quinta-feira, 25 de junho de 2009

Políticos versus politiqueiros

Anda aí uma grande confusão sobre o ser político ou ser uma outra coisa qualquer, politiqueiro talvez ou nem tanto. Um conceito demasiado alargado de político leva a que depois se haja de separar os políticos em várias subcategorias que normalmente terminam no politiqueiro, uma espécie de intermediário entre o povo anónimo e os políticos mais empenhados, com nome na praça.
Este afoito medianeiro torna a política pura e dura, crua e sanguinária, de certo modo legível pelo mais indiferente e transmite aos políticos de carteira os sentimentos que vão na alma deste. Nesta intermediação compra e vende favores, arma-se em mais ou menos importante, procura lucrar alguma coisa que sempre sobra em qualquer negócio: Umas comissões encobertas. Na verdade este personagem não deve ser considerado como fazendo parte do domínio da política.
A luta partidária pode passar pela reestruturação da sociedade e pela definição de novos centros de poder. Mas o normal é que ela vise ocupar os centros do poder já existentes e colocá-los ao serviço das ideias de um partido, de um grupo social vasto. Só há políticos de duas naturezas: Aqueles que querem estar nesses centros de decisão e aqueles que querem contribuir para a elaboração, formatação e codificação das ideias que aqueles centros de poder devem colocar em prática, incluindo a sua forma.
Depois há uma outra espécie de intervenientes no processo político de que os ideólogos precisam e de que os práticos não prescindem: São os repetidores, conversores e amplificadores que convenientemente distribuídos, colocados em posições estratégicas, fazem com que a onda oriunda do centro se propague e atinja nas devidas condições o indivíduo anónimo. Esta função é necessária, digna, decisiva em termos de tornar eficaz, duradoira uma política nas condições de uma sociedade muito desigual. Mas um dos objectivos deve ser a sua redução.
Esta função de intermediação é muitas vezes desprezada pelos políticos de topo que, com a pretensão de falarem uma linguagem que o povo entenda, de terem a capacidade de estabelecer uma relação directa com o povo, minimizam o valor dos efeitos que os intermediadores podem introduzir por forma a tornarem escorreita a linguagem hermética, técnica e pouco afectiva dos políticos. Normalmente nem é o povo que despreza esta intermediação mas aqueles que se pretendem colocar a esse nível ao serviço de outras ideias políticas.
Mas efectivamente há um facto que embaralha, complica e torna nebulosa a relação da população em geral com estes pretensos “políticos”. É que muitos, a maioria deles, quer aproveitar a sua maior ou menos proximidade dos centros de poder para obter benefícios, vantagens indevidas, “remuneração” do seu “trabalho”. De uma função nobre, que poderia contribuir para a coesão social, depressa se deixam enredar em interesses de duvidosa legitimidade e criam uma corrente ascendente, uma onda de influência, mas também de voracidade e ganância.
Em casos extremos fecha-se aí o círculo, a onda só produz ressonância em direcção ao centro, não é encaminhada para os seus destinatários naturais. O núcleo duro do poder compraza-se com a satisfação dessa gente e torna-se insensível às manifestações de quem se encontra fora dele. Ultrapassar essa barreira tem que ser preocupação permanente de todos os políticos cuja ambição deve ser ter em atenção as pretensões de todos os estratos sociais. Não permitir que se feche o círculo, que tais intermediários se apresentem como os destinatários finais de uma politica é condição da sua democraticidade.
Destrinçar entre o privado e o público é para muitas pessoas exercício académico, dispensável e incómodo. Por isso não vêem inconveniente em exercer uma qualquer influência que lhes seja facultada nos centros de decisão, seja ela em benefício pessoal ou colectivo. Esta confusão está presente em todos os níveis de poder, embora muitos mais a níveis intermédios e baixos da administração. Contribui para que a hipocrisia que se vê, se percebe e se sente existir em grau elevado seja generalizada e tida por norma.
O domínio das boas e das más intenções é demasiado ambíguo para que alguém consiga estabelecer uma barreira entre quem transporta umas ou outras. Por isso não há nada como retirar estes “políticos” da categoria restrita dos mesmos, a quem devemos exigir um comportamento exemplar, uma separação clara de interesses, uma dedicação exclusiva ao interesse mais amplo e colectivo da sociedade. Mesmo as divergências sobre este não devem lançar suspeitas de favorecimento pessoal.
Antes de mais nada era necessária uma outra forma de escolha, uma selectividade que as formas tradicionais de cooptação não garantem. Quando um eleito está em condições de ele próprio vir a escolher uns milhares de outras pessoas para ocupar cargos em organismos de decisão e até para funções meramente administrativas está a se empolar o cargo pelo qual ele o é. Isto é, são subvertidas as razões pelas quais o eleito deveria ser preferido.
Essas razões deveriam assentar na sua competência, na eficiência que pode ser dada à tomada de decisões, na transparência que consegue dar a essas decisões, na ausência de arbitrariedade, na presença do bom senso e na devida ponderação do risco. Essas razões nunca deveriam ser as solicitações a que alguém consegue dar satisfação, sejam na colocação de apaniguados no aparelho de Estado e até na actividade privada, nos favores oferecidos por via ilegal e mesmo quando a lei parece conceder-lhe poder discricionário.
Isto é, deve ser atacado o princípio aceite por muitos às escondidas de que o bom político é aquele que, na ânsia de recrutar, manter e estimular aqueles intermediários para defender a sua causa está pronto a toda a espécie de malabarismos mais ou menos consentidos por lei. Quase toda a gente está pronta a disparar sobre alguém acusando-o de se vender, de se deixar comprar por isto ou por aquilo, no convencimento de que todos, como ele próprio, têm um preço e quanto mais baixo mais humilhante. Mas não falta quem esteja pronto a aceitar.
Infelizmente não se vê que esta espécie de críticos seja exemplo para ninguém. Nada ganhamos a ver a política por este lado negativo, a colocar tudo negro para que ninguém veja também o exemplo desses críticos. Devemos incentivar que se parta de uma análise positiva para realçar o comportamento a adoptar no futuro. Isso inclui substituir a moralidade por uma clara e restritiva definição dos poderes, das dependências e minimizar o papel dos intermediadores sociais, sob pena de estes reclamarem o seu pagamento.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

A nossa difícil relação com o poder - a rebeldia

São tantos os estados de rebeldia e de tanta gente que ficamos por vezes perplexos, perfeitamente embasbacados, confusos e sem forma de reagir. Perguntamo-nos continuamente, diremos mesmo que é aquilo que nos faz cismar, pensar aturada e demoradamente, porquê tanta rebeldia? Talvez pensemos agora porque nunca até aqui tínhamos pensado a sério sobre a rebeldia. Ou talvez não a identificássemos devidamente e afinal todos nós somos no fundo depositários de alguma dessa rebeldia em estado latente.
Muitos de nós temos prazer em sermos rebeldes e outros renegam esse estado, esse sentimento e mesmo qualquer manifestação que lhe possa estar associada. Somos nós que temos que gerir os nossos estados de alma, elaborar os nossos sentimentos, controlar as nossas emoções. Hoje a sociedade exige-nos isso e nós não estamos preparados para tão grande tarefa. Sermos subservientes, sermos guiados, sermos conduzidos era fácil, sermos livres é bem mais difícil.
Hoje a crítica à rebeldia tem muito pouco efeito para esmorecer as pessoas, para mais quando a rebeldia virou moda. Todos procuram com mais ou menos afinco saídas positivas para as situações que lhe deram origem. No entanto as pessoas manifestam de forma diferente porque também têm diferente percepção da sociedade, das suas circunstâncias e da eficácia das atitudes mais pertinentes. A resignação, o espaço de tolerância, o tempo de espera divergem de pessoa para pessoa. A exasperação pode ser má conselheira, mas a apatia e o atavismo são deploráveis.
A rebeldia não pode ser suporte da avidez nem remeter-se à abulia. Quando a rebeldia se confunde com uma ansiedade descontrolada, podemos estar perante uma situação real, mas também podemos estar perante uma simulação, uma imitação de outras figuras para obter um fim para o qual a pessoa não encontra argumentos lógicos. Na sociedade de hoje a rebeldia tornou-se um sentimento de tal modo mediatizado debaixo do qual se encobrem muitos de forma que nos obriga a não levar a sério muitos casos reais.
Tempos atrás ainda nos podíamos dar ao trabalho de procurar nas pessoas os sentimentos contraditórios que alimentam. Hoje muitos desses sentimentos são tão naturais como quaisquer outros. Não sendo condenáveis também não são motivo de especulação. O que hoje é importante é sentirmo-nos cómodos com a vivência dos nossos sentimentos, sendo que é a necessidade de partilhar alguns deles que condiciona o incentivo ou refreamento dos outros. Assim devemos procurar na conciliação que cada um faz de vários sentimentos qual o seu grau de sinceridade, de justeza, de dignidade.
Dir-se-á que em tudo isto há conceitos vagos e que mesmo o sentimento de comodidade que cada um possa sentir também pode resultar da vivência num círculo fechado de relações sociais ou da satisfação que cada um possa ter em enganar os outros. Mas não haverão dúvidas que a rebeldia é um sentimento a ter em conta como fazendo parte integrante da nossa vida afectiva. Serão raras as pessoas que nunca se sentiram insatisfeitas, só se vivem em condições muito especiais ou possuem uma disciplina mental perfeitamente exemplar.
A rebeldia é própria de quem tem uma noção exagerada, mas de certo modo ajustada ao poder quando visto na sua expressão mais afirmativa. Nas não tem necessariamente uma noção precisa da importância relativa dos centros de poder. É fácil atribuírem-se culpas do poder económico ao poder político e vice-versa. A rebeldia é sempre reveladora de insegurança por mais partilhado que a pessoa sinta que esse sentimento é. A rebeldia é um sentimento pessoal, sinal de uma instabilidade pessoal e colectiva que não permite sentimentos mais sólidos.
Como todos os sentimentos de pendor oposicionista num ambiente instável este é induzido facilmente no colectivo e cria um forte peso e dependência sobre o individual. Um sentimento que deveria ser um alerta pode tornar-se uma forma de aprisionamento do individual, incapacitar a tomada de iniciativas próprias, levar ao conformismo e à incomodidade. A certa altura torna-se um sentimento que se sustenta a si próprio, que se reforça perante a visão do estado de satisfação de alguns, que se torna uma compensação que já se procura perante a ostentação e a soberba alheia.
A rebeldia pode, por processos perversos, fornecer o gozo que a inquietação dos outros pode proporcionar e torna-se assim justificação para si própria e não o meio de atingir qualquer fim. O rebelde pensa que o simples facto de o ser causa medo nos poderosos e isso compensa-o. A rebeldia rapidamente se generaliza, chegando mesmo a desvanecer-se a sua origem, a atingir um estado de abstracção. A rebeldia também pode chamar a si emoções e sentimentos recalcados e até despropositados encaminhando-se então para a defesa da anarquia. A rebeldia tem mais a ver com a irreverência do que com a eficácia.
A rebeldia permite-nos não ser subservientes, o que só por si basta a muita gente. Como contraponto à subserviência, a rebeldia permite ver o poder como mais fraco do que ele é na realidade e assumir uma atitude mais agressiva do que aquela que se justificaria se as relações de poder fossem mais ponderadas. No entanto a rebeldia é muito menos consequente do que a revolta.
A rebeldia também não exige especial coragem e valentia para se manifestar, especial trabalho intelectual para se racionalizar, nenhum tipo de organização para irromper, nenhum projecto bem elaborado para se pôr em pratica. A rebeldia exige que o poder se mantenha o tão longínquo quanto possível para não se responsabilizar por ele, mas o tão próximo quanto possível para suscitar alguma atractividade. Não chega virar as costas ao poder, o rebelde sabe que ele se não pode dispensar.

