sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Contra a insolente defesa da pena de morte

A vida perde-se estupidamente por vezes, deliberadamente noutros, criminosamente nalguns. No primeiro caso quando se deve ao desleixo, à negligência, ao desprezo pelas normas de segurança, ao voluntarismo, à indecisão. Nestas situações a “culpa” tanto pode ser de quem morre como dos “outros”, mas normalmente fica solteira.
No segundo caso a pessoa, conscientemente ou não, decide pôr termo à vida. Normalmente porque no seu espírito se instala um conflito insanável, para as solitárias forças do próprio, entre aquilo que ele pensa ser ou ter direito a ser e aquilo que a vida lhe reserva. É uma demissão perante o mundo quando esse conflito com o exterior está de tal modo interiorizado que lhe parece irresolúvel. Ninguém se mata por ter fome mas por achar que tem todo o direito a não ter forme e não encontrar solução que a sua própria dignidade admita.
No terceiro caso uma pessoa é privada da vida contra a sua própria vontade. As situações mais numerosas são aquelas em que alguém vê na eliminação do outro a única maneira de atingir os seus próprios objectivos ou fugir a uma punição eminente. Mas cada vez surgem mais situações em que alguém elimina os outros por vingança ou crueldade, mesmo quando não seja capaz de assumir o resultado e até se suicide em seguida.
O sentido de justiça humana tem lutado pela fuga à lei do olho por olho, dente por dente. Nós portugueses fomos dos primeiros a instituir um sistema diferente da pura réplica do crime de sangue. Isto chegaria tão só para justificar que continuemos a condenar a pena de morte.
Outra justificação é os muitos erros cometidos na atribuição da autoria de um crime, na gradação dos motivos que podem ir do mais fútil ao mais humanamente “justificável”. Somos emocionalmente inseguros e intelectualmente fracos para nos atribuirmos funções de juízes em matéria de tal gravidade.
Dir-se-á que, como vivemos em sociedade, delegamos esse poder no Estado e num sistema de justiça devidamente preparado. No entanto em todos os Países este se revela influenciável por pessoas e por ideias feitas, carregado de ineficácia na averiguação, na análise, na constatação da relevância social do crime, no julgamento propriamente dito.
Embora os sistemas de justiça sejam fracos e se desacreditem a si próprios pelas incoerências, pelas contradições, pelos vícios de que informam, isto não dá uma justificação para que deixemos de neles delegar, certos de que eles sempre farão melhor esta incumbência do que nós próprios a faríamos se entendêssemos fazer justiça por nossas mãos.
O que não podemos admitir é que o sistema se auto justifique. Temos que lhe impor sérios limites à arbitrariedade. Nunca lhe podemos permitir que prive da vida mesmo quem eventualmente se ache merecedor de pôr a cabeça no cepo. Aqueles que, dentro ou fora do sistema judiciário e judicial, pugnam pela pena de morte manifestam a leviandade de quem se acha infalível no julgamento dos outros. Há uma clara diferença entre ser juiz e justiceiro.
Os nossos impulsos, como resposta a agressões alheias, só são justificáveis em autodefesa e mesmo assim nunca nos livramos de que a situação se possa vir a revelar contraditória. Se nos for dado um momento para pensar, a não ser que a insolência tenha tomado conta do nosso espírito, já nos podemos achar suficientemente magnânimos para perdoar, mesmo que tenhamos a certeza que a ideia de alguém era aniquilarmo-nos.
Ao homem que lhe é dado esse momento para pensar, se não for capaz de ser digno dele, perde todas as características que o distinguem duma brutal fera.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Em defesa do Nobel da Paz

A evolução da humanidade não tem sido linear, seja qual for o prisma por que se veja. Há mais de dois mil anos que nós já vimos civilizações deslumbrantes protagonizadas por quem se tinha libertado da dependência da terra. Isto é, conseguiu-se que a terra produzisse o suficiente para o sustento dos que a trabalhavam e uma parte já substancial da sua produção sobejasse para que um grupo vasto não precisasse de lutar na terra para sobreviver.
Tais civilizações produziram saberes práticos e especulativos que nem sempre se preservaram. Por mais Impérios que se tenham construído à volta desses focos civilizacionais, eles não resistiram às hordas ditas selvagens, grupos em expansão em busca de espaço vital para os seus membros ou em consolidação dos seus próprios domínios.
