sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Os Heróis versus malfeitores no movimento associativo

A nossa intervenção cívica pode ter um carácter individual ou associativo. Com este último nós cingimo-nos ao âmbito da intervenção que os estatutos da associação em que nos inserimos expressamente determinam.
Numa associação podemos dar tudo por poucos objectivos mas sermos mais eficazes. Individualmente nós podemos fazer uma intervenção mais ampla nos objectivos, menos dirigida, porém possivelmente mais dispersa, menos eficaz.
As associações, se nos podem ajudar a ter uma intervenção mais consistente, impõem-nos várias limitações. Primeiro temos que conciliar a nossa intervenção com a dos outros associados e agir colectivamente o que nem sempre é fácil. Depois dificilmente o seu âmbito e o seu estatuto são coincidentes com aqueles em que e com que gostaríamos de actuar.
Mas há associações de naturezas diversas, exigências diferentes. Umas, com responsabilidades mais viradas para os próprios membros, satisfazem interesses mais particulares e de grupo, outras, mais viradas para a sociedade em geral, satisfazem interesses mais colectivos e gerais.
Eventualmente nós podemos pertencer a mais do que uma associações que se complementam. Em qualquer uma devemos contribuir para que elas não existam só no papel, para que elas exerçam os deveres estatutários que tenham assumido e para que os seus membros participem activamente nas suas decisões e na sua concretização.
Mas todas as associações têm a sua direcção que, com maior ou menor elasticidade, define as tarefas que está na disposição de levar a cabo, dentro dos condicionalismos existentes. E a maioria delas não se abre à participação dos seus associados, fora dos actos eleitorais.
Quando por natureza são associações defensoras dos interesses dos seus membros, às suas direcções é atribuída uma maior responsabilidade porque se as outras fazem o que podem e a mais não são obrigadas, como sói dizer-se, estas são responsáveis por acção e omissão e as tarefas que podem executar são muitas vezes imprescindíveis para os associados.
São associações que muitas vezes constituem a única forma de os seus membros se fazerem ouvir. Portanto deve ser-lhes dada a possibilidade de ter uma intervenção mais directa na formulação das propostas que as direcções devem ter em consideração na sua actividade futura. Assim se deve passar em sindicatos e grémios patronais.
Mas a vontade da generalidade das direcções é que os seus associados se limitem a dar cumprimento às suas orientações sem cuidarem da sua justeza, nem sequer da sua legitimidade. Escudando-se na legitimidade do voto e relegando para futuras eleições a avaliação da sua actuação, só solicitam a participação dos associados para a execução do que a direcção determina.
Mas, se aqui estão em jogo, ou podem estar, interesses próprios cuja cautela é o próprio motivo pelo qual os associados se agrupam, em qualquer altura a intervenção destes é legítima. Se não impuserem a si mesmos uma assídua atenção aos actos directivos, estão a ser ingénuos e a demitir-se da sua função fiscalizadora.
Infelizmente quando as direcções não fomentam, nem são receptivas a um tipo de intervenção mais imediata, esta vai emagrecendo e diluindo e vai mesmo definhando a capacidade de ela mesma se fazer. Os estatutos rapidamente se esquecem, o costume prevalece.
Nas associações mais viradas para interesses colectivos e gerais a participação ainda é menor, por desinteresse de direcções e associados. Quanto menos interesseira ela for, mais protagonismo as direcções alcançam e menos intervenção têm os simples membros.
Com a demissão geral, em todas as associações podemos chegar ao ponto de só termos razões morais do nosso lado para brandirmos contra as direcções que se esquivam de qualquer modo a executar o que achamos deverem ser as suas obrigações. Mas também é com facilidade que concluímos que a direcção é a única culpada de não agir correctamente.
Mas se não nos ficarmos só por aqui, pelas razões morais, ainda poderemos concluir que as pessoas que constituem a direcção de uma associação se desviaram nitidamente de um rumo conforme às suas obrigações estatutárias e então caem no domínio do logro, do embuste. Mas coisa diferente é pormos em causa a honestidade das outras pessoas.