sábado, 13 de junho de 2009

O Advogado do Diabo

O contraditório é essencial como estímulo à actividade intelectual. Levar as objecções até à exaustão, contrapor incertezas por mais diminutas que sejam, não é um exercício de displicência, é tão só o único caminho capaz de fazer avançar o saber. A dialéctica espiritualista e a sua herdeira materialista, que erram por serem teorias simplistas na sua fórmula redutora de tese/antítese/síntese, são, pela projecção que já tiveram, reveladoras da importância do contraditório, seja no nosso caminho individual, seja no nosso caminho colectivo.
Também a concordância terá o seu papel na actividade intelectual. Mesmo sem ser absoluta, ajuda a consolidar certezas. Os dialécticos não davam a essa concordância qualquer importância porque lhe roubavam a natureza. A concordância derivava somente da anulação da discordância, do seu silenciamento, da sua desvalorização. A concordância era o reverso de uma discordância a que era retirada toda a dignidade.
Para os dialécticos todos os meios eram legítimos para obter a concordância, esta era aglutinada acriticamente. Ora a concordância tem que ser uma construção que nasça da liberdade. A discordância necessita da mesma liberdade para que ela própria se construa. Para os dialécticos a síntese era uma simples figura de retórica, sem conteúdo visível. A síntese era retirada da adesão acrítica do discordante. Ora do contraditório há potencial para sair progresso para ambas as partes e nem necessariamente no mesmo sentido.
Uma concordância pode ser genuína, mas não ser mais do que o resultado de uma junção de equívocos. Pode contribuir somente para o aumento da auto-estima e não para a construção de um edifício intelectual coerente e positivo. Como a auto-estima pode ser e é estimulada de muitas outras formas, ao ponto de dela se abusar, o melhor será sempre relativizá-la num processo intelectual. A humildade diz-nos que uma concordância não é o fim do caminho. A experiência diz-nos também que demasiadas concordâncias nos devem levar a desconfiar da qualidade do contraditório.
Também o contraditório é motivo de abusos. Se uns exageram na concordância, na aceitação incondicional das certezas dos outros, há outros que fazem da contradição um uso sistemático. Quando assim é o contraditório resvala facilmente para o superficial, mas tem uma saída fácil que é a sua ignorância. É porém suicida ou mal intencionado se, também por sistema, ignorarmos a discordância alheia. Devemos ter tão só a preocupação básica de procurar saber a partir de que ponto é legítimo ignorarmos o contraditor. Até podemos vir a saber até que ponto, na economia das suas certezas, estas lhe fazem falta e então não o ignoraremos mas compreenderemos.
Deixar o contraditor a falar sozinho é uma atitude merecida por muitos, mas a tomar só depois de esgotados todos os argumentos ou após o pressentimento de que a discussão pode passar ao nível do insulto. Quando uma aversão primária se manifesta estamos falados. No contraditório nunca se pode sair da base intelectual em que ele deve assentar. Nesta base é insubstituível, fora é pernicioso. Mas podemos e devemos ser mais compreensivos. Não podemos virar as costas ao contraditório que assenta na diferença de interesses defendidos por cada uma das partes. Se ambos forem de igual modo legitimados pelo espaço de liberdade socialmente aceite, isto é, se a sua base for política, podemos estar perante uma situação insolúvel, que deve ser tolerada e explorada, se assim o entendermos.
Aceita-se que a realidade é assim, que há interesses conflituantes e mesmo antagónicos, mas tem que haver momentos em que a política se possa ver pela sua perspectiva de base intelectual sem deixar a vivacidade que lhe é própria. O facto de actualmente a política estar inquinada por um tipo de argumentação redundante, mais virada para os instintos primários do que para a racionalidade, não nos faz esquecer que é um domínio primordial da acção humana em que mais sobressai a dignidade ou a falta dela, em que mais está em causa o nosso futuro colectivo e mesmo a nossa valorização individual.
O facto de o contraditório na política poder facilmente resvalar para domínios de agressividade leva a que as pessoas se não queiram submeter àquilo que na sua opinião mais não é do que o mundo dos caprichos e das simulações de cenários virtuais. Só que, com uma base intelectual sólida, é possível ficar imune às escorrências laterais e impróprias das discorrências de alguns e enfrentar o mundo como se todos fôramos pessoas sem interesses ocultos e incapazes de atraiçoar aquilo que cada qual diz ter como suas bases morais, isto é, como se todos fôramos pessoas intelectualmente honestas e pessoalmente leais.
Estar preparado para todos os contraditórios é tão inglório como ter certezas a respeito de tudo, ter a verdade à mão de semear. A humildade leva-nos a aceitar ouvir, mas não nos deve levar ao ponto de calar. Nesta atitude simples se funda a nossa abertura ao diálogo e a aceitação do contraditório como imprescindível à nossa vida. Podemo-nos questionar a nós próprios, mas o normal será que o contraditório surja do exterior, que alguém nos coloque objecções ao nosso próprio pensamento e assim pudemos aferir melhor as nossas certezas, aumentar o grau de exigência que fazemos a nós próprios.
Infelizmente tal não é possível e as razões são variadas. Desde logo por indisponibilidade de tempo, por não se encontrar a pessoa capaz de fazer de “Advogado do Diabo” em todas as situações em que tal seria conveniente, mas também por nós próprios nos não disponibilizarmos a abrir parte significativa do núcleo central das nossas ideias à contestação alheia e era necessário que nos conhecessem para colocar as questões candentes. Mas efectivamente o maior problema é constituído pelas exigências da vida prática que nos não permitem a igualdade mínima de condições para a evolução intelectual.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

A nossa difícil relação com o poder – a partilha

Se a memória é o nosso grande suporte, se as expectativas são a nossa orientação, os sentimentos são elementos fundamentais na estruturação do nosso pensamento. Estes reflectem a nossa visão consolidada da realidade, mas também as influências que sofremos do meio em que vivemos, a nossa experiência de relação. Nós temos muitos sentimentos particulares, mas também sentimentos colectivos em número variável, uns partilhados outros não.
Há quem, para se não expor, não esteja disposto a partilhar os seus sentimentos, mesmo que estes sejam suficientemente genéricos para não comprometer. Em primeiro lugar porque a vida cria em nós alguns sentimentos contraditórios dificilmente destrinçáveis. Por outro lado sabemos que o mesmo contexto social não gera necessariamente os mesmos sentimentos em todas as pessoas. No entanto há pessoas que fazem opções e querem que os outros as partilhem, como se os seus sentimentos fossem os mais genuínos. Mas é o que acontece quando adoptamos sentimentos que só fazem sentido se partilhados.
As pessoas introvertidas por princípio não partilham. As extrovertidas fazem-na às vezes de forma desabrida. O problema surge quando ultrapassam o limite da liberdade alheia, mesmo que só no domínio da coacção moral sem atingir os extremos da violência. Como damos ao domínio político uma certa permissividade é por aí que confundimos o papel social de muitos sentimentos. Na verdade hoje faz-se muita política por via da coacção moral numa tentativa violenta de falsa partilha. Tal até leva a que pessoas extrovertidas de modo suficientemente comedido se tenham que retrair em ambientes sociais agressivos.
Os sentimentos que alimentamos comprometem-nos quando fazemos opções que encontram contextos sociais adversos nos quais não os podemos expor. Mas se desrespeitamos os sentimentos, tomando opções que os contradizem, criamos outro problema pessoal grave. O melhor caminho será sempre não nos sujeitarmos a ditaduras de maiorias ou de grupos sociais dominantes que pretendam radicalizar as diferenças entre as nossas posições, que pretendem criar fricções entre pessoas cujos sentimentos não confluem, mas que podem viver perfeitamente em comunidade. Só de um processo de compreensão mútua pode um dia surgir por processo intelectual o sentimento de partilha.
É do nosso processo de socialização que depende em muito a nossa capacidade de partilha de sentimentos mas também, se necessário, viver na diferença. A socialização não passa por visar a unanimidade a propósito de um qualquer sentimento mas por atingir o reconhecimento suficiente do grupo, da corrente de opinião, do sector cultural no qual nos achamos integrados. Ninguém se pode arrogar o direito de seleccionar em absoluto os sentimentos partilháveis, os valores genericamente aceites.
Dentro do processo de socialização a escolarização assume uma extrema importância. A escolarização permitiu a introdução na vivência das pessoas de novos e diversificados sentimentos. Os relacionamentos aumentaram e fazem-se em sentidos mais variados. As pessoas deixaram de ser vistas somente pelo seu carácter originário. A escolarização contribuiu ainda para que não seja possível caracterizar o nosso modo de ser por um só sentimento, para isso passamos a recorrer a vários em simultâneo.
Outro efeito da escolarização, mas também das novas condições de vida, é o progressivo abandono da exclusividade dos sentimentos recíprocos de natureza particular. Mas também há um outro efeito na maior vivência da vida colectiva e no aumento dos sentimentos partilhados. Estes deveriam levar a uma maior coesão social, o que só não acontece porque não se faz um esforço de cultivo do mais nobre dos sentimentos partilhados, que é a lealdade.
Partilhar sentimentos é partilhar poder. Numa sociedade tradicional o exercício do poder era mais evidente, os sentimentos mais incentivados eram os que reflectiam mais claramente as relações de poder e entre eles destaca-se a subserviência. Todos os sentimentos que se desenvolviam fora das relações de poder eram proibidos ou pouco tolerados. Fosse em relação ao poder familiar, fosse em relação ao poder laboral, havia de um lado dependência e do outro arbitrariedade. Não havia partilha de poder, não havia partilha de sentimentos.
Nos dias de hoje o poder é mais subtil, mais disperso, difuso mesmo, e é mais problemático encontrar os sentimentos mais apropriados à situação em que estamos envolvidos e interpretar, usando os sentimentos dos outros, a sua situação pessoal. A fartura dificulta e o tempo escasseia. Novos sentimentos proliferam quase sem paternidade e sem aceitação reconhecida. Além disso a nossa difícil relação com o poder traduz-se desde logo na nossa difícil relação com os sentimentos que ainda subsistem vindos da sociedade tradicional.
A escolarização também determinou uma maior diferenciação nos modos de vida e nos sentimentos das pessoas ao partir a sua vida em ciclos em vez de manter o percurso linear no qual um sentimento ora criado, era mantido, era adaptado a novas circunstâncias mas essencialmente a novas personagens e poderes. Antes faziam-se generalizações progressivas do poder familiar e tal permitia pensar num percurso linear para os sentimentos. Agora tenta-se subir escadas escalonadamente esgotando o usufruto de cada etapa.
Em vez de uma transição progressiva e lenta, a escolarização veio retirar as pessoas do exclusivo domínio familiar, até mesmo grupal, para que muitas vezes sozinhas façam frente aos vários poderes que na vida lhes vão surgindo, revelando assim também a diferente natureza destes e as diferentes formas de eles se afirmarem. No entanto a actual escolarização não chega para que as pessoas apostem decisivamente nos sentimentos partilhados em vez de optarem pela submissão humilhante ou pela rebeldia inconsequente.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

