sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Combatamos a depressão que a crise nos traz!

Nos dias de hoje falar de crise é deprimente, aterrador, não falar de crise é leviano, dissimulador. Mas é obrigatório falar de crise porque efectivamente ela está cá, não podemos fugir a ela, chegou importada, avassaladora. Dizia-se que por cá já pairava outra, mas das duas, uma: Ou era simples bluff para ter efeito propagandístico ou foi uma premonição admirável. Porque castigo divino não acredito que seja, mesmo com tanto aleive.
O problema é que com crise ou sem ela, mesmo que se tenha indevidamente designado de crise uma mera questão de finanças públicas, quando se pensava que a sua fase mais difícil estava ultrapassada, caiu-nos em cima a verdadeira crise, a mãe de todas as crises, a crise do excesso de produção. Porque as pessoas não se sentem beliscadas, muitas até se sentem mais aliviadas, mas não podem ignorar que há quem já sofra ou ainda venha a sofrer da crise a sério.
As exportações diminuíram, a consumo arrefeceu, o dinheiro paralisou, os bens depreciaram-se, a economia asfixiou, o desemprego cresceu. E aqui estamos nós: Uns que eventualmente até podem beneficiar com a crise e dissimulam; Outros que são suas vitimas claras e indefesas e se deprimem. Falar hoje de crise é falar-se do real bem presente, do que está a acontecer debaixo dos nossos olhos, mesmo que não a nós. Todos sentem o arrefecimento da actividade económica, o afrouxamento da euforia, o refrear das expectativas.
A crise é o não saber o que se há-de fazer, se consumir, se poupar, se da maneira como agimos estamos a contribuir para agravar a crise ou para a debelar. Sentimo-nos impotentes, convencidos de que pouco ou nada podemos fazer. A crise comporta-se como um molho que custa a desenredar, um emaranhado que custa a destrinçar, uma confusão difícil de esclarecer. Todos precisamos de saber como vamos sair daqui. O difícil é pegar no fio à meada, encontrar a ponta por onde se lhe pegue, puxá-la de forma adequada para que não se criem mais nós.
Da crise só se sabe aquilo que é sabido de todas as crises. Há que produzir menos do que se produz, mas dar trabalho a quem dele necessita. Há que produzir mais daquilo que se terá que inventar. A crise tem um efeito desintegrador na economia. Aquilo que se pensava harmonioso é subitamente arrasado. É um sistema de produção, distribuição e consumo que abriu brechas e ameaça desmoronar-se. Há um desfasamento entre a produção de bens e serviços e uma procura cada vez mais minguada.
A economia vive de interligações, complementaridades, subsidiariedades e muita competição. E esta alimenta-se com aumento da capacidade de produção instalada, melhoria dos produtos, baixa de preço, luta pelos mercados, esticar de expectativas e de crédito sobre rendimentos cada vez mais longínquos. A competitividade afecta todos desde que nos integramos nesta economia mercantil. A competitividade exige de todos uma atitude activa. A passividade torna-nos mais vulneráveis. Como ter uma economia sã sem esta ânsia de crescer?
Da produção sabemos muito, da colocação dos produtos também, mas o mercado traiu-nos. (Isto não quer dizer que todos saibamos de tudo, mas que há gente suficiente que sabe destas coisas.) Foi dada demasiada voracidade ao mercado de modo que perdeu o seu efeito de regulação. O mercado auto regula-se, era verdade tida por inamovível para os liberais, mas que já foi. Confiou-se que o mercado distinguisse o bom do mau, fosse capaz de lançar alertas que refreassem a produção, que avisassem antes que um produto se tornasse obsoleto e, em relação aos financeiros, antes que se tornasse tóxico.
Confiou-se na honestidade dos agentes financeiros, da sua avaliação de risco e no seu controle sobre os produtos que lançavam no mercado. Se o sistema financeiro não foi capaz de se auto regular, também não se acredita na sua auto regeneração. No entanto os dirigentes mundiais tardam a actuar e as medidas sugeridas são demasiado benévolas. Não se pode acreditar mais naqueles a quem o simples manuseio do dinheiro parece transmitir a volúpia e a ganância. As regras têm que ser muito rígidas quando é a confiança pessoal que está em causa.
Ataca-se muitos os especuladores que fazem da compra e venda de produtos financeiros a sua principal actividade. Mas só aqueles que pertencem ao circuito financeiro, que tem capacidade para criar os produtos financeiros, são responsáveis por fornecer ao mercado esses instrumentos especulativos. É a sua ganância e a sua vontade concorrencial de fornecer sempre novos elementos para alimentar o estado de euforia do mercado.
Os dirigentes mundiais balanceiam entre a fidelidade jurada à globalização e alguns laivos de proteccionismo que vão surgindo. Muitos acham ser necessária alguma regulamentação no comércio global, outros acreditam na resolução dos problemas mantendo o actual sistema. O caso do petróleo deu-nos alguma esperança de que o mercado se pode auto regular, mas criando-nos uns grandes sustos à mistura. O grande problema é o sistema financeiro em si e as suas intromissões no mercado de bens e serviços.
Muitos economistas acham que a resolução dos problemas passa pelo fomento do consumo porque só este pode criar emprego. Como País endividado, que não produz parte do que consome, fomentar o consumo é fomentar a importação de bens e serviços. Impõe-se uma alteração dos hábitos de consumo, a diminuição de gastos de energia, a redução do endividamento ao exterior. Todo o emprego a criar deve ser em áreas estratégicas.
Se a nível nacional as dificuldades de gestão são grandes a nível global são imensas. Mas seriam necessários alertas que permitissem salvaguardar a concorrência e a reconversão a tempo da produção para não produzir excedentes que entupam o mercado. Infelizmente também a evolução do sector produtivo tem sido no sentido da rigidez, da especialização, da perca de alguma maleabilidade que permitisse responder a alterações da concorrência e do mercado a tempo de não entrar em decadência.
A cena europeia e mundial permite-nos vislumbrar a manhosa apatia dos liberais, esperando que o seu edifício se não desmorone e que não seja possível mudá-lo muito, porque tem servido aos seus propósitos. Vimos uma candura exagerada dos socialistas, que tem estado de mãos atadas e que assim parece permanecerem. Vimos a verborreia inconsequente dos esquerdistas.
Mas de uma coisa podemos estar certos e seguros: O problema não se resolve como muitos resolvem as suas bebedeiras: Continuando logo pela manhã a beber do mesmo.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Quem me explica que crise é esta?

Que crise é esta? Pergunto-me. Uma crise como as outras, cada vez mais parecida. Respondem-me já quase unanimemente. Os seus caminhos foram complexos, ela meteu por atalhos e fez desvios inesperados, mas no fim redundou naquilo que é o fundamento de qualquer crise que se veja: Um excesso de produção que a economia não está disposta a absorver.
Senão vejamos, dizem-me: A primeira manifestação da crise foi a insolvência daqueles que, sem rendimentos garantidos, compraram casas caras, cada vez mais caras. A economia expulsou estes produtos, que naturalmente fazem falta noutras condições, mas o problema ficou no ramo financeiro. Este já pagou e tem compromissos a cumprir sem a ajuda dos compradores iniciais. A crise instalou-se no sistema financeiro.
Notava-se já uma escassez de meios financeiros mais ocupados em esquemas especulativos do que em fornecer o alimento de que a economia precisa para ser viva. O dinheiro é o “óleo” que faz com que a economia não emperre. O encarecimento do dinheiro tornou o recurso ao empréstimo demasiado oneroso e arriscado. Isto reflectiu-se em relação aos bens de consumo mas também aos bens de investimento.
Com poucos meios de pagamento, sem crédito fácil a que se habituara, a especulação virou-se para o petróleo, afinal um recurso sempre à mão para esse efeito. Em princípio os economistas até bateram palmas, pensaram que se ia pôr enfim racionalidade na economia. O petróleo é um bem escasso que, como tal, deve ser pago. Os ambientalistas agradeciam. O preço alto é o único incentivo à procura de alternativas que permitam a defesa do ambiente e o fornecimento futuro de energia a uma humanidade que já não sabe viver sem ela.
Só que a coisa a dada altura começou a ficar preta, o petróleo a aumentar de preço exageradamente, parece que se ia transitar de uma irracionalidade para outra. Felizmente esta especulação veio a revelar-se extemporânea. Enfim, de repente, o petróleo começou a jorrar de todos os lados, a abundância submergiu o mercado, os preços desceram a pique o que então sim veio dar um suplemento mais de alma à crise, à verdadeira crise, à mãe de todas as crises, a crise do excesso de produção.
Não quer dizer que a humanidade não seja capaz de consumir muito mais, de estragar bens e destruir recursos. Mas existe um bloqueamento, um desmoronar de expectativas, qualquer factor que nos indispõe a manter um tal desgaste de recursos e nos leva a rejeitar o que nos é proposto para consumo e a ansiar por outros bens. Como se de repente enjoássemos de consumir o óbvio e queiramos inovar.
De repente tudo o que existe vale menos. Além das coisas mensuráveis com critérios objectivos temos que organizações, empresas, bens intangíveis, tudo vale menos. A sociedade no seu conjunto vale menos, a economia vale menos. Os cérebros que a manipulavam valem menos, mas é bom de ver que deveriam valer ainda menos. Há gente que nada vale e continua a ter um poder imenso.
A crise agudizar-se-á se persistirmos em pagar a preços da abundância a quem tenta salvar aquilo que já nada vale. Os Estados tentam salvar a situação colocando o dinheiro sem rentabilidade própria. Cada vez se caminha mais para a taxa zero e por aí nos vamos ter que manter por uns anos. Mas também já não é a diminuição do custo do dinheiro que resolve a crise. O primeiro passo seria pôr os magos da finança a ter que se limitar a receber aquilo que os próprios produzem e a pagar o que receberam a mais.
Felizmente, quando nós não temos juízo há nos sistemas como que a procura instintiva de um equilíbrio interno. São alertas oportunos mas a nossa capacidade de alteração e adaptação às exigências da economia é limitada, não é eficaz perante a rapidez que hoje se exige às respostas. Sabemos como reagir de imediato ao aumento da procura, mas não sabemos responder à situação contrária, a uma diminuição das compras, a uma asfixia da capacidade de pagamento.
Um facto que só dizia respeito aos economistas mas que cada vez mais tem de ser do conhecimento de todos é que o problema não é produzir mas produzir coisas úteis e vender. O que se não produz cá produz-se lá fora onde há melhores condições, uma escala mais apropriada à produção em questão. Só podemos produzir o que tivermos condições para tal e tivermos mercado para escoar.
Existe uma discrepância entre quem produz e quem consome, mas também entre quem tem o dinheiro e quem tem falta dele. Se agora o custo do dinheiro é pouco os produtores não podem correr o risco de produzir para stocks à espera que os seus produtos se vendam mais tarde quando até podem perder valor, ou é problemático vir a vender-se. Produz-se mais na certa, o que já está vendido.
Já estamos numa economia em que uma sua grande parte se refere a serviços, não armazenáveis, portanto. O produtor do serviço tem que estar disponível para o seu fornecimento quando não sabe se ele vai ser utilizado. Por isso tem que ter capacidade produtiva, mas não em excesso, isto é, para manter viável o negócio não pode ter empregados em demasia.
Depois há o grande problema da acumulação capitalista. Enquanto uns são incentivados a consumir há outros que se dedicam a acumular. Uns endividam-se cada vez mais e outros juntam valores incalculáveis que aplicam na especulação porque não sabem aplicá-lo noutro lado. Será necessário que uns se não endividam tanto e outros que não acumulem tanto. A mobilidade pretendida para o dinheiro não é alcançada.
Quanto ao Estado a grande tarefa é adaptar o sistema de segurança social dentro desta economia tão instável. O sistema não se pode sustentar em rendimentos virtuais, como os economistas liberais pensavam, mas no valor produzido em cada momento, como é o caso de Portugal.
As dificuldades não serão decerto de quem têm emprego e rendimentos garantidos que possivelmente beneficiarão do afrouxamento dos preços por efeito do excesso de oferta pelo que devem continuar a pagar impostos. Novas respostas precisam-se para os desempregados, incluindo quem vê o seu pequeno negócio tornar-se inviável.