No entanto as associações são, pela sua natureza de organizações de difícil controlo, uma tentação para pessoas de baixo carácter. Não só baixo carácter dos que lá estão mas de muitos dos que entram depois a porem de rastos aqueles que os antecederam. E aqui baixo carácter e ganância não tem só a ver com dinheiro.A fase de mudança de direcção é sempre a mais problemática porque aí vem tudo ao de cima, com a intenção de tornar ilegítimo o que foi legítimo, errado o que foi certo, confuso o que foi linear, nebuloso o que foi claro. È muito difícil reconhecer o bem, quando este existe e às vezes são os maus que passam por heróis.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

O choradinho nacional, uma fórmula de sucesso

O choradinho nacional pode ser abominável mas é sem dúvida um desporto rentável. Não é que não haja pessoas que tiveram ou tenham razões de queixa da sua sina. Infelizmente haverá muitas com razão para lamentar a sua má sorte e que até o não fazem. Mas mais ainda são as que choram e não têm razão nenhuma.
O choradinho encarna a injustiça. Há muitos a quem as razões não faltariam para se agarrarem a ele, mas são incapazes, têm vergonha de o fazer. Os que já perderam esta vergonha, esses retocam o seu caso com as cores que mais lhes agradam ou criam mesmo um fenómeno colectivo que só eles vêm. Assim há choradinhos para todos os gostos.
Muitos escrevinhadores, opinadores, mais da Internet, mas ainda da imprensa clássica, empregam este método, generalizam casos particulares. Com teses para justificar e com medo de terem pouca razão, não suficiente para desnivelar no seu sentido os pratos da balança política, pintam excessivamente de negro o panorama social.
Há quem veja sempre a pobreza a crescer, as condições sócio-económicas a diminuírem, a descriminação social a aumentar. Os progressos genericamente conseguidos não chegam para que eles transmitam uma réstia de esperança. Mas acima de tudo está-se a ir contra a natureza das coisas ao não se reconhecer que o social está dependente do económico, ao não distinguir o individual do colectivo.
Não se pode deixar de lamentar que a diferenciação social seja cada vez maior, todos os justos o reconhecerão. Mas o progresso não é linear, há altos e baixos. Equilíbrios destroem-se, novos equilíbrios constroem-se, incessantemente, num sistema de economia aberta em que há poderosos factores incontroláveis.
As coisas não são cor-de-rosa, mas também devemos estar conscientes de que nunca o serão. Contentemo-nos em dar mais vida ao rosa, denunciando e combatendo a excessiva diferenciação, as novas formas de marginalização social, o excesso de gasto de energia, de consumo de bens escassos, a depreciação do ambiente, a obsessiva procura do bem-estar, do lazer, do prazer, da perversão.
Identificar os perigos não é necessariamente ser catastrófico. A rotura do equilíbrio ambiental, o fim dos recursos disponíveis, o prazer no sofrimento alheio, o fim de todos os valores de humanidade, de certo que, sendo uma responsabilidade global, o primeiro de todos que a deve assumir é cada um de nós, sem entrarmos em pânico nem promovendo movimentos colectivos desta natureza.
Da parte dos políticos há uma grande contribuição para o agudizar destas situações porque não fazem promessas legítimas, fecham os olhos à justiça, não incentivam o altruísmo, não promovem a colaboração. Serão mesmo os culpados, mas só enquanto membros e expoentes de um sistema que assim funciona com a colaboração de tantas pessoas e tantos opinadores.
Se não se pode deixar que os políticos adormeçam, se são os políticos que estão no poder os únicos que apetece castigar porque também são os únicos que podem sofrer de imediato as consequências da contestação, não podemos esquecer que o mal começa na falsidade em que todas as campanhas eleitorais assentam, o que compromete todos os partidos.
A pior maneira, a mais desacreditada e menos sensata, mas a mais fácil e mais disponível porque está na ponta da língua, é a promoção desenfreada do choradinho nacional que dum caso quer fazer uma calamidade nacional, que quer contaminar o ânimo daqueles que sabem que têm que trabalhar, lutar e contribuir para a sociedade para que esta lhes proporcione os meios de uma vida digna.
