pessoal quando encontram afinidades em alguém, com um ser igualmente imperfeito. Não podemos partir desse amor para definirmos o amor universal. Este não é, não pode ser, nem será jamais o somatório dos amores individuais. A possibilidade de cada um de nós partilhar um pouco desse amor universal é uma convicção essencial para nós. Mas que passa pela partilha, pela exposição à vida e não pelo fecho numa redoma de auto-suficiência e auto-convencimento.
A partilha exige pelo menos duas partes que tenham em comum sinceridade, respeito, lealdade, todos aqueles valores que são capazes de colocarem numa relação uma empatia que afaste o abuso, o equívoco, a chantagem emocional ou qualquer outra. O amor só existirá se não quisermos ser desconhecidos nem impormos uma imagem preferencial e se o desconhecido se não queira acobertar sob um das várias imagens que normalmente utiliza para se defender dos outros desconhecidos.
Por mais boa vontade implícita nas nossas declarações de sinceridade temos por hábito compor várias imagens para utilizar em situações específicas. Uma pode ter pormenores que estraguem outra. Cada uma pode comportar diferentes doses de indiferença ao amor ou de ódio. O amor só furará a muralha da indiferença e atenuará o ódio se soubermos a maneira como este se formou e se desenvolveu e se soubermos como se chegou a tanta insensibilidade.
Aquele que manifestam muito amor mais disso se convencem e mais convencidos ficam de que há imensa gente pronta a ouvi-los. No entanto de nada serve se as pessoas ouvirem mas não estiverem sintonizadas. Há formas de abordagem perfeitamente incompatíveis. Às diferentes experiências acresce o facto das relações de poder perturbarem toda a percepção.
Todas as relações sociais nos impõem, com maior ou menor agrado nosso, limitações que nos tornam frios e calculistas. Outrora à partida nós já estamos precavidos que as questões sociais eram colocadas num pé desnivelado e que isso tornava não iguais as emoções e sentimentos das diferentes partes envolvidas. Hoje, se no aspecto formal estamos ao mesmo nível dos outros, há uma muito maior incompatibilidade entre as pessoas. Não é fácil o caminho do amor.
Qualquer manifestação de amor só é eficaz se obtiver reconhecimento. Este sempre esteve ligado ao cumprimento de certas regras sociais. Na literatura o reconhecimento era obtido pela posição inversa de não cumprimento de um número determinado de regras, pela transgressão à norma. Não sendo já hoje necessariamente assim, estamos no entanto prisioneiros das nossas emoções e sentimentos que se podem revelar oportunos ou inoportunos e surpreender-nos.Hoje impõem-se-nos respostas rápidas e até contundentes às emoções e sentimentos que vimos transparecer nos outros. Não temos tempo para analisar os seus propósitos mais imediatos e os mais íntimos, destrinçar os seus aspectos pessoais e colectivos. O amor, que tanta falta faz à humanidade, pode ser utilizado como método e não ser um fim em si. Esta situação é criadora de imensos equívocos e enganos.

sexta-feira, 14 de Agosto de 2009

A nossa relação fácil com o poder – o cinismo

O cinismo social recorre a muitos princípios para se justificar e, claro, usa-os cinicamente. Há muitas pessoas que têm um comportamento normal em muitos aspectos da sua vida, mas agem cinicamente num ou em alguns. A pessoa experimentada prepara-se para não ser surpreendida, mas quase sempre o é porque é da natureza do cinismo ser tão bem disfarçado que é imprevisível.
O cinismo descobre-se muito no jogo, mas também em todos os aspectos da vida que as pessoas consideram como tal e em especial na política convertida assim num jogo de sorte e azar. O cinismo não é uma particularidade dos poderosos, mas sim daqueles que, à sua medida, se consideram como tal. Mas para todos os efeitos, pelo mediatismo que o comportamento dos políticos assume, será suficiente que nos debrucemos sobre o particular cinismo destes.
Para o político a primeira nota é negar que o cinismo exista em si e a segunda é negar igualmente que a sua actividade tenha alguma coisa a ver com um jogo. Mas a verdade é que por mais sublimes que sejam os seus princípios, por mais alheados que queiram ser do que se passa no dia a dia, os políticos não podem andar sempre só por aí e alguma vez mergulham nessa estranha vida de batalhas permanentes em que o seu carácter é posto em causa.
Para o cínico tudo é permitido desde que não ultrapasse o limite daquilo que se entende por razoável. Dir-se-á que afinal toda a gente assim pensa, mas não é verdade. Só o cínico consegue andar naqueles limites, não do que é legal, não do que é legítimo, mas sim daquilo que na sua opinião é razoável ser feito, seja qual for a natureza do acto que possamos ter em vista.
O cínico não convive bem com a arbitrariedade, necessita que haja uma legalidade para os mais fracos, uma legitimidade para os medíocres e uma razoabilidade para os fortes. O cínico está preparado para jogar com os mais fortes dos seus pares e para confiar no julgamento social. O cínico não é um marginal embora a fronteira entre o razoável e o marginal seja muitas vezes controversa.
O cínico acredita sempre ter armas mais poderosas do que os seus adversários e em saber usá-las nos momentos adequados. O cínico sabe que pode usar alguns truques, uns golpes baixos mesmo, muita simulação e uma imensa falta de vergonha. São armas que também não são estranhas aos seus pares. Já se os fracos e os medíocres se atrevem a medir forças com ele, o cínico nem puxa de todo o seu arsenal, aí dá um ar de superioridade e desdém
O cínico também sabe que os seus pares vão ganhando uma tolerância ao despropósito, à provocação, ao embuste. A antecipação e a surpresa são quase sempre as armas mais eficazes. O cínico sabe que entre vitória e derrota a margem é pequena e a diferença pode estar no momento de terminar o jogo. A arbitragem pode ser decisiva mas, caso não exista, terá que ser ele a ter artes para acabar o jogo abruptamente, levá-lo para um beco sem saída, reduzir o jogo a uma simples escolha entre o “Sim” e o “Não”.
O cínico atropela todas as regras, invoca o singular para provar o geral e invoca o geral para desculpabilizar o singular. Para o cínico cada vez é menor a distância entre a verdade, a meia verdade e a mentira. O cínico recorre á mentira se vê que os outros jogadores têm dificuldade em puxar de mais argumentos que defendam a verdade. O cínico insiste mesmo nas pias mentiras, tidas por verdades até certo momento, que agora já são mentiras provadas mas que ele acha poder reafirmar como “verdades” que não prejudicam alguém.
No confronto o cínico entende que se deve aplicar o princípio da proporcionalidade, ninguém deve reagir excedendo de modo grosseiro a força do ataque de que tenha sido alvo. Então quando ataca tenta suavizar os aspectos mais gravosos, mas de modo a que o ataque seja suficientemente provocatório para que a reacção seja entendida por excessiva e portanto reprovável. Já quando se defende tenta provar que o adversário ultrapassou os limites do razoável de maneira que o julgamento social o beneficie.
Para o cínico tudo se passa a nível de uma dialéctica verbal em que a semelhança com a realidade é pura coincidência. Para o cínico o mais importante é o julgamento social e portanto procura influenciar este, manipulando directamente os agentes da comunicação social, mas também jogando com as oportunidades, gerando silêncios e dramatizações, agrupando alianças tácticas e conjunturais, simulando a comunhão de sentimentos alheios.
O cínico movimenta-se bem na oralidade, dispensando a escrita sempre que pode. O cínico sabe que a sonoridade e a expressão são decisivas na comunicação e podem transmitir uma forma de atractividade ou repulsa que na escrita se não consegue fazer transparecer facilmente. Além disso a escrita tem a solidez que lhe não agrada, tem exigências de pormenor que na economia do seu tempo não tem lugar, tem mais probabilidades de chegar a lugares e a tempos incómodos para si.
O cínico distribui sorrisos por aliados e adversários, sem deixar de buscar um ambiente ameno para o confronto, é implacável neste, quando se não tem que confrontar ou simplesmente enfrentar alguém procura o maior distanciamento possível, podendo simular uma proximidade que dispensa. O cínico tem aversão ao tempo perdido e todo o contacto sem propósito definido não faz sentido para si.
Ao cínico interessa acima de tudo o efeito imediato, a sensação provocada no instante, mas também o acréscimo de aura que possa produzir. Do seu gosto pelo poder quando o detém resulta o seu desdém por ele quando ele não é seu. Na sua opinião só ele dá brilho ao poder, o torna suportável pelos outros. Quando o não detém considera-o intolerável. Ataca-o por todas as frentes, por estar demasiado presente e demasiado ausente, por ser brando e por ser excessivo, por ser demasiado formal e por ser inseguro.
O cínico tem uma relação fácil com o poder. Procura que este se desenvolva só o necessário para si, nesse sentido é um bom par. O problema é que quer que o poder seja amoldado à sua idiossincrasia. Todos nós gostaríamos de ter algum poder e influenciar o restante. É isso que nós admiramos e cobiçamos nos políticos porque adquirem algum poder, exercem-no a propósito e despropositadamente e influenciam outros legítima e desonestamente. O cínico dificulta a nossa relação com o poder para que tudo passe por ele.