Os grupos que adquiriram o controle desses vastos espaços quase sempre fizeram tábua rasa de tudo o que havia sido construído pelos que os antecederam nessas terras. Muitas vezes a vaga destruidora era tal que, para além da ignorância dos valores espirituais, sejam literários, musicais, religiosos ou outros, era o próprio património físico, arquitectónico que era ignorado.
Alguns, quando se aperceberam do valor do que tinham subestimado, já o fizeram tarde demais. Entretanto tinham desenvolvido a sua própria urbanidade, a sua própria cultura, o seu próprio estilo, a sua própria civilização. Beneficiando embora de alguma experiência acumulada que tinha sobrevivido, nem sempre conseguiram ultrapassar o patamar em que a anterior já se encontrava colocada.
A nós, tenhamos ou não avançado mais do que quaisquer outra civilização, interessa-nos saber tudo o que se passou no passado para não repetir os mesmos erros, seguir os mesmos caminhos sem saída, chegar aos mesmos bloqueios e estagnações.
Mais do que um fio condutor na história encontramos um fio de contas que empenhadamente vamos juntando, mas que nem sempre conseguimos segurar, que por vezes perdemos, que penosamente reconquistamos e recolocamos. E quando nos reposicionamos na história sofremos ao detectar falhas e descontinuidades que a imaginação não corrige.
Houve um retrocesso sempre que uma civilização agrária se sobrepôs, reestruturou os mecanismos sociais tendo por base os seus pressupostos e limitações. Demorou por vezes séculos a que novas forças, similares àquelas que tinham sido submetidas, conseguissem emergir de modo a poder estruturar uma sociedade independente e suficientemente forte para se não deixar regredir ciclicamente.
Podemos dizer que hoje há um patamar que a custo foi atingido, mas que está longe de estar livre de perigos, dado que a aparente estabilidade geopolítica assenta em critérios de força que nem todos aceitam.
Evidentemente que esta relativa estabilidades só existe porque os blocos mais fortes possuem ou compartilham o suficiente espaço vital para as suas necessidades. Há uma evolução global convergente que garante que, sem quebra de reciprocidade, se caminhe em direcção a um futuro mais solidário, sem conflitos dilacerantes.
Num mundo tão diverso, em que o homem se desenvolveu beneficiando ou sujeitando-se a uma tão grande diferenciação, as condições agora criadas, sem serem ideais, deixam-nos uma réstia de esperança de que esse futuro é possível.
Ao fazermos com que a evolução científica e técnica incida eficazmente no mundo rural, ao libertarmos daí forças para outros fins, ao chegarmos a que cada Estado dependa apenas dum restrito espaço agrícola para alimentar os seus membros, ao este negociar e permutar outros espaços vitais, estamos a caminhar no sentido da paz.
Se cada Estado vai ficando cada vez mais seguro do que lhe não vão subtrair a sua parte do espaço global já não podemos estar assim tão certos que a natureza o não faça. Por isso, antes que a natureza nos obrigue a invadir o território dos nossos vizinhos, negociemos com ela um futuro previsível para a humanidade.
A consciência dos perigos globais a que a vida na Terra está sujeita não nos pode passar despercebida e a atribuição do Nobel da Paz a quem se preocupa com este problema é sinal revelador da urgência com que ele tem que ser pensado. A ecologia entrou definitivamente nas questões que é necessário integrar e que sejam pensadas em conjunto e a nível global.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

O tempo da natureza, do trabalho e da festa

A proletarização da população portuguesa é um fenómeno relativamente recente. Proletarização no sentido mais lato de desvinculação da terra, de deixar de depender desta para o seu sustento, de fuga ao carácter cíclico da natureza, de chegada a um mundo de total dependência do exterior.
A maioria dos homens passaram a trabalhar para um indivíduo ou para uma organização em regime de exclusividade e sem outro pagamento senão o dinheiro. Alguns com mais sorte podem beneficiar com o trabalho dos outros se tiverem engenho e arte para os organizar sob a sua dependência.
O trabalho rural, seja de auto-subsistência, seja de assalariado, tem agora o carácter residual que em tempo era assumido pelo trabalho industrial. Este, associado ou integrando novas formas de trabalho, tomou o lugar primordial em termos qualitativos e quantitativos.
Podemos verificar que entre as novas formas de trabalho se pode incluir a gestão e a administração, o trabalho técnico e o operacional, o de investigação e o de manutenção, o aprovisionamento e a limpeza, genericamente todos são prestados da mesma forma do trabalho industrial.