Porque vos colocais em bicos de pé?

Quando se faz uma entrevista, o entrevistador deve evitar fazer juízos morais sobre o entrevistado, sob pena de estar a fugir ao objectivo da entrevista que é esclarecer o pensamento de alguém com algum interesse para a opinião pública. O Sr. PS publicou uma pretensa entrevista que começou por um trocadilho de palavras que terá respigado de algum lado, porque até não lhe vejo capacidade para o criar.
O que eu sei disse-o, se não com todas as letras, pelo menos de forma que toda a gente entende: Não quero ver o Sr. Pedro Saraiva a candidato a coisa nenhuma, muito menos à Câmara Municipal de Ponte de Lima, e mais sei e talvez diga. O facto de ser gordo ou magro não diminuiu nem acrescenta nada à questão. Não me envergonha de ter sido comunista, o que me envergonha são muitos comunistas e muita outra gente armada em político, de esquerda e de direita.
Como simples politólogo, palavra agora em voga e de que me arrogo por ter algo a ver com a minha postura, estou longe de ser político, coisa evidentemente mais séria, só ao alcance do PS-pessoa e pouco mais. O político é aquele que exerce o poder ou então tem pretensões de o exercer e conheço muitos, entre os quais não me incluo. E estão no seu pleno direito e cumprem mesmo um dever. Depois há aqueles que queriam, mas não podem.
O facto de querermos ter alguma influência, de manifestarmos as nossas opiniões põe-me no patamar cívico que o Sr. não alcança. E a referência à AM diz bem onde o Sr. se coloca. As tentativas de aniquilar vozes livres até o faz identificar-se com as vozes alarves que se possam manifestar na AM. Mas informo-o que quem me calou foi gente do seu partido adepta de Daniel Campelo e que tem tão pouca vergonha como o Sr. manifestou na entrevista publicada há tempos.
Quanto ao Manuel Alegre deixe-o versejar á sua maneira, que não é a minha. Quanto ao partido de que diz ser militante com gente como o Sr., invisível e quando visível o é pelas piores razões, não vai a lado nenhum. O partido precisa de gente jovem, sem rabos de palha, sem vícios, mas acima de tudo com ideias que apresente abertamente ao povo e que este possa perceber.
O Sr. não tem a mínima noção do que é fazer oposição ao executivo camarário e não se lhe conhecem quaisquer ideias sobre gestão autárquica. Só se sabe que, habituado como advogado a exigir dinheiro adiantado para preparos, exigiu gorda quantia ao PS-partido quando foi Presidente da Concelhia do partido para avançar como candidato. Mas não avançou.
Este aparentemente voluntarioso político afinal é um refinado calculista que não pretende entrar no bolso próprio ‘para defender as suas ideias, que não as tem. Mas também não lhe recomendo mais nada porque as suas qualidades ainda estão por descobrir. Vá se dedicando á sua profissão que sempre lhe vai dando algum.
De pobre, reformas e de comer bem e de graça, não vá por aí porque dizer aleivosias é fácil, ser uma pessoa vertical é muito mais difícil. Afinal faltou dizer quem o convidou para quê, porque quem tem poder para o convidar sabe que se o fizesse teria que levar o cheque bem preenchido para os tais preparos e o PS-partido não anda a nadar em dinheiro.
Porque vos colocais em bicos de pé?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Um aplauso ao “Cardeal” e um louvor a Alcides Pereira

Um Jornal que percorre três gerações, quatro regimes políticos e as vicissitudes várias destes, é decerto uma Fortaleza. Tal como um ser humano, sofreu incompreensões, ingratidões, talvez agressões, poucas ajudas e resistiu. Sensível ao tempo, como se impõe a um órgão de imprensa, manteve a espinha dorsal desde a génese pela mão de Avelino Guimarães até aos dias de hoje sob a direcção do seu neto.
O Cardeal Saraiva, nome invulgar para um jornal, mas homenagem a um grande vulto do liberalismo, é a afirmação semanal de uma pujança, de uma perseverança mas também de uma temperança que a idade lhe faculta. Semanalmente o jornal fala por si, dá sinal do seu tempo, ecoa nos vales do Minho e em terras de emigração, liga elementos dispersos com raízes comuns.
Sendo um Jornal Regional não é um jornal regionalista, característica que o distingue de um outro tipo de tradição. Abordando sempre a temática local com uma visão actual permite-se olhar outros temas, aquilo que, sendo de todos, também é nosso, aquilo que é nacional, internacional ou que não tem mesmo local determinado porque acontece em todo o lado.
O Cardeal Saraiva não é um jornal de grandes arrebatamentos. Afinal a realidade local também não foge muito da normalidade, desenvolve-se com lentidão. Além disso os fenómenos a quente iludem-nos muitas vezes. Não é fácil agradar a todos e quase todos nós estamos habituados e ver as coisas com um certo distanciamento e a participar pouco no dia a dia da comunidade.
Era possível um jornal mais empenhado, mais interveniente. Mas afinal os pregões no deserto não são a melhor maneira de trazer as pessoas e participar, a envolver-se mais nas coisas do mundo próximo e distante. Já são muitos os órgãos de comunicação social que nos trazem diariamente essa realidade. Agora que já sabemos que tudo isso nos diz respeito a todos, um olhar mais calmo transmitido por quem vive na “aldeia” pode ser vantajoso.
Neste aspecto é fundamental a tolerância e este Jornal é disso exemplo ao permitir a contribuição de colaboradores de diversa índole. Mas há um outro aspecto que estou habituado a admirar no Cardeal Saraiva, desde logo que o comecei a ler. Permita-se-me que realce esse tempo em que o seu Director era o Dr. Alcides Pereira, meu Professor de Português, e pessoa com uma larga intervenção sob várias formas na vida local de Ponte de Lima.
Que eu saiba o Dr. Alcides nunca se meteu a escrever obra de folgo, mas era aquilo que se pode chamar um excelente periodista, sempre pronto a, no seu editorial, abordar as questões que lhe pareciam mais salientes. Aliava a isto uma escrita de grande qualidade, sem deixar de ser simples e legível por quem fosse portador de uma média literacia.
Mas o que mais me apraz registar é a afabilidade com que tratava toda a gente e a nós seus alunos em particular, com quem se relacionava como se universitários fossemos. Esse seu carácter benevolente trespassava mesmo no distanciamento que sempre manifestava, mas que era fruto da vivência própria de cada um e não do seu coração ou do seu intelecto. Porque a sua superioridade intelectual tinha outras formas de se manifestar sem ser pela afirmação gratuita de diferenças.
Hoje que procuro permanentemente novas formas de me exprimir dou a este aspecto do relacionamento humano a maior importância, que então estava longe de dar. Na ocasião em que foi seu aluno eu tinha-me por mais inclinado para as ciências exactas, subvalorizando o aspecto da comunicabilidade tão necessário para nos entendermos. Não pensava viver num mundo tão deficitário neste aspecto. Muito menos entendia a importância que a escrita tem em todos os aspectos da actividade humana.
Do que hoje não duvido é que, ao passarmos para escrito alguns que sejam dos nossos pensamentos, estamos a contribuir para a estruturação geral da nossa mente. A pessoa que se exprime só pela oralidade e principalmente quando quer ter voz activa sobre todos os assuntos, dispersa-se e normalmente não consegue elaborar um discurso fluente e coerente, mas tão só repetitivo e obscuro. Uma pessoa que não escreva dificilmente está apta a abordar mais de um ou dois assuntos com alguma profundidade e tirando todas as consequências.
Ao nos atrevermos a colocar no Jornal aquilo que escrevemos há uma preocupação extra, a que eu sinceramente não consigo atender. Não escrevemos para uma pessoa determinada. Perante tantos graus possíveis de erudição, perante tão diferentes níveis de conhecimento que os nossos leitores podem ter, o ideal seria conseguirmos escrever para a mediana dos mesmos. E não me restam dúvidas que o Dr. Alcides conseguia-o de forma sublime.
Quando se prestam homenagens a actores menores da nossa vida cultural, quando se sobrevalorizam pessoas com uma dimensão intelectual mais do que banal, quando se atacam uns porque são distantes e outros se desprezam porque são demasiado próximos, nós destacaremos o Dr. Alcides Pereira como um dos homens mais bem intencionados, mais afáveis, verticais e dignos que por este mundo passou neste último meio século, afinal só metade da longa vida do Cardeal Saraiva. O Dr. Alcides era um dos nossos. O Cardeal faz parte de nós.
A minha homenagem aos dois.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Do exemplo à referência e a um novo paradigma

Com certeza que a maioria de nós foi desde a infância bombardeada, se não massacrada, com exemplos de pessoas que eram assim e assado, se comportavam desta e daquela maneira, que tinham atingido estes ou aqueles objectivos perfeitamente ao nosso alcance e afirmações semelhantes cuja intenção era apontar-nos um exemplo a seguir para termos sucesso na vida.
Esses exemplos eram-nos apresentados pela família dentro dela própria, mas também fora quando nela não havia os elementos suficientes para nos definir um caminho que entendessem viável. Também pessoas exteriores à família ousavam muitas vezes participar nesse esforço de “educação”. Na nossa simplicidade e inocência raramente apontámos para que haja uma intenção subjacente de nos denegrir, de nos rebaixar, de propositadamente nos proporem um caminho impossível com o objectivo de falharmos.
A verdade é que só com a experiência descobrimos que nós nunca podemos confiar nas boas intenções de ninguém. Há cínicos que, quando vêm com essas conversas, é para realçarem o seu próprio sucesso, citando apenas por pudor não eles próprios, mas pessoas semelhantes a eles. Os próprios pais, por bem intencionados que sejam a princípio, quanto mais tomam essas atitudes mais pretendem rebaixar e às vezes até humilhar os próprios filhos.
Aqueles que definem para os filhos objectivos que não resistiriam a uma análise objectiva estão a transferir as suas próprias frustrações, castigando assim nos filhos a sua própria impotência. Nada pior para os filhos do que lhes quererem impor objectivos irrealizáveis por razões que escapam aos seus próprios pais, que estes não entendem. Os filhos não podem ser responsabilizados por certas obsessões que se criam em vez de se alimentarem expectativas razoáveis.
Mas na educação moderna as pessoas mais letradas já há muito abandonaram esta técnica mental do exemplo, própria para mentes de estrutura elementar. A técnica que ainda hoje é mais usada tem a ver com valores, mas acima de tudo com referências. Os valores em si são de difícil definição pelo que com as referências se pretende utilizar alguém que tenha dado execução a um ou mais valores comummente aceites ou que os educandos privilegiam.
Quando se usam referências, embora se utilizem pessoas que lhes dão vida, não é o exemplo que se pretende atingir. Essas pessoas são sempre colocadas num pedestal que se reconhece quase inacessível, que não é o objectivo fixado a atingir. Mais do que imitar pretende-se consagrar. Se num exemplo a comparação pretende ser feita com um igual num nível facilmente atingível, na referência trata-se de modelos completos mas no geral inacabados para respeitar, louvar, venerar.
Porém os educandos vão-se queixando cada vez mais com a falta de referências com que haveriam de educar os seus filhos e os seus alunos. O tempo vai causando uma natural erosão nas mais antigas referências e a velocidade a que vão aparecendo novas é cada vez menor. Perante a pluralidade e a dispersão dos pontos de interesse para cada um de nós torna-se cada vez mais difícil criar referências que tenham uma aceitação suficientemente vasta para lhe dar visibilidade e projecção.
Muitos educandos tentam retroceder, usar ainda exemplos mas estes só podem ser vistos em contextos estáveis, em circunstâncias semelhantes, com condicionalismos parecidos. Ora a realidade torna-se cada vez mais sujeitas a mudanças e o dilema intelectual se chega a existir, resolve-se facilmente, não há reversão possível. As referências já são construções mentais que procuram abstrair do meio circundante, das vivências particulares. Elas foram um avanço para a humanidade que, sendo intelectual, permitiu todos os outros.
A grande revolução operada a partir dos anos 60 consistiu na tentativa da juventude de, perante a apatia da restante sociedade, criar as suas próprias referências vivas, construir o seu próprio sistema mental, rejeitando de vez os exemplos, mas mantendo o paradigma referencial. Embora muitas dessas referências se pudessem ter mantido, tendo mesmo muitas passado a históricas, sem perca de muito do seu carácter, a verdade é que manter um sistema referencial vivo se revelou tarefa a que novas gerações tiveram dificuldade em dar continuidade e foram perdendo cada vez mais o seu vigor.
Ainda hoje se vêm alguns dos “velhos” a fazer apelos aos “novos”. Contrariamente ao passado, são eles a solicitar um esforço extra dos jovens para conseguir elaborar um quadro referencial mais adequado ao mundo de hoje. Primeiro porque o seu se desgastou, sentem o vazio. Depois, se apelam, é porque não vêm nas novas gerações a pujança que outrora se viu e que era necessária para estilhaçar os espartilhos em que estão eles próprios enredados.
À primeira vista imponha-se aqui um trabalho de conjunto, que aproveitasse o conhecimento adquirido, que o compilasse e que o aplicasse na abertura de novas vias de conhecimento, de vivência e relacionamento. Porque se uns estão demasiado agarrados a certezas cuja aquisição já foi dolorosa, outros, os jovens, estão demasiado afastados da complexidade, da conflituosidade, da perversidade de dois mundos que teimam em estar de costas, sendo que o interior tem por tendência desviar-se o máximo do mundo exterior.
O novo paradigma a implementar passa por vencermos este hiato sem nos expormos em demasia, por não vermos no outro um inimigo e conseguirmos assim aceder ao mesmo horizonte. Mas quão difícil é lá chegar, muito mais difícil do que carregar os outros com uma chuva de floreadas mensagens, de solidários abraços, de suaves afectos, de sublimes ósculos.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Reduzir a uma Suma sim, a uma Numa não

