sexta-feira, 24 de abril de 2009

25 de Abril … Sempre!

25 de Abril … Sempre!! Esta afirmação mantém-se viva na minha memória, relembrando-me constantemente que tive o mérito de ainda ter vivido a data mais marcante no último meio século português.
No entanto não é o mérito pessoal de ninguém que garante o mérito colectivo de quem então procurou resolver problemas que já vinham há décadas sem solução. Todos nós nos atribuímos intenções cuja pureza haveria de ser posta de alguma forma em causa pelo desenrolar dos acontecimentos que tiveram múltiplas influências internas e externas.
O que hoje pensamos não coincide necessariamente com o que pensávamos à época. Então muitos de nós fomos mesmo apanhados de surpresa. Foi com indiferença, entusiasmo ou medo, sentimentos muito diversos, que vivemos esses factos que constituíram a radical mudança há tanto tempo reclamada. Foi essa forma como vivemos esses momentos únicos que determinaram o desfecho que os problemas encarados viriam a ter.
A nossa impreparação era tanta, o contexto internacional era para nós tão complexo que não restarão dúvidas que só com o tempo a maioria de nós foi afinando a sua bússola, sabendo por que caminho havia que seguir, conciliando a realidade pessoal com a realidade social, construindo uma nova identidade perante a liberdade. Seria a má consciência de tantos que por má conselheira levou a muitos aventureirismos.
A realidade social teve um peso imenso na atitude que a maioria tomou perante o 25 de Abril, apática a montante, em relação às suas causas mas decisivamente a jusante, em relação às suas consequências. Quanto a estas as divergências resultaram em muito, além doutros factores, da região em que nos inseríamos.
A maneira como genericamente os Limianos viveram o 25 de Abril foi diferente, com a expectativa própria de quem nunca se empenhou seriamente na queda do regime anterior, de quem encara a economia com tanta ou mais displicência com que encara a política e portanto não encontrou razões obvias e imediatas para se envolver.
Também, se outros já tiraram conclusões definitivas há muito, porventura muitos de nós ainda não somos capazes de assumir frontalmente o nosso apoio ou o nosso repúdio pela mudança que ocorreu. Muitos dirão que muito falta mudar, mas nem esses estão de acordo sobre a balanço a efectuar. Se as intenções de muitos ficaram sem satisfação em compensação outros aproveitaram oportunidades nunca antes pensadas.
Houve mudanças drásticas na super estrutura económica que cá não se fizeram repercutir e que se haveriam se reverter sem perca nem proveito que se vissem. Por todos os motivos falar delas é despiciendo. As mais importantes mudanças que a nossa sociedade tem sofrido derivaram da influência que outras realidades trazidas pelos meios de comunicação cá tiveram, pela influência directa da nossa entrada nas Comunidades Europeias e pela posterior adesão do nosso País ao Euro.
Estas foram mudanças para ficar, que alteraram a estrutura social, que, se nos tornaram dependentes do que vier a ocorrer noutros países, nos deram por outro lado a possibilidade de sermos actores principais, de termos um papel a desempenhar na Europa, no Mundo, enfim no futuro que temos que saber aproveitar.
O 25 de Abril impõe-se mais como o ponto inicial desta viagem pelos caminhos da civilização e pela abertura que nos permitiu sonhar, pensar, realizar e não ficarmos só por sonhos patéticos e utopias loucas que o momento proporcionou a alguns. O 25 de Abril foi a largada para esta caminhada que foi correria às vezes, se tornou passada curta em algumas ocasiões, que teve atropelos, retrocessos, falsos avanços, mas que num sempre provisório balanço se tornou vantajosa.
No cômputo geral, tirada a linha tendencial, o 25 de Abril revelou-se altamente benéfico para nós, para a nossa dignidade individual e colectiva, para a nossa afirmação como pessoas que têm direito a ser diferentes, respeitadas e com iguais oportunidades e para a nossa afirmação colectiva, como povo generoso, audaz na aventura, comedido na celebração, solidário na dificuldade e que terá vantagem em se não deixar diluir.
Pessoalmente, vendo o 25 de Abril com os sentimentos de esperança que partilhava 10 anos antes, teria que o ver agora com frustração. Na época houve uma euforia incontida que depressa se tornou entusiasmo comedido. 10 Anos depois já só restava resignação com um sentimento de alívio. E um sentimento de gratidão ao Partido Socialista por nos ter libertado de muitas dificuldades.
Colectivamente o 25 de Abril é quase unanimemente aceite como a transição possível com os condicionamentos e com as pessoas de que era possível dispor. A contestação ao 25 de Abril é hoje residual. Afinal os danos colaterais foram reduzidos perante as benfeitorias que o 25 de Abril no trouxe. A conquista da liberdade depressa se tornou sólida mediante um certo equilíbrio que se estabeleceu entre as forças políticas. Se não é a liberdade ambicionada é a liberdade possível para as nossas capacidades.
A democracia, a liberdade são hoje tão naturais que os mais jovens nunca terão a consciência perfeita do que foi necessário lutar, dos sacrifícios feitos, das humilhações e vergonhas passadas. Na política temos o handicap de nunca podermos comparar directamente, de nunca podermos voltar atrás para fazer as coisas de outra maneira, de saber os resultados que obteríamos se tivéssemos procedido a outro gosto.
A política não é o domínio da racionalidade, está condicionada pelas emoções, pelos instintos, pelas conveniências, pelas circunstâncias quando estas têm atrás de si todo o peso de uma realidade social imóvel de séculos ou influenciada pela histeria das ilusões fugazes. A história tem outras obrigações, está sujeita a outros ditames, que não o capricho ou a ignorância. E a história deu-nos razão.
O 25 de Abril já pode ser visto por esse prisma mais distante mas mais seguro. A este 25 de Abril que a história nos mostra eu direi: 25 de Abril ... Sempre! Se não nos trouxe tudo o que esperávamos, mesmo assim a este 25 de Abril que nos permite traçar uma linha com a liberdade suficiente para a irmos adaptando conforme o que o nosso juízo político mais imediato nos for sugerindo. A este 25 de Abril eu direi: 25 de Abril … Sempre!

sexta-feira, 17 de abril de 2009

O João Pereira, uma Figura Limiana ímpar

O João Pereira era uma figura ímpar em Ponte de Lima. O João da Havaneza, o João do Banco, por onde passava, o João de quem logo se falava era o João Pereira. Cedo o seu Pai, o Sr. Adélio, o Sr. Adélio da Assembleia, o Sr. Adélio do Cinema, o Sr. Adélio Tipógrafo deste Cardeal Saraiva, outra figura multifacetada e incontornável na vida social do seu tempo, o empregou na Havaneza, então a Pastelaria de referência em Ponte de Lima.
O João Pereira tornou-se conhecido de toda a gente limiana e não só, pela alegria contagiante que sempre demonstrava, passando a ser convidado de honra em casamentos e baptizados, matanças de porco e festas de anos, fosse em casa de Abades, fosse na dos Lavradores mais ou menos abastados. Animava quem com ela convivia, partilhando da sua natural exuberância e despreocupação.
Pelo conhecimento que tinha das gentes do concelho, o BPSM haveria de o vir buscar para prospector da sua agência de Viana do Castelo. Não havia comerciante ou pessoa de alguns ou poucos cobres que ele não conhecesse e a todos tratava com a mesma deferência, em pé de igualdade. Mais tarde ingressaria no Banco Borges & Irmão de Ponte de Lima, primeiro Banco além da CGD a se cá instalar, e que ele ajudou à grande projecção que viria a ter.
Era natural que não conhecesse as grandes regras do marketing, as manobras elaboradas de sedução para vender produtos financeiros, não era uma pessoa preparada propositadamente para esta ou aquela actividade comercial em particular, mas pela sua afabilidade depressa se adaptava a qualquer uma. No balcão da Pastelaria ou no do Banco a sua postura criava a confiança em todos que a ele se abeiravam.
João Pereira era amante da boa mesa, facto por alguns denegrido, mas que nele se integrava com naturalidade numa forma de viver, de estar, de conviver, enfim numa forma de cultura com cultores em todos os estratos sociais e que não deve ser isolado dos outros aspectos que podem ser utilizados para caracterizar uma pessoa. Sempre bem humorado, com uma jovialidade que a idade não deteriorou, sempre se manteve fiel às imensas amizades que foi estabelecendo ao longo da vida.
É o caso do meu Irmão António, seu grande amigo desde a infância, já anteriormente falecido e que com ele conviveu até ir para a tropa e se empregar em Lisboa e depois Abrantes. Mas sempre que cá vinha, eles reviviam os momentos passados e mantinham viva a sua velha amizade. Ambos do tempo em que muito se trabalhava, lembro-me que o meu irmão, para fazer render bem o domingo, ia à missa das sete e lá encontrava o João.
Finda a missa, iam matar o bicho ao Augusto, que a sua esposa Carminda, tia do João, já estava a fritar uns bolinhos de bacalhau para o efeito. Mas o João tinha de ir para o seu trabalho, coisa a que ele nunca virou a cara, assim como à festa, sempre que ela se justificava. Com uma bonomia quase inigualável, o seu trato impedia que mesmo a agressividade de muitos nele esbarrasse de modo desarmante e amenizador.
Sempre se manteve fiel ao ideário político que reconheceu em Sá Carneiro a quem atribuía a capacidade para interpretar o sentir nacional e gerir com harmonia e sem grandes sobressaltos uma sociedade em transição. Mas não era atreito a discutir política que saísse daquelas verdades que tinha aceite, nem a ser agressivo ou a pôr inoportunamente em causa as ideias alheias.
O João Pereira dava à política um espaço reduzido na sua vida e entregava-se ao convívio diversificado com uma sinceridade inquestionável. Quando se verifica que a vida se tornou cada vez mais um jogo de interesses, em que tudo se confunde e se compromete perante o vislumbre de uma qualquer carreira ou “ascensão” social o exemplo do João Pereira é de salientar.
O João Pereira era um livro aberto, sem subterfúgios, sem teorias rebuscadas para justificar o obvio. Assumia com naturalidade aquilo que é natural, não confundia a vida pessoal com qualquer outra vida que envolvesse interesses mesquinhos. O facto dos seus patrões terem sabido aproveitar o seu vigor e a sua vida pessoal para efeitos da sua vida profissional só são sinal do valor que ele tinha, sem necessidade de ter ido além da escolaridade obrigatória, como era normal no seu tempo.
No João Pereira tudo era claro, de tal modo que haverá detractores que salientam em tantos anos de vida um ou outro pequeno deslize ou excesso, que nunca molestaram ninguém e tinham a compreensão, a benevolência e a cumplicidade dos seus amigos.
Quem pense que um Grande Homem é um santo incolor e inexpressivo ou um nababo resplandecente e luzidio está decerto enganado. O João Pereira era um Grande Homem porque viveu a sua vida com um autenticidade difícil de igualar.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O ascendente da política sobre a economia