sexta-feira, 7 de Agosto de 2009

A nossa difícil relação com o poder – o cepticismo

O cepticismo mais inicial, que já se demarca da confiança mas ainda se não consolidou, confunde-se com a suspeita, a desconfiança. O cepticismo saudável está para além da dúvida metódica e aquém da dúvida sistemática. O cepticismo mais acirrado deriva do sentimento de traição e fica a um passo da desconfiança absoluta. O cepticismo, sendo um sentimento que não resulta em entusiasmo mas em desilusão, se não descambar para a aversão, permite-nos a consideração da realidade mais a frio, a sua análise mais profunda.
O cepticismo em política manifesta-se em relação à capacidade e à vontade efectiva de pôr em prática uma dada política. Mas o que hoje está mais em voga é um cepticismo radical que põe em causa a possibilidade que alguma política venha um dia a corresponder àquilo que achamos ideal, razoável ou até simplesmente praticável. Este tipo de cepticismo também não se constitui normalmente para ser satisfeito porque, começando por exigir pouco, vai alargando as suas pretensões.
O cepticismo alimenta-se com a incoerência e a mentira, por mais ténues que sejam essas razões. O céptico por ausência de método aplica à realidade um carácter redutor que dificulta a descoberta das suas razões. Quando assume carácter doentio o cepticismo alimenta-se a si próprio numa obsessão permanente pelo precipício que separa sempre a realidade das suas exigências. Este cepticismo pode assumir um carácter retórico que disfarça muitas vezes uma oposição sistemática que pode transladar-se para o ódio.
O cepticismo pode converter-se num sentimento de revolta pouco solidário, que não resiste ao radicalismo verbal. O radicalismo não ajuda àqueles que manifestam o seu cepticismo depois de todos os esforços para serem razoáveis. O cepticismo até pode ser o resultante do cansaço, e levar a que se lhe não atribua qualquer esforço pessoal para o ultrapassar. Mas quem é escrupuloso, quer ter ideais, pode ser céptico mas não se pode deixar contaminar por doenças de carácter crónico.
O céptico radical tem uma aversão preconceituosa e sem fundamento e encontra sempre incoerências internas e mentiras no discurso alheio. O optimismo incomoda-o. Para ele quem lança nefastas ondas de optimismo nunca têm qualquer razão. Tenta promover e generalizar a ausência de confiança nas pessoas e no futuro. Se as pessoas são o que são, sem empenho em que o futuro seja diferente, com cépticos destes estamos tramados.
Muitas pessoas fazem do cepticismo uma estratégia de combate que visa aproximar a realidade do discurso. A ideia de que não devemos manifestar a nossa confiança em ninguém está por de mais generalizada. Tal deriva do facto de escassearem outros meios de intervenção. Os partidos são estruturas fechadas, a imprensa só reflecte a realidade pelo lado do espectáculo, os sindicatos são correias de transmissão, nos clubes faz-se tudo menos reflexão, na blogosfera vomita-se asco na sua asserção mais virulenta.
As pessoas agravam o seu cepticismo à medida que mais se isolam. Esse isolamento não se desvanece com os comentários anónimos na blogosfera. Esta forma de desabafo, que está longe de ser exclusiva dos cépticos, corresponde a uma diminuição da tensão, é uma descarga emocional, mas ela própria viciadora. Se o céptico tem no geral um comportamento mais passivo, quem adere a esta forma de intervenção pode passar a nutrir um sentimento mais activo de desforço de eventuais, hipotéticas derrotas. O céptico não pode ser o eterno derrotado.
Sem suficientes pessoas em quem confiemos, sem suficientes pessoas que possam expressar as nossas ideias, sem poder de intervenção a nível da sociedade e muitos menos a níveis razoáveis de poder, o cepticismo está demasiado perto. Caímos com uma facilidade imensa na procura dos defeitos alheios, não estando decerto alheios aos nossos, mas esquecendo-os, que também é isso que se pretende. Outra tentação dos mais cépticos é fixarem uma verdade de que não têm dúvidas.
A fixação numa verdade quando o mundo é tão deslizante é necessária para efeitos práticos, para servir de referências a propostas que se fazem, para ciclicamente aferirmos a sua pertinência e a necessidade de actualização. No jogo de forças que se estabelece com os outros o que tem uma fixação mais forte, se não tiver escrúpulos, vence por regra. A realidade, encarregando-se de desfazer as dúvidas, quantas vezes chega tarde de mais. Há erros que se acumulam sobre erros e pessoas certas que perdem sistematicamente.
Os cépticos com uma fixação forte, com tantas certezas são falsos cépticos, são cínicos. Numa conversa mole que se estabelece no meio social estas situações são comuns e desgastantes para quem quer dar alguma seriedade a qualquer discussão. O escrúpulo não cabe em certos meios.
Há muitas pessoas que nos desiludam, mas essas estão para além do cepticismo. Este, como fenómeno social deriva de uma incapacidade global, de uma descrença nas forças sociais existentes no momento. Não é uma incoerência individual, uma mentira em que alguém incorre, que altera a direcção, o vigor de um movimento colectivo. O cepticismo tem esse vigor, mas o militante extravasa em muito a sua importância e confunde o pessoal com o colectivo.
O céptico escrupuloso não é e sabe que não é o portador da verdade, mas tem que fazer algum esforço para não ser agarrado a esse anátema. Quantas vezes uma exagerada contundência numa conversa mole é utilizada para esse fim. De qualquer forma a linguagem desabrida tem sempre outras origens e outras razões e isso perturba e impede mesmo a nossa compreensão do cepticismo.Um dos casos em que o céptico tem razões para o ser é quanto às previsões. O céptico facilmente encontra aí indícios de optimismo exagerado, mas também de um pessimismo avassalador. E neste caso o céptico até o pode ser pelo lado positivo, pese embora, perante duas previsões, opte normalmente pela mais pessimista. Sem certezas, que essas ficam para os cínicos.