Que eu tenho muitos amigos, mas também muitos inimigos, já sabia. Uns mais previsíveis do que outros, de uma coisa estou há muito seguro: Não faltam na área partidária social-democrata quem esteja sempre disposto a manifestar-me a sua animosidade. Tratá-los-ei à letra.
Uma certa rapaziada social-democrata, de que os mais velhos se servem, gostam de insultar todas as pessoas que querem contribuir para os manter bem afastados do poder. Eles gostam da guerra total, atacam em todas as frentes, servem-se de todos os aliados de ocasião. Acusam sumariamente.
O Sr. Nuno Matos resolveu alinhar com a sua gente e acho que fez bem, diz bem com o seu carácter e está ao nível da sua inteligência. Fez no AltoMinho uma referência a um meu artigo publicado no Cardeal Saraiva e que fala da maneira como os funcionários públicos são tratados conforme a conveniência política, mas também que eles próprios não podem confundir direito à indignação com direito à ingratidão. E os professores genericamente têm sido uns ingratos.
O Sr. Nuno Matos acha que os professores têm sido uns bons aliados das suas hostes e vá de sumarissimamente insultar-me de ignorante. Não sei se isto é a sério ou se corresponde à dificuldade de ele me englobar num qualquer dos seus estereótipos. Para mim ignorante é o insulto mais grave que me podem dirigir porque é o último grupo em que eu meteria alguém se pretendesse manter alguma forma de diálogo com essa pessoa.
Vou-lhe lembrar que não é a experiência que cria saber e que este não estará ao dispor de mentes que se formatem de modo que não lhe é receptivo. Mas tenho experiência que chegue de 16 anos de escolaridade, alguns anos perdidos, cursos e mais cursos de índole profissional. E se os cinco anos de estudo no Externato Cardeal Saraiva e os quatro na Universidade Fernando Pessoa foram pagos pela minha família e por mim, os outros sete agradeço-os ao Estado por me ter dado a possibilidade de os frequentar.
Ao Estado se deve a formação da maioria dos médicos, professores e todos os que têm formação em Portugal e chegados a um lugar cimeiro, a um pedestal qualquer, só se vê ingratidão, menosprezo pela restante população a que não foi dada essa possibilidade. Muitos, se tivessem que pagar a formação que têm, teriam que trabalhar muito mais, mais barato e com mais empenho.
O Sr. Nuno já sei que não sabe escrever, mas ao menos aprenda a ler. O meu artigo só tem por objectivo dar a minha opinião sobre a falta de razão com que muitos falam do direito à indignação e admito que entre os professores haja quem tenha esse direito, mas serão decerto poucos.
Depois o ter direito à indignação não quer dizer que a sua dignidade tenha sido atingida, porque a luta política não pode deixar de fora as excepções, como se vê pela maneira achincalhante como os professores mais dignos são tratados, todos são levados pela vaga de lama em que a mediana dos professores navega. Os Papas, quando exerceram poder temporal, tiveram esse dilema ao envolverem-se em guerras que matavam inocentes: No céu eles seriam separados.
O meu artigo queria chamar a atenção para os inocentes e as vítimas e consequentemente para os manipuladores que conduzem estas lutas e para aquela ingratidão das pessoas que tudo obtiveram do Estado e agora o tratam como um malfeitor. Aquela ingratidão é como o seu pecado original.
Os professores dão um espectáculo de uma angustiante incultura cívica, de um egoísmo atroz num País cheio de dificuldades. O Sr. Nuno Matos para me atingir tem que se munir de armas morais que o seu diletantismo lhe não fornece.
O Sr. Numa, como cretino que é, vai ficar a falar só.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Uma prateleira dourada para Defensor Moura?

Quando alguém se torna incómodo para um partido político é vulgar que o coloquem em sítio que se não exponha muito, isto é, ganhe bom dinheiro, mas não apareça muito em público. No Partido Socialista temos Ferro Rodrigues, João Cravinho, Fernando Gomes, Manuel Maria Carrilho e outros que envolvidos em questões problemáticas acharam melhor pôr-se a recato, embora às vezes a contra gosto. José Maria Costa n.º 2 do PS de Viana do Castelo assim quer fazer com Defensor Moura, sugerindo a sua ida para a Assembleia da República.
Não sei se isto será um prémio ou um castigo, se será ao seu gosto, se está dentro das suas ambições. Mas, vindo a sugestão de quem vem, é natural que se trate duma encomenda. Porém este estratagema tanto é usado para defender alguém dum imbróglio em que se tenha ou tenha sido metido, bem como para o afastar com o objectivo de deixar o caminho aberto a alguém ou não criar mais prejuízo ao partido. O objectivo “natural” deste n.º 2 é ser n.º 1 e este conselho que quer dar ao seu partido é pois suspeito.
No entanto acho que José Maria Costa está a sofrer dos mesmos males, da mesma incapacidade mental, que o seu protector. Para os dois parece só existir Viana do Castelo e o resto do distrito são mentecaptos que habitam uma espécie de reservas. Estas só lhes interessam enquanto lhes permitem beber uns tintos em Ponte de Lima, desopilar os fígados no Gerez e como ponto de passagem para Espanha. Já chega de ofensas ao Alto Minho.
O restante distrito, que não Viana do Castelo, não é tido nem achado e falam dos seus interesses como se estes já tivessem delegado na sua capital todos os seus direitos. Ora o restante distrito já deveria ter sido chamado a manifestar-se sobre se da sua parte existe uma aceitação da presença de Viana do Castelo nesta Comunidade. Mas como isto não foi feito manifestemo-nos agora contra o facto de Defensor Moura poder vir a apanhar a boleia do Partido Socialista para ir representar na Assembleia da República um distrito que o abomina.
Nem José Maria Costa, nem ninguém do Partido Socialista, está habilitado a atirar para cima do distrito um candidato que tudo fez para pôr o distrito a ferro e fogo. Por sorte ninguém lhe passou cartão para lá da fronteira concelhia, deixaram-no a falar para o boneco que é bem o que o Senhor Defensor merece. Por esta proposta também o Senhor Defensor teria que ser candidato pelo distrito, aquilo que a ser levado à prática seria mais uma manifestação da desfaçatez com que esse Senhor navega na política.
A bota tem que ser descalça pelos vianenses, mas não venham sacrificar mais o distrito com este tipo de atitude. Se o problema é um emprego para o Defensor Moura ele ainda não teria esquecido tudo da medicina mas também deve estar com boa idade para ir para a reforma. Ele que se dedique à escrita que vai ver que lhe ajudará a pôr algum discernimento na sua cabeça. Descobrirá que as grandes decisões não têm origem em cabeças tão iluminadas como a sua.
O ar vanguardista de Defensor Moura não lhe permitiria nunca submeter-nos a experiências que não levam a lado nenhum. As decisões políticas têm que ser colectivas e os políticos devem ter a sensibilidade suficiente para auscultar a opinião pública e, se não concorda com ela, tentar alterá-la com argumentos que a população aceite. Se tal não conseguir haja bom senso.
O Senhor José Maria Costa foi conivente com Defensor Moura, talvez com medo de que este o marginalizasse, mas agora não se coíbe de tentar ser o seu herdeiro e atraiçoá-lo no seu propósito de não adesão à Comunidade Intermunicipal. Mas o que se salienta mais na sua atitude é a pressa com que apresenta a sua candidatura à Câmara de Viana do Castelo sob a capa da candidatura de Defensor Moura à Assembleia da República.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O direito à indignação e à ingratidão

Aqui há poucos anos andávamos a dizer mal dos funcionários públicos, a criticar os professores, a deitar abaixo os médicos, a zurzir nos magistrados e em pouco tempo tudo se virou. Agora ninguém diz que tenha dito tal coisa, alguns até são capazes de jurar que sempre disseram bem, todos parecem querer agradar a quem tão atacado foi e merecer as suas graças.
A força das forças políticas manifesta-se pelas ondas que consegue lançar de modo a suplantarem as promovidas pelos adversários, roubando-lhes apoios de que antes beneficiariam. Há sempre alguém a sair favorecido e outros sairão prejudicados e prontos a ajudar a onda contrária. Quando a onda espalha injustiças, e é natural que algumas hajam sempre, são as mais frescas na memória.
Muitos funcionários se levantaram contra a afronta, sentiram-se melindrados, arrastados por uma avalancha que a todos levou. Porém os movimentos sociais, os movimentos da opinião pública são assim, não há nada a fazer, só esperar que o tempo cure os danos e reponha alguma justiça. Ou então caminhar depressa para o outro lado, ajudar nova onda que decerto vai criar ainda mais injustiças, mas muitas vezes aí já só vemos os nossos próprios interesses.
No meio desta confusão criada há correntes de opinião alicerçadas em partidos, em sindicatos e noutras organizações sociais mais ou menos estruturadas que se aproveitam com objectivos menos honestos destas ondas de certo modo irracionais, incapazes de grandes destrinças, com tendência a fugir a controles individuais e até de quem lhes esteve nas origens. Se algum mérito aquelas organizações têm, é o de tentarem estabilizar, um tempo que seja, essas ondas.
É bom que se esclareça que estas ondas se comportam como as ondas de calor num incêndio. Havendo um bom local de ignição, um bom pretexto neste caso, atingindo o fogo uma certa intensidade, mesmo que localizado, a sua propagação está garantida mesmo que o restante território a arder não apresenta características tão favoráveis. No meio arde tudo.
Isto é o que está a acontecer com os movimentos de professores capitaneados por quem tem interesse muito para além dos ordenados, do tempo de serviço ou da classificação. No entanto esta luta dos professores não teve efeitos práticos nos dois primeiros anos de alterações que o Governo vai tentando promover no ensino de modo a obter os índices de profissionalismo, organização e disciplina sem os quais todo o esforço é inglório.
Em anos passados os professores conseguiram um nível de autonomia, remunerações e suficiência incomportáveis neste País relaxado e relapso a obedecer e a se empenhar em objectivos colectivos. Os sindicatos querem garantir o apoio dos professores defendendo estas conquistas revolucionárias. Apertados pelo Governo e sem apoio na opinião pública tudo fizeram para inverter esta situação. A sua ambição foi sempre virar a opinião pública contra o Governo.
Daí o seu apelo recente aos pais e alunos para ajudarem à subversão geral. E vá de arranjar professores dedicados que os há, professores competentes que os há, professores sacrificados que os há, professores vítimas de ingratidão que os há e tentar criar uma onda benévola debaixo da qual se acobertem os professores baldas, incompetentes, incapazes de qualquer sacrifício e merecedores de que os mandem tratar doutra vida e que são precisamente os mais barulhentos, os que mais engrossam manifestações e greves, os que não têm espírito democrático e insultam e isolam os professores dignos que não partilham das suas opiniões.
Está-se a criar dentro das escolas um clima de agressividade, de perseguição, de intimidação, de medo. É necessário que o poder democrático chegue a todo o lado e não se permita que forças totalitárias consigam manobrar os professores com propósitos que passam muito ao largo dos seus interesses e da sua dignidade. Já existem vários professores a precisar de ajuda.
A maioria dos professores talvez não esteja habituada a viver climas destes, em que a tensão social ultrapassa as suas forças, climas que há tempos só se viam no seio das fábricas, dos locais de trabalho dos mais proletarizados. A maioria dos professores dificilmente resiste só por si a estes movimentos que tudo querem avassalar, que utilizam a insídia e a delação.
Esta maioria de professores está a dar às gerações futuras um exemplo de degradação moral, como não se vê em pessoas com muito menos responsabilidades, com rendimentos infinitamente inferiores, com problemas familiares e sociais de que eles não sofrem. São uns privilegiados que aproveitam a sua função, que não querem avaliada, mas cujo valor está à vista de todos, para se arrogar um estatuto que estão longe de merecer.
Muitos dos professores acederam à profissão com habilitações reduzidas outros exercem profissões paralelas, outros manifestamente não têm condições psicológicas para uma profissão que, levada a sério pode, conforme as circunstâncias, ser bastante desgastante. O Estado tudo tem feito para eles se valorizarem, mas o que surge é a ingratidão.
Anos sabáticos, férias prolongadas, tempos não lectivos, nada chega para a voracidade desta gente. Não faltam os professores a sabotar iniciativas que deveriam tomar. É posta em causa a integralidade dos alunos, os seus apoios, e eles tanto precisavam de apoio na resolução dos seus problemas, na manutenção de algum discernimento na sua mente. O ambiente criado não ajuda os alunos.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Um vencedor e um mundo de vencidos