Duas poderosíssimas forças se digladiam, se conluiam, se harmonizam perante a nossa clara impotência. Desde que a economia assumiu o seu papel na sociedade, libertou outras forças e as pôs a colaborar no sentido de obter novos bens que não só os naturais, que a política, até aí única força dominante na sociedade, com a fiscalização mais ou menos próxima, mais ou menos comprometida da religião, vem travando uma luta inglória pela reconquista da hegemonia.
Cedo os políticos liberais e libertários se aperceberam que era necessário que a política tivesse uma independência total da religião e um ascendente claro sobre a economia, que esta se submetesse àquela, que fosse a política o intérprete dos interesses gerais da sociedade. Na realidade, mesmo que não quisessem que houvesse promiscuidade, os políticos raramente têm capacidade para resistir à força da economia.
No caso português a economia nunca teve um papel notório nem mesmo antes de Salazar, quanto mais na ditadura deste. A política sempre foi preponderante e os agentes económicos sempre foram subservientes perante ela. No entanto não era este ascendente que os políticos democráticos pretendiam ter. Após o 25 de Abril e após um pequeno período de capitalismo de Estado mal definido, até foi a política que mais contribui para que a economia ganhasse uma nova energia, se libertasse de uma tutela castradora, obsessiva.
Cedo a economia portuguesa se integrou para o bem e para o mal na economia europeia e através desta na mundial. De forma que até podemos dizer que houve sectores da economia que aprenderam bem mais depressa os esquemas fraudulentos que os processos honestos. De tal modo que a crise financeira mundial trouxe à tona da água iguais problemas àqueles que são correntes nos países mais avançados, baseados na mesma ganância, aventureirismo e inebriamento argentário.
De repente a economia parece ter ficado de gatas perante a toda-poderosa política que agora sim, parece não ir deixar a oportunidade de a submeter, à economia, a regras que a ponham a contribuir tão só para o seu fim específico. Mas nunca o será com o beneplácito da direita, ainda a sonhar com as benesses do neo-liberalismo, e que quer deixar que a economia tome de novo as rédeas do poder, se auto governe, se auto satisfaça e se auto destrua, se for caso disso.
A direita que não é suicidária estará pronta a arrepiar caminho. Mas cabe à esquerda fazer algo mais, tomar a iniciativa de lançar princípios que não sejam os velhos princípios igualitários, sem mérito e sem credibilidade, mas novos princípios que moralizem a distribuição e o uso do dinheiro. As medidas que podem ajudar a definir esses princípios são:
Começar pelo fim dos paraísos fiscais, contra os múltiplos interesses que lutam pela sua manutenção, mesmo que já se resignam a menos benesses. Depois há necessidade de tornar claras as condições do empréstimo de dinheiro e da tomada de empréstimo do mesmo. Só pode emprestar dinheiro quem o tem e só pode pedir empréstimos quem possa pagar os encargos respectivos.
Não é admissível que se invista dinheiro na depreciação de qualquer tipo de bens, sejam mobiliários ou imobiliários. O investimento tem que ser feito pela positiva e com o conhecimento de toda a espécie de riscos que sejam plausíveis, sendo que o seu grau de probabilidade será sempre uma incógnita. A economia não necessita dos complexos produtos financeiros, criados com o único fito de mistificar a realidade.
Ser proprietário não significa ter o direito a usar discricionariamente os seus bens, nem mesmo os rendimentos que deles possam advir. É necessária a consagração do dinheiro, das empresas, das organizações como bens sociais cuja utilização e usufruto devem obedecer a regras claras. Impõe-se uma gestão providencial, que tenha em conta o interesse social e o futuro, incluindo o seu próprio ciclo de vida.
Têm que haver entidades que se interessem pela viabilidade e vitalidade de cada negócio e que tenham os poderes de autorizar e fiscalizar a sua actividade, nomeadamente dos desvios que desvirtuam o fim para que cada empresa é criada. Tem de ser encontrado uma conciliação favorável entre a livre iniciativa e o condicionamento que se impõe em sectores em que a anarquia que se instala é prejudicial.
Com a criação dos negócios especulativos permitiu-se desligar o dinheiro da sua origem no trabalho produtivo e “autorizou-se” que as pessoas fizessem dele o que mais lhes aprouvesse. Sendo de todo impossível terminar com a especulação, é de todo possível impedir que os negócios assentes numa outra actividade ponham a sua própria viabilidade em risco só por quererem entrar num negócio para o qual não têm vocação.
O marxismo pretendeu criar uma relação mecânica entre o trabalho e o dinheiro. A tentativa de a levar à prática na URSS revelar-se-ia um fiasco monumental. Mas o forrobodó neo-liberal que se seguiu à queda do muro de Berlim deu no que deu, nesta crise de contornos tenebrosos. O que esta crise veio provar é que, por mais valor que os bens que hoje se criem venham a adquirir no futuro, continuará a ser o trabalho humano a fonte primordial em que vai assentar a economia do futuro.
E quem senão a política será capaz de impor directrizes para a actividade económica de modo que ela não derive para caminhos duvidosos? Como há duzentos anos se coloca de novo a necessidade da primazia da política sobre a economia. Se não forem tomadas medias quanto antes, verificaremos que o actual ascendente corre o risco de não ser senão passageiro.

domingo, 5 de abril de 2009

A igualdade de oportunidades e a inveja social

A igualdade de oportunidades é a primeira das igualdades e talvez seja a igualdade suficiente para garantir as outras. Há no entanto quem pense que a dificuldade da efectivação de uma séria igualdade de oportunidades deve levar em que se pense como, através de outras igualdades, se pode compensar essa falha e corrigir as desigualdades assim criadas.
Outros dirão ainda que a falta de igualdade não é de agora, tem gerações, e continuamente se agrava. Terá havido um momento primeiro em que todos foram iguais. Depois agrupamo-nos, organizamo-nos em tribos e clãs, em cidades e nações e voluntariamente ou não fomos perdendo igualdade, foram-se definindo funções, foram-se herdando estatutos, foi-se criando um passado colectivo e inveja social.
O Estado Moderno é uma tentativa de repor um certa igualdade à nascença e de contribuir para a não criação de diferenças radicais. Este modelo está longe de ser globalmente seguido embora seja bastante aceite. E cada Estado tem, como as pessoas, um passado representado por sucessivos gerações que confluíram, se sedimentaram e organizaram.
Do nosso passado colectivo se vai deixando um rasto, uma linha de rumo, alguma característica que pode até já já pouco dizer no presente, mas ainda representa uma reminiscência que é levada em conta em momentos decisivos, pronta a desempenhar o seu papel de influência sobre os comportamentos individuais.
Os portugueses são tidos como um povo de conquistadores. Motivo de orgulho para um povo pequeno, vivendo num território pobre e marginal. Mas nunca o senti, nunca participei, nunca me atribui esse rótulo. E se principalmente no tempo da guerra colonial me apercebi que havia quem se sentisse como tal, quem se sentisse vestindo a pele dos velhos conquistadores que um pouco à sorte deambularam por esses mares além.
No tempo da guerra colonial eu aceitava o passado, não renegava as gerações anteriores, mas sentia-me ultrapassado pelos propósitos de então, não me reconhecia neles. Era como se eu sempre tivesse colaborado, participado nas conquistas que haviam sido feitas mas, chegado aqui, tinham feito de mim um conquistado como aqueles que em gerações passadas “eu” ajudara a submeter.
Os benefícios da conquista haviam sido só para uns que permaneceram para sempre conquistadores e não para a maioria que se dispersou misturada com os conquistados. Mas ainda por cima esse pensamento de conquistador sobreponha-se à minha solidariedade para os efectivamente conquistados, o que era a pior lástima para mim.
Esta sensação de estar cá com o coração e lá com o intelecto, de não poder deixar de estar com os meus, com o meu exército, e dar razão àqueles que estão do outro lado é dilacerador para a alma lusitana. Uma nação de conquistadores é uma nação desigual, mas quando persiste no erro para além do razoável perde identidade. Uma nação que não consegue ainda estripar da sua alma essa fonte de desigualdade que a noção de conquista transporta não consegue estar de bem consigo própria.
Estar de bem passa por compreender a razoabilidade das coisas no contexto histórico em que se desenrolaram e a sua reversibilidade natural. Por não darmos aos outros as mesmas oportunidades nossas, eles conquistaram-nas, libertando-se da ignomínia. Também individualmente não estamos prisioneiros de todos os factos que ocorreram na nossa existência. Podemos compreendê-los, ultrapassá-los na medida em que constituíram entraves à realização das boas oportunidades ou tê-los em conta quando favorecem os nossos sucessos.
Só tendo a noção do nosso próprio valor saberemos se aproveitamos bem as oportunidades que a vida nos deu ou se os obstáculos intransponíveis as tornaram impossíveis. E temos de estar permanentemente disponíveis, não obcecados, para corresponder a novas oportunidades. Aquilo que nos faz andar angustiados toda a vida é procurarmos compensar no futuro aquilo que a vida nos não deu no passado. Na nossa conta corrente temos sempre um crédito imenso a cobrar não sabemos a quem.
Atribuímos culpas ao desbarato com a ideia peregrina que alguém se poderá dispor a pagar algum dos créditos que temos à cobrança. Como esta atitude não é nada compensatória, embora nós nos não preocupemos que o justo pague pelo pecador, raramente nos livramos desta esquizofrenia colectiva de que todos somos culpados e vitimas. Porque razões não bastamos nós, as nossas dificuldades e ainda temos que suportar este passado normalmente pesado no seu deficit?
Oportunidades perdidas todos tivemos, mas oportunidades que não nos foram dados foram muito mais e para muitos mais. Oportunidades únicas, irrepetíveis são poucas e os que delas beneficiaram são normalmente egoístas e mesmo gananciosos. Mas é destas que nós pensamos quando falamos de igualdades de oportunidades.
Porquê não termos sido nós a ter uma dessas oportunidades? Porquê não a podermos ainda ter no futuro? Podemos pensar assim se não cairmos na inveja social. Efectivamente esta tem nas mesmas oportunidades o seu campo predilecto mesmo que se não fique por aí. Criadas virtualmente pela inveja social imensas oportunidades ficam por surgir e as que aparecem são avidamente procuradas.
Perante a impossibilidades de todas as oportunidades estarem ao dispor de todos, só nos resta combater a inveja social e estabelecer um limite máximo para as imensas compensações que as tais oportunidades únicas podem proporcionar. Os recursos da humanidade são escassos e só têm que ser aproveitados no proveito de todos, afastando-se o egoísmo, a ganância exacerbada e o parasitismo social.

sexta-feira, 27 de março de 2009

A satisfação com o trabalho e a satisfação com o cargo

Muitos de nós tivemos a ilusão de que seria possível a existência de uma sociedade de funções em que o seu desempenho não constituiria qualquer caracterização do homem. Imaginava-se uma integração social absoluta e um respeito absoluto pela individualidade que teria a suficiente liberdade para a desenvolver. Pura utopia, é evidente.
A sociedade tal como a conhecemos permite-nos apostar em duas formas possíveis de integração e o desenvolvimento pessoal está condicionado por elas mas também por múltiplos outros factores. Normalmente damos primordial importância à independência económica, base para que possamos desenvolver outras vertentes, se assim entendermos. A primeira caracterização do homem passa pelo seu trabalho.
Numa segunda escala dos valores colocamos o papel social, realizado segundo o princípio da nossa liberdade de iniciativa e da oportunidade social, mas também muitas vezes usado somente como justificação para a nossa reivindicação de independência económica. A relação entre papel social e situação económica nem sempre é pacífica.
São duas as formas de integração social mais comuns e passam pela empregabilidade e pelo empreendorismo, mas não estaremos longe da verdade se colocarmos como suprema ambição do homem a ociosidade. No entanto a mais banal dos nossos percursos leva-nos a lutar pela preparação para o desempenho de uma função numa qualquer organização de que não somos proprietários, uma luta pela empregabilidade.
Já a existência de alguns factos favoráveis nos podem levar a desenvolver uma superior capacidade de iniciativa, mas também uma capacidade própria para manter vivo um projecto, para assegurar a continuidade de uma organização. Muitos empreendedores começam bem mas falham e a razão maior é o excesso de confiança. A satisfação que se tira é muito subjectiva, mas é sempre fraca se só passa por não estar dependente.
Porém uma das razões que dá origem a mais falhanços entre aqueles que não têm que ter “patrões” é a ociosidade. O acompanhamento que qualquer negócio exige não se compadece com uma entrega absoluta ao ócio. Poucos terão a sorte de puderem vir a beneficiar verdadeiramente deste estado que nos pode dar o tempo de reflexão que a vida normal no geral nos não faculta.
O que acaba por tocar a quase todos é pois sermos empregados. A diversidade do emprego tem aumentado continuamente. No tempo em que a agricultura era a principal actividade, os comerciantes e os artesões eram os únicos empregadores. Outros serviços e mesmo da área cultural só estavam as dispor dos Reis e de alguns poderosos.
O desenvolvimento da indústria trouxe desenvolvimento do comércio, dos transportes e mais tarde derivou para novas áreas como a energia, as comunicações, os serviços pessoais. Também as organizações se foram tornando cada vez mais complexas e portanto a necessitar de pessoas capacitadas para desempenhar funções a diferentes níveis de responsabilidade.
O emprego evoluiu de modo a corresponder a cargos e a dar às pessoas posições na escala social. Estão disponíveis aos empregados diferentes papéis sociais. A alguns são atribuídos poderes que, sendo específicos, não deixam de ser relevantes. O tipo de organização, privada, associativa ou do Estado é determinante para este efeito.
Em qualquer tipo de sociedade é inevitável que haja uma divisão social do trabalho. No geral as pessoas procuram empregabilidade, adquirem capacidades para lutar por um lugar e vir a ocupar um ou mais dos cargos disponíveis no mercado de trabalho. A adaptação das pessoas à função, ao cargo não tem que ser absoluta mas é determinante para a eficiência da organização, para tirar os benefícios do seu trabalho. Mas, não raro, estamos satisfeitos com o trabalho, mas insatisfeitos com o cargo.
Cabe aos gestores sociais preocuparem-se com este aspecto da questão, mas o imediatismo e o acaso da sorte, se vistos em termos subjectivos, são mais determinantes que qualquer princípio que se procure implementar. No geral é inglório procurarmos o ajuste certo entre as pessoas e o lugar que ela ocupa em termos de organização de trabalho e da partilha dos benefícios económicos que a actividade global nos proporciona a todos.
A realidade humana está cheia de injustiças que se reflectem no individual e no colectivo. Bloqueamos perante elas, ficamos constrangidos perante a impotência que em nós se manifesta quando nos sentimos injustiçados, mas tal passa por darmos pouca importância a nós mesmos.
O termos consciência de que esta é a injustiça primeira, o não ocuparmos o lugar em que nos achamos com direito, não quer dizer que não vivamos a nossa circunstância com o sentido de relatividade que ela comporta. Normalmente achamo-nos compensados ou descompensados de uma outra forma, mas só a maturidade nos leva a obter o equilíbrio que ambicionamos ter.
Na juventude a vivência familiar e social condiciona sobremaneira a nossa visão do mundo e nem sempre vemos as coisas com racionalidade. Dizem os velhos que falta na juventude um incentivo ao amor ao trabalho. Esta asserção simples está longe de transmitir aos outros a quantidade de informação de que necessitam para aceitarem o enquadramento em que estão ou uma luta leal por um melhor. Mas é um fim a atingir, porque é a forma mais objectiva de nos sentirmos realizados.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Os becos sem saída e o assassinato geracional