O tempo em que o trabalho rural era entendido como o espaço normal das pessoas está quase definitivamente abandonado. Procurou-se durante demasiado tempo com medidas irrealistas, não apropriadas que o trabalho não agrícola não destroçasse o equilíbrio existente entre o homem e a natureza.
Cultivou-se um bucolismo serôdio para lutar contra a inexorabilidade do tempo. Criaram-se situações, como o sacrifício da unidade familiar, cujo corpo maior era mantido naquele espaço rural e o homem era destacado para essa actividade industrial, que não podiam perdurar sempre.
Uma ilusão se criou também para os mais favorecidos e se difundiu como verdade assumida: Seria possível disseminar toda a indústria e serviços pelo espaço rural de modo a que a família não fosse obrigada a desmembrar-se para exercer o seu trabalho e pelo menos alguns dos seus membros se pudessem manter pelo trabalho em contacto com a natureza.
Tomava-se como exemplo as indústrias de mão-de-obra intensiva, como o calçado e a confecção, facilmente instaladas no meio rural para aproveitar a mão-de-obra excedentária da agricultura. Mas esta situação revelou-se transitória e se aumentou os rendimentos de modo a reter alguma população não alterou significativamente a qualidade do trabalho e manteve a procura de trabalhos melhor qualificados e remunerados.
A tentativa de conciliação entre trabalho rural e não rural na mesma família, de modo a não a separar, mesmo que temporariamente, deu origem a uma desigualdade familiar insuportável. A interdependência é cada vez mais rejeitada, antes se busca a igualdade através da criação das mesmas possibilidades de obtenção de recursos.
Cada vez mais se caminha para o delimitar dos campos de actuação dos indivíduos e das unidades familiares, com a junção dos elementos da família no mesmo espaço de vida e de trabalho. Um dos efeitos evidentes, imediatos e irreversíveis é o abandono dos campos, a desertificação do interior.
A atractividade da vida urbana vai fazendo o seu percurso e embora continue a haver uma manifesta desigualdade nos rendimentos dos géneros, por habilitações literárias, por sectores, há uma vida social urbana que vai fazendo esvanecer essa diferenciação.
Os movimentos de regresso à terra, que por vezes se esboçam, não têm dimensão, não representam fenómenos de massas, não têm carácter definitivo, são, pelo contrário, manifestações ostentadoras, com carácter temporário, que se esboroam com o tempo.
Mesmo os investimentos que o Estado faz, cada vez menos directamente e mais através das autarquias, não tem efeitos práticos visíveis. O investimento não é reprodutivo, parece que todo se esvai no ar como o fogo de artifício das festas que cada vez mais proliferam por todos os cantos e esquinas deste País.
Afinal que maior felicidade podemos almejar que esta. O melhor do tempo é aquele que se passa a festejar, já que o resto sempre teremos que o passar a trabalhar e aí qualquer disposição serve. O trabalho é sempre um sacrifício e se podermos acusar alguém da sua dureza parece que ficamos mais aliviados.
Aquilo de que nós mais podemos acusar os políticos não é de estragarem o dinheiro, seja em festas, seja em sumptuosidades inúteis, antes é de desconhecerem o futuro ou, o que será pior, de o ignorarem deliberadamente. A economia faz o seu percurso quase autónomo e, se o Estado não nos alerta para ele, não somos nós que temos meios para o descobrir.
O homem, hoje liberto do ciclo das colheitas, não tem referências que não seja o dinheiro que possa angariar em confronto com o dinheiro dos outros e o grau de segurança que o Estado lhe possa dar.No fundo como acreditamos pouco em nós próprios, como ignoramos as subtilezas da economia, como associamos segurança a riqueza, entregamos alegremente o futuro nas mãos dos políticos e vamos à festa.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O vinho, a última resistência na nossa economia rural

Se duas pessoas fazem negócio é pressuposto ficarem ambos a ganhar. Um porque prescinde daquilo que lhe sobra para ele próprio poder vir a adquirir aquilo que lhe falta e outro possa ficar com aquilo de que necessita. Quando esta última exerce um papel de intermediação estamos perante um profissional do comércio, um negociante.