Defensor Moura venceu um plebiscito, perdeu um referendo. Os outros perderam a votação seja qual for a perspectiva pela qual a mesma seja vista. E o próprio referendo perdeu também. Esta ocasião só provou que os autarcas só promovem os referendos que lhes interessam e que podem personalizar.
Ninguém está interessado em discutir o fundo de uma questão, em a isolar do nevoeiro abrangente. O que conta é a força do apelo que está subjacente à questão nuclear. Não é este núcleo que erradia atracção, é sempre uma outra questão que serve de atractivo para o chamamento ao voto neste ou naquele sentido. Defensor pôs em causa o seu lugar para apimentar o voto.
Só esta questão levou alguns a ir votar. Tal se revelou em todas as entrevistas que se viram na televisão em que as pessoas, por norma, diziam saber bem porque iam votar, mas quando interrogadas sobre o que sabiam da Comunidade Intermunicipal de Minho Lima abriam os olhos como se lhes estivessem a falar de fantasmas.
No fundo foram votar as pessoas que dão mais importância ao apelo pessoal, isto é, se submetem à chantagem emocional. Claro que aqui podemos fazer um interregno e perguntar se há alguma ilicitude nisto. Não há porque são as pessoas que se deixam prender, são as pessoas que sentem mesmo a necessidade de se ligarem a alguém e os políticos, por mais mal que deles se diga, estão aí à mão, são parceiros com quem se tem certa intimidade.
Sendo todos, excepto um, os derrotados, há sempre uns mais derrotados que outros. António Martins está em primeiro lugar porque sendo ele a propor o referendo não deu mais qualquer passo significativo de empenho na sua vitória. Derrotado foi o CDS que com o caminho deixado aberto pelo PSD quis açambarcar a liderança para que não tinha arcaboiço.
Derrotados foram os socialistas vianenses. Parte deles arrastados para o reforço de um poder pessoal e para uma estratégia suicida e anti-socialista. Outra parte revelou a sua impotência e falta de visão política para criarem uma verdadeira alternativa a Defensor Moura, assente na defesa de princípios ideológicos e organizativos democráticos. É nisto que dão os Messias.
Perdeu a clareza do debate político, sempre enredada nestas questões que afinal, pela importância que lhes foi dada, todos acharam menores, pouco dignas de referendo. Em democracia convoca-se o povo para votar como um método de decisão primordial. Depois cabe aos eleitos tomar as decisões que se impunham. O que não pode é um decisor menor pôr em causa e numa parcela diminuta do território nacional a forma como participa na tomada de decisões.
Esta clara vitória de Defensor Moura não pode deixar de ser a prazo uma clamorosa derrota porque a democracia, com regras tão difíceis de criar, que exige o empenho de todas as pessoas, não pode estar ao dispor deste tipo de gente que a seu belo prazer quer aferir da simpatia que o eleitorado possa nutrir por ele, sem que daí mais alguém tire qualquer ganho visível.
A organização política e administrativa do País não é perfeita, bem longe disso. Mas há quem queira baralhar permanentemente os dados para dar razão àqueles saudosistas de Salazar e aos outros que defendem que, a não haver um ditador, cada qual faça as coisas como bem entende. Em Portugal há esta espécie de gente, tipo ditadores anarquistas, que são feios e falsos moralistas.
A regionalização vai ganhando novos adeptos, mas na prática há cada vez mais gente a sabotar esse processo. Em Portugal em toda a parte falta organização, na escola, nos centros de saúde, nas empresas, na estrutura administrativa. Qualquer tentativa de avanço tem logo sabotadores a todos os níveis e entre os mais responsáveis. Este referendo é uma clara sabotagem.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Ainda haverá esquerda e direita?

A esquerda e a direita digladiam-se de modo permanente. Com mais ou menos vigor, com períodos de acalmia, até já vimos ocasiões festivas. No entanto era bom que soubéssemos que está sempre em causa muito do nosso futuro, mesmo quando a direita social faz recuos tácticos, pois mantém os seus líderes a trabalhar para reaverem o poder. A direita social tem séculos de experiência para ludibriar e confundir a esquerda.
Às vezes aos nossos olhos a confusão torna-se mesmo profunda. As circunstâncias obrigam os líderes da direita a fazerem políticas que desagradam aos seus mais acérrimos apoiantes da direita social. Também tem sido muitas as vezes em que a esquerda não tem campo de manobra para fazer a sua politica construtiva, limita-se a uns remendos no edifício que é obra da direita. Mas não podemos nunca perder de vista a luta política de demarcação, mesmo que hoje seja ainda mais difícil devido à nossa integração na Comunidade Europeia.
Mas regridamos um pouco no tempo, mesmo só no nosso tempo, vivido é certo num ambiente de certo modo atípico, de um capitalismo rural. Houve tempo em que a direita se confundia com dinheiro. Quem tinha dinheiro era de direita, quem o não tinha era de esquerda. As excepções não eram muito significativas e tinham a sua justificação por factores culturais, percursos muito específicos de vida, heranças recebidas ou projecções a que alguns eram mais susceptíveis.
Nesse tempo a direita não falava de dinheiro porque não ia pôr em causa aquilo que possuía por demais. Se em Portugal a direita se caracterizava mais pela propriedade do que pelo dinheiro, tal devia-se ao nosso atraso. A direita falava de segurança, ordem, respeito. Fazia com que a esquerda passasse por uma horda de maltrapilhos, gente sem dinheiro, sem valores, causadora de insegurança, desordem e desrespeito.
Nesse tempo a esquerda falava de dinheiro, daquilo que faltava aos trabalhadores e mais aos pobres para poderem ao menos subsistir, para terem uma vida digna, para criarem os filhos com honra e falava de dinheiro. Para a esquerda o dinheiro era aquilo que sobejava aos ricos e que não era colocado na promoção de desenvolvimento. O dinheiro era aquilo que o próprio Estado gastava mais na sua própria defesa, na promoção da guerra do que no bem-estar.
A ambição da esquerda política era colocar o dinheiro ao serviço da população em geral e por isso aquela primeira reacção primária e instintiva de promover o colectivismo de tão fraca memória. Em certa altura os totalitarismos tomaram de tal modo conta dos movimentos sociais que ainda hoje mantém vasta influência por via do fascismo e do comunismo. Mas a esquerda já percebeu que não é necessária a apropriação colectiva do dinheiro para que ele seja útil a todos.
A partir da altura em que se esclareceram certos equívocos de que foi prisioneira na primeira metade do século passado, a esquerda nunca desistiu de promover a democracia e a utilidade social do dinheiro. O fascismo só persistiu em poucos espaços, o comunismo começou o seu processo implosivo. Mesmo assim os movimentos sociais não totalitários tiveram dificuldade em se adaptarem às novas condições e em intervirem eficazmente a nível da divisão do trabalho.
A esquerda foi-se libertando lentamente dos totalitarismos. Também a direita, em especial no pós guerra e para se não confundir com o totalitarismo de direita, tomou atitudes até aí tidas como próprias da esquerda. No entanto nem toda a evolução se deve à acção política. A melhoria operada na organização social também se deve aos fantásticos desenvolvimentos a nível da ciência, da tecnologia, de todos os ramos de conhecimento que permitiram que o homem se fosse libertando do trabalho mais escravo.
Nem toda a gente atribui à esquerda todos os progressos conseguidos. A esquerda perdeu mesmo muito terreno na acção política. A custo tem conseguido recuperar e alargar a sua influência na sociedade, mas à custa de acções dispersas e sem coordenação. No entanto a esquerda totalitária espreita e procura arregimentar toda a esquerda invocando uma superioridade moral que está longe de ser verdadeira. A esquerda precisa com certa urgência de balizar os seus limites e afastar de vez o fantasma do totalitarismo marxista.
Para escândalo dos fundamentalistas e de uma certa ala nostálgica, que sempre alimentou um discurso idealista, mas foi inoperante na acção, a esquerda já não clama contra a existência de detentores do dinheiro, mas tão só pelo mau uso que dele fazem. A esquerda preocupa-se mais com o aperfeiçoamento da organização social, está integrada no mundo de hoje sem ser conivente com as suas aberrações. A esquerda está comprometida em defender os elementos determinantes, aperfeiçoando o seu alcance social.
A esquerda de hoje já reivindica mesmo a gestão do dinheiro em parceria com os seus detentores maiores. O dinheiro deixou decididamente de ser a linha divisória entre a esquerda e a direita. Ainda assim a direita gosta de abrir por aí uma trincheira, agora que já deixou os escrúpulos de ao dinheiro se referir. A direita acusa a esquerda de esbanjadora e tem-se por melhor gestora. A esquerda tem que provar que não é bem assim e tem objectivos mais solidários. A direita persiste em promover a ganância devoradora do dinheiro.
Hoje o maior inimigo da esquerda é a esquerda radical. Com a direita pode a esquerda muito bem, ocupe ela os cargos que ocupar na Presidência, nas Forças Armadas, na Banca, no aparelho de Estado. A direita não é mais honesta, mais séria, mais precavida, mais segura, bem pelo contrário. O Estado não pode ser obsessivo como a esquerda radical ambicionaria, nem pode ter a leveza que a direita lhe quer dar. A esquerda de hoje é a que tem uma melhor ideia de Estado.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A exposição pública dos autarcas não é suficiente