Ninguém tem dúvidas que a violência nos era em tempos muito mais familiar. Andava pelas casas, deambulava pelas ruas, espalhava-se em todos os ambientes sociais, desde o trabalho, ao desporto, à festa. Todas as ocasiões eram propícias para uma realização das pulsões que transportamos desde as mais remotas épocas da luta feroz pela sobrevivência.
Neste sentido avançou-se imenso em termos civilizacionais, de convívio e de relacionamento. Certas atitudes do passado são hoje inconcebíveis e até no ambiente familiar se tem hoje a noção clara que há limites que se não tolera que sejam ultrapassados. A cultura da violência foi substituída por outra mais generosa. Mas só o intelecto nos conduz a estas conclusões, o nosso substrato violento parece lá estar ainda.
Contraditoriamente há hoje um outro tipo de violência que se cultiva, que há forças que incentivam, aproveitando a facilidade de comunicação, desde a televisão à internet. São os jogos de guerra, a violência levada a extremos de maldade que se difundem sorrateiramente no espírito dos mais jovens e que se alojam no seu intelecto sempre que lá encontram espaço propício para tal.
É uma violência destrutiva, feita de ataques e emboscadas, de perseguições e cercos, de massacres e chacinas, muitas vezes sem par no mundo real e que só a imaginação dos espíritos mais fragilizados pode levar à prática. Infelizmente é isto que vai acontecendo a toda a hora. São pessoas maduras que eliminam a família inteira. São jovens que chacinam os colegas de estudo.
Além de haver possíveis razões que levam estas pessoas a cortar os laços sentimentais que as uniam às colectividades de que faziam parte, ou antes, levam à transformação dos sentimentos de empatia noutros de manifesta aversão, há em simultâneo uma intoxicação mental com a violência oriunda de outros meios, mas que a mente debilitada transfere facilmente para a realidade pessoal e relacional.
O carácter gratuito que a violência assume nos jogos de guerra é para uma mente sã claramente diferenciável de qualquer atitude aceitável no nosso relacionamento social. Dirão muitos responsáveis que esses jogos são mesmo um escape, uma forma de descarregar tensões geradas no dia a dia, um simples divertimento afinal.
Só que quem cultiva mais esses jogos são os menos preparados para eles, são os jovens e aqueles que não conseguem lidar com o desconforto de algumas situações em que se vêm envolvidos, não conseguem afastar aquele tipo de soluções radicais da resolução dos seus conflitos.
Mas o que torna particularmente graves estas situações é que esta cultura se desenvolve no desconhecimento da comunidade, salvo um único confidente que normalmente, por tão imaturo, não consegue ter qualquer papel dissuasor. A maioria das vezes aqueles em que se geram estes conflitos privilegiam o isolamento.
Parecendo estar na prática posta de lado qualquer proibição desses jogos, e sendo de todo impossível impedir a passagem na comunicação social e na informal de muita espécie de violência, quando pouco só pelo facto de ser noticiada, a sociedade tem de pensar em precaver-se dessas situações pela via da preparação dos jovens nesse sentido.
Em primeiro porque a diminuição da conflitualidade geral deve ser um objectivo de todos. Depois porque as suas manifestações violentas trazem vítimas inocentes e, mesmo vendo por este prisma, são no geral vítimas com uma gravidade muito desproporcional face às razões fúteis que estão na base das atitudes dos que exercem essa violência.
O facto de os próprios pais estarem de tal modo alheados dos seus filhos a ponto de ignorarem totalmente os conflitos que neles estão em gestação é o mais preocupante nesta questão. No geral tal deve-se a que os pais só contam com a sua própria experiência para acompanharem os filhos e acham que, por haver melhores condições objectivas, eles têm obrigação de serem melhores.
No geral não lhes passa pela cabeça que os filhos sejam diferentes e que não consigam resolver problemas que para si nem sequer existiam, isto é, não consideram que as condições subjectivas em que eles vivem sejam nitidamente outras. As respostas que a sociedade espera dos jovens são hoje outras. O paradigma do jovem sossegado, com tempo para se realizar, já há muito deu lugar ao do jovem inquieto com a passagem do tempo.
Não se trata de um conflito de gerações, mas tão só de um conflito de uma geração com ela própria, em que a outra pouco mais é do que espectadora. A questão que se coloca é a capacidade desta, da mais velha, para pensar a vivência da outra, a mais nova, num tempo cuja simultaneidade é a principal objecção.
A mais velha vive num quadro mental construído num outro tempo, muito menos complexo, bastante menos estruturado, com as imperfeições aceites por referência a outras perfeições hoje já não assumidas. A mais nova está a construir um quadro mental muito mais complexo e estruturado, cujas contradições se não podem manter por muito tempo e cuja falta de referências é por demais evidente.
Assim sendo parece ser mais fácil aos mais novos entenderem os mais velhos do que o contrário. Esta razão leva-os mesmo a sozinhos assumirem responsabilidades intelectuais, como se já dominassem o mundo. A persistente falta de apoio, de sensibilidade dos “velhos” para abordar os seus novos problemas é mesmo por eles negligenciada, numa auto-suficiência precipitada e perigosa que pode levar a becos sem saída.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Porquê o baixo nível de linguagem da TV?

Em tempos havia uma excessiva preocupação com o que as pessoas diziam, não fossem elas ser inconvenientes. O meio condicionava o nível de linguagem e em princípio, quanto mais letrado fosse o meio em que nós estamos integrados, mais elevado teria que ser o nível, mais aprimorada a linguagem. Mas em qualquer meio ter-se-ia que respeitar o nível mais elevado de linguagem de quem estava presente, a cujo nível intelectual se associava o nível moral.
Hoje será muito mais difícil a alguém impor um nível de linguagem quando está em minoria num determinado grupo. Em muitos meios se admite uma largueza de linguagem muito grande e há uma maior permissividade a falar do que se não gosta. Também, quando há uma grande confrontação de ideias, cada uma das partes usa um nível de linguagem inferior à linguagem coloquial. Quando na televisão produz-se uma uniformização por baixo que a todos contamina. È o resultado de uma competição pelas audiências que visa agradar a um extracto social que se presume dominante.
O sector mais activo da sociedade ainda vem do tempo da ditadura, na qual havia a imposição de uma linguagem artificial e reverencial que nos dias de hoje não é aceite. Após essa infeliz experiência muitos de nós nunca chegamos a encontrar o tom certo, a terminologia adequada, a linguagem mais próxima da verdade, mas em contrapartida tornamo-nos mais irreverentes, mais inconformistas e desagrada-nos a linguagem formal. Encenamos linguagens que não são nossas.
Podemos analisar a linguagem pelo aspecto da proximidade entre a ideia e a realidade que pretende retratar, mas também pelo lado de uma condenação moral que se pretenda transmitir. Muitas vezes é com o tom utilizado, com a seriedade ou o riso com que se acompanha aquilo que se diz que se pretende conseguir uma adesão imediata das pessoas a uma dada interpretação dos acontecimentos. E muitas vezes só se procede desta maneira para se não ser diferente.
Normalmente alguém serve de referência e ninguém quer destoar. Hoje, mesmo em grandes meios de comunicação, facilmente se conseguem apresentar histórias falsas, calamidades que não nos atingem, verdadeiras blasfémias, autênticos sacrilégios, que ninguém se atreve a desmentir, mesmo quando tem conhecimento directo da mentira que se está a montar.
Se queremos enganar as outras pessoas, deveríamos ter vergonha de sermos tão falsos. Mas isso já não funciona. O princípio da lealdade seria o mais aplicável, mas é de difícil aquisição. Ser leal é afinal uma condição que nos compromete com os outros. A lealdade implica o respeito pelos outros como seres humanos que também devem ter por nós um sentimento recíproco. É necessário ter presente que a lealdade não é fidelidade porque esta só tem um sentido.
Não somos leais com a sociedade se manifestamos uma falsa pobreza ou percas imprevistas para obter ganhos indevidos. A expressão “se não choras não mamas” é um autêntico relaxante da moral pública. Mas é a televisão, esse extraordinário veículo de transmissão, o maior instrumento desse relaxamento moral. Na televisão há um sentimento de impunidade absoluta.
Na nossa televisão prevalece o mediano, que, no caso português, se caracteriza pelo choradinho nacional no domínio informativo e por outros aspectos tornados folclóricos nas vertentes do entretenimento. Mas também há muito do domínio do péssimo. A linguagem usada na TV foi-se tornando cada vez mais alarve, como se houvesse uma competição sobre quem é mais agressivo, mais justiceiro. Ninguém está livre de ser violentamente agredido nesta TV.
A proliferação dos espectáculos miserabilistas não corresponde, nem de perto nem de longe, ao que se vive nos dias de hoje, mas sim ao que se viveu durante séculos e séculos e está na memória colectiva. É como se quisemos revolver tudo, trazer à superfície séculos e séculos de injustiças acumuladas que afectaram quase todos. Perante essas, as injustiças de hoje são bem pequenas.
Surge então um problema quando a realidade é mais séria do que se estava à espera. Habituados a gritar pelos ladrões, quando eles aparecem ninguém nos acode. As pessoas, agora que a crise está aí, escancarada perante todos os olhos, perante tantas dificuldades, parece levarem menos a sério o que é sério do que quando se falava em fantasias. De qualquer modo, se alguma personalização é necessária para sensibilizar as pessoas, quando ela é excessiva, isso torna-se doloroso e até mesmo cruel.
Nos meios de comunicação deveria falar-se sério, com um tom de voz apropriado, com uma gravidade de discurso autêntica. A entoação de grito ou de canto, os tons propositadamente condenatórios não se adequam a dar informações sobre factos que devem ser deixados à interpretação de quem vê, lê ou ouve. A gravidade da crise deve obrigar à gravidade do discurso. O sentimento pessoal é legitimamente expresso no enquadramento de comentário não no de informação.
No passado já se difundiu a ideia que o governo manipulava sempre os canais públicos de televisão. Mas, se na maioria dos países há uma orientação estrita em especial no conteúdo da informação, Portugal foge a essa lógica. Somos levados a pensar que muitas vezes a nossa televisão pública não é seguidista em relação ao governo, antes tem essa atitude para com aqueles que mais barulho faz.
Dar notícia das questões graves é uma obrigação, mas adoptar a linguagem de uma das partes do problema ou adoptar uma linguagem condenatória, justiceira, é quase sempre uma precipitação deplorável. Adoptar uma maneira crítica de ver as coisas, adaptável a todas as situações, pode ser aceitável para quem segue legitimamente uma dada orientação política. Mas dar o patrocínio a uma visão única e tendenciosa por parte de quem tem obrigação de ser imparcial é condenável.