Se duas economias fazem negócio entre si passa-se o mesmo que entre duas pessoas. Mas se duas economias se interpenetram as consequências são bem mais vastas e mercê das diferentes etapas do desenvolvimento de cada uma podem provocar alterações estruturais irremediáveis.
A nossa economia rural sempre negociou com a insípida economia industrial e quase sempre em clara desvantagem. A verdade é que os agricultores sempre se arrogaram um papel decisivo na economia, afirmando categoricamente que sem eles a restante economia não avançava. E foram mantendo um certo equilíbrio graças à política agro-industrial de Salazar, que foi adiando a catástrofe.
Só que a economia global em que agora estamos inseridos não se compadece com a falta de produtividade que temos na nossa agricultura. O sector industrial e de serviços são o expoente desta nova economia que assenta sempre em produtos agrícolas baratos. Por isso contribui a seu modo para fazer evoluir o mundo rural, até porque também precisa deles para os transformar e vender, usurpando-lhe assim os dividendos.
O papel primordial, motor, da economia rural está hoje totalmente ultrapassado por essa confluência de interesses que lhe são adversos. A abertura da economia a zonas de maior rentabilidade conjuga-se com a alteração de hábitos de consumo e leva a um contínuo declínio do sector na economia total.
Hoje a economia rural está absolutamente dependente, sem poder de negociação, sobrevivendo em muitos caos com o apoio estatal nem sempre benéfico ou sequer recebido pelos seus verdadeiros destinatários. Há muito dinheiro que se perde pelo caminho, porque o agricultor está sempre em desvantagem.
A economia rural não consegue impor quaisquer margens de lucro. Embora sujeita às contingências do tempo, das calamidades, das pragas, não lhe é permitido, como outrora, repercutir isso nos preços. Não raro a agricultura é obrigada a vender abaixo dos custos de produção. Na zona de minifúndio em muitas situações não se fazem contas aos ganhos e perdas que ocorrem nesta actividade.
A economia procura “impingir” aquilo que é na sua fabricação mais barato e dá mais lucro. A cerveja por exemplo. Como a sua margem de lucro é exorbitante, ela poda ser utilizada na sua promoção, através dos mais diferentes meios mas que visem preferencialmente a fidelização do cliente.
Como há-de o vinho lutar contra tão forte oponente, entre outros? A economia não brinca, não tem caprichos, nem sentimentos ou gostos. Tem números, exigências, resultados. Produzir pelo menor preço, impor o consumo subvertendo os gostos e os hábitos.
Nós não estávamos acostumados e não nos preparamos para este mundo. Salazar tolheu-nos as pernas, o aventureirismo pós 25 de Abril cortou-nos as asas. Mas também nós fomos culpados por ter contribuído para o desenvolvimento da economia. É neste sentido que nos temos que convencer em que não podemos atribuir todas as culpas aos outros.
Também nós, como culpados, temos de contribuir para a solução deste problema. Se procuramos outros modos de vida haveríamos de saber que as velhas maneiras estavam irremediavelmente condenadas à perdição. Não o fizemos, como noutros tempos, pela pressão demográfica e pela fome mas sim pela redução comparativa de rendimentos e pela chegada até nós dos inconvenientes e de nenhuma vantagem de uma nova civilização.
O mundo rural não mais será igual na zona do minifúndio. Zonas há que vão resistindo mais do que outras ao impacto da economia mas todas acabarão por soçobrar se não houver mudanças e apostas acertadas. A economia rural entendida só como complemento não tem futuro garantido. A economia familiar constrói-se hoje na base de outros princípios e valores.
O número daqueles que são só e exclusivamente lavradores diminuiu drasticamente. Mas nem esses têm o futuro garantido porque lhes falta capital para resistir. Até estes se terão que convencer que a vulnerabilidade do sector rural não é hoje maior ou menor que qualquer um dos subsectores industriais ou de serviços, mas os meios são diferentes, na agricultura não há deslocalização e as reconversões são difíceis e morosas.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

O vinho verde na economia local e global

Hoje a economia pura e dura, sem barreiras, globalizada, tomou já conta de todos os sectores que lhe viviam um pouco à margem, imunes às suas consequências e influenciando-a muito pouco com os seus efeitos.
Mas a economia tem artes e a insídia bastante para que nada lhe fuja e para que faça valer as suas leis e razões. Aqueles sectores mais solidamente instalados no seu próprio território tornam-se afinal, por essa situação de aparente segurança, mais vulneráveis nos tempos de hoje.