sexta-feira, 31 de Julho de 2009

A hipoteca do futuro

Possivelmente um dia todos veremos o mundo da mesma maneira. Tal afirmação pode ser um absurdo, tanto como pode vir a ter algo de verdadeiro. Efectivamente ver o mundo da mesma maneira não é estarmos de acordo sobre tudo, percorrermos todos o mesmo percurso, procedermos de forma a copiar todos os outros. É apenas um compromisso pessoal leal.
Ver o mundo da mesma maneira nem é sequer termos todos igual responsabilidade porque temos diferentes funções, somos escolhidos ou assumimos essas funções na maioria dos casos sem a intervenção directa ou sequer indirecta da maioria dos outros. Mas é fazermos com que os nossos erros não comprometam os outros e não nos escondermos debaixo de qualquer guarda-chuva pessoal ou colectivo.
Temos que, desde logo, afastar dos nossos propósitos qualquer tentativa de obter comportamentos uniformes. A diversidade será maior numas sociedades do que noutras, mas o caminho não é regressar a uma hipotética unicidade que possa ter existido, antes chegar a uma situação em que a diversidade já nada tenha a ver com hipotéticas origens sociais.
A diversidade é já hoje aceite, incentivada, benéfica em todos os aspectos da vida, desde o social ao profissional e toda a vida prática. Diferente é a desigualdade, entendida no seu aspecto mais grave que é a diferença de base, de nascença até àquela que deriva da utilização de meios desonestos, mesmo que a aparente legalidade esconda uma evidente ilegitimidade.
Só teremos uma visão única do mundo quando não houver um litígio permanente entre a legalidade e a legitimidade. Interesses suspeitos ainda fazem que o legal muitas vezes não seja legítimo e por vezes o que seria legítimo ainda não é legal. É essencial a semelhança entre estas duas visões para resolvermos muitos dos conflitos que nos percorrem o nosso espírito. Ao agravar-se a diferença está em causa a razoabilidade e a condescendência no nosso relacionamento com os outros.
Chegaremos talvez ao ideal no dia em que ao olhar para o outro não necessitemos de saber quanto ele ganha, em que as nossas diferentes opções de vida se não devem às diferenças de rendimentos, em que cada um gerirá os seus proventos e não necessitará de tirar proveito de mim, nem eu olharei com concupiscência para o que houver no seu bolso.
O dinheiro, como elemento representativo, simboliza o princípio e o fim de toda a desigualdade, mas é essencial como elemento de troca. O problema é o seu entesouramento. Com dinheiro apostamos efectivamente e sem subterfúgios na competição com o objectivo de obter vantagens e não termos que apostar todos os dias na sobrevivência. Claro que mesmo sem dinheiro os animais conseguem formas de domínio.
Obviar a todas as formas de desigualdade congénitas é colocar a partilha onde há a exclusividade, a colaboração onde há competição. Não podemos acabar com o dinheiro, mas também não necessitamos de acabar com ele desde que fixemos regras precisas para o seu uso e entesouramento. Tal não passa por acabar com a bolsa ou por outras ideias retrógradas, mas por recentrar a riqueza sobre o trabalho.
A riqueza que assenta na posse de bens (titulados ou não), ou de dinheiro é temporária e mesmo ilusória. Os bens de utilidade imediata são riqueza efectiva mas são poucos, a maioria exige uma ou várias conversões para que se obtenha um bem de uso e isso implica a aplicação de trabalho numa ou em mais fases de transformação. Esse trabalho é que é a verdadeira mais valia. É irrelevante o valor atribuído aos bens naturais. Por outro lado os títulos representam no geral combinações de bens de características e com incorporação de trabalho diversos.
O preço dos bens originais anteriores ao trabalho é determinado pela guerra ou por outra qualquer forma de domínio e pode ser resolúvel por via pacífica como o prova a constituição da Comissão Europeia do Carvão e do Aço que, formada depois do fim da 2ª guerra mundial, veio resolver uma questão secular de conflito permanente. Resolvido este, concluímos que só o trabalho vem a dar valor à matéria bruta. O trabalho livre porque a escravatura é apropriação semelhante à dos bens naturais.
O dinheiro entesourado é uma hipoteca sobre o futuro. Sem futuro nada vale e o futuro, tendo de pagar tanto para sustentar o presente, derrapando sobre a ávida riqueza de hoje um juro tão usurário, mais tarde ou mais cedo impõe uma retirada de valor à hipoteca. O futuro é capaz de retirar credibilidade aos valores creditados sobre ele. Os títulos que representam esse futuro são facilmente desvalorizados.
Depreciam-se os bens que se esperava fossem os geradores da riqueza futura. Deprecia-se o próprio dinheiro se não tiver um Estado forte que o segure como referência. Quanto menos expectativas menos rentabilidade futura é esperada e mais sobrecarga se exerce sobre o trabalho de hoje. Este, não podendo corresponder, faz diminuir a renda significativamente.
Mas, sendo hoje o dinheiro o valor de referência, não se deprecia por ele mesmo, caindo a depreciação sobre os bens por serem geradores de menor valia. Se o trabalho envolvido no processo de transformação desses bens não aceita ser depreciado então é o capital que vê reduzidos os seus rendimentos. Se o dinheiro se depreciasse também o trabalho o seria.
Em cada momento não há distinção entre capital industrial e capital financeiro porque as transferências são fáceis. Foi a conversão do capital industrial em títulos que o tornou ainda mais vulnerável do que o capital financeiro. Este pode reduzir a sua rentabilidade mas tenderá a desequilibrar em seu favor qualquer partilha da hipoteca sobre o futuro. Todo o capital financeiro depende do trabalho futuro.

sexta-feira, 24 de Julho de 2009

Os municípios multiusos

A função tradicionalmente desempenhada pelos municípios está profundamente aumentada e em alguns aspectos adulterada sem que a Lei diga expressamente se é legal ou não. O município, como organizador de alguns aspectos da vida colectiva, viu com a democracia e com a nova visão que esta trouxe ao municipalismo, muito aumentadas as suas competências e apropriou-se doutras. São os municípios multifunções, vulgo multiusos.
Também perdeu algumas prerrogativas principalmente por efeito da sua escala, no geral pequena. Um bom exemplo é o dos matadouros municipais extintos por força da criação de unidades de âmbito mais vasto, mais rentáveis, mais saudáveis, mais funcionais. Também nesse sentido se desloca a gestão da água e resíduos, a necessitar de muitos investimentos e de ganhos de escala
Os municípios também se têm visto livres de áreas tradicionais entregando a sua gestão a privados. São os serviços de limpeza, jardinagem, transportes, etc. de que muitos municípios abdicam por concessões temporárias e condicionadas. Outra via é a criação de empresas municipais com alguma autonomia de gestão. A dimensão dos municípios é determinante nas opções feitas, mas não há regras quanto à opção a fazer genericamente aceites.
Do lado dos ganhos temos uma cada vez maior capacidade de intervenção na gestão do território através de planos directores periodicamente revistos e alterados. Ultimamente os municípios passaram a ter uma intervenção acrescida na área do ensino, na reorganização e gestão escolar. E além disso têm recebido da administração central muitas competências a nível de quase todos os ministérios por via da sua descentralização.
Quanto às novas áreas de intervenção os municípios grandes são no geral mais tradicionalistas, talvez porque tenham um aperto orçamental mais elevado. Os municípios pequenos, que têm hoje um desafogo orçamental superior ao de algum dia, são os que mais se aventuram por novas áreas de intervenção e até de negócio. Muitos passaram a investir os seus excedentes orçamentais em equipamentos de cujo aluguer usufruem.
É o caso de Ponte de Lima que se destaca na criação e gestão de equipamentos da área da hotelaria. A Câmara já é o maior empresário desta área, alugando restaurantes, cafés, residências, parques de campismo, bicicletas. O que era impensável há anos, ou se entendia como actividade residual, é hoje uma das principais actividades deste órgão de gestão autárquica. No entanto a Câmara está a intervir num sector em que esta concorrência era dispensável.
Em simultâneo vemos desenvolver outras actividades já suficientemente difundidas por outras localidades como é a organização de festas, ora rebaptizadas de eventos de todo o género festivo. O município remete todos estes eventos para a área cultural, embora seja mais que contestável esta qualificação. O povo gosta, o problema é os artifícios que se fazem para contornar a Lei que não permitiria esses dispêndios tão avultados em estrelas de duvidosas qualidades, em espectáculos de pouca valia artística.
Efectivamente está na moda que os municípios criem associações ou sociedades de direito privado de que são o único accionista e para as quais transferem avultadas verbas cujo gasto se torna assim mais opaco, menos sujeito ao escrutínio político. Nessas associações tipo “Comissão das Feiras Novas” não há o mesmo rigor contabilístico, a mesma transparência que hoje se exige à afectação de dinheiros públicos.
O que está em causa é a alteração drásticas do municipalismo que, embora sempre possa ter subsidiado a realização de festas tradicionais, nunca foi o seu principal promotor e divulgador, muito menos criador de novos eventos. Hoje o município concorre com outras iniciativas da sociedade, realiza eventos em simultâneo com realizações tradicionais mais dispersas mas mais significativas para as pessoas das terras onde ocorrem e consegue subalternizá-las.
Há ainda o problema do tipo de eventos que se promovem ou patrocinam. Também os há de carácter mais saudável, mas muitos são nitidamente quase desprezíveis, atractivos para os indivíduos mais marginais, mais anti-sociais. Além de as iniciativas municipais não deverem competir com outras de índole privada, por mais rentáveis que elas possam ser, também não devem abranger temáticas desajustadas do ambiente local. Até a inovação tem limites.
As contas de todas as iniciativas municipais neste âmbito deveriam ser do conhecimento público para que se não pense que há iniciativas grátis, que há políticos beneméritos, porreiros e outros forretas, uns tristes. Até nesta área, mesmo que aceitemos integrá-la nas competências municipais, há melhores maneiras de gerir o dinheiro. As actividades lúdicas devem ser dinamizadas doutro modo, criando de preferência condições para que a iniciativa privada as promovam.
Dinamizar actividades puramente culturais seria mais louvável, mas decerto seria mais problemático ter qualidade e adesão apropriada. Mas o principal senão é que os agentes culturais não raro se deixam levar pelo vício da subsidiação. Nos nossos municípios há imensa gente pendurada como se tivesse mérito cultural para lá estar. Simplesmente o seu trabalho é invisível, muitas vezes não se lhes vê o cheiro. Ainda falta saber o que é cultura para muita gente.
Os problemas dos vários municípios são hoje muito iguais e também são idênticas as ambições de cada um. Além desta dedicação ao entretenimento todos quererem um “multiusos” para si, mesmo que haja um deficientemente utilizado a escassos quilómetros Não existe planeamento, discussão sobre a melhor localização dos equipamentos, forma de evitar desperdícios.
Muitos atribuem esta duplicação de equipamentos à falta de regionalização, mas tal não serve de desculpa. Há elefantes brancos que o bom senso recomendaria se não fizessem. Os custos do seu não funcionamento vêem a penalizar futuras administrações. A solução para quem os têm é mesmo tudo fazer para lhes dar uso e utilizá-los para o desporto e a cultura e, porque não mas só depois, para actividades lúdicas, que os sectores privado e associativo os podem aproveitar.

sexta-feira, 17 de Julho de 2009

A nível da palavra tudo será permitido?