O choradinho é uma tentativa de desculpabilização própria, de criação nos outros de sentimentos de culpa que produzam algum efeito paralisante. Como esta doença está tão largamente espalhada, às tantas todos somos simultaneamente inocentes porque acusamos e culpados porque somos acusados. Todos sempre temos algumas razões para nos acharmos vítimas de alguma má vontade.
Afinal tivemos quase cinquenta anos a direita no poder e aí o choradinho não tinha lugar, estava ferreamente contido pelo regime político de Salazar. A miséria via-se mas não se falava dela, os pedintes deambulavam mas não lamentavam a sua sorte, os poderosos inchavam mas procuravam não ofender.
Afinal o 25 de Abril permitiu o grito dos desfavorecidos, o desmascarar de uma situação hipócrita, a abertura de novas perspectivas de justiça. Mas parece tão mal que no salazarismo quase ninguém tenha sido capaz de verter umas lágrimas e agora haja gente de direita que promova, com manifesta injustiça, o verter de tantas falsas lágrimas a querer dar a ideia de uma pranto geral.
Não podemos permitir que uma nítida hipocrisia seja substituída por outra, agora com possibilidades de abrirmos bem os olhos e ver a realidade sem disfarces e fantasias. O saco lacrimal, se estava cheio, deve ser esvaziado doutro modo. Nada mais prejudicial para quem tem razão que esta nuvem criada por quem tem intuitos mal definidos.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

A crítica superficial e sem seriedade

A crítica superficial é a que mais prolifera na praça pública. Não só porque as nossas capacidades para entender, fazer alguma coisa ou contribuir de algum modo para mudarmos a realidade são limitadas mas porque há forças politicas apostadas em que assim seja e outras, quase todas, que disso se aproveitam.
Como há muita gente a pensar imediato, é fácil encontrar o número suficiente de pessoas para dar a certas afirmações jocosas uma ressonância despropositada. Quem dos meios político/jornalísticos acha que isso lhe será favorável reforça em meios mediáticos aquilo que corre nesse imediatismo fácil.
Não faltam pessoas que já tenham verberado esta situação. Mas por mais que tenham gritado que assim não pode ser, que se não pode recorrer à crítica fácil e na ponta da língua, ao insulto e à frase achincalhante, assassina, pretensamente hilariante, não se vêem melhorias significativas.
Não chega, se é que isto leva a lado algum. Afinal são vozes de quem é a primeiro objectivo deste deita abaixo. Este jogo persistente em que o facciosismo está sempre presente, ora se bate para uma lado ora para outro, está enraizado de forma bem segura na alma nacional. Os críticos de hoje sabem ser os candidatos a criticados no futuro. E ninguém se parece preocupar seriamente com isso.
Depois há aqueles tão versáteis que estão sempre do lado dos críticos. Uns por debilidade mental, por interesse em agradar, outros que assumem uma pretendida superioridade de quem julga ter solução para tudo. Há gente que está sempre a ver o grotesco nos outros e não olha para as tristes e mesmo miseráveis figuras que faz. Para esses os outros falham sempre.
Mesmo quando temos sérias e honestas razões para criticar e até gostaríamos e veríamos com bons olhos que os outros criticassem também aqueles ao lado dos quais, à falta de uma opção melhor, nós estamos, somos obrigados a demarcarmo-nos de certas críticas assentes em argumentos errados e assim desonestos e maldosos, sem fundamento.
Pugnar pelo aperfeiçoamento dos mecanismos sociais, pela gestão equilibrada da coisa pública, por fazer prevalecer a solidariedade face ao egoísmo reinante, passaria por uma crítica que tivesse em si os argumentos que se auto-justificassem, no sentido de se conseguir melhor politica, melhor ambiente social.
Haverá gerações para que isto mude. Mas se estamos à espera que as condições sócio-económicas mudem para que este panorama psíquico melhore, para que as dúvidas que assolam os espíritos se esvaziem, nunca mudarão o suficiente para desarmar esta chacota parva em que todos nos deixamos levar, à falta de melhor para passar o tempo.