A nossa difícil relação com o poder - a subserviência

Genericamente é difícil a nossa relação com o poder, até porque este apresenta sempre uma face diferente conforme quem o exerce e a quem ele é dirigido. Não há poderes abstractos, só quando estamos perante um deles, exercido por uma pessoa específica ou por um órgão colegial, podemos avaliar a sua natureza e a sua forma de se manifestar.
No entanto nós geralmente já temos ideias feitas, sentimentos arreigados, o que torna difícil a mudança de opinião, a simples discussão livre destes assuntos, já que não a há sem pormos a hipótese de acrescentarmos um novo ponto de vista ao nosso conhecimento, de alterarmos alguma conclusão, por pouco que seja, de modificarmos, pelo menos em certa medida, a opinião que tínhamos sobre quem exerce o poder e até sobre quem é condicionado por ele.
A nossa difícil relação com o poder deriva também de ser complicado, senão impossível, racionalizar essa relação, transformá-la em ideias precisas, claras, que nós mesmos entendamos, mas que a mediana das pessoas entenda também. Na minha opinião ninguém se pode ter por intelectual, por pessoa culta se não ambicionar ter um discurso escorreito sobre o poder, de preferência sobre os vários poderes. Um discurso que não esteja sujeito a qualquer hermenêutica. Raramente aquelas nossas ideias feitas correspondem a este padrão.
A simples manifestação dos nossos sentimentos que descrevem a relação que temos com os poderes é quase sempre perfeitamente redutora. Os sentimentos correspondem ao estado de paralisia do nosso espírito. São uma imagem instantânea muito mais disponível que um conjunto de argumentos. Mas são uma imagem vulnerável, manipulável pelos outros que mais se preocupam a atacá-los directamente, usando outras imagens seleccionadas, do que a desmonta-los pelo esclarecimento dos motivos da sua criação.
Os sentimentos são-nos necessários porque nos facultam na hora instrumentos de análise que nos permitem ter uma resposta rápida e fundamentada. Porém os sentimentos podem tornar-nos seus prisioneiros. Fazem-nos descansar sobre o trabalho de análise realizado aquando da sua elaboração e não tem em conta as enormes mudanças entretanto ocorridas. Os nossos sentimentos têm pois um certo grau de incerteza.
Podemos, para obviar a este problema, fazer uma certa actualização permanente dos nossos sentimentos. Como porém um dos seus objectivos é dar-nos uma certa estabilidade emocional e intelectual temos que os fazer durar o maior tempo possível. Neste sentido a sociedade, se não nos exigisse tanto, ajudava-nos a mudar lentamente os nossos sentimentos. Simplesmente não quer e as horas que temos de dedicar a outras tarefas raramente nos deixam tempo para pensar. Também neste domínio a comunicação social nos fornece mais enlatados do que comida saudável. Mas afinal de que sentimentos e poderes falamos?
O poder familiar, maternal e paternal, é o primeiro com que nos defrontamos, e porque desde logo elaboramos sentimentos, estes vão-nos condicionar na nossa futura vida de relação, seja com os nossos contemporâneos seja com o poder social e político. As dificuldades do relacionamento familiar são difíceis de conhecer e, além das nossas, embrenhamo-nos imenso na especulação. Há quem queira reduzir tudo a uma questão económica, mas o melhor será considerar a família como o reflexo de todas as contradições existentes numa sociedade.
Podemos facilmente confirmar que em Portugal a nossa relação com o poder é mais problemática ainda devido ao nosso percurso feito de longas paralisias e bruscos avanços. Enquanto há normalmente um maior afastamento das pessoas em relação ao poder, há também ocasiões em que há uma proximidade inquietante na medida em que se não traduz em qualquer relação consistente. Uma certa imaturidade emocional leva-nos a imaginarmos uma relação demasiado estreita mas a não sabermos colocar exigências que lhe dêem substância.
A dificuldade do nosso relacionamento com o poder tanto pode derivar do facto de não nos opormos suficientemente à sua expansão, como pode derivar de fazermos uma oposição sistemática, visando o seu próprio bloqueamento. O poder precisa de encontrar alguma resistência para não amolecer, mas também de algum estímulo para encontrar o seu melhor caminho. A nossa passividade não é benéfica, mas a nossa irreverência nem sempre ajuda.
A atitude mais fácil perante o poder é a subserviência, a qual em Portugal parece ser endémica. A subserviência surge quando imaginamos um poder mais forte do que aquele que se nos apresenta e assumimos uma atitude mais submissa do que aquela que nos seria exigível. Esta subserviência propaga-se mais quando existem poderes sólidos mas não particularmente despóticos, que não são agressivos, que não se afirmam pela persistência, pela crueldade ou pela insídia.
Perto da subserviência surge o deslumbramento quando pensamos que o poder é iluminado. Da subserviência ainda saímos com uma certa facilidade mas o deslumbramento não nos permite uma saída fácil. Aliás a subserviência pode-se diluir lentamente mas também pode dar origem a erupções de contestação violenta ao poder precisamente porque quem é subserviente não está preparado para uma relação pacífica imediata com esse poder.
Lado a lado com a subserviência caminha muitas vezes a resignação, de modo que são sentimentos que convém não confundir. A resignação pode produzir o mesmo efeito, mas é própria de quem tem mais consciência da realidade, está mais próximo dela. É um sentimento mais elaborado, mais próximo da racionalidade e como tal mais facilmente desmontável se, aos nossos olhos, se justificar que dele nos libertemos. O resignado está mais preparado para vir a estabelecer uma relação aberta e pacífica com o poder.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Ainda há quem queira a luta de classes?

Na sociedade sempre haverá divisão do trabalho, mesmo que se reparta a riqueza. Aliás esta não tem qualquer valor se não houver trabalho, embora permita fazer alguma espécie de greve a este. Deixemos o resultado final à especulação de quem não tenha mais nada para fazer ou de quem se ocupe de imaginar robôs para tudo. Aceitemos entretanto a inevitabilidade das classes sociais como manifestação da divisão do trabalho e da riqueza.
No entanto as classes não são estáveis e nunca mais serão as mesmas, o que traz problemas às ideologias que patrocinam a sua luta. Tal deve-se às alterações constantes na economia. Perante isto as forças políticas classistas são arrastadas e têm que se adaptar à realidade de momento. A adaptação vai hoje no sentido de continuar a integrar nas classes a libertar alguns sectores que já por lá passaram e são hoje favorecidos.
Porém a situação contraditória hoje existente obriga as forças políticas classistas a receber no seu seio novas bases entretanto proletarizadas, tornadas dependentes e subalternas. De qualquer modo as diferenças são hoje difíceis de estabelecer, o que põe em causa a validade do próprio conceito de luta de classes e dificulta o estabelecimento de uma estratégia consistente.
Outrora a posse de alguma terra, de um engenho, de um posto de comércio fazia toda a diferença. Mesmo ser proprietário, co-proprietário ou cooperante fazia uma diferença enorme. Hoje a diferença não passa por aí. Os rendimentos podem vir de origens muito diversas, entrecruzam-se, as diferenças de remuneração do trabalho são enormes, os centros de poder económico difusos.
As ideologias classistas não têm hoje um padrão que lhes sirva de guia. As forças que hoje são herdeiras dessas ideologias passaram a estar em todas as lutas, sempre que haja contestação ao poder instituído pelas forças que elas querem combater. Apoiam todas as classes que tenham poder reivindicativo mesmo correndo o risco de silenciar aqueles que são verdadeiramente humilhados. Neste sentido contribuem para aumentar as diferenças sociais.
A velha aliança do campesinato com o proletariado industrial está esquecida, maugrado continuar a existir campesinato, embora em muito menos número, e proletariado, em Portugal em número nunca antes alcançado. Muitas unidades fabris mudaram de natureza, mas não deixaram de existir têxteis, calçado e muitas outras indústrias que se mantêm dentro dos antigos padrões.
É a gente destas velhas profissões que hoje mais vai para o desemprego e no entanto as lutas dos partidos ideologicamente classistas parece não passarem por aqui. Antes as patrocinam quando protagonizadas por uma mítica classe média em constante ascensão política impulsionada por todas as forças contestatárias dos mais diversas matizes.
Hoje as forças políticas classistas concentram-se para obter base de apoio na classe média, ou melhor, nas classes médias, e não se preocupam com os seus contornos. Passam ao lado do quanto é problemático colocar num mesmo nível, confluir nos mesmos objectivos os velhos proletários, os novos intelectuais, os profissionais liberais e empresários ricos e podres e altos funcionários. Não seria melhor definir as classes numa nova base?
Não haverá dúvidas que temos que considerar como pertencendo à classe média todos aqueles que são capazes de passar por ano um longo período de férias no estrangeiro ou dois períodos mais curtos, que têm pelo menos um carro para cada elemento do agregado familiar, que têm mota, barco ou qualquer outro meio de evasão, que come pelo menos duas vezes por semana no restaurante, que têm uma carteira cheia de cartões de crédito, que navega pelo menos uma hora por dia na Internet e vomita para lá dez comentários verrinosos, que culturalmente navega entre o indigente irradiante e o erudito deslumbrado.
Politicamente esta classe média é indefinida. Pertence a todas as forças políticas, é capaz de ser tudo mas preferencialmente não é nada. É contra tudo que sejam regras rígidas e a favor de tudo que sejam castigos exemplares, é contra as responsabilidades que lhe não dêem dinheiro e a favor das solidariedades que dêem espectáculo televisivo, é contra os compromissos bilaterais que a envolvam e a favor de políticas exigentes mas difusas.
As forças políticas classistas ao patrocinar esta classe média como o centro da sua actividade política ou são cínicas ou, se verdadeiras, são ridículas. Isto é, ou consideram esta classe média como um aliado de ocasião, descartável um dia, ou consideram que a contestação vale por si mesma. Como a primeira hipótese já foi vivida e teve resultados dramáticos, restará a segunda sem fim à vista.
Certos grupos sociais, mesmo beneficiando já das regalias desta classe média, têm-se deixado contaminar pela contestação sistemática, sem curar de saber se não estarão a exorbitar e a colocar de outra forma em risco o seu próprio posicionamento social. E não é garantido que as forças políticas que os incentivam, os apoiam, os controlam, mantenham sempre a mesma posição, quando o poder mudar, a critica social se direccionar noutro sentido, a política de alianças preferenciais o impuser.
Seria vantajoso que as forças políticas fossem menos imediatistas e quando se dizem a favor da eliminação das classes sociais procedessem em conformidade, não lutassem por regalias para uns que se sabe não são passíveis de generalização nem a prazo e muito menos de imediato. A isto chama-se demagogia, ao facto de que as forças politicas classistas entre a pureza ideológica e a eficácia eleitoral optarem por esta.
Porém não será realista esperar que os partidos deixem de defender as classes que lhes estão na origem. As classes poderosas têm os seus partidos e procuram influenciar os outros. Às classes médias não lhes faltam representantes. Os proletários do sistema, que já não são os mesmos de há meio século, são os que têm mais dificuldade em encontrar representante, até porque não têm dinheiro para pagar a sua alforria. Quem se propõe defender estes sem vir com a ultrapassada luta de classe e os estafados partidos classistas?