sexta-feira, 6 de março de 2009

As novas tendências do emprego

Normalmente as pequenas empresas nascem por uma questão de oportunidade, para satisfazerem determinadas necessidades bem definidas de um mercado delimitado. Os produtos ou serviços que fornecem mantêm uma certa estabilidade, estando defendidos da concorrência por factores como custos de transporte ou deslocação, tecnologia pouco evolutiva ou que é possível acompanhar, qualidade própria e fidelização do cliente.
Durante séculos foi determinante a tradição familiar e regional, a posse restrita do know-how, o regime legal de licenciamento. Com a libertação do saber, com o fim do condicionamento legal surgiu um período de grande expansão da actividade empresarial que criou uma certa ilusão de que todos podíamos ser patrões, que todos devíamos ambicionar ser empreendedores, que algures haveria sempre uma oportunidade à espera da nossa iniciativa.
No entanto muitos factores se conjugaram para reverter esta situação, para a diminuição dos trabalhadores por conta própria e para o aumento da dimensão média das empresas e do número global de empregados. Um dos factores tem a ver com o aumento do nível de conhecimentos exigido e do capital necessário para a instalação e arranque da produção.
É mais fácil a integração numa empresa já em funcionamento do que adquirir conhecimento global do negócio, juntar as pessoas certas, correr riscos, fidelizar clientes, manter o ritmo de produção adequado ao mercado. No entanto quando se tem experiência no ramo, também se pode tornar recomendável constituir novas empresas para corresponder ao aumento de produção, para executar tarefas que se podem desligar da actividade principal ou para lançar inovações que desaconselham uma reconversão da velha empresa.
Mas o facto de haver sempre a possibilidade de criação de novas empresas não é suficiente para contrabalançar o número daquelas que morrem por exaustão, por asfixia. Factores como a estandardização e a globalização também concorrem para a produção em massa, em grandes unidades industriais, para a possibilidade de ganhos de escala, para a diminuição dos custos de produção e comercialização e para a baixa dos preços de venda que podem acabar por arruinar as pequenas.
No entanto o facto mais determinante para a diminuição do número de empresários é a forma como gerem o dinheiro da sua empresa, a acumulação de capital em geral. Muitas empresas que teriam capacidade de auto financiamento para ganhar dimensão e apostar na inovação contínua, mercê das facilidades vigentes, transferem os rendimentos para uso pessoal, seja no consumo, seja no investimento fora do negócio original e que não é do seu domínio. Descapitalizam o seu negócio com muita facilidade.
Por seu lado a acumulação exagerada de capital que se verifica na economia em geral determinou o elevado custo do dinheiro pela procura de aplicações mais rentáveis do que o financiamento directo da actividade produtiva. Só quando tais aplicações bloquearam, por sobrecarregarem ou não terem mesmo base segura de apoio, é que o dinheiro se tornou de novo barato, mas então já a sua procura tinha diminuído porque a actividade produtiva havia decrescido.
Às dificuldades de financiamento juntam-se também as exigências legais de instalação, a cada vez mais avançada tecnologia aplicada, os custos fixos de funcionamento normal de uma empresa, as necessidades de um elevado fundo de maneio e o grande período de carência até se verem lucros efectivos. Não se tratando de um nicho de mercado bem seguro, as margens de lucro são cada vez mais apertadas e dificultam o pagamento dos encargos financeiros.
As grandes empresas estão mais preparadas para responder a estas dificuldades, pelo menos as que se preocupam efectivamente com a sustentabilidade do seu negócio e não com a obtenção de lucros imediatos, com incursões noutros negócios para que não estão preparados. No mesmo ramo de actividade as grandes empresas têm tendência a vencer as pequenas e os empresários pequenos e médios muitas vezes ainda vão a tempo de serem quadros intermédios nas grandes empresas ou seus accionistas. O problema das grandes empresas é que concorrem com outras igualmente grandes.
Os factores mais influentes na evolução da actividade empresarial encaminham as pessoas para serem mais empregados e menos empreendedores isolados ou de pequena dimensão. Por isso os jovens têm que estar mais preparados para a empregabilidade do que para o empreendorismo, embora esta vertente da formação deva estar sempre presente. Em especial porque quando se perde o emprego numa grande empresa dificilmente se transita directamente para outra que fica longe, a solução é muitas vezes apostar em algo de iniciativa própria.
A livre iniciativa tem que ser defendida mesmo que só como possibilidade teórica para muitos, sem que a prática a possa garantir para todos. Só uma minoria, e cada vez menor, vai conseguir exercer uma actividade independente. A maioria de nós tem que aceitar ser empregado toda a vida, quando muito com a possibilidade de lutar por um lugar favorável na organização em que nos integrarmos e na medida em que ela nos aceite pertencer-lhe.
Durante muitos anos a ambição de muita gente foi ser funcionário público porque havia muitas razões para pensar que era uma forma diferente de emprego, entre o patrão e o empregado. O objectivo de muitos governos tem sido colocar o emprego de Estado ao nível do outro, mas é evidente que está longe de o ser, ora para o bem ora para o mal. Depois se analisará isso, mas consideremos para já que é um dos tipos de empregado que estamos condenados a ser.
A política liberal conduz às grandes empresas. Porém os liberais, tendo uma base de apoio político no pequeno empresariado, gostam de dizer que o defendem. Os socialistas resignam-se mais aos movimentos históricos que, suportados em múltiplos factores, se têm revelado irresistíveis para varrer da economia ou dar uma valor residual à iniciativa individual. Os esquerdistas exultam com a actual situação dum pretenso comunismo vindo por via capitalista.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Combatamos a depressão que a crise nos traz!

Nos dias de hoje falar de crise é deprimente, aterrador, não falar de crise é leviano, dissimulador. Mas é obrigatório falar de crise porque efectivamente ela está cá, não podemos fugir a ela, chegou importada, avassaladora. Dizia-se que por cá já pairava outra, mas das duas, uma: Ou era simples bluff para ter efeito propagandístico ou foi uma premonição admirável. Porque castigo divino não acredito que seja, mesmo com tanto aleive.
O problema é que com crise ou sem ela, mesmo que se tenha indevidamente designado de crise uma mera questão de finanças públicas, quando se pensava que a sua fase mais difícil estava ultrapassada, caiu-nos em cima a verdadeira crise, a mãe de todas as crises, a crise do excesso de produção. Porque as pessoas não se sentem beliscadas, muitas até se sentem mais aliviadas, mas não podem ignorar que há quem já sofra ou ainda venha a sofrer da crise a sério.
As exportações diminuíram, a consumo arrefeceu, o dinheiro paralisou, os bens depreciaram-se, a economia asfixiou, o desemprego cresceu. E aqui estamos nós: Uns que eventualmente até podem beneficiar com a crise e dissimulam; Outros que são suas vitimas claras e indefesas e se deprimem. Falar hoje de crise é falar-se do real bem presente, do que está a acontecer debaixo dos nossos olhos, mesmo que não a nós. Todos sentem o arrefecimento da actividade económica, o afrouxamento da euforia, o refrear das expectativas.
A crise é o não saber o que se há-de fazer, se consumir, se poupar, se da maneira como agimos estamos a contribuir para agravar a crise ou para a debelar. Sentimo-nos impotentes, convencidos de que pouco ou nada podemos fazer. A crise comporta-se como um molho que custa a desenredar, um emaranhado que custa a destrinçar, uma confusão difícil de esclarecer. Todos precisamos de saber como vamos sair daqui. O difícil é pegar no fio à meada, encontrar a ponta por onde se lhe pegue, puxá-la de forma adequada para que não se criem mais nós.
Da crise só se sabe aquilo que é sabido de todas as crises. Há que produzir menos do que se produz, mas dar trabalho a quem dele necessita. Há que produzir mais daquilo que se terá que inventar. A crise tem um efeito desintegrador na economia. Aquilo que se pensava harmonioso é subitamente arrasado. É um sistema de produção, distribuição e consumo que abriu brechas e ameaça desmoronar-se. Há um desfasamento entre a produção de bens e serviços e uma procura cada vez mais minguada.
A economia vive de interligações, complementaridades, subsidiariedades e muita competição. E esta alimenta-se com aumento da capacidade de produção instalada, melhoria dos produtos, baixa de preço, luta pelos mercados, esticar de expectativas e de crédito sobre rendimentos cada vez mais longínquos. A competitividade afecta todos desde que nos integramos nesta economia mercantil. A competitividade exige de todos uma atitude activa. A passividade torna-nos mais vulneráveis. Como ter uma economia sã sem esta ânsia de crescer?
Da produção sabemos muito, da colocação dos produtos também, mas o mercado traiu-nos. (Isto não quer dizer que todos saibamos de tudo, mas que há gente suficiente que sabe destas coisas.) Foi dada demasiada voracidade ao mercado de modo que perdeu o seu efeito de regulação. O mercado auto regula-se, era verdade tida por inamovível para os liberais, mas que já foi. Confiou-se que o mercado distinguisse o bom do mau, fosse capaz de lançar alertas que refreassem a produção, que avisassem antes que um produto se tornasse obsoleto e, em relação aos financeiros, antes que se tornasse tóxico.
Confiou-se na honestidade dos agentes financeiros, da sua avaliação de risco e no seu controle sobre os produtos que lançavam no mercado. Se o sistema financeiro não foi capaz de se auto regular, também não se acredita na sua auto regeneração. No entanto os dirigentes mundiais tardam a actuar e as medidas sugeridas são demasiado benévolas. Não se pode acreditar mais naqueles a quem o simples manuseio do dinheiro parece transmitir a volúpia e a ganância. As regras têm que ser muito rígidas quando é a confiança pessoal que está em causa.
Ataca-se muitos os especuladores que fazem da compra e venda de produtos financeiros a sua principal actividade. Mas só aqueles que pertencem ao circuito financeiro, que tem capacidade para criar os produtos financeiros, são responsáveis por fornecer ao mercado esses instrumentos especulativos. É a sua ganância e a sua vontade concorrencial de fornecer sempre novos elementos para alimentar o estado de euforia do mercado.
Os dirigentes mundiais balanceiam entre a fidelidade jurada à globalização e alguns laivos de proteccionismo que vão surgindo. Muitos acham ser necessária alguma regulamentação no comércio global, outros acreditam na resolução dos problemas mantendo o actual sistema. O caso do petróleo deu-nos alguma esperança de que o mercado se pode auto regular, mas criando-nos uns grandes sustos à mistura. O grande problema é o sistema financeiro em si e as suas intromissões no mercado de bens e serviços.
Muitos economistas acham que a resolução dos problemas passa pelo fomento do consumo porque só este pode criar emprego. Como País endividado, que não produz parte do que consome, fomentar o consumo é fomentar a importação de bens e serviços. Impõe-se uma alteração dos hábitos de consumo, a diminuição de gastos de energia, a redução do endividamento ao exterior. Todo o emprego a criar deve ser em áreas estratégicas.
Se a nível nacional as dificuldades de gestão são grandes a nível global são imensas. Mas seriam necessários alertas que permitissem salvaguardar a concorrência e a reconversão a tempo da produção para não produzir excedentes que entupam o mercado. Infelizmente também a evolução do sector produtivo tem sido no sentido da rigidez, da especialização, da perca de alguma maleabilidade que permitisse responder a alterações da concorrência e do mercado a tempo de não entrar em decadência.
A cena europeia e mundial permite-nos vislumbrar a manhosa apatia dos liberais, esperando que o seu edifício se não desmorone e que não seja possível mudá-lo muito, porque tem servido aos seus propósitos. Vimos uma candura exagerada dos socialistas, que tem estado de mãos atadas e que assim parece permanecerem. Vimos a verborreia inconsequente dos esquerdistas.
Mas de uma coisa podemos estar certos e seguros: O problema não se resolve como muitos resolvem as suas bebedeiras: Continuando logo pela manhã a beber do mesmo.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Quem me explica que crise é esta?

