sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Visita ao Itinerarium III de um poeta com obra feita

A crítica literária é, em muito, feita à base de balanço de um percurso poético, mesmo que esteja em causa apenas uma obra determinada. Mas tal será, tão só, devido ao facto de a crítica ser feita normalmente por pessoas amigas e conhecedoras de toda a obra do poeta.
Não digo isto em sentido depreciativo, como é bom de ver. Além do mais não me era possível fazer igual por desconhecimento, talvez imperdoável, mas isso é outra questão.
Eu não acho recomendável, numa análise “jornalística”, utilizar métodos próprios de compêndio, em que se dá a imagem global da vida do poeta. Qualquer obra, de qualquer poeta tem que valer por si. Nem é necessário especular sobre o que está por trás de qualquer deles, obra ou poeta.
A poesia não estará facilmente à mercê dum prosaico como eu. Porém, penso eu, não a utilizando como técnica, nada me impede de ter vivências poéticas semelhantes às dos verdadeiros “fingidores”.
Se assim não fora não haveria ninguém a “comprar” poesia, se tal fora o hermetismo da sua mensagem e não houvesse partilha. Mas claro que é sempre problemático transmitir por prosa vivências previamente poetizadas.
O nosso objectivo aqui tem de ser incentivar/desincentivar qualquer leitura, sem atender a outros factores, sejam pessoais ou não, salvo os de índole qualitativa, se acaso disso formos capazes. Quem dá uma panorâmica da obra dará sempre realce aos aspectos que lhe saltaram mais à vista.
Como quem vai buscar a pedra para a construção da casa, Cláudio Lima vai buscar a palavra para a construção do verso, para com ele nos dar a razão do seu versejar.
O Autor segue a sua gestação quando o poema amadurece …/num vagar de essências …até que com a maturação se dê a explosão … numa girândola …/de sementes.
Da palavra à música é um caminho curto, qual perfeita simbiose que depura o silêncio e faz explodir as corolas/do sublime.
O ter uma folha em branco é o princípio/da queda na ardilosa teia/das palavras. Palavras que se juntam sem sentido/nem destino, só/ímpeto desarticulado, qual conspiração contra o poeta.
À espera de um só verso … no tempo sem limite, é como esperar que deus redime a espera/que luz ou que quimera? É a utopia capaz de iluminar o universo do Poeta.
Pobre poeta, que as palavras lhe montam, a cada passo, uma armadilha, porque por lúbrico deleite … imagina-se a copular metáforas … nessa ousadia, de solitário e concupiscente trato.
Com girassóis/de alegria e chaminés/verticais de assombro se faz a exaltação da poesia – chave da oclusa manhã enfim liberta.
Aqui chegado, Cláudio Lima dá-nos o seu conselho que é em ti/que pode acontecer/a definitiva noite/do poema. A neblina e a prolixidade são más conselheiras, avisa.
Como ténue guião para o leitor mais distraído chega por aqui. O Poeta mendigo continua algures, “sirvo-me dos restos/que deus desdenhou/vasculho no seu caixote” e, enfim, há-de encontrar as palavras …/de cujas/dispara uma luz clandestina às vezes.
Descrente que a poesia não seja um fingimento, o Poeta diz tudo letra e ilusão/em combinações imperfeitas/-voláteis bolas de sabão/ logo desfeitas. De certo que o Poeta também pode fingir que finge.
De alma vazia o Poeta chega ao arrependimento, que o voo sem asa e sem destino o leva ao fingido orgasmo.
Nem todo o caminho deve ser percorrido com guia, seja este bom ou mau, mesmo por quem dele possa precisar. O leitor fará as suas próprias descobertas, seja na confissão ou na revolta.
Sendo esta poesia, como no geral o é, resultante de uma visão pessoal, esta é aqui claramente assumida, com as suas vivências particulares, reais ou virtuais, mas que encontrarão eco nos sentimentos do leitor.
O último poema, que não é de menor apreço e é evidentemente pessoal, entra na linha de um certo pragmatismo mas, como recusa que é, grito de protesto partilhado por todos os poetas, tem a nossa compreensão. Que viva a poesia!