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O nosso lugar na Europa não pode ficar vazio

Discutir a Europa em termos de custos/benefícios parece ser dispensável. Os benefícios são para a generalidade da população tão evidentes que não têm contestação válida. Haverá sempre alguém que se sente prejudicado mas vá lá de saber, se não tivéssemos aderido à Comunidade Europeia, se não se sentiria insatisfeito na mesma, embora tivesse que atribuir a culpa a outra razão qualquer.
Discutir a Europa é necessariamente discutir se há razões suficientes para a existência de mais um nível de soberania do que aquele a que estávamos habituados, se é correcta a natureza dos poderes que lhe são atribuídos e se, nos casos em que é correcta, a transferência de poderes para este nível deverá ser maior ou menor do que o que hoje ocorre.
Discutir a Europa é discutir a compatibilidade entre dois poderes que podem ter orientações diferentes e que, mesmo no caso de serem da mesma cor política, podem ter divergências profundas. É legítimo colocar a nossa administração a executar medidas a contra gosto, por não concordar com elas?
Discutir a Europa é partir da convicção de que nela temos um lugar insubstituível. Partindo do princípio de que a maioria de nós não quer discutir a Europa em termos que possam pôr em causa a existência da sua Comunidade, que possam levar a conclusões divisionistas, então o que nos cabe decidir e portanto discutir previamente?
Aceitando a Europa como realidade política incontornável podemos e devemos discutir a política europeia como forma de contribuir para a realização através dela dos objectivos que atribuímos à política nacional. Na realidade há muita coisa que, sendo executada pelos órgãos nacionais, é determinada pelos órgãos comunitários, pelo que devemos discutir essas questões aos dois níveis.
A política europeia não pode ser discutida em alternativa, em substituição da política nacional mas sim como seu complemento e em muitos casos como factor decisivo para os êxitos e inêxitos da política nacional. É legítima a nossa perspectiva de discutir a orientação do poder que agora reside nessa nova sede em termos da sua melhor ou pior convergência com a nossa política, na perspectiva do interesse nacional.
É profundamente errada a atitude de muitos de nós, de altos responsáveis e de simples eleitores que entendem que só porque somos beneficiários líquidos da Comunidade, nós deveríamos estar caladas e compatibilizar a nossa política com a europeia para sermos bons alunos, bem comportados e termos assim direito a umas migalhas. Demitir-nos dessa forma da nossa cidadania europeia é o nosso pior contributo para a Europa.
A Europa exige de nós a nossa participação plena. Os nossos interesses são da mesma natureza dos outros cidadãos europeus, classifiquemo-los como nos aprouver. O que não podemos exigir é a transferência directa, unidireccional daquilo que os outros Países terão a mais sem que nos não esforcemos por ser cada vez menos dependentes da Comunidade nesse sentido.
Não podemos acreditar na bondade da Europa sem que ela tenha a nossa contribuição. Não chega dizer que não concordamos. Para além de termos que aceitar decisões que nos não agradam, temos que contribuir previamente para elas através ao menos das eleições. Não chega dizermos que a Comunidade Europeia nos impõe demasiados limites, muitas restrições, alguns impedimentos para o nosso gosto. Quando são prejudiciais teremos de mostrar que também o serão para os outros.
A desculpa que uma questão é técnica serve muitas vezes para nos impingirem soluções erróneas. Também é necessário que se não ceda à insensatez de pensar que, se não somos capazes de nos governar, para quê a pretensão de governar a Europa? O preconceito de que tudo o que é de fora é bom e cá dentro é tudo mau não tem razão de ser. Além disso temos que ter a noção de que poder político europeu tem limites, para não cairmos na tentação de pensar que tudo se resolve com o aumento desse poder.
Temos porém que reconhecer que o poder actual dos organismos comunitários é incómodo mas não é excessivo. A verdade é que o seu papel não pode ser somente regulamentador. Esta é uma base aparentemente satisfatória para todas as partes, mas inócua e pouco motivadora da participação popular. Mas estamos nós preparados para aceitar outro tipo de intervenção? Quando as coisas correrem mal não estará a sede do poder demasiado longínqua para acolher os nossos protestos e reivindicações?
Se a Comunidade não nos resolve problemas como o da Quimonda resignamo-nos, mas se o caso fosse somente à dimensão nacional já teríamos a quem reclamar. Devido a ter que respeitar a política da concorrência, a Comunidade é relapsa a intervir no sentido de ajudar alguém em dificuldades. O certo é que assim os grandes comem os pequenos e a nível mundial a sua actuação é suicida Decerto que aceitaríamos um tipo de intervenção mais empenhado para um domínio tão estratégico como este.
Os neo-liberais que dominam a Comunidade esvaziaram-na da sua dimensão política. As suas doutrinas não estão nos fundamentos desta Comunidade, mas eles apropriaram-se dela. A título de defesa dos mais fracos regulamenta-se tudo a nível das relações de trabalho, das condições de prestações do mesmo, dos benefícios sociais e interfere-se até nos níveis de remuneração e doutros factores que dizem poder influenciar negativamente a prestação da economia.
Mas permite-se que os mais fortes se auto remunerem, prestem “trabalho” nas condições mais bizarras, beneficiem do pagamento dos custos da sua vida privada e dos mais ridículos prazeres com um despudor absoluto. Uma sociedade assim não tem bases morais para lhe dar consistência e mesmo que atribuamos boa fé aos políticos não haverá dúvidas que na economia prolifera a mais descarada má fé. A economia não pode assentar na rasteira.
Mais do que nunca é necessário um voto político, não no sentido contestatário, mas no sentido de contribuir para que a Comunidade assuma objectivos políticos mais ambiciosos. A Europa tem virtualidades e os seus órgãos não podem ter somente um papel de polícia, de árbitro e de tesoureiro, mas um papel menos burocrático, mais interveniente, capaz de contribuir para uma realidade mais estruturada, com mais solidariedade.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

A construção europeia impõe uma nova aliança

Porque sentimos que o nosso futuro está indissociavelmente ligado aos destinos deste Pais, deste Estado/Nação que é Portugal, é que nos dizemos portugueses. Mas a nossa cidadania é plena e permite-nos interferir, participar, contribuir para a formação da vontade colectiva. Inclusive permite-nos aceder a uma outra cidadania mais larga e até mais profunda.
Por efeito da nossa adesão à Comunidade Europeia pudemos aceder a essa outra cidadania partindo dos mesmos pressupostos: Temos na formação da vontade colectiva europeia os mesmos direitos que na formação da nacional, fazendo-o de forma directa e indirecta. Assim sendo podemos dizer que somos europeus. Qualitativamente as duas cidadanias serão basicamente iguais.
As diferenças que existem na participação nas eleições para os dois parlamentos, no simples entusiasmo em nelas participar, são por demais evidentes e remetem para uma falha no sentimento de cidadania europeia. Não nos sentimos e, por mais esforços que façam, não nos convencem facilmente que o nosso destino está ligado do mesmo modo indissolúvel ao destino europeu como está ligado, e isso nós sabemo-lo bem, ao destino português.
Sabemos que partilhamos muitos valores comuns, que estamos integrados na mesma civilização, mas também sabemos que esta foi construída com base em muitos conflitos, muitos atropelos e que eles podem continuar. Não chega acreditar que isto tudo acabou, é necessário continuar a lutar por isso. A desconfiança não findou porque não acabou o egoísmo, o sectarismo e o espírito de vingança.
A Europa está tão frágil que parece só existir como projecto político enquanto os Estados acharem que as suas complementaridades lhes trazem um benefício maior que as suas rivalidades ainda vivas, o que é claro para os políticos, mas está longe de estar enraizado na consciência dos europeus. O problema é que mesmo os políticos não resistem a um repetido apelo demagógico e podem ser tentados a inverter a situação.
Para atingir a consciência plena de uma nacionalidade europeia haveria que incentivar entre eles outro espírito mais solidário, mais colaborante, mais participativo. A Europa, como hoje existe, nasceu da colaboração entre democrata-cristãos e socialistas. Após a queda do muro de Berlim muito do cimento que mantinha este edifício de pé e com sentido perdeu consistência.
Democrata-cristãos e socialistas perderam a alma, trocaram-na pelo dinheiro. Este, de elemento assessório e instrumental, passou a estar no centro de todas as preocupações, dum lado e doutro da antiga fronteira. Enquanto existia um inimigo comum havia outro brio, outro decoro, outra moral, um objectivo, uma paixão, um outro apego à verdade, à honestidade, aos valores sociais.
A imagem com que ficamos hoje é de um povo europeu ingrato em relação aos esforços que os políticos têm feito pela paz e pela harmonia, não só nos seus territórios, mas também pela influência exercida noutros continentes. É como se esta acção não pague de modo suficiente o desleixo e o desregulamento que se processou noutras áreas e que haveria aliás de contribuir para a crise sobrevinda.
De nada nos serve tentar realçar um aspecto que achamos da máxima importância se não é esse o que sobreleva para a opinião prevalecente. Mas os políticos não estão isentos de culpa ao, para garantir o seu profissionalismo, se deixarem arrastar por uma visão centrada num só aspecto, naquele fazer política atendendo às necessidades que as pessoas sentem no imediato.
O simples apelo a ver mais para além, a lembrança de que, por ausência, podemos estar a pôr em perigo um qualquer futuro, não surte qualquer efeito. Impõe-se uma nova aliança, alguém que nos defina o que podemos esperar em termos de destino comum e que torna tão importante a nossa caminhada conjunta em vez da tentativa de cada qual se desenrascar por si.
Simplesmente os democrata-cristãos já não existam, diluíram-se, deixaram-se arrastar pelo conservadorismo ou passaram a navegar no neo-liberalismo sem freio e sem ideal. Por seu lado os socialistas espartilharam-se, cederam às exigências nacionais, deixaram-se dominar tornando-se mesmo impotentes perante os aspectos económicos globais.
Todos se tornaram incapazes de formular ideias, de projectar destinos, de arquitectar futuros. A única diferença é que a democracia cristã está exangue, os seus poucos elementos que ainda transportam a alma passada estão marginalizados, é reduzida a sua base de apoio. Por outro lado os socialistas podem vir a adquirir sangue novo, o turbilhão de ideias que se sente virá a dar frutos, as cedências à gestão liberal serão inevitáveis, mas não definitivas.
Não é propriamente dos “Velhos”, dos Alegres ou Soares que se espera a chama a iluminar o nosso caminho. A consciência, assim como a noção simples da cidadania não são suficientes para estruturar pensamentos, dinamizar movimentos, vencer a apatia. Espera-se um novo sopro de vida. Espera-se que as próximas eleições europeias sejam o despertar para a participação na construção de um destino comum em que nos sintamos empenhados, responsáveis e que traga benefícios solidários, que não só materiais.
As próximas eleições europeias não podem ser a resignação a vermos durante mais cinco anos a diplomacia brilhante mas estática a dominar o contexto europeu em vez de uma política apelativa, orientadora e motivadora. A questão nacional, quando aflora nestas ocasiões, só revela a curtez de vistas, a cedência à diplomacia de gabinete, a falta de empenho no vencimento das ideias do futuro, do progresso social e civilizacional.
Se os políticos não são capazes, ou por outro lado, só são capazes de discutir mais subsídio para cá ou para lá, mais lugares para este grupo ou para aquele, para este País ou para aquele, têm que ser os homens de cultura a realçar o contributo europeu, mas a não se ficarem pelo passado, porque deste há muito quem entenda, o difícil é traçar um caminho seguro numa atmosfera de nevoeiro denso. O futuro constrói-se com homens que nele acreditem.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A leitura é um acto de humildade