A democracia tem variantes, e estas por sua vez têm diferentes méritos. A mais meritória democracia é a política, porque só esta pode ser o sustentáculo de todas as outras. Porém a democracia política tem um senão: É organicista na forma. Nunca se conseguiu uma democracia directa. No organicismo ganha-se eficácia mas perde-se genuinidade. O órgão adquire uma lógica própria que suplanta a pessoal.
A maioria de nós fez uma clara opção pela intervenção dentro dos condicionalismos que a democracia nos impõe. Para essa democracia concorrem os partidos políticos, associações de estrutura diversa. A sua constituição e funcionamento mesmo em democracia não têm que ser livres. Escasseiam as regras para o seu funcionamento, estão mal definidas as suas formas de intervenção. No fundo a sua imprescindibilidade mais faz realçar os seus defeitos. Isto torna-os sujeitos à crítica permanente da população.
Os partidos funcionam a várias escalas, com diferentes formas de representação e problemas específicos aos seus distintos níveis. Às escalas mais elevadas os partidos assumem um carácter exclusivo. Assim a maioria da população é excluída da participação política a esses níveis e vê-a dificultada a níveis mais baixos. Aqueles que acham que deveriam poder dar uma colaboração de valor acrescido à vida pública do País, sem necessitar de para isso estarem enquadrados em partidos, sentem-se frustrados.
Além de todos os outros defeitos os partidos só recorrem aos chamados independentes em última instância. Os poucos que conseguem furar todas as barreiras à entrada são mal vistos, marginalizados, o seu trabalho chega a ser sabotado, minimizado, ridicularizado mesmo. Aos políticos profissionais nada é exigido, aos independentes têm que ser os melhores. A sua participação cívica depende da maior ou menor mesquinhez dos aparelhos partidários.
A maioria dos independentes desconhece muitas das regras dos partidos, têm uma sensibilidade “imatura” para responder ao cinismo prevalecente nos meios políticos. Quem não prescindir de ser genuíno, de ter uma satisfação própria naquilo que faz, não tem lugar. Os poucos aceites acabam por soçobrar à mão daqueles que parasitam os aparelhos partidários. Os partidos estão cheios de “sargentos” à espera da sua vez de se promoverem a “oficiais”. E estes, os que têm “estatuto” são arrogantes e mesquinhos.
A política, como trituradora da personalidade individual, ataca menos os profissionais, mais preparados para o efeito. E estes atacam os não filiados por terem excessiva independência. Abrigam-se no facto de eles mesmos serem obrigados a aceitar opiniões diferentes das suas, a defenderem perante outros aquilo que muitas vezes é contrário à sua sensibilidade. Os independentes são uns privilegiados neste aspecto. Só que normalmente já provaram noutros fóruns a sabedoria que os profissionais nunca são obrigados a provar.
Os independentes não estão obrigados a tantas cedências, não se deixam arrastar pela militância tantas vezes acéfala e seguidista, nem se deixam ficar pela apatia de muitos dos que um dia se filiaram num partido com objectivos menos sérios. Claro que também há falsos independentes, há aqueles que querem apanhar a boleia e querem ficar de vez com um lugar na carruagem. Quem se quer manter independente cultiva-se, desenvolve ideias, métodos próprios, porque os partidos ainda não descobriram nada de infalível.
Há uma clara diferença entre quem procura ter uma satisfação pessoal naquilo que faz politicamente e quem tudo faz por obrigação, a contragosto às vezes. O verdadeiro independente não prescinde da sua sensibilidade, não deixa que se esmaguem os seus sentimentos pessoais. Nunca esquece o que era matricial em si. O independente empenha-se se se sente enquadrado, sentimental e intelectualmente, num plano estratégico mesmo que definido por outrem.
Parece pois existir, e as pessoas concluem-no, haver perversão na política. O mundo em que os políticos mergulham é artificial, tem regras próprias embora retiradas de velhos princípios comummente aceites. Mas princípios criados noutros contextos não conseguem integrar facilmente o actual. Honra, dignidade, frontalidade, seriedade e outros perderam o significado quando transferidos para um mundo diferente daquele em que tais termos ganharam significado.
Há valores que eram próprios de um mundo de hierarquias rígidas e, por anulação das regras próprias, o seu significado perdeu-se. Ainda se não encontraram regras eficazes que se apliquem à vida de hoje. De alguma forma falta uma autoridade exterior à política, alguém capaz de dirimir conflitos entre os vários agentes políticos, de impor alguma lisura e clareza à luta política. É tanta a confusão que em cada momento até falta saber o que está em causa, seja a curto ou longo prazo, seja ao mais pequeno nível, seja ao mais vasto.
Os políticos movimentam-se hoje em quadros mentais para os quais a sua contribuição é muitas vezes mínima. Não os tendo elaborado, não sendo seus proprietários, seus gestores, quando muito são seus defensores, mas chegam facilmente a ser seus escravos, prisioneiros da sua lógica própria. Muitos políticos atiram-se a discutir assuntos para os quais não estão preparados e não estão convictos daquilo que defendem. Por vezes só deles têm uma noção vaga.
Embora não haja liberdade absoluta e haja valores sociais a respeitar, podemos manter a nossa liberdade enquanto conseguirmos manter a alma, estivermos convencidos da bondade do que fazemos, seguirmos um caminho solidário escolhido com entusiasmo e vivido com satisfação pessoal. Só a espontaneidade, a naturalidade são demonstrativas da nossa liberdade. O falso verniz dos políticos é a capa que esconde caracteres de duvidosa índole.
Qualquer submissão absoluta à lógica da luta política é contraproducente. Também o é suplantar a ignorância por meios artificiosos. Dada a necessidade de existirem políticos profissionais só resta pedir-lhes que não tornem artificial a sua sensibilidade e recorram a quem sabe sempre que não estejam seguros. Este mundo em que se não toleram uns cornos e se suportam todos os insultos tem algo de podre. Hoje os políticos procuram munir-se de instrumentos intelectuais perfeitamente perversos. A nível da palavra parece ser tudo permitido.

sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Campanhas eleitorais e cultura política