O programa de televisão Prós e Contras só reforçou a nossa ideia de que Defensor Moura não tem qualquer razão na sua teimosa e obsessiva luta contra um inimigo que não existe. Esperemos ao menos dele uma atitude louvável de cumprir o prometido de se afastar se o “Sim” ganhar. Só que me não espantará se ele tentar renascer. Infelizmente a nossa vida autárquica está cheia de dinossauros que não querem ser afastados, parece haver um vírus que os ataca e os mantêm presos a esta vida boa.
Narciso Miranda, Valentim Loureiro e muitos mais são daquelas pessoas que se não tiverem uma capa de autarca que os vista se sentem nus, demasiados expostos, com um tratamento diferente da parte da comunicação social, sem qualquer motivo de interesse para aparecerem nas revistas e serem entrevistados. Podiam ao menos dedicar-se a escrever memórias e sobre a maneira como conseguiram subir na vida, que sempre podiam ensinar algo a alguém.
A escola autárquica é tremendamente deficitária em termos da propagação dos bons exemplos de gestão. Cada qual segura-se no seu povo, procura uma qualquer identificação com ele que lhe garanta a permanência máxima no lugar. Não existe um modelo que seja capaz de ser implementado por várias pessoas com diferentes perspectivas e que persista para além delas. Em muitos municípios a burocracia continua a ter uma peso desmedido, a corrupção existe às escancaras, as facilidades vendem-se como se de dificuldades se tratasse, mas não era este o modelo que interessava divulgar.
Sendo o poder autárquico aquele que mais próximo está das pessoas deveria ser o exemplo mais acabado da eficácia, da transparência, da participação popular. Embora muitos de nós ainda façamos um balanço favorável ao poder local em face do poder nacional, ou melhor dos vários poderes nacionais, o certo é que a imprensa fala muitos mais da prepotência dos autarcas, do seu carácter mesquinho e interesseiro do que de quem ocupa outros patamares do poder.
Mas quando alguém chama a atenção para o que se passa em casa do vizinho em vez de se defender a si próprio, de se justificar perante os seus eleitores, alguma coisa de errado se passa na sua casa. O que se esperaria dos autarcas é uma atitude de chamar a atenção para a clareza que preside à sua tomada de decisões e não atacar-nos com revistas auto elogiosas, cheias de fotografias e texto laudatórios.
A imprensa faz o seu papel de chamar a atenção para os aspectos melhores ou mais condenáveis da personalidade, do modo de agir, das opções típicas de cada um. O que a imprensa não pode, o que lhe está vedado por múltiplos motivos, é a imiscuir-se em aspectos da vida privada, é abordar aspectos da personalidade que muito teriam a dizer sobre as razões que determinam os autarcas a tomarem as decisões que tomam.
A democracia americana tem a grande vantagem de que cada candidato a um qualquer cargo público tem que passar por uma triagem perfeitamente arrasadora. Tem outras desvantagens, como o papel do financiamento na ascensão e queda desses candidatos, mas por cá também este aspecto vai atingindo dimensões que afastam muita gente honesta de se envolver neste mundo um pouco baço e obscuro.
Os nossos autarcas ainda agem como proprietários dos seus apoios, senhores das estruturas que são chamados a simplesmente orientar no sentido da sua política sufragada, decisores solitários e inimputáveis. No entanto os autarcas tem obrigação de se desligarem daqueles apoios, de não violentarem as estruturas herdadas, de fazerem participar todos nas suas decisões importantes. E se não conseguirem melhor façam um testamento

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Água das pedras

Se me perguntarem de que gosto mais, se de pedras ou de água, a minha resposta óbvia é que a natureza no geral toda me agrada, mas a água satisfaz-me uma necessidade primária que pode surgir a qualquer momento e é essencial para a vida. O contra é que a água se esvai rápido e a pedra dura muito.
Este é o meu lado utilitário a reagir a quente. No entanto ainda neste aspecto a pedra também tem a sua utilidade. Além daquela mais óbvia da construção, a pedra pode ser objecto de inscrições múltiplas com mais ou menos significado ou sem significado algum como as que estão nas pedras do Monte de Góis e lá terão sido feitas há uns bons 5.000 anos, dizem.
A preservação desta pedra levou o Corema a desencadear uma guerra a propósito do traçado da estrada destinada a passar o Rio Coura e o Monte de Góis entre Vilar de Mouros e Lanhelas que acabaria pela redução da estrada de duas faixas em cada sentido para uma só e a uma imensa perca de tempo. Mas os malefícios podem não ter ficado por aqui, o Diabo seja surdo.
A estrada lá se acabou com algumas pedras deslocadas como é evidente, mas nada que nos fizesse perder a mensagem que um povo antigo eventualmente nos tenha querido transmitir. Sou daqueles que considera que ninguém se dá ao trabalho de sarrabiscar uma pedras se não tiver um trauma qualquer, o que será sempre uma informação importante. Afinal já havia stress nessa altura.
Mas algumas pedras terão ficado ainda no seu sítio que agora o Corema diz que os exploradores de água as podem estragar. Acho que para extrair água não será preciso mover muitas pedras pelo que o interesse do Corema parece ser outro: Que não estraguem as captações que afinal outros já lá têm e fizerem por aqueles montes quando ainda não havia Corema para os contestar.
Os vários interesses em jogo devem ser defendidos de forma clara e transparente por quem deles beneficia. Isto é, devem ser defendidos com legitimidade para que possam ser legítimos. Confundir as coisas não enobrece a meritória defesa do ecosistema, que todos devemos apoiar.
Uma actividade perniciosa no mundo de hoje é a de todos os fundamentalismos que só vêm aquilo que lhes interessa e que subestimam ou mesmo amesquinham tudo o resto. Como se os outros fossem todos movidos por sentimentos negativos, subterrâneos e só eles tivessem acesso a uma pureza que não está ao alcance de mais ninguém.
Na questão da estrada foram postos em causa os problemas de segurança, com um súbito atrofiamento da mesma. Agora quer-se pôr em causa a exploração da água, mas essencialmente a sua exploração comercial. Haverá decerto muitas entidades a ter que se pronunciar até que tal exploração seja licenciada.
Esta pressa em aparecer na primeira linha, duma luta que nem se sabe se é de louvar, destina-se mais a meter medo do que a esclarecer as pessoas. Também me parece que aquela zona não terá as reservas de água necessárias para justificar a sua exploração comercial, sem pôr em causa outros legítimos interesses, mas era isto que o Corema deveria provar.
A vertente integralista do fundamentalismo é a que causa efeitos mais nefastos no interesse pelo progresso e pelo desenvolvimento dos povos. Até contra a alteração da paisagem se manifesta quando esta é uma resultante da actividade humana que todos os dias transfigura espaços. Não prescindem do carro, do aquecimento, de todas as mordomias mas gritam contra o malvado dióxido.
Minimizar impactos, conseguir medidas reparadoras e compensatórias é muito louvável. Oporem-se a tudo por dá cá aquele palha é condenável. A credibilidade ganha-se com coerência, clareza. A visibilidade faz falta, mas não se pode ganhar a qualquer preço.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Um 2009 … … cheio de crises e de eleições

Entramos num ano eminentemente politico, em que praticamente todos os aspectos da vida política vão estar sujeitos ao sufrágio universal. Este ano de 2009 também vai ser o ano de todas as crises, desde a redefinição de fronteiras, à crise financeira, à crise imanente ao reequilíbrio económico mundial e ao reequilíbrio na distribuição internacional do trabalho, à crise provocada por uma nova partilha do poder a nível mundial. Toda a nossa atenção é pouca.
A Europa tem à sua volta e ainda no seu seio velhas questões a resolver, sempre na confluência dos seus sistemas próprios de vida com o mundo muçulmano, seja na Rússia, na Sérvia seja em Israel (Europa alargada). Mas se a restante Europa se conseguisse entender e consolidasse o seu poder poderia contribuir, se sabiamente usasse esse poder, para a pacificação do mundo e resolução de conflitos noutros lugares. Dificilmente o conseguirá.
As primeiras eleições que se vão realizar são mesmo para o Parlamento Europeu, pelo que vamos ter uma palavra a dizer sobre os assuntos europeus e era bom que a não desperdicemos. A Europa está a ser dirigida por uma direita retrógrada que pensa resolver os actuais problemas com os velhos paliativos e não tem ideias novas. Por sua vez a extrema-esquerda só se propõe destruir uma das mais promissoras construções humanas, a Unidade Europeia.
Hoje a maioria dos nossos direitos defendem-se em Bruxelas. De lá vêm as decisões que mais condicionam a nossa vida. Por isso nos sentimos cada vez mais pequenos para interferirmos nas grandes questões que definem o nosso futuro. Por isso temos de contribuir para a formação de grandes movimentos políticos capazes de governar a Europa com perspectivas reformuladas e ideias novas. Sentimo-nos pouco Europeus por sermos pequenos, mas a Europa precisa de nós.
A Europa tem agora ocasião para retirar lições importantes desta crise financeira, económica e ética, quase civilizacional. Efectivamente muitos dos padrões que constituem esta civilização vão sendo postos em causa. A permissividade a todos os níveis sempre foi sinal de decadência das civilizações e será desta também. Mas hoje temos meios intelectuais para não atribuir o seu fim a um castigo divino, só que temos de ser capazes de arrepiar caminho. Temos de seguir caminhos diferentes do comunismo ou do capitalismo liberal usurário.
Instalou-se, mesmo nos extractos mais débeis da sociedade, a ideia peregrina de que tudo é legítimo e permitido desde que todos nós possamos sonhar em usufruir de tais liberalidades. O sonho tornou-se a medida de todas as coisas. O roubo tornou-se quase tão legítimo como o trabalho, fosse o roubo praticado porque está dentro do sistema, seja por quem está de fora e tenta aproveitar alguma debilidade. Os esquerdistas comungam dos sonhos do capital.
Uma civilização assente nestes princípios não pode funcionar. As forças políticas que se pretendem fazer portadoras de ideias de recuperação de valores antigos não apresentam hoje qualquer préstimo por duas razões: Uma porque não têm audiência senão em gerações recuadas; Depois porque foram tais valores que tão tardiamente querem repor que levaram a este estado de coisas.
De falsos moralistas está o mundo cheio e uma força política para actuar decisivamente tem que deixar de se preocupar com os apetites pessoais como pretensos diferenciadores das pessoas, mas agir no sentido de inibir a sua capacidade de apropriação indevida. As pessoas podem achar as ideias serôdias, os valores obsoletos, mas, se virem a sociedade empenhada em obrigar as pessoas a serem honestas, inibem-se. Antes de se incutirem valores nas pessoas é muito mais prático e seguro incutir o medo. Este é cada vez mais necessário.
A actual crise dá-nos a ocasião para repensarmos o papel do Estado. Não podemos andar toda a vida a reclamar mais Estado para nos dar saúde, educação, segurança, fiscalização, justiça e para muitos praticamente tudo do que precisam para viver e para pôr os outros em sentido e por outro lado andarmos a clamar com a sua presença, contra os seus impostos, contra os seus tentáculos, contra a sua excessiva dimensão. Temos de saber o que queremos.
O mundo pôs de lado o modelo soviético de gestão de toda a economia por via do Estado, mas, vinte anos passados após o início do descalabro da URSS, vemos o sistema capitalista a dar de si a pior imagem e ainda não sabemos de meia missa. A pretensão dos liberais de afastar o Estado da economia, a propósito de que ele encarece tudo, é a pretensão do ladrão que não quer forças de segurança porque … elas são caras.
Se é verdade que nos Estados Unidos parece não haver uma relação íntima entre as forças políticas e os grandes crápulas das finanças, já na Europa tudo está mais relacionado, a promiscuidade é mais evidente. Mercê das tradições políticas europeias há entre os liberais na economia e a direita política uma relação em que a primeira, quando se vê afastada, pretende atrair a segunda.
Os empresários liberais não gostam de estar distantes do poder mas acham que pagam demasiado para os políticos. Em determinadas épocas acham mesmo que é melhor pagar só a alguns desde que estes os livrassem dos outros. Depois do condicionamento industrial de Salazar e de todos os condicionamentos do pós 25 de Abril, parece que Portugal se encontra nesta fase. Os empresários apostam em quem melhor lhes facilitar a vida, a não ser que a oposição seja inepta.
Um Estado novo tem que assegurar a competição, a concorrência, a cooperação, a partilha, o justo equilíbrio entre estes factores sociais, a defesa dos que sofrem de ingratidão perante aqueles que só conheceram a sorte, que beneficiaram de condições familiares e sociais privilegiadas. O Estado não pode favorecer e proteger uns perante a desprotecção dos outros.
É legítimo que empregadores e empregados defendam o seu papel social que não é substituível. Sem um Estado forte e prestigiado a balança tende a balancear em excesso e cair para um dos lados. Se é verdade que o Estado toma por vezes acções espectaculares para se fazer ouvir e se possível cumprir, as suas fraquezas são muitas e são os espertos de ambos os lados que as aproveitam. A esquerda está desnorteada e a direita sem forças para aproveitar tanta facilidade.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Quando os maus exemplos vêm dos partidos …