Sempre que há alguém que diz que faz sentido mas não compreende de forma capaz aquilo que eu escrevo fico preocupado. Sempre que há alguém que diz não encontra sentido naquilo que eu escrevo a minha reacção não é assim tão rápida porque vai depender de quem o afirma. Admito não ser fácil para muitos dos bem intencionados encontrar o sentido, mas só na medida em que será igualmente difícil encontrar o “não sentido”.
Já para os mal intencionados seria tudo extremamente fácil, qualquer “não sentido” serviria para a colagem pretendida. Admito que muitos não me chegam a ler, já sabem antecipadamente que eu não direi nada de novo, o que eu digo estão eles cheios de saber, para que irão perder tempo? A isto chama-se aversão, mas contra isso eu nada posso fazer. Felizmente há sentimentos destes que nos ajudam a uma das nossas cada vez mais importantes tarefas: A gestão do tempo.
Cada um lê aquilo de que gosta. Eu assim faço, a não ser que também o tenha que fazer por obrigação. Fazia-o quando estudava e faço-o agora porque não aprendi tudo. E quando o faço garanto que é com humildade. A humildade pressupõe que não há preconceito, que se não está abaixo nem acima, que se pretende apenas compreender bem quem escreve, mesmo tendo que mergulhar nas suas intenções mais primárias.
Se ao ler nos indignarmos, com humildade nos interrogamos sobre a natureza da nossa indignação. Se aderirmos à leitura havemos de nos interrogar sobre a natureza da nossa adesão. Também nos podemos preocupar com a qualidade da escrita mas é um princípio de conclusões limitadas. Elevar o uso de certos termos ao nível do pretensiosismo torna normalmente caricato quem faz esse reparo, porque há ideias que não dispensam o seu uso.
Serão raros os casos em que há duas palavras que tenham o mesmo significado. Há aquela velha diferença entre a via erudita e a via popular, mas isso só se aplica aos latinismos e a língua portuguesa incorpora cada vez mais termos doutras origens. E na verdade chega-se a incorporar termos perfeitamente dispensáveis porque haveria outros de origem mais remota ou de uma outra língua estrangeira e já adoptados anteriormente que serviriam perfeitamente. Simplesmente não há polícias da língua.
Também não falta quem diga que a escrita sobre certos temas exigiria uma linguagem mais aprimorada, com base mais científica. Infelizmente sabemos que há muitos que a usam mas que não a sabem aplicar à realidade. Ou a aplicam a despropósito, isto é, a propósito de tudo e de nada, só para mostrar que são capazes de usar termos que poucos entendam. Ou a aplicam a propósito mas referindo-se a uma realidade que não é propriamente aquela que está debaixo dos nossos olhos.
Isso nota-se particularmente no domínio das ciências sociais. Efectivamente a transcrição de livros científicos que relatam a realidade americana e outras não pode ser feito linearmente. A diferença nas estruturas sociais, a diferença de complexidade de fenómenos que influenciam a vivência pessoal e social e ocorrem em distintas sociedades e tempos é por demais evidente e esquecida.
Somos obrigados a desconfiar daqueles que se referem à realidade local ou nacional nos mesmos termos com que os grandes financeiros nos brindam para nos iludir. O mesmo diremos de todas as outras linguagens fechadas, como o marxismo, de todo o saber vertido em “catecismos” de fácil consulta aos iniciados e de conclusões pretensamente inquestionáveis.
De qualquer modo longe de mim dizer que a qualidade da escrita nada tem a ver com as ideias que se pretendem transmitir. Só que estas têm que ser descaroçadas, retirando-lhes tudo aquilo que possa desvirtuar a sua pureza. Para se compreender o valor intrínseco de uma ideia, tanto é necessário ir à sua génese, como também retirar-lhe aquilo que não constitui mais do que apêndices que se lhe colaram por ocasião do seu nascimento ou da sua evolução semântica.
Quando escrevo a minha primeira preocupação é abordar a realidade, a presente, a histórica, até a previsível, eliminando todos os possíveis efeitos alucinatórios provocados pela ofuscação ou pela resplandecência. A realidade onde vivem, viveram ou viverão as pessoas é mutável, fugidia, para a recolher com a inteligência não chega abrir os olhos.
A segunda preocupação é utilizar as palavras que traduzem as ideias que eu quero transmitir, mas com o significado mais usual no meio em que vivo e em que essas palavras são usadas. No entanto, como a minha Universidade é a vida e a minha Aldeia o universo, a repercussão dessas palavras pode ser local, nacional ou mundial e eu uso-as indiscriminadamente, conforme a que acho mais adequada à situação e não ao leitor, este que me perdoe.
Como escrevo e o faço para me aperfeiçoar, para procurar a verdade, para estruturar o pensamento que de outra forma não é mais que uma névoa que nos paira no cérebro, acho que posso partilhar essa preocupação e as minhas construções mentais com os outros. Mas não irei lá, neste meu propósito, se não encontrar naqueles a quem me dirijo a humildade intelectual necessária para me entenderem e entenderem o mundo de que eu procuro falar.
É verdade que Santos da beira da porta não fazem milagres. Pessoas, perfeitamente alheias ao que se passa no universo, julgam conhecer aqueles que moram perto de si. Para cúmulo é para esses que normalmente reservam os seus sentimentos mais odiosos. É normal que se crie uma barreira que, para confundir, pode provir da reserva mental ou da venal inveja.
Acho que é benéfico para o homem mergulhar de vez em quando na realidade alheia, sem ideias feitas. Verá que é a melhor forma de se libertar da seborreia mental criada por anos e anos de apatia mental, da paralisia em que coloca as suas faculdades só porque não é agora ocasião de pôr em causa verdades assumidas ou o tempo não chega para tratarmos da higiene mental, ou outra desculpa qualquer mais ou menos plausível e aceitável.
Leia e, se tiver tempo, mergulhe no que lê ... com humildade!

sexta-feira, 24 de abril de 2009

25 de Abril … Sempre!

25 de Abril … Sempre!! Esta afirmação mantém-se viva na minha memória, relembrando-me constantemente que tive o mérito de ainda ter vivido a data mais marcante no último meio século português.
No entanto não é o mérito pessoal de ninguém que garante o mérito colectivo de quem então procurou resolver problemas que já vinham há décadas sem solução. Todos nós nos atribuímos intenções cuja pureza haveria de ser posta de alguma forma em causa pelo desenrolar dos acontecimentos que tiveram múltiplas influências internas e externas.
O que hoje pensamos não coincide necessariamente com o que pensávamos à época. Então muitos de nós fomos mesmo apanhados de surpresa. Foi com indiferença, entusiasmo ou medo, sentimentos muito diversos, que vivemos esses factos que constituíram a radical mudança há tanto tempo reclamada. Foi essa forma como vivemos esses momentos únicos que determinaram o desfecho que os problemas encarados viriam a ter.
A nossa impreparação era tanta, o contexto internacional era para nós tão complexo que não restarão dúvidas que só com o tempo a maioria de nós foi afinando a sua bússola, sabendo por que caminho havia que seguir, conciliando a realidade pessoal com a realidade social, construindo uma nova identidade perante a liberdade. Seria a má consciência de tantos que por má conselheira levou a muitos aventureirismos.
A realidade social teve um peso imenso na atitude que a maioria tomou perante o 25 de Abril, apática a montante, em relação às suas causas mas decisivamente a jusante, em relação às suas consequências. Quanto a estas as divergências resultaram em muito, além doutros factores, da região em que nos inseríamos.
A maneira como genericamente os Limianos viveram o 25 de Abril foi diferente, com a expectativa própria de quem nunca se empenhou seriamente na queda do regime anterior, de quem encara a economia com tanta ou mais displicência com que encara a política e portanto não encontrou razões obvias e imediatas para se envolver.
Também, se outros já tiraram conclusões definitivas há muito, porventura muitos de nós ainda não somos capazes de assumir frontalmente o nosso apoio ou o nosso repúdio pela mudança que ocorreu. Muitos dirão que muito falta mudar, mas nem esses estão de acordo sobre a balanço a efectuar. Se as intenções de muitos ficaram sem satisfação em compensação outros aproveitaram oportunidades nunca antes pensadas.
Houve mudanças drásticas na super estrutura económica que cá não se fizeram repercutir e que se haveriam se reverter sem perca nem proveito que se vissem. Por todos os motivos falar delas é despiciendo. As mais importantes mudanças que a nossa sociedade tem sofrido derivaram da influência que outras realidades trazidas pelos meios de comunicação cá tiveram, pela influência directa da nossa entrada nas Comunidades Europeias e pela posterior adesão do nosso País ao Euro.
Estas foram mudanças para ficar, que alteraram a estrutura social, que, se nos tornaram dependentes do que vier a ocorrer noutros países, nos deram por outro lado a possibilidade de sermos actores principais, de termos um papel a desempenhar na Europa, no Mundo, enfim no futuro que temos que saber aproveitar.
O 25 de Abril impõe-se mais como o ponto inicial desta viagem pelos caminhos da civilização e pela abertura que nos permitiu sonhar, pensar, realizar e não ficarmos só por sonhos patéticos e utopias loucas que o momento proporcionou a alguns. O 25 de Abril foi a largada para esta caminhada que foi correria às vezes, se tornou passada curta em algumas ocasiões, que teve atropelos, retrocessos, falsos avanços, mas que num sempre provisório balanço se tornou vantajosa.
No cômputo geral, tirada a linha tendencial, o 25 de Abril revelou-se altamente benéfico para nós, para a nossa dignidade individual e colectiva, para a nossa afirmação como pessoas que têm direito a ser diferentes, respeitadas e com iguais oportunidades e para a nossa afirmação colectiva, como povo generoso, audaz na aventura, comedido na celebração, solidário na dificuldade e que terá vantagem em se não deixar diluir.
Pessoalmente, vendo o 25 de Abril com os sentimentos de esperança que partilhava 10 anos antes, teria que o ver agora com frustração. Na época houve uma euforia incontida que depressa se tornou entusiasmo comedido. 10 Anos depois já só restava resignação com um sentimento de alívio. E um sentimento de gratidão ao Partido Socialista por nos ter libertado de muitas dificuldades.
Colectivamente o 25 de Abril é quase unanimemente aceite como a transição possível com os condicionamentos e com as pessoas de que era possível dispor. A contestação ao 25 de Abril é hoje residual. Afinal os danos colaterais foram reduzidos perante as benfeitorias que o 25 de Abril no trouxe. A conquista da liberdade depressa se tornou sólida mediante um certo equilíbrio que se estabeleceu entre as forças políticas. Se não é a liberdade ambicionada é a liberdade possível para as nossas capacidades.
A democracia, a liberdade são hoje tão naturais que os mais jovens nunca terão a consciência perfeita do que foi necessário lutar, dos sacrifícios feitos, das humilhações e vergonhas passadas. Na política temos o handicap de nunca podermos comparar directamente, de nunca podermos voltar atrás para fazer as coisas de outra maneira, de saber os resultados que obteríamos se tivéssemos procedido a outro gosto.
A política não é o domínio da racionalidade, está condicionada pelas emoções, pelos instintos, pelas conveniências, pelas circunstâncias quando estas têm atrás de si todo o peso de uma realidade social imóvel de séculos ou influenciada pela histeria das ilusões fugazes. A história tem outras obrigações, está sujeita a outros ditames, que não o capricho ou a ignorância. E a história deu-nos razão.
O 25 de Abril já pode ser visto por esse prisma mais distante mas mais seguro. A este 25 de Abril que a história nos mostra eu direi: 25 de Abril ... Sempre! Se não nos trouxe tudo o que esperávamos, mesmo assim a este 25 de Abril que nos permite traçar uma linha com a liberdade suficiente para a irmos adaptando conforme o que o nosso juízo político mais imediato nos for sugerindo. A este 25 de Abril eu direi: 25 de Abril … Sempre!