Que crise é esta? Pergunto-me. Uma crise como as outras, cada vez mais parecida. Respondem-me já quase unanimemente. Os seus caminhos foram complexos, ela meteu por atalhos e fez desvios inesperados, mas no fim redundou naquilo que é o fundamento de qualquer crise que se veja: Um excesso de produção que a economia não está disposta a absorver.
Senão vejamos, dizem-me: A primeira manifestação da crise foi a insolvência daqueles que, sem rendimentos garantidos, compraram casas caras, cada vez mais caras. A economia expulsou estes produtos, que naturalmente fazem falta noutras condições, mas o problema ficou no ramo financeiro. Este já pagou e tem compromissos a cumprir sem a ajuda dos compradores iniciais. A crise instalou-se no sistema financeiro.
Notava-se já uma escassez de meios financeiros mais ocupados em esquemas especulativos do que em fornecer o alimento de que a economia precisa para ser viva. O dinheiro é o “óleo” que faz com que a economia não emperre. O encarecimento do dinheiro tornou o recurso ao empréstimo demasiado oneroso e arriscado. Isto reflectiu-se em relação aos bens de consumo mas também aos bens de investimento.
Com poucos meios de pagamento, sem crédito fácil a que se habituara, a especulação virou-se para o petróleo, afinal um recurso sempre à mão para esse efeito. Em princípio os economistas até bateram palmas, pensaram que se ia pôr enfim racionalidade na economia. O petróleo é um bem escasso que, como tal, deve ser pago. Os ambientalistas agradeciam. O preço alto é o único incentivo à procura de alternativas que permitam a defesa do ambiente e o fornecimento futuro de energia a uma humanidade que já não sabe viver sem ela.
Só que a coisa a dada altura começou a ficar preta, o petróleo a aumentar de preço exageradamente, parece que se ia transitar de uma irracionalidade para outra. Felizmente esta especulação veio a revelar-se extemporânea. Enfim, de repente, o petróleo começou a jorrar de todos os lados, a abundância submergiu o mercado, os preços desceram a pique o que então sim veio dar um suplemento mais de alma à crise, à verdadeira crise, à mãe de todas as crises, a crise do excesso de produção.
Não quer dizer que a humanidade não seja capaz de consumir muito mais, de estragar bens e destruir recursos. Mas existe um bloqueamento, um desmoronar de expectativas, qualquer factor que nos indispõe a manter um tal desgaste de recursos e nos leva a rejeitar o que nos é proposto para consumo e a ansiar por outros bens. Como se de repente enjoássemos de consumir o óbvio e queiramos inovar.
De repente tudo o que existe vale menos. Além das coisas mensuráveis com critérios objectivos temos que organizações, empresas, bens intangíveis, tudo vale menos. A sociedade no seu conjunto vale menos, a economia vale menos. Os cérebros que a manipulavam valem menos, mas é bom de ver que deveriam valer ainda menos. Há gente que nada vale e continua a ter um poder imenso.
A crise agudizar-se-á se persistirmos em pagar a preços da abundância a quem tenta salvar aquilo que já nada vale. Os Estados tentam salvar a situação colocando o dinheiro sem rentabilidade própria. Cada vez se caminha mais para a taxa zero e por aí nos vamos ter que manter por uns anos. Mas também já não é a diminuição do custo do dinheiro que resolve a crise. O primeiro passo seria pôr os magos da finança a ter que se limitar a receber aquilo que os próprios produzem e a pagar o que receberam a mais.
Felizmente, quando nós não temos juízo há nos sistemas como que a procura instintiva de um equilíbrio interno. São alertas oportunos mas a nossa capacidade de alteração e adaptação às exigências da economia é limitada, não é eficaz perante a rapidez que hoje se exige às respostas. Sabemos como reagir de imediato ao aumento da procura, mas não sabemos responder à situação contrária, a uma diminuição das compras, a uma asfixia da capacidade de pagamento.
Um facto que só dizia respeito aos economistas mas que cada vez mais tem de ser do conhecimento de todos é que o problema não é produzir mas produzir coisas úteis e vender. O que se não produz cá produz-se lá fora onde há melhores condições, uma escala mais apropriada à produção em questão. Só podemos produzir o que tivermos condições para tal e tivermos mercado para escoar.
Existe uma discrepância entre quem produz e quem consome, mas também entre quem tem o dinheiro e quem tem falta dele. Se agora o custo do dinheiro é pouco os produtores não podem correr o risco de produzir para stocks à espera que os seus produtos se vendam mais tarde quando até podem perder valor, ou é problemático vir a vender-se. Produz-se mais na certa, o que já está vendido.
Já estamos numa economia em que uma sua grande parte se refere a serviços, não armazenáveis, portanto. O produtor do serviço tem que estar disponível para o seu fornecimento quando não sabe se ele vai ser utilizado. Por isso tem que ter capacidade produtiva, mas não em excesso, isto é, para manter viável o negócio não pode ter empregados em demasia.
Depois há o grande problema da acumulação capitalista. Enquanto uns são incentivados a consumir há outros que se dedicam a acumular. Uns endividam-se cada vez mais e outros juntam valores incalculáveis que aplicam na especulação porque não sabem aplicá-lo noutro lado. Será necessário que uns se não endividam tanto e outros que não acumulem tanto. A mobilidade pretendida para o dinheiro não é alcançada.
Quanto ao Estado a grande tarefa é adaptar o sistema de segurança social dentro desta economia tão instável. O sistema não se pode sustentar em rendimentos virtuais, como os economistas liberais pensavam, mas no valor produzido em cada momento, como é o caso de Portugal.
As dificuldades não serão decerto de quem têm emprego e rendimentos garantidos que possivelmente beneficiarão do afrouxamento dos preços por efeito do excesso de oferta pelo que devem continuar a pagar impostos. Novas respostas precisam-se para os desempregados, incluindo quem vê o seu pequeno negócio tornar-se inviável.

Porque vos colocais em bicos de pé?

Quando se faz uma entrevista, o entrevistador deve evitar fazer juízos morais sobre o entrevistado, sob pena de estar a fugir ao objectivo da entrevista que é esclarecer o pensamento de alguém com algum interesse para a opinião pública. O Sr. PS publicou uma pretensa entrevista que começou por um trocadilho de palavras que terá respigado de algum lado, porque até não lhe vejo capacidade para o criar.
O que eu sei disse-o, se não com todas as letras, pelo menos de forma que toda a gente entende: Não quero ver o Sr. Pedro Saraiva a candidato a coisa nenhuma, muito menos à Câmara Municipal de Ponte de Lima, e mais sei e talvez diga. O facto de ser gordo ou magro não diminuiu nem acrescenta nada à questão. Não me envergonha de ter sido comunista, o que me envergonha são muitos comunistas e muita outra gente armada em político, de esquerda e de direita.
Como simples politólogo, palavra agora em voga e de que me arrogo por ter algo a ver com a minha postura, estou longe de ser político, coisa evidentemente mais séria, só ao alcance do PS-pessoa e pouco mais. O político é aquele que exerce o poder ou então tem pretensões de o exercer e conheço muitos, entre os quais não me incluo. E estão no seu pleno direito e cumprem mesmo um dever. Depois há aqueles que queriam, mas não podem.
O facto de querermos ter alguma influência, de manifestarmos as nossas opiniões põe-me no patamar cívico que o Sr. não alcança. E a referência à AM diz bem onde o Sr. se coloca. As tentativas de aniquilar vozes livres até o faz identificar-se com as vozes alarves que se possam manifestar na AM. Mas informo-o que quem me calou foi gente do seu partido adepta de Daniel Campelo e que tem tão pouca vergonha como o Sr. manifestou na entrevista publicada há tempos.
Quanto ao Manuel Alegre deixe-o versejar á sua maneira, que não é a minha. Quanto ao partido de que diz ser militante com gente como o Sr., invisível e quando visível o é pelas piores razões, não vai a lado nenhum. O partido precisa de gente jovem, sem rabos de palha, sem vícios, mas acima de tudo com ideias que apresente abertamente ao povo e que este possa perceber.
O Sr. não tem a mínima noção do que é fazer oposição ao executivo camarário e não se lhe conhecem quaisquer ideias sobre gestão autárquica. Só se sabe que, habituado como advogado a exigir dinheiro adiantado para preparos, exigiu gorda quantia ao PS-partido quando foi Presidente da Concelhia do partido para avançar como candidato. Mas não avançou.
Este aparentemente voluntarioso político afinal é um refinado calculista que não pretende entrar no bolso próprio ‘para defender as suas ideias, que não as tem. Mas também não lhe recomendo mais nada porque as suas qualidades ainda estão por descobrir. Vá se dedicando á sua profissão que sempre lhe vai dando algum.
De pobre, reformas e de comer bem e de graça, não vá por aí porque dizer aleivosias é fácil, ser uma pessoa vertical é muito mais difícil. Afinal faltou dizer quem o convidou para quê, porque quem tem poder para o convidar sabe que se o fizesse teria que levar o cheque bem preenchido para os tais preparos e o PS-partido não anda a nadar em dinheiro.
Porque vos colocais em bicos de pé?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Um aplauso ao “Cardeal” e um louvor a Alcides Pereira

Um Jornal que percorre três gerações, quatro regimes políticos e as vicissitudes várias destes, é decerto uma Fortaleza. Tal como um ser humano, sofreu incompreensões, ingratidões, talvez agressões, poucas ajudas e resistiu. Sensível ao tempo, como se impõe a um órgão de imprensa, manteve a espinha dorsal desde a génese pela mão de Avelino Guimarães até aos dias de hoje sob a direcção do seu neto.
O Cardeal Saraiva, nome invulgar para um jornal, mas homenagem a um grande vulto do liberalismo, é a afirmação semanal de uma pujança, de uma perseverança mas também de uma temperança que a idade lhe faculta. Semanalmente o jornal fala por si, dá sinal do seu tempo, ecoa nos vales do Minho e em terras de emigração, liga elementos dispersos com raízes comuns.
Sendo um Jornal Regional não é um jornal regionalista, característica que o distingue de um outro tipo de tradição. Abordando sempre a temática local com uma visão actual permite-se olhar outros temas, aquilo que, sendo de todos, também é nosso, aquilo que é nacional, internacional ou que não tem mesmo local determinado porque acontece em todo o lado.
O Cardeal Saraiva não é um jornal de grandes arrebatamentos. Afinal a realidade local também não foge muito da normalidade, desenvolve-se com lentidão. Além disso os fenómenos a quente iludem-nos muitas vezes. Não é fácil agradar a todos e quase todos nós estamos habituados e ver as coisas com um certo distanciamento e a participar pouco no dia a dia da comunidade.
Era possível um jornal mais empenhado, mais interveniente. Mas afinal os pregões no deserto não são a melhor maneira de trazer as pessoas e participar, a envolver-se mais nas coisas do mundo próximo e distante. Já são muitos os órgãos de comunicação social que nos trazem diariamente essa realidade. Agora que já sabemos que tudo isso nos diz respeito a todos, um olhar mais calmo transmitido por quem vive na “aldeia” pode ser vantajoso.
Neste aspecto é fundamental a tolerância e este Jornal é disso exemplo ao permitir a contribuição de colaboradores de diversa índole. Mas há um outro aspecto que estou habituado a admirar no Cardeal Saraiva, desde logo que o comecei a ler. Permita-se-me que realce esse tempo em que o seu Director era o Dr. Alcides Pereira, meu Professor de Português, e pessoa com uma larga intervenção sob várias formas na vida local de Ponte de Lima.
Que eu saiba o Dr. Alcides nunca se meteu a escrever obra de folgo, mas era aquilo que se pode chamar um excelente periodista, sempre pronto a, no seu editorial, abordar as questões que lhe pareciam mais salientes. Aliava a isto uma escrita de grande qualidade, sem deixar de ser simples e legível por quem fosse portador de uma média literacia.
Mas o que mais me apraz registar é a afabilidade com que tratava toda a gente e a nós seus alunos em particular, com quem se relacionava como se universitários fossemos. Esse seu carácter benevolente trespassava mesmo no distanciamento que sempre manifestava, mas que era fruto da vivência própria de cada um e não do seu coração ou do seu intelecto. Porque a sua superioridade intelectual tinha outras formas de se manifestar sem ser pela afirmação gratuita de diferenças.
Hoje que procuro permanentemente novas formas de me exprimir dou a este aspecto do relacionamento humano a maior importância, que então estava longe de dar. Na ocasião em que foi seu aluno eu tinha-me por mais inclinado para as ciências exactas, subvalorizando o aspecto da comunicabilidade tão necessário para nos entendermos. Não pensava viver num mundo tão deficitário neste aspecto. Muito menos entendia a importância que a escrita tem em todos os aspectos da actividade humana.
Do que hoje não duvido é que, ao passarmos para escrito alguns que sejam dos nossos pensamentos, estamos a contribuir para a estruturação geral da nossa mente. A pessoa que se exprime só pela oralidade e principalmente quando quer ter voz activa sobre todos os assuntos, dispersa-se e normalmente não consegue elaborar um discurso fluente e coerente, mas tão só repetitivo e obscuro. Uma pessoa que não escreva dificilmente está apta a abordar mais de um ou dois assuntos com alguma profundidade e tirando todas as consequências.
Ao nos atrevermos a colocar no Jornal aquilo que escrevemos há uma preocupação extra, a que eu sinceramente não consigo atender. Não escrevemos para uma pessoa determinada. Perante tantos graus possíveis de erudição, perante tão diferentes níveis de conhecimento que os nossos leitores podem ter, o ideal seria conseguirmos escrever para a mediana dos mesmos. E não me restam dúvidas que o Dr. Alcides conseguia-o de forma sublime.
Quando se prestam homenagens a actores menores da nossa vida cultural, quando se sobrevalorizam pessoas com uma dimensão intelectual mais do que banal, quando se atacam uns porque são distantes e outros se desprezam porque são demasiado próximos, nós destacaremos o Dr. Alcides Pereira como um dos homens mais bem intencionados, mais afáveis, verticais e dignos que por este mundo passou neste último meio século, afinal só metade da longa vida do Cardeal Saraiva. O Dr. Alcides era um dos nossos. O Cardeal faz parte de nós.
A minha homenagem aos dois.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Do exemplo à referência e a um novo paradigma