Incrivelmente, quando já julgávamos ter alcançado uma situação há anos impensável e que satisfaria as pessoas que estão eram as protagonistas, tudo cai por terra e a insatisfação ressurge nas novas gerações persistente e indomada. Que é feito dos nossos conhecimentos? Quem está encarregado de os transmitir?
A principal condição do aperfeiçoamento do nosso conhecimento ou ao contrário da manutenção deste espírito medíocre de crítica acéfala é a forma como se exerce o ensino e a maneira como é reproduzido a nível dos meios de comunicação. É que o conhecimento se desenvolve mais rapidamente do que o nosso entendimento individual é capaz de acompanhar.
Todos aqueles a quem não chegam as capacidades para a explicação da realidade se deixam tomar por essa verborreia imensa que lhes esvazia a alma. O jornalismo é arrastado, a honestidade intelectual não é paga e mesmo nos órgãos estatais campeia a crítica mais descabelada e patética. Também se obriga o governo e as câmaras a darem espectáculo para verem passar a sua mensagem.
O império das audiências e das leituras faz com que, por mais intelectuais em que nos armemos, por mais séria que queiramos que seja uma discussão, se nela não encontrarmos umas partes que nos ponham a rir, já não achamos graça nenhuma e para a próxima possivelmente não nos apanham a ver ou ler.
Enfastiamo-nos facilmente e só guardamos aquilo que podemos utilizar para a chalaça, a tirada fácil, o insulto soez. Damos pulos de contentamento se descobrirmos nos outros uma brecha, uma réstia de descontinuidade de que, no nosso entendimento, podermos fazer um caso grave de incoerência.
Vamos persistindo com raiva e desfaçatez em perseguições teatrais na busca de roupa suja para espalharmos de forma acintosa no estendal mediático. Quando a bola de sabão tiver dimensão razoável já ninguém olhará para quem lhe deu origem, para os seus defeitos e propósitos.
Passamos a vida a chamarmo-nos ignorantes, parvos e outros mimos ainda mais agressivos, a hipocritamente pôr nos outros a defesa dos valores económicos quando a economia é de todos e é o coração, o cerne e a seiva da nossa vida. Relativizamos tudo, até a liberdade e a democracia, conforme as conveniências de uma retórica balofa e sem sentido.
Todos temos a pretensão de saber de todos sem desvendar os nossos interesses e objectivos. Conforme as nossas necessidades argumentativas, assim vamos atacando os outros e colocamo-los despudoradamente a defender as proposições opostas às que nós efectivamente defendemos.
Para nunca estarmos desarmados, organizamos um catálogo de tiradas bombásticas que nós vamos arquitectando e tornando disponível para arremessar, qual fumo atirado aos olhos alheios, quando não sabemos ou não queremos responder às questões legítimas que nos colocam os nossos adversários.
Com um número razoável de proposições verrinosas montamos um cerco à pessoa que desejamos derrotar de modo a perturbá-la, condicioná-la e fazê-la assumir afirmações que nunca terá feito ou corroer-lhe o ânimo. No fundo os fracos só se limitam a copiar quem dá o exemplo, os poderosos.
Humilhamo-nos sem necessidade, por perversidade, por gosto. É um jogo desleal, ignóbil, ardiloso, cobarde. Mas é nesta cultura de espertismo e de ofensa à inteligência que nos sentimos bem. E, para cúmulo, raramente ganhamos algo com isso, o que não favorece a bondade da questão, mas que lhe dá um aspecto fútil.
Vamos percorrendo caminhos velhos sem despertar para a novidade e o futuro. Não abrimos horizontes de liberdade e inovação, antes investimos na subserviência e no atavismo. A mantermos as nossas divergências neste patamar de acusações não conseguimos sair do passado, se é que o queremos.