O que torna as campanhas eleitorais quase pacíficas é o facto de que as tensões se vão descarregando durante o período de uma legislatura e chegados ao fim já pouco mais há a dizer, está praticamente tudo dito. Isto tem as suas vantagens de que se realça este aspecto mas tem evidentes desvantagens principalmente em criar um estado de campanha eleitoral permanente.
Outra desvantagem nítida é que, entrados no período propriamente dito de campanha eleitoral, muitas das questões que poderiam ser abordadas, por o terem já sido exaustivamente durante o período anterior, ficam esquecidas, não são facilmente reavivadas. Não haveria mal maior se a discussão feita a quente não fosse muitas vezes enviesado e levasse assim a conclusões erróneas, conclusões cuja veracidade os factos consequentes se encarregam de desmentir.
Efectivamente não há praticamente medida que não tenha contestação imediata, mas os resultados de muitas só se vêem a prazo e, mesmo que se vejam até à campanha eleitoral subsequente, vai faltar a reanálise, a reavaliação que eventualmente poderiam diferir das conclusões tiradas à altura. Passa por mais importante o debate teórico, feito na ocasião do lançamento de uma medida, que o debate que se poderia fazer estando já na posse de dados da sua aplicação.
Dir-se-á que vai depender da força que as forças políticas interessadas conseguirem imprimir aos assuntos que mais lhe são favoráveis de modo a inclui-los na agenda política. Força que a razão decerto reforçará mas que se terá que dispersar contra muitos temas, muitos adversários, no meio de muita controvérsia inútil criada pela manha e engenho dos mesmos. As condições para o debate nunca mais serão as mesmas.
Outra desvantagem da campanha permanente é o desgaste que provoca na capacidade de acção e de inovação. Não só pode ter efeito negativo na acção em concreto, quando esta poderia vir a ser benéfica, como tal efeito se pode repercutir noutras acções e iniciativas a tomar. A oposição agarra-se à ideia de que é melhor ganhar agora que esperar ganhar a prazo e que é necessário perturbar a eficácia alheia. A situação tenta junto da população que tenha validade a máxima “deixem-nos trabalhar” e deixem a avaliação para depois.
Na verdade são as medidas mais radicais, que implicam mudanças irreversíveis, que são mais difíceis de implementar, que sofrem mais contestação, que têm resultados a mais longo prazo. A fragilidade do sistema democrático permite que haja armas de que a oposição, mesmo em minoria, se pode munir para embaraçar, atrasar, ir diferindo essas medidas para que nunca se consiga a sua plena execução. E muitas vezes pior que nada fazer é implementar uma medida só parcialmente.
Isto torna difícil, senão impossível, fazer do Estado um edifício coerente, há retalhos de medidas que ficam aplicados aqui e acolá e outros que nunca se chegam a aplicar, há sectores evoluídos e outros que não conseguem sair de uma organização artesanal. Também isto tem um efeito directo na criação de injustiças relativas, de desequilíbrios internos e externos às organizações, de desigualdades funcionais, nos meios, nos rendimentos, no pleno dos factores sociais.
Como fortalecer a democracia, impedir bloqueios extemporâneos, conseguir cumprir até ao fim e mantendo a mesma força mandatos expressivos? Suspender durante um tempo a democracia, seja por via da ditadura do proletariado ou duma ultraliberal, não é solução. Acreditar que as coisas acabarão bem após este jogo de forças que de algum modo vai permitindo avançar parece ser o mais lógico.
Mas para quem não vê lógica na crença vejamos: A maioria dos avanços, feitos em particular nos últimos cinquenta anos, não se deve à política mas a outros factores de natureza social e muitos deles desenvolveram-se mesmo contra a política. Resistências ao desenvolvimento sempre se manifestaram e principalmente quando este tem repercussões nas estruturas sociais.
Em primeiro lugar temos a ciência no seu ramo físico, a ciência dita experimental e a sua ramificação utilitária que é a tecnologia. Será despiciendo destacar alguns dos seus ramos ou realizações, mas, quanto aos seus efeitos derivados da conjugação de muitos factores, pode-se realçar aqueles que se referem à alimentação, à saúde e à comunicação.
Temos depois a ciência computacional cujas realizações já hoje abarcam quase todos os domínios da actividade humana. Sobressai ainda a ciência das organizações que se foram tornando autónomas da ciência do poder. Por fim, mas não menos importantes, temos todas as outras ciências humanas, cuja evolução tem sido mais lenta, mas cujos efeitos se tem feito sentir em toda a vida quotidiana das pessoas.
Também a ciência política tem sofrido avanços mas também aqui há resistência da parte das velhas estruturas e protagonistas. A incomodidade é grande ao faltar saber para lidar com novas realidades. A política vê-se agora sob pressão não já para criar ou dar origem a fenómenos novos, mas para acompanhar e enquadrar a evolução desencadeada a partir doutros centros de poder.
A introdução de novas tecnologias, de novos procedimentos computacionais e organizacionais, de novos comportamentos pessoais e colectivos faz-se em muitos casos sem pedir o “agreement” dos políticos e de muitos sectores sociais que se lhe oporiam se tal lhes fosse possível. Fazem-se muitas vezes sem Leis que enquadrem esses novos fenómenos, colocando os políticos numa corrida louca para irem atrás, suficientemente perto para não perderem o controlo total.
Estamos numa sociedade em que existe uma ânsia medonha de que haja Leis sobre tudo. Mesmo que em muitas situações se pudessem aplicar Leis já existentes pela verosimilhança com outras, exige-se a descrição pormenorizada de todo o contexto invocável, a referência explícita a cada um dos seus elementos particulares. Só isto já coloca o governo sob pressão máxima e a oposição ajuda e até se ri enquanto está nessa posição. A população incrédula exaspera.Isto é também um dos factores que leva a oposição, a imprensa e o público em geral a criar uma espécie de tribunal permanente, um julgamento em que os argumentos esvoaçam ao sabor do vento dominante no momento. Colocar o governo a trabalhar mais e melhor, dar à oposição menos poderes de interferência, não será só por si qualquer remédio para a questão. Só uma maior cultura política da generalidade das pessoas permitirá melhorar este ambiente por vezes infernal.

sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Os pobres, o espinho na auréola dos políticos

Há duas opiniões que correm céleres e quase a par de modo que até há pessoas que agarram nelas indistintamente e as arremessam ao primeiro que lhes aparece a querer dar algum crédito à vida pública. Uma é velha, não tão velha como possa parecer, mas tão velha que em Portugal já tem uso desde o século dezanove. Outra é mais recente, até porque só é possível depois de um período de mais abundância, mas em que a instabilidade faz temer pela perca de alguma.
A primeira opinião é de que se estraga imenso dinheiro com políticos, com gente inútil, que anda aí a gastar à grande e faz disso uma ostentação insuportável. A segunda opinião é de que se estraga imenso dinheiro com os pobres, com gente igualmente inútil, que não quer trabalhar, que está viciada em viver à custa do trabalho alheio, a quem são dados subsídios para tudo, até para “iguarias” a que outrora nem os ricos chegavam e que ainda assim exige cada vez mais.
Claro que também há quem diga que o dinheiro que se podia tirar aos políticos podia ser usado a favor dos pobres, mas não é a esta que me refiro. Também seria fácil mostrar que este desvelo pelos pobres é cada vez mais passageiro e calculista, quando o que se pretende é atacar o Estado. Aquelas duas opiniões servem de base à aversão que cada vez mais se espalha em relação aos políticos e à política e são utilizadas para mostrar que o Estado, sendo imensamente rico, é mau repartidor, é açambarcador e esbanjador de recursos.
Essas pessoas jogam com a relação directa daquelas duas opiniões, ora pondo-as em paralelo, ora fazendo depender uma da outra. De qualquer modo há uma influência mútua, cada uma delas reforça e é reforçada pela outra. Pobres e políticos atraem-se e repelem-se numa relação sempre difícil. As pessoas encontraram nestas duas opiniões os chavões a aplicar na maioria das situações de mal desempenho do Estado. Traduzem a sua condenação de um certo despesismo em que existe um toque de imoralidade, de injustiça, não em relação aos pobres, mas aos que trabalham, aos que estão na actividade produtiva.
É a sensibilidade de cada interlocutor que muitas vezes vai determinar a opinião que se transmite. As pessoas arremessam a opinião mais adequada a quem já não encontra motivo para ter “pena dos pobres” ou que sente vontade de “descascar directamente nos políticos”. Aos pobres diz-se que toda a culpa é dos políticos, do seu exagerado número, do seu excessivo rendimento. Aos ricos diz-se que a fonte de todos os males está na falta de exigência, na flacidez da disciplina, na promoção da preguiça, na exaltação do desleixo.
Já em relação aos remediados, tipo classe média, avalia-se primeiro a sua sensibilidade. Se são sensíveis à pobreza coloca-se o político na lama, caso contrário coloca-se os pobres na origem de todos os males. Se já perdeu toda a sensibilidade escolhe-se a perspectiva mais adequada ao desenrolar da própria conversa. Há sempre uma ocasião em que é fácil introduzir a crítica do dinheiro mal gasto ou do excesso de gastos nas funções políticas e nas funções sociais
Colocar um rótulo nestas ideias, apelidá-las de extremistas, dizer que são obra de pessoas ressabiadas, invejosas, é redutor e não leva a lado algum. Não com este cariz absolutista mas aplicadas a casos pontuais, ou suavizadas na sua expressão, estas ideias são utilizadas por todas as forças políticas no dia a dia da sua luta. Não as negando na prática, há que lhes encontrar o motivo, debelar as suas causas, corrigir as condições em que elas germinam, anular o seu efeito desagregador da sociedade.
A verdade é que se ouve muito político sem vergonha dizer que já deu muito ao seu partido com pouca paga, o tacho não terá estado à altura. Na sociedade pode haver funções exercidas por políticos mas são muito poucas aquelas que têm que o ser necessariamente. Muito menos pode haver duplicação de funções como se propuseram os regimes assentes em ideologias totalitárias que subdividiam as funções numa de carácter técnico e noutra de carácter político.
Felizmente que estará em desuso o pagamento a um político para dar ordens a um técnico que as vai executar. Subsistem porém um grande número de políticos em cargos desnecessários, excedentários, que ocupam hierarquias imensas com cargos sobrepostos. É naturalmente a estes desperdícios que as pessoas se referem quando criticam o dispêndio de dinheiro pelo Estado para sustentar a sua máquina e a dos diferentes partidos que nela se vão pendurando.
Com as comunicações existentes, com a literacia a um melhor nível, diminuiu a necessidade de intermediação na política pelo que um número limitado de profissionais pode gerar as bases programáticas em que se basearão as normas que alguns outros porão em execução. O povo identificaria assim melhor os responsáveis e todos os que ocupam cargos na estrutura do Estado responderiam hierarquicamente, estando aqueles políticos eleitos na cúpula.
Mas se os políticos já não têm vergonha, os “pobres” também a vão perdendo e tornam-se assim alvo fácil de crítica. O Estado gasta cada vez mais nas funções sociais, no combate à pobreza e no apoio aos mais carenciados e o efeito parece ser cada vez menor. Há quem veja aí o lado cínico da política porque entende que muitos políticos só reforçam esta função do Estado para que os mais desfavorecidos se aquietem um pouco.
Há quem pense que um sistema altamente concorrencial, quanto mais liberal ele for, mais se justifica que aqueles que tem menos oportunidades sejam apoiados pelo Estado. Outros ainda pensarão na inevitabilidade de surgirem novas partilhas do trabalho, novas tecnologias e nova organizações para responder á eficácia, à rentabilidade, enfim, à concorrência de todo o lado. E pensarão também que em todo o lado, quanto maior for a exigência para integrar sistemas de trabalho eficazes, mais pessoas sobrarão para desempenhar funções subalternas, cada vez mais mal pagas, cada vez mais carentes de apoio social.
A especialização, a pouca tolerância a ritmos de trabalho exigentes, leva a que cada vez mais franjas marginais se formem e que é necessário apoiar de alguma forma. É pois de prever que a divisão dos rendimentos venha a prevalecer cada vez mais sobre a divisão do trabalho como preocupação das pessoas e que infelizmente haja cada vez mais a pensar que é dinheiro perdido aquele que se destina a garantir o mínimo de dignidade a quem não tem outra forma de a conseguir. Mas também todos sabemos que a justiça social se obtém doutro modo.

quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Políticos versus politiqueiros

Anda aí uma grande confusão sobre o ser político ou ser uma outra coisa qualquer, politiqueiro talvez ou nem tanto. Um conceito demasiado alargado de político leva a que depois se haja de separar os políticos em várias subcategorias que normalmente terminam no politiqueiro, uma espécie de intermediário entre o povo anónimo e os políticos mais empenhados, com nome na praça.
Este afoito medianeiro torna a política pura e dura, crua e sanguinária, de certo modo legível pelo mais indiferente e transmite aos políticos de carteira os sentimentos que vão na alma deste. Nesta intermediação compra e vende favores, arma-se em mais ou menos importante, procura lucrar alguma coisa que sempre sobra em qualquer negócio: Umas comissões encobertas. Na verdade este personagem não deve ser considerado como fazendo parte do domínio da política.
A luta partidária pode passar pela reestruturação da sociedade e pela definição de novos centros de poder. Mas o normal é que ela vise ocupar os centros do poder já existentes e colocá-los ao serviço das ideias de um partido, de um grupo social vasto. Só há políticos de duas naturezas: Aqueles que querem estar nesses centros de decisão e aqueles que querem contribuir para a elaboração, formatação e codificação das ideias que aqueles centros de poder devem colocar em prática, incluindo a sua forma.
Depois há uma outra espécie de intervenientes no processo político de que os ideólogos precisam e de que os práticos não prescindem: São os repetidores, conversores e amplificadores que convenientemente distribuídos, colocados em posições estratégicas, fazem com que a onda oriunda do centro se propague e atinja nas devidas condições o indivíduo anónimo. Esta função é necessária, digna, decisiva em termos de tornar eficaz, duradoira uma política nas condições de uma sociedade muito desigual. Mas um dos objectivos deve ser a sua redução.
Esta função de intermediação é muitas vezes desprezada pelos políticos de topo que, com a pretensão de falarem uma linguagem que o povo entenda, de terem a capacidade de estabelecer uma relação directa com o povo, minimizam o valor dos efeitos que os intermediadores podem introduzir por forma a tornarem escorreita a linguagem hermética, técnica e pouco afectiva dos políticos. Normalmente nem é o povo que despreza esta intermediação mas aqueles que se pretendem colocar a esse nível ao serviço de outras ideias políticas.
Mas efectivamente há um facto que embaralha, complica e torna nebulosa a relação da população em geral com estes pretensos “políticos”. É que muitos, a maioria deles, quer aproveitar a sua maior ou menos proximidade dos centros de poder para obter benefícios, vantagens indevidas, “remuneração” do seu “trabalho”. De uma função nobre, que poderia contribuir para a coesão social, depressa se deixam enredar em interesses de duvidosa legitimidade e criam uma corrente ascendente, uma onda de influência, mas também de voracidade e ganância.
Em casos extremos fecha-se aí o círculo, a onda só produz ressonância em direcção ao centro, não é encaminhada para os seus destinatários naturais. O núcleo duro do poder compraza-se com a satisfação dessa gente e torna-se insensível às manifestações de quem se encontra fora dele. Ultrapassar essa barreira tem que ser preocupação permanente de todos os políticos cuja ambição deve ser ter em atenção as pretensões de todos os estratos sociais. Não permitir que se feche o círculo, que tais intermediários se apresentem como os destinatários finais de uma politica é condição da sua democraticidade.
Destrinçar entre o privado e o público é para muitas pessoas exercício académico, dispensável e incómodo. Por isso não vêem inconveniente em exercer uma qualquer influência que lhes seja facultada nos centros de decisão, seja ela em benefício pessoal ou colectivo. Esta confusão está presente em todos os níveis de poder, embora muitos mais a níveis intermédios e baixos da administração. Contribui para que a hipocrisia que se vê, se percebe e se sente existir em grau elevado seja generalizada e tida por norma.
O domínio das boas e das más intenções é demasiado ambíguo para que alguém consiga estabelecer uma barreira entre quem transporta umas ou outras. Por isso não há nada como retirar estes “políticos” da categoria restrita dos mesmos, a quem devemos exigir um comportamento exemplar, uma separação clara de interesses, uma dedicação exclusiva ao interesse mais amplo e colectivo da sociedade. Mesmo as divergências sobre este não devem lançar suspeitas de favorecimento pessoal.
Antes de mais nada era necessária uma outra forma de escolha, uma selectividade que as formas tradicionais de cooptação não garantem. Quando um eleito está em condições de ele próprio vir a escolher uns milhares de outras pessoas para ocupar cargos em organismos de decisão e até para funções meramente administrativas está a se empolar o cargo pelo qual ele o é. Isto é, são subvertidas as razões pelas quais o eleito deveria ser preferido.
Essas razões deveriam assentar na sua competência, na eficiência que pode ser dada à tomada de decisões, na transparência que consegue dar a essas decisões, na ausência de arbitrariedade, na presença do bom senso e na devida ponderação do risco. Essas razões nunca deveriam ser as solicitações a que alguém consegue dar satisfação, sejam na colocação de apaniguados no aparelho de Estado e até na actividade privada, nos favores oferecidos por via ilegal e mesmo quando a lei parece conceder-lhe poder discricionário.
Isto é, deve ser atacado o princípio aceite por muitos às escondidas de que o bom político é aquele que, na ânsia de recrutar, manter e estimular aqueles intermediários para defender a sua causa está pronto a toda a espécie de malabarismos mais ou menos consentidos por lei. Quase toda a gente está pronta a disparar sobre alguém acusando-o de se vender, de se deixar comprar por isto ou por aquilo, no convencimento de que todos, como ele próprio, têm um preço e quanto mais baixo mais humilhante. Mas não falta quem esteja pronto a aceitar.
Infelizmente não se vê que esta espécie de críticos seja exemplo para ninguém. Nada ganhamos a ver a política por este lado negativo, a colocar tudo negro para que ninguém veja também o exemplo desses críticos. Devemos incentivar que se parta de uma análise positiva para realçar o comportamento a adoptar no futuro. Isso inclui substituir a moralidade por uma clara e restritiva definição dos poderes, das dependências e minimizar o papel dos intermediadores sociais, sob pena de estes reclamarem o seu pagamento.