Obrigados a prestar contas, os partidos, não habituados, foram apanhados em falta nas últimas eleições autárquicas. Do parecer do Tribunal Constitucional não escapa ninguém no País. Valha-nos que em Ponte de Lima nem todos se portaram mal. Sabemos que as contas bem feitas não são uma garantia absoluta do respeito pela Lei, mas se nem isso formos capazes de fazer, pior será.
Isentado o PS de qualquer falha, contra a opinião de Gaspar Martins que tanto falou do excesso de despesas, temos a CDU como melhor cumpridor, a quem só foram apresentadas duas falhas: Falta de assinatura das contas pelo mandatário local e falta de descrição de acções/meios sem atribuição de custos, o que não permite a sua comparação com a lista de despesas.
O PSD excedeu-se bastante mais com facturas com data posterior ao período de campanha, sem suporte documental para muitas despesas, com facturas em nome de terceiros ou sem número de contribuinte. Regista ainda despesas totais registadas superiores às assinaladas nas listas de meios de campanha e não apresenta listas de receitas de angariação de fundos.
Mas quem mais terá prevaricado foi o CDS. O mais saliente são os 31.359 € de facturas emitidas posteriormente ao acto eleitoral e que o CDS não comprovou como despesas efectuadas durante a campanha propriamente. Perante uma receita excelente será por vezes difícil gastar tanto dinheiro.
Na sequência desta falha o CDS não apresentou os extractos bancários referentes aos últimos movimentos de entrada e saída de fundos o que facilmente se percebe. Nem apresentou lista de acções de campanha que coincidam com as despesas vertidas nos respectivos mapas.
A desculpa habitual para este estado de coisas é a dificuldade da Lei, o excesso de burocracia, a impreparação das pessoas para responder a uma exigência a que não estavam habituadas. Só que para um bom contabilista, que tivesse instruído bem as pessoas autorizadas a fazer despesas em nome da campanha, isto seria pouco pior que comer uma canja.
Como sou daqueles que não gosto de repisar muito o passado, privilegio mais o futuro, espero que todos sejam pessoas recuperáveis, seja para terem lugar no Reino dos Céus, mas de preferência para terem a aceitação dos seus contemporâneos, que isso nunca está garantido.
Muitas vezes as pessoas iludem-se com a fama que alcançaram, imaginam que a populaça até lhes permitirá que façam alguns atropelos e até às vezes têm razão. Mas também não podem estar disso tão certos. Embora a Terra ande sempre para o mesmo lado, na imensidão do universo nós nunca chegaremos a saber se estamos de cabeça para cima ou para baixo.
A política também é a defesa de interesses. Ninguém minimamente honesto pode querer que assim não seja, até porque os exemplos de quem se manifesta tão puro numas questões que lhe não roçam a pele e já noutras se apresta sempre para colher benesses são por demais evidentes e quase genéricos. As excepções confirmam sempre as regras e resta-nos melhorar estas.
Esta apresentação de contas ao Tribunal Constitucional é uma daquelas regras que veio aperfeiçoar os mecanismos de controle do financiamento partidário e que permite que se saiba a maneira como o dinheiro influencia a actividade política. E a tendência nestas coisas é para que quem exerce o poder saia muito mais beneficiado em relação a todos os outros concorrentes.
Uma pessoa do PSD disse-me que estas contas só provam que os CDS não tem melhor gente do que eles e eles sempre ganharam as eleições legislativas e sempre perderam as autárquicas. Grave problema para ser discutido nas tertúlias da Havaneza, que mais uma vez o António Martins é a balança decisiva para a escolha do sucessor dum Trigueiro que persiste em querer renascer.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

As separações de conveniência

Uma das críticas mais comuns que se fazem ao estado actual da sociedade é a falta de valores que transparece em muitos dos actos que se vão tornando triviais, sem contestação evidente por parte de qualquer sector social. A culpa deste estado de coisas é atribuída com demasiada superficialidade a factores ditos corrosivos que vão destruindo a base moral duma civilização em reformulação.
O dinheiro é o primeiro desses factores mas facilmente constataremos que o amor ao dinheiro é tão só o resultado de outras alterações ocorridas na forma de ver a vida e na elaboração dos sentimentos que nela nos integram e lhe dão continuidade. Os sentimentos formam-se pelo acumular de experiências, pela intelectualização de vivências que nem sequer são colocadas ao dispor dos jovens.
Os jovens integram-se na vida activa sem resistências à “degradação” do ambiente moral reinante. Uma das suas manifestações, um dos reflexos mais salientados é o casa/descasa a que se assiste, em que a vontade manifestada e registada de constituir família estável depressa dá origem a uma desvinculação com graves consequências se ocorre quando já existem filhos.
Entendeu a sociedade que a falta de sentimentos que aproximem um casal é razão suficiente para promover a separação do mesmo, isto é, a manutenção de uma situação falsa do casal pode ser um mal maior do que aquela privação imposta aos filhos de se criarem no lar a que tinham direito natural. Claro que os sentimentos que não conseguem sustentar uma relação, presume-se que prometedora à partida, são frágeis e a sociedade não tem forma de os certificar.
O casamento pode fortalecer ou não os sentimentos de partida e a sociedade preparou-se para isso. O que a sociedade não terá previsto é que o divórcio seria aproveitado por aqueles que se presumem que ainda mantenham os mesmos sentimentos que os levaram ao casamento para darem o golpe de baú, agora já não ao parceiro, mas ao Estado, àqueles com quem mantinham relações comerciais, aos parceiros de negócio.
Estas falsas separações têm-se expandido e abrangem todo o leque social, com predominância nos poderosos, nos que mais meios possuem. São estes que mais facilidades têm de organizar estas coisas e de que a sociedade tem menos defesas. Além das posições que ocupam, têm crédito na praça e no geral têm um discurso que se caracteriza pela defesa da moralidade mais tradicional. E a condescendência das “autoridades” suas “fieis” depositárias.
Em suma enganam as pessoas usando todas as armas de que os poderosos deste mundo se munem habitualmente. Caberia pois ao Estado defender-nos destes crápulas em vez de lhes dar as armas para nos roubar. E quem melhor do que eles para utilizarem a justiça, a comunicação, o dinheiro para nos intimidar e calar, à medida que nos vão metendo a mão ao bolso? A falta de vergonha e escrúpulo dizem não fazer falta a quem negoceia.
“Um banqueiro preso colocou toda a sua fortuna na posse da mulher por efeito da declaração de partilha de bens adquiridos até à separação de ambos “ dos jornais. Legalmente tais bens que foram parar ao regaço da tal mulher sem que ela sequer se tenha envolvido nos negócios que ocupavam o marido e lhe permitiram encher o seu dote de descasamento não podem ser arrolados para o efeito do pagamento dos danos que tal senhor terá causado a quem tão levianamente nele confiou os seus bens.
É da nossa cultura que quando o roubado é o Estado não há problemas, está tudo bem, embora se saiba que os roubados são todos nós. Mas neste caso os grandes lesados são os particulares pelo que se impõe uma alteração drástica nos textos legais que tal permitem. Se qualquer pessoa pode ser condenada por receptação de coisas roubadas e por cumplicidade na prática de roubo este caso não parece diferente.
Não deveria ser a separação a permitir colocar em esquecimento a proveniência dos bens e ainda mais em casos como este em que não existe separação efectiva e as pessoas continuam a partilhar todos os bens que possuem. Além da necessidade de que o Estado nos proteja, não é de mais chamar a atenção para o seu discurso nada consentâneo com a prática destas pessoas.
O problema é que as pessoas sabem que nós já nem conseguimos distinguir quem fala por convicção e quem fala por conveniência. Podemos concluir que aqueles que falam por convicção fazem-no em qualquer ocasião e local, aqueles que falam por conveniência escolham o ambiente e as circunstâncias em que transmitem a sua falsa mensagem. Ou então apoiam aqueles que se dedicam profissionalmente a esse objectivo. E nós não estamos lá para desmascarar estas encenações de que os poderosos são capazes.
Um mundo permanente de conveniência enforma hoje toda a vida social e a permissividade, desde que praticada com recato em meios de difícil acesso, é o sal que alimenta todas as relações sociais que se estabelecem entre os poderosos deste mundo. Mas já vimos que os poderosos também se abatem, que é possível encostar à parede aqueles que por ganância quiseram açambarcar com o poder que tinham todo o dinheiro que lhes passava na mão.
Este desmascarar de quem defende acerrimamente que tem um papel social a desempenhar e abusou dele nada tem com abater todos os poderosos, capitalistas ou não, deste País. Tem a ver com mostrar à ignara gente que tem que tomar nas suas mãos a defesa de valores que se mantém válidos mas que já ninguém defende, a não ser por conveniência.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Candidaturas novas ou recicladas procuram-se

Todos nós parecemos imensamente velhos. Quando nos metemos na vida política, mesmo que nesta frágil política local, a verdade é que só o fazemos para “pagar” um favor, na melhor das hipóteses uma dívida de gratidão. Claro que ainda há aqueles poucos que ambicionam ser políticos a tempo inteiro, mais aqueles que o fazem por convicção profunda, mas cada vez menos.
Favores não se pagam, muito menos desta maneira. Já dívidas de gratidão tem o seu quê de nobre, só que também não temos que o fazer deste modo, nem andar a pagá-las toda a vida. “Fulano muito lhe fez e ele é um ingrato”, “ele é cão que não conhece dono”, são expressões para designar o carácter volátil de muitas pessoas que não nutrem sentimentos de certa constância.
Na política vale tudo, dirão outros, nem sempre com razão é certo. Efectivamente são tão criticáveis percursos que procuram provar uma coerência infeliz e inglória como os ziguezagueantes em que, por mais boa vontade, se não encontra nexo senão o do imediatismo vantajoso.
Numa vida política tão pouco “vivida” é natural que este comportamentos extremos sobressaiam, mas é um manifesto desperdício o tempo que se perde com eles. O aspecto a realçar, por mais infeliz, da vida política é a pequenez do meio, o facto de a política andar sempre à volta das mesmas pessoas, ou antes pelo contrário, o haver pessoas que se mantém demasiado tempo à volta da política como se ela fosse uma gamela onde se pudesse deitar a mão a qualquer altura e captar sempre alguns sobejos. A esperança não lhes faltará.
Para que isto seja tão deprimente não é sequer necessário mudar de fato, basta que os políticos “encartados”, os que ocupam, ocuparam ou tem ideia de vir a ocupar cargos de poder, se socorram sempre dos mesmos soldados para entrarem nas suas batalhas. Caciquismo, subserviência, de certo. falta de inovação.
A renovação é coisa que se não processa porque os velhos não querem perder os seus lugares, os novos não se sentem preparados para entrar numa disputa de que não almejam muito sentido. Os velhos não são capazes de transmitir o seu testemunho porque não o têm, não tem conhecimentos, fizeram carreira à base da esperteza, os novos não estão para alinhar em jogos falseados cujo resultado é quase sempre óbvio.
Uma democracia assim só existe formalmente, causa tédio e desmotivação e aqueles que se sentem atraídos pela actividade política nem sempre são os melhores. Por isso devemos tentar atrair quem o queira ser, base essencial, mas não queira simplesmente copiar comportamentos, fórmulas de sucessos, tiques e vícios e queira mudar este estado de coisas. Não é necessário acreditar em homens providenciais. È essencial exigir humildade e saber ouvir.
Uma nova geração não pode afastar pura e simplesmente outra, mas era bom que a fosse substituindo gradualmente. Mas mais importante do que somente pessoas é a possibilidade de modificar métodos. Só que não é plausível que se consigam substituir os métodos adoptados dentro dos partidos. Quem o tenta não tem sido bem sucedido ou exigem-lhe cartão partidário dourado.
Ainda não vi ninguém que gostasse de ser afastado. O normal é que as autarquias se percam e não ganhem. Sendo o CDS-PP imenso em Ponte de Lima é lá que se tem que pescar. Os desentendimentos vão aparecendo. Se tinha sido prometido a Daniel Campelo a Presidência da Assembleia Intermunicipal porque não a deu a Abel Baptista e cedeu-a ao PSD. O caminho de Campelo é cada vez mais estreito a manter-se no CDS-PP. Mas adaptar-se-ia ele a outros métodos?
O PSD de Ponte de Lima tem o seu problema a resolver que é a escolha do próximo candidato a um sacrifício inevitável. Também no PS se não vislumbra uma candidatura para este combate desigual. Podia Daniel Campelo ser a solução?