sexta-feira, 17 de abril de 2009

O João Pereira, uma Figura Limiana ímpar

O João Pereira era uma figura ímpar em Ponte de Lima. O João da Havaneza, o João do Banco, por onde passava, o João de quem logo se falava era o João Pereira. Cedo o seu Pai, o Sr. Adélio, o Sr. Adélio da Assembleia, o Sr. Adélio do Cinema, o Sr. Adélio Tipógrafo deste Cardeal Saraiva, outra figura multifacetada e incontornável na vida social do seu tempo, o empregou na Havaneza, então a Pastelaria de referência em Ponte de Lima.
O João Pereira tornou-se conhecido de toda a gente limiana e não só, pela alegria contagiante que sempre demonstrava, passando a ser convidado de honra em casamentos e baptizados, matanças de porco e festas de anos, fosse em casa de Abades, fosse na dos Lavradores mais ou menos abastados. Animava quem com ela convivia, partilhando da sua natural exuberância e despreocupação.
Pelo conhecimento que tinha das gentes do concelho, o BPSM haveria de o vir buscar para prospector da sua agência de Viana do Castelo. Não havia comerciante ou pessoa de alguns ou poucos cobres que ele não conhecesse e a todos tratava com a mesma deferência, em pé de igualdade. Mais tarde ingressaria no Banco Borges & Irmão de Ponte de Lima, primeiro Banco além da CGD a se cá instalar, e que ele ajudou à grande projecção que viria a ter.
Era natural que não conhecesse as grandes regras do marketing, as manobras elaboradas de sedução para vender produtos financeiros, não era uma pessoa preparada propositadamente para esta ou aquela actividade comercial em particular, mas pela sua afabilidade depressa se adaptava a qualquer uma. No balcão da Pastelaria ou no do Banco a sua postura criava a confiança em todos que a ele se abeiravam.
João Pereira era amante da boa mesa, facto por alguns denegrido, mas que nele se integrava com naturalidade numa forma de viver, de estar, de conviver, enfim numa forma de cultura com cultores em todos os estratos sociais e que não deve ser isolado dos outros aspectos que podem ser utilizados para caracterizar uma pessoa. Sempre bem humorado, com uma jovialidade que a idade não deteriorou, sempre se manteve fiel às imensas amizades que foi estabelecendo ao longo da vida.
É o caso do meu Irmão António, seu grande amigo desde a infância, já anteriormente falecido e que com ele conviveu até ir para a tropa e se empregar em Lisboa e depois Abrantes. Mas sempre que cá vinha, eles reviviam os momentos passados e mantinham viva a sua velha amizade. Ambos do tempo em que muito se trabalhava, lembro-me que o meu irmão, para fazer render bem o domingo, ia à missa das sete e lá encontrava o João.
Finda a missa, iam matar o bicho ao Augusto, que a sua esposa Carminda, tia do João, já estava a fritar uns bolinhos de bacalhau para o efeito. Mas o João tinha de ir para o seu trabalho, coisa a que ele nunca virou a cara, assim como à festa, sempre que ela se justificava. Com uma bonomia quase inigualável, o seu trato impedia que mesmo a agressividade de muitos nele esbarrasse de modo desarmante e amenizador.
Sempre se manteve fiel ao ideário político que reconheceu em Sá Carneiro a quem atribuía a capacidade para interpretar o sentir nacional e gerir com harmonia e sem grandes sobressaltos uma sociedade em transição. Mas não era atreito a discutir política que saísse daquelas verdades que tinha aceite, nem a ser agressivo ou a pôr inoportunamente em causa as ideias alheias.
O João Pereira dava à política um espaço reduzido na sua vida e entregava-se ao convívio diversificado com uma sinceridade inquestionável. Quando se verifica que a vida se tornou cada vez mais um jogo de interesses, em que tudo se confunde e se compromete perante o vislumbre de uma qualquer carreira ou “ascensão” social o exemplo do João Pereira é de salientar.
O João Pereira era um livro aberto, sem subterfúgios, sem teorias rebuscadas para justificar o obvio. Assumia com naturalidade aquilo que é natural, não confundia a vida pessoal com qualquer outra vida que envolvesse interesses mesquinhos. O facto dos seus patrões terem sabido aproveitar o seu vigor e a sua vida pessoal para efeitos da sua vida profissional só são sinal do valor que ele tinha, sem necessidade de ter ido além da escolaridade obrigatória, como era normal no seu tempo.
No João Pereira tudo era claro, de tal modo que haverá detractores que salientam em tantos anos de vida um ou outro pequeno deslize ou excesso, que nunca molestaram ninguém e tinham a compreensão, a benevolência e a cumplicidade dos seus amigos.
Quem pense que um Grande Homem é um santo incolor e inexpressivo ou um nababo resplandecente e luzidio está decerto enganado. O João Pereira era um Grande Homem porque viveu a sua vida com um autenticidade difícil de igualar.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O ascendente da política sobre a economia

Duas poderosíssimas forças se digladiam, se conluiam, se harmonizam perante a nossa clara impotência. Desde que a economia assumiu o seu papel na sociedade, libertou outras forças e as pôs a colaborar no sentido de obter novos bens que não só os naturais, que a política, até aí única força dominante na sociedade, com a fiscalização mais ou menos próxima, mais ou menos comprometida da religião, vem travando uma luta inglória pela reconquista da hegemonia.
Cedo os políticos liberais e libertários se aperceberam que era necessário que a política tivesse uma independência total da religião e um ascendente claro sobre a economia, que esta se submetesse àquela, que fosse a política o intérprete dos interesses gerais da sociedade. Na realidade, mesmo que não quisessem que houvesse promiscuidade, os políticos raramente têm capacidade para resistir à força da economia.
No caso português a economia nunca teve um papel notório nem mesmo antes de Salazar, quanto mais na ditadura deste. A política sempre foi preponderante e os agentes económicos sempre foram subservientes perante ela. No entanto não era este ascendente que os políticos democráticos pretendiam ter. Após o 25 de Abril e após um pequeno período de capitalismo de Estado mal definido, até foi a política que mais contribui para que a economia ganhasse uma nova energia, se libertasse de uma tutela castradora, obsessiva.
Cedo a economia portuguesa se integrou para o bem e para o mal na economia europeia e através desta na mundial. De forma que até podemos dizer que houve sectores da economia que aprenderam bem mais depressa os esquemas fraudulentos que os processos honestos. De tal modo que a crise financeira mundial trouxe à tona da água iguais problemas àqueles que são correntes nos países mais avançados, baseados na mesma ganância, aventureirismo e inebriamento argentário.
De repente a economia parece ter ficado de gatas perante a toda-poderosa política que agora sim, parece não ir deixar a oportunidade de a submeter, à economia, a regras que a ponham a contribuir tão só para o seu fim específico. Mas nunca o será com o beneplácito da direita, ainda a sonhar com as benesses do neo-liberalismo, e que quer deixar que a economia tome de novo as rédeas do poder, se auto governe, se auto satisfaça e se auto destrua, se for caso disso.
A direita que não é suicidária estará pronta a arrepiar caminho. Mas cabe à esquerda fazer algo mais, tomar a iniciativa de lançar princípios que não sejam os velhos princípios igualitários, sem mérito e sem credibilidade, mas novos princípios que moralizem a distribuição e o uso do dinheiro. As medidas que podem ajudar a definir esses princípios são:
Começar pelo fim dos paraísos fiscais, contra os múltiplos interesses que lutam pela sua manutenção, mesmo que já se resignam a menos benesses. Depois há necessidade de tornar claras as condições do empréstimo de dinheiro e da tomada de empréstimo do mesmo. Só pode emprestar dinheiro quem o tem e só pode pedir empréstimos quem possa pagar os encargos respectivos.
Não é admissível que se invista dinheiro na depreciação de qualquer tipo de bens, sejam mobiliários ou imobiliários. O investimento tem que ser feito pela positiva e com o conhecimento de toda a espécie de riscos que sejam plausíveis, sendo que o seu grau de probabilidade será sempre uma incógnita. A economia não necessita dos complexos produtos financeiros, criados com o único fito de mistificar a realidade.
Ser proprietário não significa ter o direito a usar discricionariamente os seus bens, nem mesmo os rendimentos que deles possam advir. É necessária a consagração do dinheiro, das empresas, das organizações como bens sociais cuja utilização e usufruto devem obedecer a regras claras. Impõe-se uma gestão providencial, que tenha em conta o interesse social e o futuro, incluindo o seu próprio ciclo de vida.
Têm que haver entidades que se interessem pela viabilidade e vitalidade de cada negócio e que tenham os poderes de autorizar e fiscalizar a sua actividade, nomeadamente dos desvios que desvirtuam o fim para que cada empresa é criada. Tem de ser encontrado uma conciliação favorável entre a livre iniciativa e o condicionamento que se impõe em sectores em que a anarquia que se instala é prejudicial.
Com a criação dos negócios especulativos permitiu-se desligar o dinheiro da sua origem no trabalho produtivo e “autorizou-se” que as pessoas fizessem dele o que mais lhes aprouvesse. Sendo de todo impossível terminar com a especulação, é de todo possível impedir que os negócios assentes numa outra actividade ponham a sua própria viabilidade em risco só por quererem entrar num negócio para o qual não têm vocação.
O marxismo pretendeu criar uma relação mecânica entre o trabalho e o dinheiro. A tentativa de a levar à prática na URSS revelar-se-ia um fiasco monumental. Mas o forrobodó neo-liberal que se seguiu à queda do muro de Berlim deu no que deu, nesta crise de contornos tenebrosos. O que esta crise veio provar é que, por mais valor que os bens que hoje se criem venham a adquirir no futuro, continuará a ser o trabalho humano a fonte primordial em que vai assentar a economia do futuro.
E quem senão a política será capaz de impor directrizes para a actividade económica de modo que ela não derive para caminhos duvidosos? Como há duzentos anos se coloca de novo a necessidade da primazia da política sobre a economia. Se não forem tomadas medias quanto antes, verificaremos que o actual ascendente corre o risco de não ser senão passageiro.

domingo, 5 de abril de 2009

A igualdade de oportunidades e a inveja social

A igualdade de oportunidades é a primeira das igualdades e talvez seja a igualdade suficiente para garantir as outras. Há no entanto quem pense que a dificuldade da efectivação de uma séria igualdade de oportunidades deve levar em que se pense como, através de outras igualdades, se pode compensar essa falha e corrigir as desigualdades assim criadas.
Outros dirão ainda que a falta de igualdade não é de agora, tem gerações, e continuamente se agrava. Terá havido um momento primeiro em que todos foram iguais. Depois agrupamo-nos, organizamo-nos em tribos e clãs, em cidades e nações e voluntariamente ou não fomos perdendo igualdade, foram-se definindo funções, foram-se herdando estatutos, foi-se criando um passado colectivo e inveja social.
O Estado Moderno é uma tentativa de repor um certa igualdade à nascença e de contribuir para a não criação de diferenças radicais. Este modelo está longe de ser globalmente seguido embora seja bastante aceite. E cada Estado tem, como as pessoas, um passado representado por sucessivos gerações que confluíram, se sedimentaram e organizaram.
Do nosso passado colectivo se vai deixando um rasto, uma linha de rumo, alguma característica que pode até já já pouco dizer no presente, mas ainda representa uma reminiscência que é levada em conta em momentos decisivos, pronta a desempenhar o seu papel de influência sobre os comportamentos individuais.
Os portugueses são tidos como um povo de conquistadores. Motivo de orgulho para um povo pequeno, vivendo num território pobre e marginal. Mas nunca o senti, nunca participei, nunca me atribui esse rótulo. E se principalmente no tempo da guerra colonial me apercebi que havia quem se sentisse como tal, quem se sentisse vestindo a pele dos velhos conquistadores que um pouco à sorte deambularam por esses mares além.
No tempo da guerra colonial eu aceitava o passado, não renegava as gerações anteriores, mas sentia-me ultrapassado pelos propósitos de então, não me reconhecia neles. Era como se eu sempre tivesse colaborado, participado nas conquistas que haviam sido feitas mas, chegado aqui, tinham feito de mim um conquistado como aqueles que em gerações passadas “eu” ajudara a submeter.
Os benefícios da conquista haviam sido só para uns que permaneceram para sempre conquistadores e não para a maioria que se dispersou misturada com os conquistados. Mas ainda por cima esse pensamento de conquistador sobreponha-se à minha solidariedade para os efectivamente conquistados, o que era a pior lástima para mim.
Esta sensação de estar cá com o coração e lá com o intelecto, de não poder deixar de estar com os meus, com o meu exército, e dar razão àqueles que estão do outro lado é dilacerador para a alma lusitana. Uma nação de conquistadores é uma nação desigual, mas quando persiste no erro para além do razoável perde identidade. Uma nação que não consegue ainda estripar da sua alma essa fonte de desigualdade que a noção de conquista transporta não consegue estar de bem consigo própria.
Estar de bem passa por compreender a razoabilidade das coisas no contexto histórico em que se desenrolaram e a sua reversibilidade natural. Por não darmos aos outros as mesmas oportunidades nossas, eles conquistaram-nas, libertando-se da ignomínia. Também individualmente não estamos prisioneiros de todos os factos que ocorreram na nossa existência. Podemos compreendê-los, ultrapassá-los na medida em que constituíram entraves à realização das boas oportunidades ou tê-los em conta quando favorecem os nossos sucessos.
Só tendo a noção do nosso próprio valor saberemos se aproveitamos bem as oportunidades que a vida nos deu ou se os obstáculos intransponíveis as tornaram impossíveis. E temos de estar permanentemente disponíveis, não obcecados, para corresponder a novas oportunidades. Aquilo que nos faz andar angustiados toda a vida é procurarmos compensar no futuro aquilo que a vida nos não deu no passado. Na nossa conta corrente temos sempre um crédito imenso a cobrar não sabemos a quem.
Atribuímos culpas ao desbarato com a ideia peregrina que alguém se poderá dispor a pagar algum dos créditos que temos à cobrança. Como esta atitude não é nada compensatória, embora nós nos não preocupemos que o justo pague pelo pecador, raramente nos livramos desta esquizofrenia colectiva de que todos somos culpados e vitimas. Porque razões não bastamos nós, as nossas dificuldades e ainda temos que suportar este passado normalmente pesado no seu deficit?
Oportunidades perdidas todos tivemos, mas oportunidades que não nos foram dados foram muito mais e para muitos mais. Oportunidades únicas, irrepetíveis são poucas e os que delas beneficiaram são normalmente egoístas e mesmo gananciosos. Mas é destas que nós pensamos quando falamos de igualdades de oportunidades.
Porquê não termos sido nós a ter uma dessas oportunidades? Porquê não a podermos ainda ter no futuro? Podemos pensar assim se não cairmos na inveja social. Efectivamente esta tem nas mesmas oportunidades o seu campo predilecto mesmo que se não fique por aí. Criadas virtualmente pela inveja social imensas oportunidades ficam por surgir e as que aparecem são avidamente procuradas.
Perante a impossibilidades de todas as oportunidades estarem ao dispor de todos, só nos resta combater a inveja social e estabelecer um limite máximo para as imensas compensações que as tais oportunidades únicas podem proporcionar. Os recursos da humanidade são escassos e só têm que ser aproveitados no proveito de todos, afastando-se o egoísmo, a ganância exacerbada e o parasitismo social.