sexta-feira, 19 de Junho de 2009

A nossa difícil relação com o poder - a rebeldia

São tantos os estados de rebeldia e de tanta gente que ficamos por vezes perplexos, perfeitamente embasbacados, confusos e sem forma de reagir. Perguntamo-nos continuamente, diremos mesmo que é aquilo que nos faz cismar, pensar aturada e demoradamente, porquê tanta rebeldia? Talvez pensemos agora porque nunca até aqui tínhamos pensado a sério sobre a rebeldia. Ou talvez não a identificássemos devidamente e afinal todos nós somos no fundo depositários de alguma dessa rebeldia em estado latente.
Muitos de nós temos prazer em sermos rebeldes e outros renegam esse estado, esse sentimento e mesmo qualquer manifestação que lhe possa estar associada. Somos nós que temos que gerir os nossos estados de alma, elaborar os nossos sentimentos, controlar as nossas emoções. Hoje a sociedade exige-nos isso e nós não estamos preparados para tão grande tarefa. Sermos subservientes, sermos guiados, sermos conduzidos era fácil, sermos livres é bem mais difícil.
Hoje a crítica à rebeldia tem muito pouco efeito para esmorecer as pessoas, para mais quando a rebeldia virou moda. Todos procuram com mais ou menos afinco saídas positivas para as situações que lhe deram origem. No entanto as pessoas manifestam de forma diferente porque também têm diferente percepção da sociedade, das suas circunstâncias e da eficácia das atitudes mais pertinentes. A resignação, o espaço de tolerância, o tempo de espera divergem de pessoa para pessoa. A exasperação pode ser má conselheira, mas a apatia e o atavismo são deploráveis.
A rebeldia não pode ser suporte da avidez nem remeter-se à abulia. Quando a rebeldia se confunde com uma ansiedade descontrolada, podemos estar perante uma situação real, mas também podemos estar perante uma simulação, uma imitação de outras figuras para obter um fim para o qual a pessoa não encontra argumentos lógicos. Na sociedade de hoje a rebeldia tornou-se um sentimento de tal modo mediatizado debaixo do qual se encobrem muitos de forma que nos obriga a não levar a sério muitos casos reais.
Tempos atrás ainda nos podíamos dar ao trabalho de procurar nas pessoas os sentimentos contraditórios que alimentam. Hoje muitos desses sentimentos são tão naturais como quaisquer outros. Não sendo condenáveis também não são motivo de especulação. O que hoje é importante é sentirmo-nos cómodos com a vivência dos nossos sentimentos, sendo que é a necessidade de partilhar alguns deles que condiciona o incentivo ou refreamento dos outros. Assim devemos procurar na conciliação que cada um faz de vários sentimentos qual o seu grau de sinceridade, de justeza, de dignidade.
Dir-se-á que em tudo isto há conceitos vagos e que mesmo o sentimento de comodidade que cada um possa sentir também pode resultar da vivência num círculo fechado de relações sociais ou da satisfação que cada um possa ter em enganar os outros. Mas não haverão dúvidas que a rebeldia é um sentimento a ter em conta como fazendo parte integrante da nossa vida afectiva. Serão raras as pessoas que nunca se sentiram insatisfeitas, só se vivem em condições muito especiais ou possuem uma disciplina mental perfeitamente exemplar.
A rebeldia é própria de quem tem uma noção exagerada, mas de certo modo ajustada ao poder quando visto na sua expressão mais afirmativa. Nas não tem necessariamente uma noção precisa da importância relativa dos centros de poder. É fácil atribuírem-se culpas do poder económico ao poder político e vice-versa. A rebeldia é sempre reveladora de insegurança por mais partilhado que a pessoa sinta que esse sentimento é. A rebeldia é um sentimento pessoal, sinal de uma instabilidade pessoal e colectiva que não permite sentimentos mais sólidos.
Como todos os sentimentos de pendor oposicionista num ambiente instável este é induzido facilmente no colectivo e cria um forte peso e dependência sobre o individual. Um sentimento que deveria ser um alerta pode tornar-se uma forma de aprisionamento do individual, incapacitar a tomada de iniciativas próprias, levar ao conformismo e à incomodidade. A certa altura torna-se um sentimento que se sustenta a si próprio, que se reforça perante a visão do estado de satisfação de alguns, que se torna uma compensação que já se procura perante a ostentação e a soberba alheia.
A rebeldia pode, por processos perversos, fornecer o gozo que a inquietação dos outros pode proporcionar e torna-se assim justificação para si própria e não o meio de atingir qualquer fim. O rebelde pensa que o simples facto de o ser causa medo nos poderosos e isso compensa-o. A rebeldia rapidamente se generaliza, chegando mesmo a desvanecer-se a sua origem, a atingir um estado de abstracção. A rebeldia também pode chamar a si emoções e sentimentos recalcados e até despropositados encaminhando-se então para a defesa da anarquia. A rebeldia tem mais a ver com a irreverência do que com a eficácia.
A rebeldia permite-nos não ser subservientes, o que só por si basta a muita gente. Como contraponto à subserviência, a rebeldia permite ver o poder como mais fraco do que ele é na realidade e assumir uma atitude mais agressiva do que aquela que se justificaria se as relações de poder fossem mais ponderadas. No entanto a rebeldia é muito menos consequente do que a revolta.
A rebeldia também não exige especial coragem e valentia para se manifestar, especial trabalho intelectual para se racionalizar, nenhum tipo de organização para irromper, nenhum projecto bem elaborado para se pôr em pratica. A rebeldia exige que o poder se mantenha o tão longínquo quanto possível para não se responsabilizar por ele, mas o tão próximo quanto possível para suscitar alguma atractividade. Não chega virar as costas ao poder, o rebelde sabe que ele se não pode dispensar.