De forma mais ou menos repentina a exclusividade vai-se perdendo, perde-se o mercado e até o auto-consumo. Quando um produto exterior se nos impõe pelo preço, prescinde-se da qualidade do nosso produto nem que se venha mais tarde a pagar por ela, mas já em relação a um produto exterior.
O vinho estava nesta categoria, tinha em tempos mercado exclusivo, era fundamental no auto-consumo por ser considerado um alimento, era, para todos os efeitos, parte integrante da economia familiar da maioria dos habitantes da região dos vinhos verdes.
Já antes vários produtos autóctones nos tinham abandonado como a galinha caseira (a sério), o porco malhado bízaro, e outros tiveram graves quebras na produção como o gado, em particular o de leite, o azeite, o milho, o feijão, o tremoço, a noz, a castanha.
A economia impõe-nos que deixemos cair o que é nosso. Se estamos demasiado agarrados a isso, depressa a economia arranja novos argumentos das áreas da ecologia, da saúde, até da ordem pública, para impor mudanças, para nos criar outros gostos e apetências.
Ao vinho verde atribuem-se alguns deméritos, como o excesso de acidez, a falta de teor alcoólico, o pouco tempo de vida. Este vinho é próprio desta zona de muita pluviosidade, muito nevoeiro, clima propício a tudo que são pragas, a muita vegetação rasteira, a muito custo com a mão-de-obra necessária para dar combate a todos os seus inimigos.
Ainda tem a desvantagem de nunca se ter imposto verdadeiramente para além da sua região, do seu mercado tradicional, dos emigrantes oriundos da região, daqueles que o consumiam por obrigação e dos seus apreciadores bem definidos.
O sector do vinho é, dentro do domínio agrícola, aquele que mais resistiu mas está hoje sujeito a sofrer o impacto violento mas esperado da economia global. Em particular o hemisfério sul aparece como um concorrente fortíssimo nesta área. O mais dramático é que em muitos lugares o vinho era o que restava na economia, mesmo que a mão-de-obra começasse a escassear.
Se no Douro essa exclusividade se foi criando de há três séculos para cá, na região dos vinhos verdes deu-se esse passo nas últimas décadas. Enquanto só existiam vinhas de bordadura a dependência do vinho era mitigada e só a extrema pulverização da propriedade permitia que tivesse um grande peso.
Tudo se desenvolvia um pouco anarquicamente, no sentido de não olhar senão aos interesses próprios de cada proprietário. A criação da vinha contínua veio alterar este estado de coisas, este equilíbrio da economia de auto-subsistência, de quem essencialmente não trabalhava para o mercado.
A luta pela qualidade e pelo mercado que já começou nessa fase vai-se acentuar agora. Por isso se vai impor aquilo que nunca foi feito senão esporadicamente: A selecção dos terrenos e das castas apropriadas em especial para o vinho tinto. Mas a um outro nível tem que se caminhar no sentido da imunização da vinha perante as pragas instaladas no ambiente.
Só assim haverá possibilidade de competir com os vinhos provenientes de outras regiões e do estrangeiro. A uma diminuição drástica da quantidade que não foi possível fazer voluntariamente, mas que agora se impôs por efeito da economia e a que o clima deu uma ajuda, tem que corresponder a melhoria substancial da qualidade.
Isto terá implicações inevitáveis no meio rural, na economia rural, na paisagem, no ecosistema. As terras fundeiras e mais planas ficarão em exclusivo para a produção de milho para ensilagem e de forragens para a produção animal.
As terras altas ficarão para o pastoreio e produção arbórea. As terras intermédias, ditas de meia encosta, ficarão para a vinha e forragens. Eventualmente poderá surgir alguma cultura destinada à produção de massa vegetal para a conversão em energia.
Já começou a haver, e haverá cada vez mais, terrenos em pousio, não se sabe para quê. Muitos sonham com a urbanização, com uma vaga de velhos que venha para cá viver os últimos dias. Que dinamizem a economia local e comprem umas ovelhas para apascentar no campo.
Formar-se-ão empresas de jardinagem que lhes tratarão do aspecto. Roçadoras, moto serras e fresadoras vão ser os instrumentos de trabalho mais vulgarizados. Este é o sonho de quem queria preservar artificialmente a paisagem, que já não os modos de vida.
