sexta-feira, 3 de novembro de 2006

A Escola na glorificação e na segregação

A escola hoje não é um patamar na vida de um homem mas um conjunto complexo deles, com diferentes objectivos, destinados a idades específicas, com formas organizacionais próprias e avaliações com critérios e exigências particulares.
Tem sido norma, comummente aceite, a tentativa de uma melhor adequação do tempo dedicado à escolaridade, de adaptação dos métodos e das actividades praticadas na escola à vivência própria da idade dos alunos, de modo a que haja um percurso paralelo ou o mais convergente possível.
Paralelamente atende-se cada vez mais ao papel da família na educação, à medida que, contraditoriamente, a família tem cada vez menos tempo e disponibilidade, até mental, para dedicar aos seus filhos.
A escola vê-se na contingência de assumir nova tarefas. Por exemplo, se a família não tem possibilidades de ensinar música, e é a família, e por extensão a sociedade, que cada vez mais faz essa exigência, é o Estado que tem que facultar essa possibilidade. Aliás a família está, no geral, bastante distante do contexto em que os seus filhos se movimentam.
Mas a partir de certa altura começa a ser problemática a capacidade da escola em acompanhar o desenvolvimento dos seus alunos e de ter o poder de dar satisfação a todas as possíveis exigências, muitas não suportáveis no contexto escolar.
Se nós olharmos umas décadas atrás verificamos que a fase de maturidade ou pelo menos de assumpção de muitas responsabilidades sociais se atingia em idades em que hoje ainda só se estuda e se não pensa dar esse passo.
Mas o natural é que os alunos vão tendo que dar resposta a novos estímulos externos, da sociedade e a novos apelos interiores, do seu próprio ser. Para eles vai-se tornando cada vez mais premente a necessidade de uma certa independência, de ter um poder de iniciativa que lhes não é facultado.
E as dificuldades vão surgindo em ignorar esses estímulos, controlar esses apelos e conciliar as exigências do estudo, a dependência económica, o adiamento do “ser” com a promessa de uma saída airosa para a “vida real”.
Quando o sistema escolar está estruturado em patamares, mas só se concebe uma saída pelo topo, quando a família não tem qualquer possibilidade de ver os seus filhos aí chegar, o desinteresse em atingir qualquer ponto intermédio generaliza-se, a perspectiva para os alunos vai-se deteriorando.
Se virmos o problema na perspectiva única da família verificamos que, se esta é de todo disfuncional ou se tem tempo mas não tem saber ou se tem saber e não tem tempo, é só quase da capacidade única dos filhos que depende algum sucesso escolar e algum do seu sucesso na integração laboral e social.
É em relação a estes alunos que vivem num contexto familiar desfavorável que mais se exerce a influência negativa que resulta da falta de sintonia entre um percurso normal de vida e o percurso escolar que, um pouco contra-natura, foi incrustado naquele.
Em cada patamar do estudo se vai pondo o problema de saber se este vai ou não ser o último. E tendo isto a ver com a capacidade da família, a sua cultura própria, o relacionamento interno dos seus membros, o aluno é o primeiro a se aperceber se há efectivo apoio para que possa fazer a sua inserção imediata na vida activa ou para a protelar por mais uns tempos.
Haverá sempre uma altura em que os alunos têm que sair da escola, abandonar esse mundo descaracterístico e artificial e enfrentar o mundo do trabalho. E cada vez mais a escola tem que estar preparada para deixar sair do seu seio alunos capazes de se confrontarem com essa mudança e de se adaptarem às novas exigências que se lhes vão deparando.
A adequação dos patamares do ensino aos ciclos normais da vida da criança, das fases da adolescência e de uma certa mas imprecisa maturidade seria um passo importante para que a mudança para a vida laboral se não fizesse a meio de ciclos e houvesse uma melhor transição.
Não há qualquer drama em nem todos saírem pelo topo do sistema. Nem todos podemos ser “Doutores”. Mais, a sociedade não preciso só de “Doutores”. A escola tem que incluir para os que acabam a escolaridade obrigatória e para o final de cada um dos patamares seguintes uma forma de inserção dos seus alunos no mundo do trabalho, numa vida social mais ampla do que aquela a que, enquanto estudantes, estariam habituados.
Continuarão a existir, por força da divisão do trabalho, tarefas que poderão ser desempenhadas com igual dignidade por aqueles que não possam ou não queiram “suportar” tantos anos de escolaridade. Mas que têm direito a ter uma habilitação intermédia valorizada e exigente.
O Estado não pode, mercê da deficiente estrutura em patamares da escolaridade que nos faculta, dando exagerada importância ao topo e deixando a parte que constitui o cerne do sistema no maior desleixo, contribuir para uma abusiva estratificação social, em que o que conta é ser “Doutor”.
O Estado tem que tudo fazer para, com o mínimo de interferência na vida familiar, dar igualdade de oportunidades a todos. Há percursos escolares que, em princípio, não estarão ao alcance de muitos, por razões económicas e familiares, mas uma interferência na família pode repercutir-se na sua harmonia.
Acima de tudo o Estado tem de proporcionar saídas dignas. Todos os que, por terem menos capacidades ou por qualquer outra razão, vão terminando o seu plano de estudos, merecem igualmente sair dignificados, para que não haja ninguém segregado.
De qualquer forma o alcance de mais um ou menos um patamar no percurso escolar não pode ser motivo de discriminação, sendo que hoje essa ameaça é usada como incentivo para os alunos mais novos ambicionarem ir mais além.Infelizmente a segregação não começa quando o “filho da mamã” atinge o ambicionado “canudo” mas quando lhe é incutido, enquanto criança, que se não obtiver o dito não é nada na vida. E mais, quando nunca se lhe chega a dizer que se pode estar a criar um “monstro”. E há tanta gente digna sem “canudo”.