Isto leva-nos a evitar o diálogo e a remetermo-nos a uma trincheira. Em vez de abrir fronteiras construímos barreiras. Trocamos o gosto pela vida pelo gosto de desagradar. Em vez de expandir a claridade fechamos a luz. Aviltamos o homem, de modo algum o nobilitamos.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Estudar é fácil com uma boa gestão do tempo e das expectativas

Quando se coloca a matemática como o campo em que se separam os inteligentes dos espertos não se está a prestar grande contributo para a melhoria do seu estudo porque, a aceitar-se que assim seja, na sociedade a esperteza é de longe mais favorecida. E até os alunos já sabem disso.
Mesmo que se não trate de saloia esperteza não é precisa grande argúcia matemática para multiplicar proventos, benefícios e recursos. O discernimento necessário está mais no bom aproveitamento das oportunidades, na escolha certa dos lugares e dos relacionamentos, na experiência transmitida e adquirida, dons e atributos que devem ser aproveitados em benefício de toda a sociedade.
A matemática também tem vários níveis e cada um tem valor próprio e suficiente para cada objectivo a atingir. Mas a matemática só é verdadeiramente valorizada para tirar cursos vantajosos, para aquilo em que é imprescindível, que no restante os alunos se vão deixando levar pela fuga a um esforço exagerado. A matemática fica a perder no confronto com a esperteza.
Entende-se no geral que, se a matemática não for absolutamente imprescindível, o tempo que se lhe pode dedicar pode constituir uma perca sensível comparativamente à sua utilização no estudo de outras áreas e até noutras actividades económicas ou sociais.
A matemática é assim susceptível de arranjar pessoas que lhe são indiferentes e outras que lhe têm manifesta aversão. E este argumento, além de influenciar muita gente, com o passar do tempo cada vez mais peso tem, que, para recuperar o atraso, vai ser necessário mais tempo quanto mais ele vai escasseando.
Para que o problema não entre irreversivelmente neste plano inclinado, da diminuição progressiva das possibilidades de inversão da situação, de deterioração das condições psicológicas de estudo, quando não há uma clara simpatia pela matemática, é imperioso colocar em marcha outros factores que possam influenciar o aproveitamento escolar genérico e especifico.
O problema, visto pelo seu aspecto mais básico, está ligado à gestão que cada qual tem que fazer do seu tempo. O estudo tem de ser tido em conta nessa gestão e não tem a ver só com inteligência e esperteza mas também com o ambiente familiar, a motivação induzida e a gestão das expectativas dos alunos.
O ambiente familiar é determinante para estimular uma gestão adequada do tempo, conciliadora do estudo e das “distracções”, uma aceitação incontestada da ordem familiar e de todas as ordens que lhe são correlativas, como a escolar, da disciplina e do rigor. Embora parte da responsabilidade deva ser delegada pela família na escola, esta não se pode substituir àquela.
Só que, além de que os familiares dos alunos poderem ter outros problemas mais visíveis e que lhes absorvem a atenção, podem não ter capacidade para lhes mostrar a necessidade do estudo e em particular deste. Além disso podem tornar caótica a sua própria gestão do tempo, atribulada a gestão dos conflitos familiares, transmitir a instabilidade, a inquietação, a marginalidade.
A ausência de uma base familiar sólida, capaz de firmeza e com flexibilidade bastante, só pode ser suprida em parte por acção do colectivo escolar, sendo que, não raras vezes, um professor é suficiente para desestabilizar e tornar o ambiente de toda a escola, como é percepcionado por ele, hostil ao aluno ou demasiado permissivo.
É um trabalho complexo dependente da preparação dos professores e de outros agentes do ensino em que aqueles que estão habilitados e psicologicamente preparados nem sempre vêm o seu trabalho facilitado por acção da inépcia, da inveja e da sabotagem de pessoas mal intencionadas e irresponsáveis.
E é um trabalho melindroso que tem que visar a conciliação da dinâmica familiar com a dinâmica escolar de modo a que, para se evitarem roturas aqui se não vão criar roturas na família. Uma intervenção emocionalmente desequilibrada pode criar mais problemas do que os que resolve.
Só esporadicamente aparecerão alunos que consideram a escola/ensino como um refúgio e vivem bem com uma situação familiar deficitária. Também poucos, nas actuais circunstâncias, mesmo que sob a influência de uma família disfuncional, criarão uma aversão absoluta à escola.