sexta-feira, 27 de março de 2009

A satisfação com o trabalho e a satisfação com o cargo

Muitos de nós tivemos a ilusão de que seria possível a existência de uma sociedade de funções em que o seu desempenho não constituiria qualquer caracterização do homem. Imaginava-se uma integração social absoluta e um respeito absoluto pela individualidade que teria a suficiente liberdade para a desenvolver. Pura utopia, é evidente.
A sociedade tal como a conhecemos permite-nos apostar em duas formas possíveis de integração e o desenvolvimento pessoal está condicionado por elas mas também por múltiplos outros factores. Normalmente damos primordial importância à independência económica, base para que possamos desenvolver outras vertentes, se assim entendermos. A primeira caracterização do homem passa pelo seu trabalho.
Numa segunda escala dos valores colocamos o papel social, realizado segundo o princípio da nossa liberdade de iniciativa e da oportunidade social, mas também muitas vezes usado somente como justificação para a nossa reivindicação de independência económica. A relação entre papel social e situação económica nem sempre é pacífica.
São duas as formas de integração social mais comuns e passam pela empregabilidade e pelo empreendorismo, mas não estaremos longe da verdade se colocarmos como suprema ambição do homem a ociosidade. No entanto a mais banal dos nossos percursos leva-nos a lutar pela preparação para o desempenho de uma função numa qualquer organização de que não somos proprietários, uma luta pela empregabilidade.
Já a existência de alguns factos favoráveis nos podem levar a desenvolver uma superior capacidade de iniciativa, mas também uma capacidade própria para manter vivo um projecto, para assegurar a continuidade de uma organização. Muitos empreendedores começam bem mas falham e a razão maior é o excesso de confiança. A satisfação que se tira é muito subjectiva, mas é sempre fraca se só passa por não estar dependente.
Porém uma das razões que dá origem a mais falhanços entre aqueles que não têm que ter “patrões” é a ociosidade. O acompanhamento que qualquer negócio exige não se compadece com uma entrega absoluta ao ócio. Poucos terão a sorte de puderem vir a beneficiar verdadeiramente deste estado que nos pode dar o tempo de reflexão que a vida normal no geral nos não faculta.
O que acaba por tocar a quase todos é pois sermos empregados. A diversidade do emprego tem aumentado continuamente. No tempo em que a agricultura era a principal actividade, os comerciantes e os artesões eram os únicos empregadores. Outros serviços e mesmo da área cultural só estavam as dispor dos Reis e de alguns poderosos.
O desenvolvimento da indústria trouxe desenvolvimento do comércio, dos transportes e mais tarde derivou para novas áreas como a energia, as comunicações, os serviços pessoais. Também as organizações se foram tornando cada vez mais complexas e portanto a necessitar de pessoas capacitadas para desempenhar funções a diferentes níveis de responsabilidade.
O emprego evoluiu de modo a corresponder a cargos e a dar às pessoas posições na escala social. Estão disponíveis aos empregados diferentes papéis sociais. A alguns são atribuídos poderes que, sendo específicos, não deixam de ser relevantes. O tipo de organização, privada, associativa ou do Estado é determinante para este efeito.
Em qualquer tipo de sociedade é inevitável que haja uma divisão social do trabalho. No geral as pessoas procuram empregabilidade, adquirem capacidades para lutar por um lugar e vir a ocupar um ou mais dos cargos disponíveis no mercado de trabalho. A adaptação das pessoas à função, ao cargo não tem que ser absoluta mas é determinante para a eficiência da organização, para tirar os benefícios do seu trabalho. Mas, não raro, estamos satisfeitos com o trabalho, mas insatisfeitos com o cargo.
Cabe aos gestores sociais preocuparem-se com este aspecto da questão, mas o imediatismo e o acaso da sorte, se vistos em termos subjectivos, são mais determinantes que qualquer princípio que se procure implementar. No geral é inglório procurarmos o ajuste certo entre as pessoas e o lugar que ela ocupa em termos de organização de trabalho e da partilha dos benefícios económicos que a actividade global nos proporciona a todos.
A realidade humana está cheia de injustiças que se reflectem no individual e no colectivo. Bloqueamos perante elas, ficamos constrangidos perante a impotência que em nós se manifesta quando nos sentimos injustiçados, mas tal passa por darmos pouca importância a nós mesmos.
O termos consciência de que esta é a injustiça primeira, o não ocuparmos o lugar em que nos achamos com direito, não quer dizer que não vivamos a nossa circunstância com o sentido de relatividade que ela comporta. Normalmente achamo-nos compensados ou descompensados de uma outra forma, mas só a maturidade nos leva a obter o equilíbrio que ambicionamos ter.
Na juventude a vivência familiar e social condiciona sobremaneira a nossa visão do mundo e nem sempre vemos as coisas com racionalidade. Dizem os velhos que falta na juventude um incentivo ao amor ao trabalho. Esta asserção simples está longe de transmitir aos outros a quantidade de informação de que necessitam para aceitarem o enquadramento em que estão ou uma luta leal por um melhor. Mas é um fim a atingir, porque é a forma mais objectiva de nos sentirmos realizados.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Os becos sem saída e o assassinato geracional

Ninguém tem dúvidas que a violência nos era em tempos muito mais familiar. Andava pelas casas, deambulava pelas ruas, espalhava-se em todos os ambientes sociais, desde o trabalho, ao desporto, à festa. Todas as ocasiões eram propícias para uma realização das pulsões que transportamos desde as mais remotas épocas da luta feroz pela sobrevivência.
Neste sentido avançou-se imenso em termos civilizacionais, de convívio e de relacionamento. Certas atitudes do passado são hoje inconcebíveis e até no ambiente familiar se tem hoje a noção clara que há limites que se não tolera que sejam ultrapassados. A cultura da violência foi substituída por outra mais generosa. Mas só o intelecto nos conduz a estas conclusões, o nosso substrato violento parece lá estar ainda.
Contraditoriamente há hoje um outro tipo de violência que se cultiva, que há forças que incentivam, aproveitando a facilidade de comunicação, desde a televisão à internet. São os jogos de guerra, a violência levada a extremos de maldade que se difundem sorrateiramente no espírito dos mais jovens e que se alojam no seu intelecto sempre que lá encontram espaço propício para tal.
É uma violência destrutiva, feita de ataques e emboscadas, de perseguições e cercos, de massacres e chacinas, muitas vezes sem par no mundo real e que só a imaginação dos espíritos mais fragilizados pode levar à prática. Infelizmente é isto que vai acontecendo a toda a hora. São pessoas maduras que eliminam a família inteira. São jovens que chacinam os colegas de estudo.
Além de haver possíveis razões que levam estas pessoas a cortar os laços sentimentais que as uniam às colectividades de que faziam parte, ou antes, levam à transformação dos sentimentos de empatia noutros de manifesta aversão, há em simultâneo uma intoxicação mental com a violência oriunda de outros meios, mas que a mente debilitada transfere facilmente para a realidade pessoal e relacional.
O carácter gratuito que a violência assume nos jogos de guerra é para uma mente sã claramente diferenciável de qualquer atitude aceitável no nosso relacionamento social. Dirão muitos responsáveis que esses jogos são mesmo um escape, uma forma de descarregar tensões geradas no dia a dia, um simples divertimento afinal.
Só que quem cultiva mais esses jogos são os menos preparados para eles, são os jovens e aqueles que não conseguem lidar com o desconforto de algumas situações em que se vêm envolvidos, não conseguem afastar aquele tipo de soluções radicais da resolução dos seus conflitos.
Mas o que torna particularmente graves estas situações é que esta cultura se desenvolve no desconhecimento da comunidade, salvo um único confidente que normalmente, por tão imaturo, não consegue ter qualquer papel dissuasor. A maioria das vezes aqueles em que se geram estes conflitos privilegiam o isolamento.
Parecendo estar na prática posta de lado qualquer proibição desses jogos, e sendo de todo impossível impedir a passagem na comunicação social e na informal de muita espécie de violência, quando pouco só pelo facto de ser noticiada, a sociedade tem de pensar em precaver-se dessas situações pela via da preparação dos jovens nesse sentido.
Em primeiro porque a diminuição da conflitualidade geral deve ser um objectivo de todos. Depois porque as suas manifestações violentas trazem vítimas inocentes e, mesmo vendo por este prisma, são no geral vítimas com uma gravidade muito desproporcional face às razões fúteis que estão na base das atitudes dos que exercem essa violência.
O facto de os próprios pais estarem de tal modo alheados dos seus filhos a ponto de ignorarem totalmente os conflitos que neles estão em gestação é o mais preocupante nesta questão. No geral tal deve-se a que os pais só contam com a sua própria experiência para acompanharem os filhos e acham que, por haver melhores condições objectivas, eles têm obrigação de serem melhores.
No geral não lhes passa pela cabeça que os filhos sejam diferentes e que não consigam resolver problemas que para si nem sequer existiam, isto é, não consideram que as condições subjectivas em que eles vivem sejam nitidamente outras. As respostas que a sociedade espera dos jovens são hoje outras. O paradigma do jovem sossegado, com tempo para se realizar, já há muito deu lugar ao do jovem inquieto com a passagem do tempo.
Não se trata de um conflito de gerações, mas tão só de um conflito de uma geração com ela própria, em que a outra pouco mais é do que espectadora. A questão que se coloca é a capacidade desta, da mais velha, para pensar a vivência da outra, a mais nova, num tempo cuja simultaneidade é a principal objecção.
A mais velha vive num quadro mental construído num outro tempo, muito menos complexo, bastante menos estruturado, com as imperfeições aceites por referência a outras perfeições hoje já não assumidas. A mais nova está a construir um quadro mental muito mais complexo e estruturado, cujas contradições se não podem manter por muito tempo e cuja falta de referências é por demais evidente.
Assim sendo parece ser mais fácil aos mais novos entenderem os mais velhos do que o contrário. Esta razão leva-os mesmo a sozinhos assumirem responsabilidades intelectuais, como se já dominassem o mundo. A persistente falta de apoio, de sensibilidade dos “velhos” para abordar os seus novos problemas é mesmo por eles negligenciada, numa auto-suficiência precipitada e perigosa que pode levar a becos sem saída.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Porquê o baixo nível de linguagem da TV?