sábado, 13 de Junho de 2009

O Advogado do Diabo

O contraditório é essencial como estímulo à actividade intelectual. Levar as objecções até à exaustão, contrapor incertezas por mais diminutas que sejam, não é um exercício de displicência, é tão só o único caminho capaz de fazer avançar o saber. A dialéctica espiritualista e a sua herdeira materialista, que erram por serem teorias simplistas na sua fórmula redutora de tese/antítese/síntese, são, pela projecção que já tiveram, reveladoras da importância do contraditório, seja no nosso caminho individual, seja no nosso caminho colectivo.
Também a concordância terá o seu papel na actividade intelectual. Mesmo sem ser absoluta, ajuda a consolidar certezas. Os dialécticos não davam a essa concordância qualquer importância porque lhe roubavam a natureza. A concordância derivava somente da anulação da discordância, do seu silenciamento, da sua desvalorização. A concordância era o reverso de uma discordância a que era retirada toda a dignidade.
Para os dialécticos todos os meios eram legítimos para obter a concordância, esta era aglutinada acriticamente. Ora a concordância tem que ser uma construção que nasça da liberdade. A discordância necessita da mesma liberdade para que ela própria se construa. Para os dialécticos a síntese era uma simples figura de retórica, sem conteúdo visível. A síntese era retirada da adesão acrítica do discordante. Ora do contraditório há potencial para sair progresso para ambas as partes e nem necessariamente no mesmo sentido.
Uma concordância pode ser genuína, mas não ser mais do que o resultado de uma junção de equívocos. Pode contribuir somente para o aumento da auto-estima e não para a construção de um edifício intelectual coerente e positivo. Como a auto-estima pode ser e é estimulada de muitas outras formas, ao ponto de dela se abusar, o melhor será sempre relativizá-la num processo intelectual. A humildade diz-nos que uma concordância não é o fim do caminho. A experiência diz-nos também que demasiadas concordâncias nos devem levar a desconfiar da qualidade do contraditório.
Também o contraditório é motivo de abusos. Se uns exageram na concordância, na aceitação incondicional das certezas dos outros, há outros que fazem da contradição um uso sistemático. Quando assim é o contraditório resvala facilmente para o superficial, mas tem uma saída fácil que é a sua ignorância. É porém suicida ou mal intencionado se, também por sistema, ignorarmos a discordância alheia. Devemos ter tão só a preocupação básica de procurar saber a partir de que ponto é legítimo ignorarmos o contraditor. Até podemos vir a saber até que ponto, na economia das suas certezas, estas lhe fazem falta e então não o ignoraremos mas compreenderemos.
Deixar o contraditor a falar sozinho é uma atitude merecida por muitos, mas a tomar só depois de esgotados todos os argumentos ou após o pressentimento de que a discussão pode passar ao nível do insulto. Quando uma aversão primária se manifesta estamos falados. No contraditório nunca se pode sair da base intelectual em que ele deve assentar. Nesta base é insubstituível, fora é pernicioso. Mas podemos e devemos ser mais compreensivos. Não podemos virar as costas ao contraditório que assenta na diferença de interesses defendidos por cada uma das partes. Se ambos forem de igual modo legitimados pelo espaço de liberdade socialmente aceite, isto é, se a sua base for política, podemos estar perante uma situação insolúvel, que deve ser tolerada e explorada, se assim o entendermos.
Aceita-se que a realidade é assim, que há interesses conflituantes e mesmo antagónicos, mas tem que haver momentos em que a política se possa ver pela sua perspectiva de base intelectual sem deixar a vivacidade que lhe é própria. O facto de actualmente a política estar inquinada por um tipo de argumentação redundante, mais virada para os instintos primários do que para a racionalidade, não nos faz esquecer que é um domínio primordial da acção humana em que mais sobressai a dignidade ou a falta dela, em que mais está em causa o nosso futuro colectivo e mesmo a nossa valorização individual.
O facto de o contraditório na política poder facilmente resvalar para domínios de agressividade leva a que as pessoas se não queiram submeter àquilo que na sua opinião mais não é do que o mundo dos caprichos e das simulações de cenários virtuais. Só que, com uma base intelectual sólida, é possível ficar imune às escorrências laterais e impróprias das discorrências de alguns e enfrentar o mundo como se todos fôramos pessoas sem interesses ocultos e incapazes de atraiçoar aquilo que cada qual diz ter como suas bases morais, isto é, como se todos fôramos pessoas intelectualmente honestas e pessoalmente leais.
Estar preparado para todos os contraditórios é tão inglório como ter certezas a respeito de tudo, ter a verdade à mão de semear. A humildade leva-nos a aceitar ouvir, mas não nos deve levar ao ponto de calar. Nesta atitude simples se funda a nossa abertura ao diálogo e a aceitação do contraditório como imprescindível à nossa vida. Podemo-nos questionar a nós próprios, mas o normal será que o contraditório surja do exterior, que alguém nos coloque objecções ao nosso próprio pensamento e assim pudemos aferir melhor as nossas certezas, aumentar o grau de exigência que fazemos a nós próprios.
Infelizmente tal não é possível e as razões são variadas. Desde logo por indisponibilidade de tempo, por não se encontrar a pessoa capaz de fazer de “Advogado do Diabo” em todas as situações em que tal seria conveniente, mas também por nós próprios nos não disponibilizarmos a abrir parte significativa do núcleo central das nossas ideias à contestação alheia e era necessário que nos conhecessem para colocar as questões candentes. Mas efectivamente o maior problema é constituído pelas exigências da vida prática que nos não permitem a igualdade mínima de condições para a evolução intelectual.

sexta-feira, 5 de Junho de 2009

A nossa difícil relação com o poder – a partilha

Se a memória é o nosso grande suporte, se as expectativas são a nossa orientação, os sentimentos são elementos fundamentais na estruturação do nosso pensamento. Estes reflectem a nossa visão consolidada da realidade, mas também as influências que sofremos do meio em que vivemos, a nossa experiência de relação. Nós temos muitos sentimentos particulares, mas também sentimentos colectivos em número variável, uns partilhados outros não.
Há quem, para se não expor, não esteja disposto a partilhar os seus sentimentos, mesmo que estes sejam suficientemente genéricos para não comprometer. Em primeiro lugar porque a vida cria em nós alguns sentimentos contraditórios dificilmente destrinçáveis. Por outro lado sabemos que o mesmo contexto social não gera necessariamente os mesmos sentimentos em todas as pessoas. No entanto há pessoas que fazem opções e querem que os outros as partilhem, como se os seus sentimentos fossem os mais genuínos. Mas é o que acontece quando adoptamos sentimentos que só fazem sentido se partilhados.
As pessoas introvertidas por princípio não partilham. As extrovertidas fazem-na às vezes de forma desabrida. O problema surge quando ultrapassam o limite da liberdade alheia, mesmo que só no domínio da coacção moral sem atingir os extremos da violência. Como damos ao domínio político uma certa permissividade é por aí que confundimos o papel social de muitos sentimentos. Na verdade hoje faz-se muita política por via da coacção moral numa tentativa violenta de falsa partilha. Tal até leva a que pessoas extrovertidas de modo suficientemente comedido se tenham que retrair em ambientes sociais agressivos.
Os sentimentos que alimentamos comprometem-nos quando fazemos opções que encontram contextos sociais adversos nos quais não os podemos expor. Mas se desrespeitamos os sentimentos, tomando opções que os contradizem, criamos outro problema pessoal grave. O melhor caminho será sempre não nos sujeitarmos a ditaduras de maiorias ou de grupos sociais dominantes que pretendam radicalizar as diferenças entre as nossas posições, que pretendem criar fricções entre pessoas cujos sentimentos não confluem, mas que podem viver perfeitamente em comunidade. Só de um processo de compreensão mútua pode um dia surgir por processo intelectual o sentimento de partilha.
É do nosso processo de socialização que depende em muito a nossa capacidade de partilha de sentimentos mas também, se necessário, viver na diferença. A socialização não passa por visar a unanimidade a propósito de um qualquer sentimento mas por atingir o reconhecimento suficiente do grupo, da corrente de opinião, do sector cultural no qual nos achamos integrados. Ninguém se pode arrogar o direito de seleccionar em absoluto os sentimentos partilháveis, os valores genericamente aceites.
Dentro do processo de socialização a escolarização assume uma extrema importância. A escolarização permitiu a introdução na vivência das pessoas de novos e diversificados sentimentos. Os relacionamentos aumentaram e fazem-se em sentidos mais variados. As pessoas deixaram de ser vistas somente pelo seu carácter originário. A escolarização contribuiu ainda para que não seja possível caracterizar o nosso modo de ser por um só sentimento, para isso passamos a recorrer a vários em simultâneo.
Outro efeito da escolarização, mas também das novas condições de vida, é o progressivo abandono da exclusividade dos sentimentos recíprocos de natureza particular. Mas também há um outro efeito na maior vivência da vida colectiva e no aumento dos sentimentos partilhados. Estes deveriam levar a uma maior coesão social, o que só não acontece porque não se faz um esforço de cultivo do mais nobre dos sentimentos partilhados, que é a lealdade.
Partilhar sentimentos é partilhar poder. Numa sociedade tradicional o exercício do poder era mais evidente, os sentimentos mais incentivados eram os que reflectiam mais claramente as relações de poder e entre eles destaca-se a subserviência. Todos os sentimentos que se desenvolviam fora das relações de poder eram proibidos ou pouco tolerados. Fosse em relação ao poder familiar, fosse em relação ao poder laboral, havia de um lado dependência e do outro arbitrariedade. Não havia partilha de poder, não havia partilha de sentimentos.
Nos dias de hoje o poder é mais subtil, mais disperso, difuso mesmo, e é mais problemático encontrar os sentimentos mais apropriados à situação em que estamos envolvidos e interpretar, usando os sentimentos dos outros, a sua situação pessoal. A fartura dificulta e o tempo escasseia. Novos sentimentos proliferam quase sem paternidade e sem aceitação reconhecida. Além disso a nossa difícil relação com o poder traduz-se desde logo na nossa difícil relação com os sentimentos que ainda subsistem vindos da sociedade tradicional.
A escolarização também determinou uma maior diferenciação nos modos de vida e nos sentimentos das pessoas ao partir a sua vida em ciclos em vez de manter o percurso linear no qual um sentimento ora criado, era mantido, era adaptado a novas circunstâncias mas essencialmente a novas personagens e poderes. Antes faziam-se generalizações progressivas do poder familiar e tal permitia pensar num percurso linear para os sentimentos. Agora tenta-se subir escadas escalonadamente esgotando o usufruto de cada etapa.
Em vez de uma transição progressiva e lenta, a escolarização veio retirar as pessoas do exclusivo domínio familiar, até mesmo grupal, para que muitas vezes sozinhas façam frente aos vários poderes que na vida lhes vão surgindo, revelando assim também a diferente natureza destes e as diferentes formas de eles se afirmarem. No entanto a actual escolarização não chega para que as pessoas apostem decisivamente nos sentimentos partilhados em vez de optarem pela submissão humilhante ou pela rebeldia inconsequente.