As situações mais melindrosas são as situações extremas em que a integração em grupos agressivos na escola são um escape para um desequilíbrio emocional gerado na base familiar. De igual modo pode acontecer se a família se dedica a actividades marginais, mais atraentes para a imaginação juvenil.
Este trabalho é para equipas devidamente preparadas para o efeito, mas a acção individual dos professores pode contribuir e, nos casos mais normais, pode ser suficiente para induzir nos alunos a motivação necessário para o estudo, pelo menos na sua área específica.
Uma das áreas em que podem actuar é na gestão das expectativas, ora para conter as expectativas exageradas trazidas dos meios familiares ora para alargar o leque das possibilidades ao dispor dos alunos. São as expectativas que geram os impulsos e condicionam a emotividade
Uma turma equilibrada não é aquela em que todos os alunos são todos bons ou todos são uma lástima. Uma turma equilibrada é aquela em que há uma gestão equilibrada das expectativas, sem que no aspecto lectivo tenha que ser um contra todos e todos contra um, aquela emulação tão fácil de implementar.
Aliás a complementaridade é muito mais importante na formação humana e social do que uma pretendida homogeneidade, reprodutora da diferenciação social e geradora de uma competição desumana e frustrante e criadora de “monstrosinhos”, chamo eu a seres egoístas e avarentos.
O trabalho mais importante, muito para além da gestão dos exageros, uns desmontáveis outros nem tanto, é a recuperação das expectativas entretanto abandonadas, o incentivo às expectativas realistas que possam levar a uma integração social sem traumas e sem humilhação. O jovem é uma pessoa em permanente risco.
A matemática desempenha um papel fulcral por ser fonte de muito desencanto, de muita frustração, de muito abandono. Também o seu ensino deve ser encarado no sentido de manter o equilíbrio entre aqueles que querem e são capazes de mais e aqueles que, não querendo, têm que ser incentivados, e, não sendo capazes, têm que ser ajudados.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Como ter um poder autárquico insuspeito

As estruturas partidárias são indispensáveis a nível nacional mas cada vez mais vistas como um mal necessário, o que faz que a nível local já quase sejam vistas como dispensáveis, tanto pelo eleitorado como pelos presumíveis candidatos a candidatos. Mas claro que só até certo ponto.
Se verificarmos raramente aparecem candidatos genuinamente independentes. Os que se habilitam a exercer cargos autárquicos são normalmente indivíduos que já fizeram parte de partidos mas que foram marginalizados e excluídos ou se auto-excluíram.
Utilizaram os partidos para adquirirem visibilidade, experiência e, quiçá, alguma sabedoria, conseguiram alguma projecção na opinião pública e influência através de amigos e correligionários, adquiriram um peso político próprio que lhes permite pensar que serão capazes de voar sozinhos, sem necessidade de rede que os ampare e bússola que os oriente.
Mas para se ser “independente” não é necessário abandonar os partidos. Na verdade seria pressuposto que, uma vez eleitos, os autarcas mantivessem um certo vínculo partidário no sentido de prestarem contas e receberem orientações de quem os indicou para o exercício de cargos públicos. Na realidade isto não se passa e geralmente, uma vez eleitos, todos passam a funcionar em roda livre.
O que seria necessário era garantir um outro tipo de independência que raramente existe. Continua a exercer-se quase genericamente uma influência ilegítima que tem a ver com favores pessoais e partidários. Aos autarcas convém manter a ideia que existe influência, que estão a defender valores partilhados pelo seu partido, mas não curam muito de saber da legalidade do que fazem.
A independência indispensável não colidiria com a obediência a princípios orientadores de que os partidos devem ser os fiéis depositários. Porém a debilidade das estruturas destes a nível local permitem que mais depressa aqueles princípios sejam apropriados e distribuídos por quem exerce alguma forma de poder e avaliados pelos critérios subjectivos de cada um.