Com certeza que a maioria de nós foi desde a infância bombardeada, se não massacrada, com exemplos de pessoas que eram assim e assado, se comportavam desta e daquela maneira, que tinham atingido estes ou aqueles objectivos perfeitamente ao nosso alcance e afirmações semelhantes cuja intenção era apontar-nos um exemplo a seguir para termos sucesso na vida.
Esses exemplos eram-nos apresentados pela família dentro dela própria, mas também fora quando nela não havia os elementos suficientes para nos definir um caminho que entendessem viável. Também pessoas exteriores à família ousavam muitas vezes participar nesse esforço de “educação”. Na nossa simplicidade e inocência raramente apontámos para que haja uma intenção subjacente de nos denegrir, de nos rebaixar, de propositadamente nos proporem um caminho impossível com o objectivo de falharmos.
A verdade é que só com a experiência descobrimos que nós nunca podemos confiar nas boas intenções de ninguém. Há cínicos que, quando vêm com essas conversas, é para realçarem o seu próprio sucesso, citando apenas por pudor não eles próprios, mas pessoas semelhantes a eles. Os próprios pais, por bem intencionados que sejam a princípio, quanto mais tomam essas atitudes mais pretendem rebaixar e às vezes até humilhar os próprios filhos.
Aqueles que definem para os filhos objectivos que não resistiriam a uma análise objectiva estão a transferir as suas próprias frustrações, castigando assim nos filhos a sua própria impotência. Nada pior para os filhos do que lhes quererem impor objectivos irrealizáveis por razões que escapam aos seus próprios pais, que estes não entendem. Os filhos não podem ser responsabilizados por certas obsessões que se criam em vez de se alimentarem expectativas razoáveis.
Mas na educação moderna as pessoas mais letradas já há muito abandonaram esta técnica mental do exemplo, própria para mentes de estrutura elementar. A técnica que ainda hoje é mais usada tem a ver com valores, mas acima de tudo com referências. Os valores em si são de difícil definição pelo que com as referências se pretende utilizar alguém que tenha dado execução a um ou mais valores comummente aceites ou que os educandos privilegiam.
Quando se usam referências, embora se utilizem pessoas que lhes dão vida, não é o exemplo que se pretende atingir. Essas pessoas são sempre colocadas num pedestal que se reconhece quase inacessível, que não é o objectivo fixado a atingir. Mais do que imitar pretende-se consagrar. Se num exemplo a comparação pretende ser feita com um igual num nível facilmente atingível, na referência trata-se de modelos completos mas no geral inacabados para respeitar, louvar, venerar.
Porém os educandos vão-se queixando cada vez mais com a falta de referências com que haveriam de educar os seus filhos e os seus alunos. O tempo vai causando uma natural erosão nas mais antigas referências e a velocidade a que vão aparecendo novas é cada vez menor. Perante a pluralidade e a dispersão dos pontos de interesse para cada um de nós torna-se cada vez mais difícil criar referências que tenham uma aceitação suficientemente vasta para lhe dar visibilidade e projecção.
Muitos educandos tentam retroceder, usar ainda exemplos mas estes só podem ser vistos em contextos estáveis, em circunstâncias semelhantes, com condicionalismos parecidos. Ora a realidade torna-se cada vez mais sujeitas a mudanças e o dilema intelectual se chega a existir, resolve-se facilmente, não há reversão possível. As referências já são construções mentais que procuram abstrair do meio circundante, das vivências particulares. Elas foram um avanço para a humanidade que, sendo intelectual, permitiu todos os outros.
A grande revolução operada a partir dos anos 60 consistiu na tentativa da juventude de, perante a apatia da restante sociedade, criar as suas próprias referências vivas, construir o seu próprio sistema mental, rejeitando de vez os exemplos, mas mantendo o paradigma referencial. Embora muitas dessas referências se pudessem ter mantido, tendo mesmo muitas passado a históricas, sem perca de muito do seu carácter, a verdade é que manter um sistema referencial vivo se revelou tarefa a que novas gerações tiveram dificuldade em dar continuidade e foram perdendo cada vez mais o seu vigor.
Ainda hoje se vêm alguns dos “velhos” a fazer apelos aos “novos”. Contrariamente ao passado, são eles a solicitar um esforço extra dos jovens para conseguir elaborar um quadro referencial mais adequado ao mundo de hoje. Primeiro porque o seu se desgastou, sentem o vazio. Depois, se apelam, é porque não vêm nas novas gerações a pujança que outrora se viu e que era necessária para estilhaçar os espartilhos em que estão eles próprios enredados.
À primeira vista imponha-se aqui um trabalho de conjunto, que aproveitasse o conhecimento adquirido, que o compilasse e que o aplicasse na abertura de novas vias de conhecimento, de vivência e relacionamento. Porque se uns estão demasiado agarrados a certezas cuja aquisição já foi dolorosa, outros, os jovens, estão demasiado afastados da complexidade, da conflituosidade, da perversidade de dois mundos que teimam em estar de costas, sendo que o interior tem por tendência desviar-se o máximo do mundo exterior.
O novo paradigma a implementar passa por vencermos este hiato sem nos expormos em demasia, por não vermos no outro um inimigo e conseguirmos assim aceder ao mesmo horizonte. Mas quão difícil é lá chegar, muito mais difícil do que carregar os outros com uma chuva de floreadas mensagens, de solidários abraços, de suaves afectos, de sublimes ósculos.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Reduzir a uma Suma sim, a uma Numa não

Que eu tenho muitos amigos, mas também muitos inimigos, já sabia. Uns mais previsíveis do que outros, de uma coisa estou há muito seguro: Não faltam na área partidária social-democrata quem esteja sempre disposto a manifestar-me a sua animosidade. Tratá-los-ei à letra.
Uma certa rapaziada social-democrata, de que os mais velhos se servem, gostam de insultar todas as pessoas que querem contribuir para os manter bem afastados do poder. Eles gostam da guerra total, atacam em todas as frentes, servem-se de todos os aliados de ocasião. Acusam sumariamente.
O Sr. Nuno Matos resolveu alinhar com a sua gente e acho que fez bem, diz bem com o seu carácter e está ao nível da sua inteligência. Fez no AltoMinho uma referência a um meu artigo publicado no Cardeal Saraiva e que fala da maneira como os funcionários públicos são tratados conforme a conveniência política, mas também que eles próprios não podem confundir direito à indignação com direito à ingratidão. E os professores genericamente têm sido uns ingratos.
O Sr. Nuno Matos acha que os professores têm sido uns bons aliados das suas hostes e vá de sumarissimamente insultar-me de ignorante. Não sei se isto é a sério ou se corresponde à dificuldade de ele me englobar num qualquer dos seus estereótipos. Para mim ignorante é o insulto mais grave que me podem dirigir porque é o último grupo em que eu meteria alguém se pretendesse manter alguma forma de diálogo com essa pessoa.
Vou-lhe lembrar que não é a experiência que cria saber e que este não estará ao dispor de mentes que se formatem de modo que não lhe é receptivo. Mas tenho experiência que chegue de 16 anos de escolaridade, alguns anos perdidos, cursos e mais cursos de índole profissional. E se os cinco anos de estudo no Externato Cardeal Saraiva e os quatro na Universidade Fernando Pessoa foram pagos pela minha família e por mim, os outros sete agradeço-os ao Estado por me ter dado a possibilidade de os frequentar.
Ao Estado se deve a formação da maioria dos médicos, professores e todos os que têm formação em Portugal e chegados a um lugar cimeiro, a um pedestal qualquer, só se vê ingratidão, menosprezo pela restante população a que não foi dada essa possibilidade. Muitos, se tivessem que pagar a formação que têm, teriam que trabalhar muito mais, mais barato e com mais empenho.
O Sr. Nuno já sei que não sabe escrever, mas ao menos aprenda a ler. O meu artigo só tem por objectivo dar a minha opinião sobre a falta de razão com que muitos falam do direito à indignação e admito que entre os professores haja quem tenha esse direito, mas serão decerto poucos.
Depois o ter direito à indignação não quer dizer que a sua dignidade tenha sido atingida, porque a luta política não pode deixar de fora as excepções, como se vê pela maneira achincalhante como os professores mais dignos são tratados, todos são levados pela vaga de lama em que a mediana dos professores navega. Os Papas, quando exerceram poder temporal, tiveram esse dilema ao envolverem-se em guerras que matavam inocentes: No céu eles seriam separados.
O meu artigo queria chamar a atenção para os inocentes e as vítimas e consequentemente para os manipuladores que conduzem estas lutas e para aquela ingratidão das pessoas que tudo obtiveram do Estado e agora o tratam como um malfeitor. Aquela ingratidão é como o seu pecado original.
Os professores dão um espectáculo de uma angustiante incultura cívica, de um egoísmo atroz num País cheio de dificuldades. O Sr. Nuno Matos para me atingir tem que se munir de armas morais que o seu diletantismo lhe não fornece.
O Sr. Numa, como cretino que é, vai ficar a falar só.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Uma prateleira dourada para Defensor Moura?