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Um 2009 com algum … … dinheiro para gastos

Já há muito que o dinheiro é quase tudo na vida. A grande maioria de nós já não é do tempo ou viveu em sociedades em que o dinheiro ainda não tinha este valor. Podemos dizer, é certo, que, para algumas pessoas, o dinheiro, quando era escasso para todos, lhe davam mais importância ainda do que hoje, porque até o preservavam mais do que a saúde.
Muitas pessoas, ou não estavam dispostas a pagar para se tratarem ou tentavam ganhar dinheiro sujeitando-se a condições muito prejudiciais para a sua saúde. Neste aspecto hoje até se preza bastante a saúde, mas quando esquecemos esta, quando ela nos não apoquenta, só vemos dinheiro, a sua resplandecência, aquilo que ele nos pode dar.
Pelo que é perfeitamente farisaico dizer que se gosta de viagens, por exemplo, e se não gosta de dinheiro. Estes que dizem não gostar, na realidade, não gostarão de poupar, estão no seu pleno direito, mas sem dinheiro só iam passear a pé e se tivessem tempo, que também é dinheiro. Mas farisaicos são também aqueles que dizem “sacrificar-se” pela sociedade, mas insultam tudo e todos se lhes beliscam regalias indevidas.
O dinheiro é hoje o eixo à volta do qual tudo roda, a mola que faz mover pessoas e põem equipamentos a funcionar, é o meio que torna tudo possível, a satisfação das necessidades dos que são escravos delas e dos caprichos de quem os tem e pode satisfazer. O mal é que o dinheiro tanto satisfaz a ganância como a sobriedade daqueles que se não deixam arrastar por aquela.
Para uns o dinheiro pode ter significados diferentes do que tem para outros, mas, seja qual for o sentimento com que cada um lida com ele, o maior ou menor apego que lhe têm, o maior ou menor desprendimento com que o gasta, o dinheiro tem uma função social, que é igual para todos, façam ou não uso de todas as suas possibilidades, manifestem ou não rejeição em relação a algumas delas.
Fundamentalmente o dinheiro é um meio de troca quase universalmente usado, o meio de entesouramento menos volátil, o meio de poupança com mais liquidez, o meio de investimento por excelência. Em qualquer uma destas funções nós podemos gostar menos dele, mas é na sua qualidade global que temos de o pensar e de resto é irrelevante que nós o rejeitemos quando andam milhões e milhões à sua procura e o utilizam para dar dinamismo à vida.
A velha ideia de que falar de dinheiro não é de pessoas cultas, ou pior de que isso, o dinheiro está longe dos temas que interessam à cultura, é uma ideia patética nos dias de hoje. Já não há hiatos, intervalos significativos entre temas diversos, seja do domínio da ciência, da arte, da economia. Hoje o dinheiro já não é a água cuja bebida faz perder a virtude.
Mas, mesmo que se aceite que pode haver uma aversão irredutível ao dinheiro, ao dinheiro autêntico, originada por algum facto passado, ela não é transferível para o conceito. Uma pessoa pode dizer que nem quer ouvir falar de dinheiro, mas poderá sempre, se se interessa pela vida em sociedade, falar dele como um conceito que “infelizmente” faz parte da vida dos outros.
Falarmos de dinheiro, espiolhar um pouco o que ele traz escondido, não é só ou pode não ter nada a ver com utilizá-lo, aplicá-lo ou poupá-lo melhor. Pode ser tão só no sentido de melhorar as nossas conversas, de sabermos mais do que estamos a falar, de podermos emitir opiniões menos deslocadas, mais oportunas e enquadradas, utilizando conceitos apropriados.
A cultura a desenvolver entre a população em geral já não pode ser imbuída daquele farisaísmo doentio dos profetas da desgraça, falando permanentemente das malfeitorias do dinheiro, do seu carácter corruptor das pessoas e corrosivo em relação a valores que dariam consistência a sentimentos que aproximam as pessoas em vez de as afastarem.
Não é ignorando o dinheiro que tal se consegue, é antes dando-lhe a importância que ele tem e ajudando a desmistificar os argumentos daqueles que o usam em proveito próprio com discursos pretensamente culturais e evoluídos. O facto de sabermos mais sobre o dinheiro só nos habilita a defendermo-nos melhor daqueles que nos arremessem com conceitos fraudulentos.
O dinheiro suja as mãos, perturba as consciências, entra na nossa vida através dos actos mais naturais, como o sexo. Influência a nossa vida desde logo pelo ambiente familiar, pelo ensino. Condiciona a perspectiva pela qual somos vistos, inclusive pela justiça. Determina o nosso estatuto social, a maneira como nos podemos apresentar.
Ninguém nos perdoa por sermos pobres. Perdoam-nos o sermos estúpidos e ignorantes, mas isto não é favor que se aceite. Fale-se de dinheiro com frontalidade e sem sofisma. Diga-se quando se tomam atitudes por causa do dinheiro e não se escondam as verdadeiras razões. Não se perca a dignidade por mais uns tostões, mas perca-se a vergonha de os reclamar, achando justo.
É um erro ignorar o dinheiro. Que o ano de 2009 nos traga cultura, única forma de lidarmos com a economia e o dinheiro de forma a sermos construtores de um futuro honrado e digno. E já agora algum dinheiro para gastos, agradece-se.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

O Natal, o reencontro com o menino que há em nós

Meio século atrás quase tudo na sociedade, profissões, comportamentos, amigos, festas, nos era “imposto”. Porém no seu dia a dia a sociedade assumia uma naturalidade bastante consistente que nos levava a uma atitude de aceitação, de vivência das situações com uma certa autenticidade. Hoje andamos ao sabor das circunstâncias, nem sempre aproveitando a liberdade que temos. Ao menos não percamos aquilo que um dia vivemos.
A festa do Natal, inserida num contexto religioso que genericamente não era posto em causa, enquadrava-se dentro daquilo que na nossa vida há de mais genuíno e reunificador. Efectivamente em nenhuma outra ocasião do ano nos sentimos tão próximos das origens, tão impelidos para um regresso. E quase todas as pessoas se sentem mais próximas do seu íntimo, mais despidos de preconceitos, de papéis sociais, de vaidades.
A liberdade não é motivo para rejeitarmos esta herança do passado. Esta é das boas, porque tudo que nos leve a pensar na nossa situação e a reforçar os nossos sentimentos de solidariedade, é benéfico para nós e para a sociedade. É verdade que, por reforçar os laços de família, para quem a não tem e não fez a devida conversão, pode levar a estados indesejados de solidão. Mas também esses podem aceder a uma transcendência que nos deve acompanhar.
Uma Festa, por tão abrangente e virada para o recolhimento, até podia ser entendida como não possível sem imposição. Não ocorreria só com a nossa vontade individual mas mercê de uma ambiente colectivo criado. Sentíamos como que uma obrigação de ir à terra, de nos aproximarmos da família mais chegada, de visitarmos os amigos e conhecidos. A liberdade porém não nos fez esquecer esses sentimentos e muitas vezes até ajudou a reforçá-los.
Todos os movimentos colectivos, mesmo os mais autênticos, transportam porém em si alguma ambiguidade, podem suscitar sentimentos contraditórios. E em certas franjas sociais podem criar sentimentos de alguma rejeição, por exemplo quando uma outra franja qualquer se tenta apropriar da Festa para si. Felizmente o Natal é de todos e contrariamente a outras festas há um esforço para que continue.
O Natal é a época de preferência de reencontro. E digamos a mais apropriada para isso. Os reencontros de Verão são doutra natureza e leva mesmo a interrogar-me-nos sobre a forma como a época é vivida no hemisfério sul. Mas também se o frio, a neve, os dias pequenos e longas noites ajudam, somos nós que criamos a oportunidade para o intimismo da Festa.
O espírito natalício está tão arreigado que a maioria das pessoas sofrem quando se vêm impedidas de dar satisfação a este apelo de se juntar à família, de revisitar pessoas e locais de infância, de reviver referências e momentos que foram marcantes, embora e talvez por isso, muitas vezes já só a imaginação nos leve aos tempos recuados em que tudo tinha uma significado mais sincero.
O problema é que este espírito se pode perder, por não ser transmitido aos jovens de hoje. O consumismo tem aqui uma culpa determinante., a voracidade do comércio encaminha as mentes para se mostrarem enroupadas pelas prendas em vez de embelezadas por sentimentos e actos de generosidade e boa convivência. É a materialidade a inquinar a espiritualidade.
Quando tão mal se diz dos jovens convém pensar no triste espectáculo dos adultos que afinal são as únicas referências que eles têm. O desgoverno dos jovens é tão natural nas condições actuais como o anarquismo mental que tomou conta do pensamento mais em voga. É tão grave os adultos tentarem impor uma doutrina determinada, como só ter a vacuidade para dar.
Se podemos nos não identificar com o Menino Que Nasceu Para Nos Salvar, podemos e devemos identificar-nos com o Menino que nasceu para encontrar um mundo desorientado, dominado por forças incomensuráveis e cujas hipóteses de ser devorado por ele são imensas.
O meu Menino é incógnito, inlocalizável, sem idade e destino determinado. Encontra-se algures no meio duma calamidade, duma peste, duma guerra, subnutrido, ao frio ou ao calor, incapaz de avançar, de recuar ou simplesmente de alertar o mundo para a sua condição indigna e abjecta. O meu Menino não é vaidoso nem egoísta, não se veste de seda, provavelmente anda despido.
Decerto que esse Menino se identifica com todos os meninos que um dia sonharam salvar o mundo, que tudo fizeram para contribuir para isso, que, em reconhecimento de terem chegado a grandes, aplicaram muitos dos seus esforços na procura do entendimento e no reforço da paz. E decerto com esse Menino cujo nascimento no Natal se celebra.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Um bom vizinho é meio caminho