Os partidos nada fazem para alterar este estado de coisas, para separar a orientação política da execução prática porque sabemos quão difícil é pôr alguém a dar suporte a quem executa o que bem entende e pôr alguém a executar o que outros decidem como lhes apetece.
Esta separação é sempre entendida como dando origem, não a um trabalho de colaboração e convergência, mas a que uns se imiscuam no trabalho dos outros e se constituam alternativas conflituantes, surjam lutas intestinas pelo poder, no fundo divergências mais de forma do que de substância.
A impotência dos partidos para acabar com esta salgalhada leva a que muitos políticos a invoquem para se desligarem de responsabilidades, para se tornarem independentes, o que na verdade nunca vêm a ser de forma mais pura do que aquela de que já são. Não há mesmo pior independente do que o ressabiado, aquele que culpabiliza os outros pela pouca importância que lhe foi dada.
Mas a população em geral gosta disto, que seja dado azo a que ela mesma possa manifestar a sua quota-parte de ressentimento porque, quando vota, gosta mais de ter em conta os motivos para votar contra do que as razões de um voto a favor. Na verdade os partidos também usam a mesma lógica e quando a não usam, quando utilizam o discurso mais positivo, são penalizados por isso.
É sempre preciso vincar bem que os outros são incapazes, fazem tudo ao contrário. É a lógica da demarcação, da criação clara de barreiras, da definição dos campos em que nos colocamos, que todos adoramos, nem que no dia seguinte estejamos a dizer que gostávamos que todos rumassem na mesma direcção.
Por isso os partidos se não preocupam em apresentar grandes propostas, não privilegiam grupos de estudo, não incentivam o trabalho de grupo. Para quê se, chegados às eleições, os eleitores não ligam nada a isso, preocupam-se mais com aqueles aspectos que, não sendo evidentes na acção política, gostam de ver realçados nesses momentos e que passam pelo dito demarcação e perfilhamento?
No fundo o que a população já compreendeu é que qualquer independente, daqueles ex-partidários com um pouco de experiência, serve para exercer um cargo autárquico, que afinal nada mais é pedido aos outros, àqueles que mantém a ficha no partido, garantia apenas de poderem ter um melhor acesso.
Mas na minha opinião votar nestes independentes é contribuir para o folclore e não fazer nada contra a degradação, a promiscuidade entre o poder económico e o político, a demissão da intervenção política das pessoas que, se não for através dos partidos, na maioria dos casos também se não fará doutra maneira.
Também se podia dizer que os candidatos para não serem partidários, nem individuais, deveriam partir do esforço conjunto de associações, o que lhes daria a vantagem de terem um vínculo mais flexível de que os partidários, sem ter o excesso de flexibilidade de um individual.
Só que as associações têm elas próprias uma maior amplitude de respeito pelos princípios estatutários que facilmente pode ir de fundamentalismo mais exacerbado à permissividade mais irresponsável. Uma associação só dá as garantias à sociedade que os seus associados activos estiverem dispostos a dar.
Por isso aparecem pessoas a quererem constituir associações ou a se integrarem noutras e a quererem dar-lhe um domínio de intervenção claramente excessivo e inadequado. O que pretendem é usá-las como trampolim, fazendo valer o seu peso específico com a repercussão transversal assim obtida.
Também aqui temos uma outra categoria de independentes que, porém, por força da cada vez menor intervenção cívica das pessoas e de pouca qualidade da sua intervenção, está em evidente desaparecimento e desacreditação.
Em suma teoricamente a melhor maneira de resolver a questão seria serem os partidos a indicar os candidatos a dirigentes autárquicos mas estes, uma vez eleitos, tornar-se-iam independentes e enquanto exercem essa função deixariam de integrar estruturas partidárias para não terem coberturas acríticas.
Todos estariam em certa igualdade e privar-se-ia o poder local de influências ilegítimas. A haver desrespeito pelos princípios defendidos pelos partidos os candidatos só seriam penalizados na recandidatura a novo mandato. Se houvessem pressões ilegítimas durante o mandato elas também seriam mais facilmente desmascaradas. Afinal o recandidato não precisa do partido para nada.