Quando alguém se torna incómodo para um partido político é vulgar que o coloquem em sítio que se não exponha muito, isto é, ganhe bom dinheiro, mas não apareça muito em público. No Partido Socialista temos Ferro Rodrigues, João Cravinho, Fernando Gomes, Manuel Maria Carrilho e outros que envolvidos em questões problemáticas acharam melhor pôr-se a recato, embora às vezes a contra gosto. José Maria Costa n.º 2 do PS de Viana do Castelo assim quer fazer com Defensor Moura, sugerindo a sua ida para a Assembleia da República.
Não sei se isto será um prémio ou um castigo, se será ao seu gosto, se está dentro das suas ambições. Mas, vindo a sugestão de quem vem, é natural que se trate duma encomenda. Porém este estratagema tanto é usado para defender alguém dum imbróglio em que se tenha ou tenha sido metido, bem como para o afastar com o objectivo de deixar o caminho aberto a alguém ou não criar mais prejuízo ao partido. O objectivo “natural” deste n.º 2 é ser n.º 1 e este conselho que quer dar ao seu partido é pois suspeito.
No entanto acho que José Maria Costa está a sofrer dos mesmos males, da mesma incapacidade mental, que o seu protector. Para os dois parece só existir Viana do Castelo e o resto do distrito são mentecaptos que habitam uma espécie de reservas. Estas só lhes interessam enquanto lhes permitem beber uns tintos em Ponte de Lima, desopilar os fígados no Gerez e como ponto de passagem para Espanha. Já chega de ofensas ao Alto Minho.
O restante distrito, que não Viana do Castelo, não é tido nem achado e falam dos seus interesses como se estes já tivessem delegado na sua capital todos os seus direitos. Ora o restante distrito já deveria ter sido chamado a manifestar-se sobre se da sua parte existe uma aceitação da presença de Viana do Castelo nesta Comunidade. Mas como isto não foi feito manifestemo-nos agora contra o facto de Defensor Moura poder vir a apanhar a boleia do Partido Socialista para ir representar na Assembleia da República um distrito que o abomina.
Nem José Maria Costa, nem ninguém do Partido Socialista, está habilitado a atirar para cima do distrito um candidato que tudo fez para pôr o distrito a ferro e fogo. Por sorte ninguém lhe passou cartão para lá da fronteira concelhia, deixaram-no a falar para o boneco que é bem o que o Senhor Defensor merece. Por esta proposta também o Senhor Defensor teria que ser candidato pelo distrito, aquilo que a ser levado à prática seria mais uma manifestação da desfaçatez com que esse Senhor navega na política.
A bota tem que ser descalça pelos vianenses, mas não venham sacrificar mais o distrito com este tipo de atitude. Se o problema é um emprego para o Defensor Moura ele ainda não teria esquecido tudo da medicina mas também deve estar com boa idade para ir para a reforma. Ele que se dedique à escrita que vai ver que lhe ajudará a pôr algum discernimento na sua cabeça. Descobrirá que as grandes decisões não têm origem em cabeças tão iluminadas como a sua.
O ar vanguardista de Defensor Moura não lhe permitiria nunca submeter-nos a experiências que não levam a lado nenhum. As decisões políticas têm que ser colectivas e os políticos devem ter a sensibilidade suficiente para auscultar a opinião pública e, se não concorda com ela, tentar alterá-la com argumentos que a população aceite. Se tal não conseguir haja bom senso.
O Senhor José Maria Costa foi conivente com Defensor Moura, talvez com medo de que este o marginalizasse, mas agora não se coíbe de tentar ser o seu herdeiro e atraiçoá-lo no seu propósito de não adesão à Comunidade Intermunicipal. Mas o que se salienta mais na sua atitude é a pressa com que apresenta a sua candidatura à Câmara de Viana do Castelo sob a capa da candidatura de Defensor Moura à Assembleia da República.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O direito à indignação e à ingratidão

Aqui há poucos anos andávamos a dizer mal dos funcionários públicos, a criticar os professores, a deitar abaixo os médicos, a zurzir nos magistrados e em pouco tempo tudo se virou. Agora ninguém diz que tenha dito tal coisa, alguns até são capazes de jurar que sempre disseram bem, todos parecem querer agradar a quem tão atacado foi e merecer as suas graças.
A força das forças políticas manifesta-se pelas ondas que consegue lançar de modo a suplantarem as promovidas pelos adversários, roubando-lhes apoios de que antes beneficiariam. Há sempre alguém a sair favorecido e outros sairão prejudicados e prontos a ajudar a onda contrária. Quando a onda espalha injustiças, e é natural que algumas hajam sempre, são as mais frescas na memória.
Muitos funcionários se levantaram contra a afronta, sentiram-se melindrados, arrastados por uma avalancha que a todos levou. Porém os movimentos sociais, os movimentos da opinião pública são assim, não há nada a fazer, só esperar que o tempo cure os danos e reponha alguma justiça. Ou então caminhar depressa para o outro lado, ajudar nova onda que decerto vai criar ainda mais injustiças, mas muitas vezes aí já só vemos os nossos próprios interesses.
No meio desta confusão criada há correntes de opinião alicerçadas em partidos, em sindicatos e noutras organizações sociais mais ou menos estruturadas que se aproveitam com objectivos menos honestos destas ondas de certo modo irracionais, incapazes de grandes destrinças, com tendência a fugir a controles individuais e até de quem lhes esteve nas origens. Se algum mérito aquelas organizações têm, é o de tentarem estabilizar, um tempo que seja, essas ondas.
É bom que se esclareça que estas ondas se comportam como as ondas de calor num incêndio. Havendo um bom local de ignição, um bom pretexto neste caso, atingindo o fogo uma certa intensidade, mesmo que localizado, a sua propagação está garantida mesmo que o restante território a arder não apresenta características tão favoráveis. No meio arde tudo.
Isto é o que está a acontecer com os movimentos de professores capitaneados por quem tem interesse muito para além dos ordenados, do tempo de serviço ou da classificação. No entanto esta luta dos professores não teve efeitos práticos nos dois primeiros anos de alterações que o Governo vai tentando promover no ensino de modo a obter os índices de profissionalismo, organização e disciplina sem os quais todo o esforço é inglório.
Em anos passados os professores conseguiram um nível de autonomia, remunerações e suficiência incomportáveis neste País relaxado e relapso a obedecer e a se empenhar em objectivos colectivos. Os sindicatos querem garantir o apoio dos professores defendendo estas conquistas revolucionárias. Apertados pelo Governo e sem apoio na opinião pública tudo fizeram para inverter esta situação. A sua ambição foi sempre virar a opinião pública contra o Governo.
Daí o seu apelo recente aos pais e alunos para ajudarem à subversão geral. E vá de arranjar professores dedicados que os há, professores competentes que os há, professores sacrificados que os há, professores vítimas de ingratidão que os há e tentar criar uma onda benévola debaixo da qual se acobertem os professores baldas, incompetentes, incapazes de qualquer sacrifício e merecedores de que os mandem tratar doutra vida e que são precisamente os mais barulhentos, os que mais engrossam manifestações e greves, os que não têm espírito democrático e insultam e isolam os professores dignos que não partilham das suas opiniões.
Está-se a criar dentro das escolas um clima de agressividade, de perseguição, de intimidação, de medo. É necessário que o poder democrático chegue a todo o lado e não se permita que forças totalitárias consigam manobrar os professores com propósitos que passam muito ao largo dos seus interesses e da sua dignidade. Já existem vários professores a precisar de ajuda.
A maioria dos professores talvez não esteja habituada a viver climas destes, em que a tensão social ultrapassa as suas forças, climas que há tempos só se viam no seio das fábricas, dos locais de trabalho dos mais proletarizados. A maioria dos professores dificilmente resiste só por si a estes movimentos que tudo querem avassalar, que utilizam a insídia e a delação.
Esta maioria de professores está a dar às gerações futuras um exemplo de degradação moral, como não se vê em pessoas com muito menos responsabilidades, com rendimentos infinitamente inferiores, com problemas familiares e sociais de que eles não sofrem. São uns privilegiados que aproveitam a sua função, que não querem avaliada, mas cujo valor está à vista de todos, para se arrogar um estatuto que estão longe de merecer.
Muitos dos professores acederam à profissão com habilitações reduzidas outros exercem profissões paralelas, outros manifestamente não têm condições psicológicas para uma profissão que, levada a sério pode, conforme as circunstâncias, ser bastante desgastante. O Estado tudo tem feito para eles se valorizarem, mas o que surge é a ingratidão.
Anos sabáticos, férias prolongadas, tempos não lectivos, nada chega para a voracidade desta gente. Não faltam os professores a sabotar iniciativas que deveriam tomar. É posta em causa a integralidade dos alunos, os seus apoios, e eles tanto precisavam de apoio na resolução dos seus problemas, na manutenção de algum discernimento na sua mente. O ambiente criado não ajuda os alunos.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Um vencedor e um mundo de vencidos

Defensor Moura venceu um plebiscito, perdeu um referendo. Os outros perderam a votação seja qual for a perspectiva pela qual a mesma seja vista. E o próprio referendo perdeu também. Esta ocasião só provou que os autarcas só promovem os referendos que lhes interessam e que podem personalizar.
Ninguém está interessado em discutir o fundo de uma questão, em a isolar do nevoeiro abrangente. O que conta é a força do apelo que está subjacente à questão nuclear. Não é este núcleo que erradia atracção, é sempre uma outra questão que serve de atractivo para o chamamento ao voto neste ou naquele sentido. Defensor pôs em causa o seu lugar para apimentar o voto.
Só esta questão levou alguns a ir votar. Tal se revelou em todas as entrevistas que se viram na televisão em que as pessoas, por norma, diziam saber bem porque iam votar, mas quando interrogadas sobre o que sabiam da Comunidade Intermunicipal de Minho Lima abriam os olhos como se lhes estivessem a falar de fantasmas.
No fundo foram votar as pessoas que dão mais importância ao apelo pessoal, isto é, se submetem à chantagem emocional. Claro que aqui podemos fazer um interregno e perguntar se há alguma ilicitude nisto. Não há porque são as pessoas que se deixam prender, são as pessoas que sentem mesmo a necessidade de se ligarem a alguém e os políticos, por mais mal que deles se diga, estão aí à mão, são parceiros com quem se tem certa intimidade.
Sendo todos, excepto um, os derrotados, há sempre uns mais derrotados que outros. António Martins está em primeiro lugar porque sendo ele a propor o referendo não deu mais qualquer passo significativo de empenho na sua vitória. Derrotado foi o CDS que com o caminho deixado aberto pelo PSD quis açambarcar a liderança para que não tinha arcaboiço.
Derrotados foram os socialistas vianenses. Parte deles arrastados para o reforço de um poder pessoal e para uma estratégia suicida e anti-socialista. Outra parte revelou a sua impotência e falta de visão política para criarem uma verdadeira alternativa a Defensor Moura, assente na defesa de princípios ideológicos e organizativos democráticos. É nisto que dão os Messias.
Perdeu a clareza do debate político, sempre enredada nestas questões que afinal, pela importância que lhes foi dada, todos acharam menores, pouco dignas de referendo. Em democracia convoca-se o povo para votar como um método de decisão primordial. Depois cabe aos eleitos tomar as decisões que se impunham. O que não pode é um decisor menor pôr em causa e numa parcela diminuta do território nacional a forma como participa na tomada de decisões.
Esta clara vitória de Defensor Moura não pode deixar de ser a prazo uma clamorosa derrota porque a democracia, com regras tão difíceis de criar, que exige o empenho de todas as pessoas, não pode estar ao dispor deste tipo de gente que a seu belo prazer quer aferir da simpatia que o eleitorado possa nutrir por ele, sem que daí mais alguém tire qualquer ganho visível.
A organização política e administrativa do País não é perfeita, bem longe disso. Mas há quem queira baralhar permanentemente os dados para dar razão àqueles saudosistas de Salazar e aos outros que defendem que, a não haver um ditador, cada qual faça as coisas como bem entende. Em Portugal há esta espécie de gente, tipo ditadores anarquistas, que são feios e falsos moralistas.
A regionalização vai ganhando novos adeptos, mas na prática há cada vez mais gente a sabotar esse processo. Em Portugal em toda a parte falta organização, na escola, nos centros de saúde, nas empresas, na estrutura administrativa. Qualquer tentativa de avanço tem logo sabotadores a todos os níveis e entre os mais responsáveis. Este referendo é uma clara sabotagem.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Ainda haverá esquerda e direita?