É uma ideia generalizada que a grande construção em altura, típica das grandes cidades, deu cabo das relações de vizinhança. Mas esta constatação é tão só o resultado de nós procurarmos fora de nós mesmos a justificação para todos os factos, inclusive para a existência ou para a eliminação dos sentimentos que vulgarmente nos animam.
Se houvesse vontade para tal, o facto de um prédio ter trinta andares decerto que não seria impeditivo de que se estabelecessem relações de vizinhança, pelo menos entre as pessoas dos andares mais próximos. Se recuarmos cinquenta anos veremos que nos prédios que já nessa altura existiam se estabeleciam relações diferentes das de hoje. A porteira conhecia todos e todos se conheciam entre si.
O crescimento dos prédios tem razões económicas e os mais calculistas dizem que os nossos sentimentos também as têm. Mas mesmo aceitando isso, tal não quer dizer que esses processos tenham uma conexão entre si. As mudanças nas relações de vizinhança têm origem na mudança da estrutura do tecido social, na alteração do cimento que dá consistência à sociedade. Nos prédios, seja qual for a altura, o cimento é o mesmo.
As relações de vizinhança ocupavam um lugar primordial nas relações humanas, quase sempre em importância logo a seguir às relações familiares. Até nas sociedades cujo tecido não era muito homogéneo todos procuravam fazer com que essas relações fossem positivas. Hoje estão relegadas para o final da lista, para o domínio do esporádico e perto mesmo do que é de evitar. Gerou-se um processo de criação de indiferença para com o vizinho, de ignorância do próximo.
As relações de vizinhança integram-se naquele grupo que hoje as pessoas entendem de relações de dependência e portanto rejeitam. Ninguém quer ser, nem sequer se quer mostrar dependente doutrem. Não se importam em perder o sentimento de segurança que derivava da união entre os vizinhos, sendo as pessoas cada vez mais favoráveis a um individualismo extremo suportado por um Estado forte e protector.
A vizinhança era o lugar por onde passava a construção de quase todas as outras relações que se estabeleciam entre as pessoas. Entendia-se que esse era um caminho seguro. Hoje essas relações começam, desenvolvem-se e acabam em domínios transversais que se diluem na sociedade, tem os seus pontos de maior concentração em novos centros de interesse que podem ser longínquos, morar na Internet, raramente na proximidade.
A escolha das relações que nos interessa desenvolver começa hoje num estado de ainda muita juventude e parte-se do princípio que elas podem assumir um carácter muito temporário. As relações de vizinhança são daquelas que, quando se estabelecem, há mais dificuldades e é mais doloroso rompê-las. Pelo que as pessoas entendem que o melhor é não investir muito nelas.
Outrora, além do empenho que a maioria das pessoas tinha em criar e manter boas relações, ao menos algumas, qualquer pessoa estranha, oriunda de outro meio, era absorvida ou, pelo menos, rapidamente se dava ao conhecimento e, num processo de assimilação com mais ou menos sucesso, também acabava por fazer parte integrante da comunidade residente.
Hoje estabeleceu-se um direito de reserva que, é bom que se diga, corresponde em muito à dificuldade de pessoas com percursos diversos e oriundas de diferentes meios têm de se darem a conhecer e de se abrirem aos outros. Hoje todos nós temos percursos com etapas que obedeceram a diferentes perspectivas, com expectativas satisfeitas ou desilusões aceites de modo desigual.
Igualmente temos perspectivas em relação ao futuro que passam muito mais por aqueles centros de interesses em que nós nos vamos ancorando. A maneira como encaramos a velhice também contribui para este alheamento em relação à vizinhança. Talvez quando lá chegarmos nos arrependamos mas também já estamos desiludidos sobre a hipótese de termos o apoio que outrora a família e a vizinhança emprestava aos velhos.
Quase todas as pessoas, mas em particular as que se sentem mais independentes, até por uma questão de gestão do tempo, tentam arrumar a questão e fecham-se à curiosidade alheia. Somos demasiados complexos, com interesses diversificados, cultivando relações precisas e praticamente objectivas desde o seu início. As pessoas podem-nos ser agradáveis, mas não como vizinhos.
As relações de vizinhança, pela generalidade e abertura a que normalmente estão associadas, são as primeiras a serem rejeitadas por se não enquadrarem naquelas mais selectivas que hoje privilegiamos. Esta selectividade entende-se também cada vez mais como dispensa de se estabelecerem relações cruzadas entre as pessoas, devido à inexistência de grupos homogéneos.
As relações de vizinhança de hoje parecem ser mais autênticas do que quaisquer outras. Elas não têm necessidade de hipocrisia e daí a sua aparente crueldade. Elas reflectem tão só toda a complexidade de que são constituídas as vidas individuais, em que o sentimento de partilha já não pode ser o que era. A desconfiança reinante na sociedade não é propícia a confiarmos em quem, por acaso, está em maior proximidade.
Ainda podemos fazer algo para quebrar esse gelo? A proximidade ainda é a melhor condição para estabelecer contactos com pessoas com as quais de outra forma nos não relacionaríamos. Acima de tudo podemos estabelecer todo o tipo de outras relações sociais, mas são as relações de vizinhança que mais dizem sobre o nosso carácter. Quem tem bom carácter é um bom vizinho. Quem o não tem …

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Não estará a TV interessada no debate Defensor-Solheiro?

Enfim, as coisas começam a clarificar-se, se não com debate entre os protagonistas, pelo menos com o monólogo que Defensor Moura vem mantendo connosco, com todos os alto minhotos, afinal todos interessados nesta questão, que a todos diz respeito. Até achamos importante que estes segredos se saibam pela boca de Moura, que pela dos outros seria já apelidada de lavar de roupa suja.
Defensor Moura fala do seu curriculum com o objectivo declarado de depreciar o do seu antagonista. E este aspecto pessoal é só por si revelador da razão que o move nesta guerra. Parte do seu ódio resulta de ter sido derrotado por quem, segundo ele, é intelectualmente inferior. Velhas questões desta sociedade medieval em que a doutorice tem destas pretensões. Ao falar de subserviência Moura deve saber do que fala, não há sector em que ela se não faça mais sentir do que na medicina.
Sobre esta questão apraz-me dizer que Moura terá sido controlador de tráfego aéreo em Luanda e lá começou o curso de Medicina quando lá foi instalado o início este curso, tendo-o acabado no Continente nos turbulentos anos após o 25 de Abril. No entanto tal percurso não é suficiente para se atribuir qualquer mais valia sobre um ex-bancário que se quisesse tirar um curso superior lhe não faltaria capacidade. Nesta questão entendo que Campelo, com quem Moura se identifica tanto, não desceria tão baixo.
Na política está por arranjar um Órgão que certifique a capacidade e preparação de cada um para desempenhar os cargos a que se candidatam. Naturalmente que nos traria muitas surpresas, dado os lapsos que os nossos políticos vão tendo quando querem ser pau para toda a obra. E não restará a dúvida que Moura teria mais altos objectivos e culpa Solheiro de ser a barreira que o terá tramado e por isso esta vingança servida a frio.
Tal Órgão deveria avaliar as capacidades técnicas, nas quais a maioria destes políticos de trazer por casa ficaria a perder, porque o normal é irem para a prática aprender sem qualquer conhecimento de base. Moura sabia de químicos, Campelo de pastagens, Solheiro de livranças. Não sei porque carga de água as seringas e bisturis deram uma preparação política especial a Moura. Mas o principal era que o tal Órgão deveria passar a pente fino o carácter dos candidatos.
Há quem diga que os políticos devem ser aguerridos, persistentes, teimosos, vingativos, impiedosos. Há quem diga que devem ter a qualidade de saber governar bem a sua casa, sem o qual não saberão governar a sua autarquia. Há quem diga que se um político é bom para gerir uma freguesia será bom para gerir um país inteiro. Há quem diga tudo isto, mas tudo isto é falso.
Para já temos que nos conformar a acreditar na vontade popular. Ainda bem que assim é, porque o tal órgão seria tão só uma ajuda. Um dos problemas com que nos deparamos é que cargos diferentes têm diferentes exigências. Mas normalmente somos guiados por aspectos que tem mais a ver com os valores morais e com a mensagem humana que nos é transmitida. A imagem pode ser falsa, podemos ser enganados, mas ao menos raramente duas vezes.
Este caso extravasa a fronteira de Viana. A posição do Governo sem ser explícita é clara. A posição do PS nacional é o “não ser”. Parece que ninguém quer dar achas para a vitimização de Moura. Mas nós, os que em Viana votam e aqueles que no Alto Minho sofrerão as consequências do desfecho desta questão, exigimos que tudo seja esclarecido quanto antes.
Não restarão dúvidas que a questão tem de começar por ser resolvida no nível mais baixo da política partidária. Por isso um debate Moura-Solheiro não seria despropositado e podia ter interesse nacional. Não haverá um canal de TV interessado, mesmo que da TV Cabo?

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

A aposta não proposta dos professores

A proposta em que os sindicatos dos professores apostam, mas que não apresentaram, o decoro parece ainda ser suficiente para eles não avançarem mais nesta galopada infernal, é claramente a autoavaliação. É um método já gasto, que já revelou todos os seus malefícios. Ele é mesmo de rejeitar independentemente da natureza dos próprios avaliadores. E os professores não são de carne diferente de todos os outros.
É uma maravilha quando cada qual diz o que vale e ninguém vai contra isso. Para quê as pessoas se vão chatear se disso parece não vir mal ao mundo, ao pequeno mundo como é o dos professores nesta questão envolvidos? Poucos terão a ousadia de se acharem prejudicados no processo. Beneficiam-se os velhos, acomodam-se os novos, os alunos ficam por ser irrelevantes no contexto.
Sabendo da desonestidade intelectual que por aí paira esta suposta proposta nem mereceria comentários. No entanto, não fosse o Ministério aceitá-la, os sindicatos resolveram retroceder e não a apresentar. Eles entenderam apostar agora a fundo na discussão da verdadeira fonte da sua insatisfação e ir sugerindo que sem a queda das cotas e das categorias entre os professores não vale a pena propor nenhuma avaliação. É mais sincero mas arriscado também.
0u então reservam a proposta da autoavaliação para mais tarde, se virem que não têm força para avançar decididamente no que agora sugerem. É que se o Governo cedesse em matéria de cotas e categorias o caso já estaria resolvido há muito. Neste jogo do gato e do rato os sindicatos têm receio em abrir o seu verdadeiro jogo e o Governo não cederá no essencial, vai cedendo no acessório que não comprometa a avaliação, essencial também para consolidar o conjunto.
A autoavaliação não serve para diferenciar as pessoas pelo extremado cariz pessoal que assume. A avaliação só se consegue por um processo de distanciamento, que de preferência obedeça ao princípio da hierarquia, mas não excessivo. A avaliação deve ser feita por quem está pelo menos um nível acima e não mais que dois e tenha estatuto que torne o avaliador imune a retaliações. Porém é provável que os sindicatos queiram voltar àquele sistema da autoavaliação e vale a pena analisar a sua consistência e os seus resultados:
Há muitas pessoas que até se têm a si próprias em fraco conceito mas que nas horas de verdade não descuram que lhes dêem a boa imagem a que têm “direito”. E quando se trata de verter para o papel a merecida classificação não será a obtida pelo seu conceito não confessado mas aquela que é fornecida pela outra imagem que interessa cultivar. Ninguém se vai auto diferenciar para se prejudicar.
A maioria das pessoas até dirá que isto é o legitimo espírito defensivo a vir ao de cima e ninguém o levará a mal. Cada um trata de si e o Sindicato de todos. Claro que haverá alguns ensandecidos, daqueles que estão mesmo convencidos que não são tão maus como os possam julgar, antes pelo contrário, será difícil encontrar melhor. Nunca se coibiriam de dar a si próprio as melhores classificações. Com razão ou sem ela que se fiquem todos pela mediania.
Mas nem só os ensandecidos são vítimas neste processo. Pode haver transposição de um efeito psicológico proveniente doutro contexto, doutra vivência, mas também pode ser genuíno, originado nesta situação e circunscrito a ela. Nós facilmente nos esquecemos que há mais mundos para além do nosso e que eles não são concêntricos, não giram à nossa volta. Porém há mesmo situações que nos podem ultrapassar, quando involuntariamente nos abstraímos desses mundos ou somos obrigados a isso.
Um dia prestei prova de aferição do 12º ano em Geografia e fiquei estupefacto com o 12 que me colocaram na pauta. Queria recorrer mas era Agosto e a minha professora não estava na Escola, claro. Estava de merecidas férias. Só me informaram que poderia recorrer a outro docente, mas não tive outro remédio se não ser eu mesmo o avaliador e fazer o recurso.
Foi manifestamente difícil porque, analisados os livros de apoio, os meus apontamentos e fazendo mesmo apelo a outros conhecimentos que eu já tinha adquirido antes, concluía que nas minhas respostas não havia lacunas significativas. Parecia-me uma falsa modéstia atribuir alguma valoração a falhas de pouca monta que houvesse, porque achava ter compreendido aquilo que me tinha sido transmitido e se estava errado a mim se não devia.
E vá de me atribuir 20 valores. Claro que levei 17 e já fiquei satisfeito, tão satisfeito como se fora à primeira vez. Eu não tinha pretensões a saber tudo e faltava-me a clara noção do limite, daquilo que me poderia ser transmitido se o professor fosse outro, a escola fosse outra, o contexto outro. Por natureza os limites têm que nos ser transmitidos por outrem, fixá-los nós é pura hipocrisia.
Os alunos sabem das imensas contingências, seja quando são avaliados pelo seu docente, seja quando avaliados por outro e principalmente quando este é quase ou mesmo desconhecido. Os professores sentirão os mesmos problemas. Quando se trata de avaliarem outros professores sentir-se-ão inibidos. Mas se os professores desconfiam dos seus próprios colegas, o que dirão os alunos do professor que lhes tenha ganho raiva, daquele que desconhece o seu contexto?
Uma pessoa isolada, pensando o seu saber, poderá estar consciente das suas limitações, se já teve provas anteriores para isso, mas nunca é tão estúpida para as fixar. Pensará que, na dúvida, é melhor valorizar-se do que passar por parva. Deixar que eu e todos os outros nos valorizemos a nós próprios não dá garantia de qualquer equidade. Mas neste jogo do gato e do rato o mal estará sempre em as pessoas pensarem que ao rato tudo é permitido.