Em tempos havia uma excessiva preocupação com o que as pessoas diziam, não fossem elas ser inconvenientes. O meio condicionava o nível de linguagem e em princípio, quanto mais letrado fosse o meio em que nós estamos integrados, mais elevado teria que ser o nível, mais aprimorada a linguagem. Mas em qualquer meio ter-se-ia que respeitar o nível mais elevado de linguagem de quem estava presente, a cujo nível intelectual se associava o nível moral.
Hoje será muito mais difícil a alguém impor um nível de linguagem quando está em minoria num determinado grupo. Em muitos meios se admite uma largueza de linguagem muito grande e há uma maior permissividade a falar do que se não gosta. Também, quando há uma grande confrontação de ideias, cada uma das partes usa um nível de linguagem inferior à linguagem coloquial. Quando na televisão produz-se uma uniformização por baixo que a todos contamina. È o resultado de uma competição pelas audiências que visa agradar a um extracto social que se presume dominante.
O sector mais activo da sociedade ainda vem do tempo da ditadura, na qual havia a imposição de uma linguagem artificial e reverencial que nos dias de hoje não é aceite. Após essa infeliz experiência muitos de nós nunca chegamos a encontrar o tom certo, a terminologia adequada, a linguagem mais próxima da verdade, mas em contrapartida tornamo-nos mais irreverentes, mais inconformistas e desagrada-nos a linguagem formal. Encenamos linguagens que não são nossas.
Podemos analisar a linguagem pelo aspecto da proximidade entre a ideia e a realidade que pretende retratar, mas também pelo lado de uma condenação moral que se pretenda transmitir. Muitas vezes é com o tom utilizado, com a seriedade ou o riso com que se acompanha aquilo que se diz que se pretende conseguir uma adesão imediata das pessoas a uma dada interpretação dos acontecimentos. E muitas vezes só se procede desta maneira para se não ser diferente.
Normalmente alguém serve de referência e ninguém quer destoar. Hoje, mesmo em grandes meios de comunicação, facilmente se conseguem apresentar histórias falsas, calamidades que não nos atingem, verdadeiras blasfémias, autênticos sacrilégios, que ninguém se atreve a desmentir, mesmo quando tem conhecimento directo da mentira que se está a montar.
Se queremos enganar as outras pessoas, deveríamos ter vergonha de sermos tão falsos. Mas isso já não funciona. O princípio da lealdade seria o mais aplicável, mas é de difícil aquisição. Ser leal é afinal uma condição que nos compromete com os outros. A lealdade implica o respeito pelos outros como seres humanos que também devem ter por nós um sentimento recíproco. É necessário ter presente que a lealdade não é fidelidade porque esta só tem um sentido.
Não somos leais com a sociedade se manifestamos uma falsa pobreza ou percas imprevistas para obter ganhos indevidos. A expressão “se não choras não mamas” é um autêntico relaxante da moral pública. Mas é a televisão, esse extraordinário veículo de transmissão, o maior instrumento desse relaxamento moral. Na televisão há um sentimento de impunidade absoluta.
Na nossa televisão prevalece o mediano, que, no caso português, se caracteriza pelo choradinho nacional no domínio informativo e por outros aspectos tornados folclóricos nas vertentes do entretenimento. Mas também há muito do domínio do péssimo. A linguagem usada na TV foi-se tornando cada vez mais alarve, como se houvesse uma competição sobre quem é mais agressivo, mais justiceiro. Ninguém está livre de ser violentamente agredido nesta TV.
A proliferação dos espectáculos miserabilistas não corresponde, nem de perto nem de longe, ao que se vive nos dias de hoje, mas sim ao que se viveu durante séculos e séculos e está na memória colectiva. É como se quisemos revolver tudo, trazer à superfície séculos e séculos de injustiças acumuladas que afectaram quase todos. Perante essas, as injustiças de hoje são bem pequenas.
Surge então um problema quando a realidade é mais séria do que se estava à espera. Habituados a gritar pelos ladrões, quando eles aparecem ninguém nos acode. As pessoas, agora que a crise está aí, escancarada perante todos os olhos, perante tantas dificuldades, parece levarem menos a sério o que é sério do que quando se falava em fantasias. De qualquer modo, se alguma personalização é necessária para sensibilizar as pessoas, quando ela é excessiva, isso torna-se doloroso e até mesmo cruel.
Nos meios de comunicação deveria falar-se sério, com um tom de voz apropriado, com uma gravidade de discurso autêntica. A entoação de grito ou de canto, os tons propositadamente condenatórios não se adequam a dar informações sobre factos que devem ser deixados à interpretação de quem vê, lê ou ouve. A gravidade da crise deve obrigar à gravidade do discurso. O sentimento pessoal é legitimamente expresso no enquadramento de comentário não no de informação.
No passado já se difundiu a ideia que o governo manipulava sempre os canais públicos de televisão. Mas, se na maioria dos países há uma orientação estrita em especial no conteúdo da informação, Portugal foge a essa lógica. Somos levados a pensar que muitas vezes a nossa televisão pública não é seguidista em relação ao governo, antes tem essa atitude para com aqueles que mais barulho faz.
Dar notícia das questões graves é uma obrigação, mas adoptar a linguagem de uma das partes do problema ou adoptar uma linguagem condenatória, justiceira, é quase sempre uma precipitação deplorável. Adoptar uma maneira crítica de ver as coisas, adaptável a todas as situações, pode ser aceitável para quem segue legitimamente uma dada orientação política. Mas dar o patrocínio a uma visão única e tendenciosa por parte de quem tem obrigação de ser imparcial é condenável.

sexta-feira, 6 de março de 2009

As novas tendências do emprego

Normalmente as pequenas empresas nascem por uma questão de oportunidade, para satisfazerem determinadas necessidades bem definidas de um mercado delimitado. Os produtos ou serviços que fornecem mantêm uma certa estabilidade, estando defendidos da concorrência por factores como custos de transporte ou deslocação, tecnologia pouco evolutiva ou que é possível acompanhar, qualidade própria e fidelização do cliente.
Durante séculos foi determinante a tradição familiar e regional, a posse restrita do know-how, o regime legal de licenciamento. Com a libertação do saber, com o fim do condicionamento legal surgiu um período de grande expansão da actividade empresarial que criou uma certa ilusão de que todos podíamos ser patrões, que todos devíamos ambicionar ser empreendedores, que algures haveria sempre uma oportunidade à espera da nossa iniciativa.
No entanto muitos factores se conjugaram para reverter esta situação, para a diminuição dos trabalhadores por conta própria e para o aumento da dimensão média das empresas e do número global de empregados. Um dos factores tem a ver com o aumento do nível de conhecimentos exigido e do capital necessário para a instalação e arranque da produção.
É mais fácil a integração numa empresa já em funcionamento do que adquirir conhecimento global do negócio, juntar as pessoas certas, correr riscos, fidelizar clientes, manter o ritmo de produção adequado ao mercado. No entanto quando se tem experiência no ramo, também se pode tornar recomendável constituir novas empresas para corresponder ao aumento de produção, para executar tarefas que se podem desligar da actividade principal ou para lançar inovações que desaconselham uma reconversão da velha empresa.
Mas o facto de haver sempre a possibilidade de criação de novas empresas não é suficiente para contrabalançar o número daquelas que morrem por exaustão, por asfixia. Factores como a estandardização e a globalização também concorrem para a produção em massa, em grandes unidades industriais, para a possibilidade de ganhos de escala, para a diminuição dos custos de produção e comercialização e para a baixa dos preços de venda que podem acabar por arruinar as pequenas.
No entanto o facto mais determinante para a diminuição do número de empresários é a forma como gerem o dinheiro da sua empresa, a acumulação de capital em geral. Muitas empresas que teriam capacidade de auto financiamento para ganhar dimensão e apostar na inovação contínua, mercê das facilidades vigentes, transferem os rendimentos para uso pessoal, seja no consumo, seja no investimento fora do negócio original e que não é do seu domínio. Descapitalizam o seu negócio com muita facilidade.
Por seu lado a acumulação exagerada de capital que se verifica na economia em geral determinou o elevado custo do dinheiro pela procura de aplicações mais rentáveis do que o financiamento directo da actividade produtiva. Só quando tais aplicações bloquearam, por sobrecarregarem ou não terem mesmo base segura de apoio, é que o dinheiro se tornou de novo barato, mas então já a sua procura tinha diminuído porque a actividade produtiva havia decrescido.
Às dificuldades de financiamento juntam-se também as exigências legais de instalação, a cada vez mais avançada tecnologia aplicada, os custos fixos de funcionamento normal de uma empresa, as necessidades de um elevado fundo de maneio e o grande período de carência até se verem lucros efectivos. Não se tratando de um nicho de mercado bem seguro, as margens de lucro são cada vez mais apertadas e dificultam o pagamento dos encargos financeiros.
As grandes empresas estão mais preparadas para responder a estas dificuldades, pelo menos as que se preocupam efectivamente com a sustentabilidade do seu negócio e não com a obtenção de lucros imediatos, com incursões noutros negócios para que não estão preparados. No mesmo ramo de actividade as grandes empresas têm tendência a vencer as pequenas e os empresários pequenos e médios muitas vezes ainda vão a tempo de serem quadros intermédios nas grandes empresas ou seus accionistas. O problema das grandes empresas é que concorrem com outras igualmente grandes.
Os factores mais influentes na evolução da actividade empresarial encaminham as pessoas para serem mais empregados e menos empreendedores isolados ou de pequena dimensão. Por isso os jovens têm que estar mais preparados para a empregabilidade do que para o empreendorismo, embora esta vertente da formação deva estar sempre presente. Em especial porque quando se perde o emprego numa grande empresa dificilmente se transita directamente para outra que fica longe, a solução é muitas vezes apostar em algo de iniciativa própria.
A livre iniciativa tem que ser defendida mesmo que só como possibilidade teórica para muitos, sem que a prática a possa garantir para todos. Só uma minoria, e cada vez menor, vai conseguir exercer uma actividade independente. A maioria de nós tem que aceitar ser empregado toda a vida, quando muito com a possibilidade de lutar por um lugar favorável na organização em que nos integrarmos e na medida em que ela nos aceite pertencer-lhe.
Durante muitos anos a ambição de muita gente foi ser funcionário público porque havia muitas razões para pensar que era uma forma diferente de emprego, entre o patrão e o empregado. O objectivo de muitos governos tem sido colocar o emprego de Estado ao nível do outro, mas é evidente que está longe de o ser, ora para o bem ora para o mal. Depois se analisará isso, mas consideremos para já que é um dos tipos de empregado que estamos condenados a ser.
A política liberal conduz às grandes empresas. Porém os liberais, tendo uma base de apoio político no pequeno empresariado, gostam de dizer que o defendem. Os socialistas resignam-se mais aos movimentos históricos que, suportados em múltiplos factores, se têm revelado irresistíveis para varrer da economia ou dar uma valor residual à iniciativa individual. Os esquerdistas exultam com a actual situação dum pretenso comunismo vindo por via capitalista.