A esquerda e a direita digladiam-se de modo permanente. Com mais ou menos vigor, com períodos de acalmia, até já vimos ocasiões festivas. No entanto era bom que soubéssemos que está sempre em causa muito do nosso futuro, mesmo quando a direita social faz recuos tácticos, pois mantém os seus líderes a trabalhar para reaverem o poder. A direita social tem séculos de experiência para ludibriar e confundir a esquerda.
Às vezes aos nossos olhos a confusão torna-se mesmo profunda. As circunstâncias obrigam os líderes da direita a fazerem políticas que desagradam aos seus mais acérrimos apoiantes da direita social. Também tem sido muitas as vezes em que a esquerda não tem campo de manobra para fazer a sua politica construtiva, limita-se a uns remendos no edifício que é obra da direita. Mas não podemos nunca perder de vista a luta política de demarcação, mesmo que hoje seja ainda mais difícil devido à nossa integração na Comunidade Europeia.
Mas regridamos um pouco no tempo, mesmo só no nosso tempo, vivido é certo num ambiente de certo modo atípico, de um capitalismo rural. Houve tempo em que a direita se confundia com dinheiro. Quem tinha dinheiro era de direita, quem o não tinha era de esquerda. As excepções não eram muito significativas e tinham a sua justificação por factores culturais, percursos muito específicos de vida, heranças recebidas ou projecções a que alguns eram mais susceptíveis.
Nesse tempo a direita não falava de dinheiro porque não ia pôr em causa aquilo que possuía por demais. Se em Portugal a direita se caracterizava mais pela propriedade do que pelo dinheiro, tal devia-se ao nosso atraso. A direita falava de segurança, ordem, respeito. Fazia com que a esquerda passasse por uma horda de maltrapilhos, gente sem dinheiro, sem valores, causadora de insegurança, desordem e desrespeito.
Nesse tempo a esquerda falava de dinheiro, daquilo que faltava aos trabalhadores e mais aos pobres para poderem ao menos subsistir, para terem uma vida digna, para criarem os filhos com honra e falava de dinheiro. Para a esquerda o dinheiro era aquilo que sobejava aos ricos e que não era colocado na promoção de desenvolvimento. O dinheiro era aquilo que o próprio Estado gastava mais na sua própria defesa, na promoção da guerra do que no bem-estar.
A ambição da esquerda política era colocar o dinheiro ao serviço da população em geral e por isso aquela primeira reacção primária e instintiva de promover o colectivismo de tão fraca memória. Em certa altura os totalitarismos tomaram de tal modo conta dos movimentos sociais que ainda hoje mantém vasta influência por via do fascismo e do comunismo. Mas a esquerda já percebeu que não é necessária a apropriação colectiva do dinheiro para que ele seja útil a todos.
A partir da altura em que se esclareceram certos equívocos de que foi prisioneira na primeira metade do século passado, a esquerda nunca desistiu de promover a democracia e a utilidade social do dinheiro. O fascismo só persistiu em poucos espaços, o comunismo começou o seu processo implosivo. Mesmo assim os movimentos sociais não totalitários tiveram dificuldade em se adaptarem às novas condições e em intervirem eficazmente a nível da divisão do trabalho.
A esquerda foi-se libertando lentamente dos totalitarismos. Também a direita, em especial no pós guerra e para se não confundir com o totalitarismo de direita, tomou atitudes até aí tidas como próprias da esquerda. No entanto nem toda a evolução se deve à acção política. A melhoria operada na organização social também se deve aos fantásticos desenvolvimentos a nível da ciência, da tecnologia, de todos os ramos de conhecimento que permitiram que o homem se fosse libertando do trabalho mais escravo.
Nem toda a gente atribui à esquerda todos os progressos conseguidos. A esquerda perdeu mesmo muito terreno na acção política. A custo tem conseguido recuperar e alargar a sua influência na sociedade, mas à custa de acções dispersas e sem coordenação. No entanto a esquerda totalitária espreita e procura arregimentar toda a esquerda invocando uma superioridade moral que está longe de ser verdadeira. A esquerda precisa com certa urgência de balizar os seus limites e afastar de vez o fantasma do totalitarismo marxista.
Para escândalo dos fundamentalistas e de uma certa ala nostálgica, que sempre alimentou um discurso idealista, mas foi inoperante na acção, a esquerda já não clama contra a existência de detentores do dinheiro, mas tão só pelo mau uso que dele fazem. A esquerda preocupa-se mais com o aperfeiçoamento da organização social, está integrada no mundo de hoje sem ser conivente com as suas aberrações. A esquerda está comprometida em defender os elementos determinantes, aperfeiçoando o seu alcance social.
A esquerda de hoje já reivindica mesmo a gestão do dinheiro em parceria com os seus detentores maiores. O dinheiro deixou decididamente de ser a linha divisória entre a esquerda e a direita. Ainda assim a direita gosta de abrir por aí uma trincheira, agora que já deixou os escrúpulos de ao dinheiro se referir. A direita acusa a esquerda de esbanjadora e tem-se por melhor gestora. A esquerda tem que provar que não é bem assim e tem objectivos mais solidários. A direita persiste em promover a ganância devoradora do dinheiro.
Hoje o maior inimigo da esquerda é a esquerda radical. Com a direita pode a esquerda muito bem, ocupe ela os cargos que ocupar na Presidência, nas Forças Armadas, na Banca, no aparelho de Estado. A direita não é mais honesta, mais séria, mais precavida, mais segura, bem pelo contrário. O Estado não pode ser obsessivo como a esquerda radical ambicionaria, nem pode ter a leveza que a direita lhe quer dar. A esquerda de hoje é a que tem uma melhor ideia de Estado.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A exposição pública dos autarcas não é suficiente

O programa de televisão Prós e Contras só reforçou a nossa ideia de que Defensor Moura não tem qualquer razão na sua teimosa e obsessiva luta contra um inimigo que não existe. Esperemos ao menos dele uma atitude louvável de cumprir o prometido de se afastar se o “Sim” ganhar. Só que me não espantará se ele tentar renascer. Infelizmente a nossa vida autárquica está cheia de dinossauros que não querem ser afastados, parece haver um vírus que os ataca e os mantêm presos a esta vida boa.
Narciso Miranda, Valentim Loureiro e muitos mais são daquelas pessoas que se não tiverem uma capa de autarca que os vista se sentem nus, demasiados expostos, com um tratamento diferente da parte da comunicação social, sem qualquer motivo de interesse para aparecerem nas revistas e serem entrevistados. Podiam ao menos dedicar-se a escrever memórias e sobre a maneira como conseguiram subir na vida, que sempre podiam ensinar algo a alguém.
A escola autárquica é tremendamente deficitária em termos da propagação dos bons exemplos de gestão. Cada qual segura-se no seu povo, procura uma qualquer identificação com ele que lhe garanta a permanência máxima no lugar. Não existe um modelo que seja capaz de ser implementado por várias pessoas com diferentes perspectivas e que persista para além delas. Em muitos municípios a burocracia continua a ter uma peso desmedido, a corrupção existe às escancaras, as facilidades vendem-se como se de dificuldades se tratasse, mas não era este o modelo que interessava divulgar.
Sendo o poder autárquico aquele que mais próximo está das pessoas deveria ser o exemplo mais acabado da eficácia, da transparência, da participação popular. Embora muitos de nós ainda façamos um balanço favorável ao poder local em face do poder nacional, ou melhor dos vários poderes nacionais, o certo é que a imprensa fala muitos mais da prepotência dos autarcas, do seu carácter mesquinho e interesseiro do que de quem ocupa outros patamares do poder.
Mas quando alguém chama a atenção para o que se passa em casa do vizinho em vez de se defender a si próprio, de se justificar perante os seus eleitores, alguma coisa de errado se passa na sua casa. O que se esperaria dos autarcas é uma atitude de chamar a atenção para a clareza que preside à sua tomada de decisões e não atacar-nos com revistas auto elogiosas, cheias de fotografias e texto laudatórios.
A imprensa faz o seu papel de chamar a atenção para os aspectos melhores ou mais condenáveis da personalidade, do modo de agir, das opções típicas de cada um. O que a imprensa não pode, o que lhe está vedado por múltiplos motivos, é a imiscuir-se em aspectos da vida privada, é abordar aspectos da personalidade que muito teriam a dizer sobre as razões que determinam os autarcas a tomarem as decisões que tomam.
A democracia americana tem a grande vantagem de que cada candidato a um qualquer cargo público tem que passar por uma triagem perfeitamente arrasadora. Tem outras desvantagens, como o papel do financiamento na ascensão e queda desses candidatos, mas por cá também este aspecto vai atingindo dimensões que afastam muita gente honesta de se envolver neste mundo um pouco baço e obscuro.
Os nossos autarcas ainda agem como proprietários dos seus apoios, senhores das estruturas que são chamados a simplesmente orientar no sentido da sua política sufragada, decisores solitários e inimputáveis. No entanto os autarcas tem obrigação de se desligarem daqueles apoios, de não violentarem as estruturas herdadas, de fazerem participar todos nas suas decisões importantes. E se não conseguirem melhor façam um testamento

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Água das pedras

Se me perguntarem de que gosto mais, se de pedras ou de água, a minha resposta óbvia é que a natureza no geral toda me agrada, mas a água satisfaz-me uma necessidade primária que pode surgir a qualquer momento e é essencial para a vida. O contra é que a água se esvai rápido e a pedra dura muito.
Este é o meu lado utilitário a reagir a quente. No entanto ainda neste aspecto a pedra também tem a sua utilidade. Além daquela mais óbvia da construção, a pedra pode ser objecto de inscrições múltiplas com mais ou menos significado ou sem significado algum como as que estão nas pedras do Monte de Góis e lá terão sido feitas há uns bons 5.000 anos, dizem.
A preservação desta pedra levou o Corema a desencadear uma guerra a propósito do traçado da estrada destinada a passar o Rio Coura e o Monte de Góis entre Vilar de Mouros e Lanhelas que acabaria pela redução da estrada de duas faixas em cada sentido para uma só e a uma imensa perca de tempo. Mas os malefícios podem não ter ficado por aqui, o Diabo seja surdo.
A estrada lá se acabou com algumas pedras deslocadas como é evidente, mas nada que nos fizesse perder a mensagem que um povo antigo eventualmente nos tenha querido transmitir. Sou daqueles que considera que ninguém se dá ao trabalho de sarrabiscar uma pedras se não tiver um trauma qualquer, o que será sempre uma informação importante. Afinal já havia stress nessa altura.
Mas algumas pedras terão ficado ainda no seu sítio que agora o Corema diz que os exploradores de água as podem estragar. Acho que para extrair água não será preciso mover muitas pedras pelo que o interesse do Corema parece ser outro: Que não estraguem as captações que afinal outros já lá têm e fizerem por aqueles montes quando ainda não havia Corema para os contestar.
Os vários interesses em jogo devem ser defendidos de forma clara e transparente por quem deles beneficia. Isto é, devem ser defendidos com legitimidade para que possam ser legítimos. Confundir as coisas não enobrece a meritória defesa do ecosistema, que todos devemos apoiar.
Uma actividade perniciosa no mundo de hoje é a de todos os fundamentalismos que só vêm aquilo que lhes interessa e que subestimam ou mesmo amesquinham tudo o resto. Como se os outros fossem todos movidos por sentimentos negativos, subterrâneos e só eles tivessem acesso a uma pureza que não está ao alcance de mais ninguém.
Na questão da estrada foram postos em causa os problemas de segurança, com um súbito atrofiamento da mesma. Agora quer-se pôr em causa a exploração da água, mas essencialmente a sua exploração comercial. Haverá decerto muitas entidades a ter que se pronunciar até que tal exploração seja licenciada.
Esta pressa em aparecer na primeira linha, duma luta que nem se sabe se é de louvar, destina-se mais a meter medo do que a esclarecer as pessoas. Também me parece que aquela zona não terá as reservas de água necessárias para justificar a sua exploração comercial, sem pôr em causa outros legítimos interesses, mas era isto que o Corema deveria provar.
A vertente integralista do fundamentalismo é a que causa efeitos mais nefastos no interesse pelo progresso e pelo desenvolvimento dos povos. Até contra a alteração da paisagem se manifesta quando esta é uma resultante da actividade humana que todos os dias transfigura espaços. Não prescindem do carro, do aquecimento, de todas as mordomias mas gritam contra o malvado dióxido.
Minimizar impactos, conseguir medidas reparadoras e compensatórias é muito louvável. Oporem-se a tudo por dá cá aquele palha é condenável. A credibilidade ganha-se com coerência, clareza. A visibilidade faz falta, mas não se pode ganhar a qualquer preço.