Só que com o rendimento dos velhos a diminuir, ou pelo menos estagnar, só lhes restará retirarem-se para um asilo e deixarem o mato a lavrar livremente pelas suas terras. Já ninguém toma conta delas de graça, nem pelo vinho, quanto mais pagar renda!

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

As Feiras Novas em jeito de balanço

È ocasião para recordar aquela lenga-lenga de que a qualidade se distingue claramente da quantidade. Sendo a quantidade sinal de pouca qualidade pode trazer alguma. Já a qualidade se dilui e é absorvida pela quantidade. O que sobreleva é no final a quantidade em detrimento da qualidade.
As nossas Feiras Novas são cada vez mais a festa de muita festas, a festa da juventude que nada tem a ver com a tradição, a festa dos nossos conterrâneos que nos vêm rever nesta altura, a festa dos saudosistas, a festa dos curiosos, a festa dos feirantes.
Cada qual vive a festa à sua maneira, em diversas ocasiões, de manhã, à tarde ou à noite, em diferentes locais, muitas vezes sem qualquer ligação entre si, com músicas variadas, com intenções às vezes divergentes. Cada novo grupo que vem à festa vai alterando as suas características e a base rural está irremediavelmente em declínio.
Este facto tem influência directa no ritmo, na velocidade com que se vive a festa. As festas são cada vez mais céleres. A nós, habituados a outros ritmos, as festas fogem-nos. A verdade é que há hoje uma série de condicionantes a tornar tudo mais rápido, vivido de maneira mais sôfrega, apressada, que logo há outras coisas para fazer.
Mas uma coisa é o tempo real e outra, bem diferente, é o tempo vivido. Em termos de tempo real as festas têm aumentado, sem que isso implique um maior tempo vivido. Mas maugrado a diminuição deste impõe-se que se diminua a tempo real da festa ou pelo menos de alterem os dias em que ela decorre.
Haverá condicionantes que recomendariam que se diminua o tempo real até porque agora se vive tudo mais depressa. Para a maioria da juventude, que vive a sua própria festa, a sexta-feira e o sábado tanto basta para gastar a sua força e dar vida às suas emoções. Mas claro que a festa não é só dela, mas convenhamos que cada vez mais condicionada por ela, pela cerveja, pela massificação e globalização. Pela falta de qualidade.
Acresce que a antecipação do começo das aulas leva à debandada dos jovens e à preocupação dos pais, ao abandono da festa mais cedo, no domingo ao fim da tarde, que o sono reparador a todos espera e é preciso estar preparado para novo dia de trabalho e de aulas.
Este ano a organização contribui pela sua parte para que a festa acabasse mais cedo. O desfile taurófilo, novidade de domingo, teve três defeitos nítidos: A hora madrugadora, o percurso limitado, o tamanho diminuto. Salvou-se a qualidade dos carros alegóricos, a intenção, alguns quadros sugestivos.
Já o cortejo etnográfico de sábado foi manifestamente grande. Continua a repetir erros antigos e cada inovação que lhe fazem parece ter por intenção o seu desprestígio. De um desfile das nossas tradições mais genuínas, no folclore, no artesanato, nos modos de vida, nos afazeres, nos hábitos e costumes, corre-se o risco de não passar de um desfile publicitário.
Possivelmente, em muitos casos, não se poderá ultrapassar esta pecha, desligar os carros e o seu conteúdo de certas empresas, impedir de modo absoluto qualquer ligação a projectos empresariais, mas há situações que começam a raiar o absurdo.
As festas são feitas pelas pessoas, mas, o facto de a organização ter pouca influência no seu desenrolar, não quer dizer que esta não tenha que ter em conta os interesses destas em termos de horários e configuração dos vários espectáculos. Muitas vezes a organização já fará muito se não atrapalhar, mas o que fizer tem que ter por objectivo o número máximo de pessoas.
O fogo de artifício é um espectáculo paradigmático, grandioso, empolgante. A cachoeira integrou-se bem em tempo. Hoje, pela dificuldade na sua visualização, pelo seu imobilismo em relação ao restante fogo, pela falta de inovação, já é parte perfeitamente amputável e substituível por outro fogo.
São as festas que se têm que adaptar aos interesses das pessoas e já não estas àqueles. Para os feirantes, para os festeiros todos os dias são iguais. Para os compradores e para quem se diverte não é tanto assim. A organização não pode ter só em vista os interesses dos feirantes e da sua própria receita.
Há a disponibilidade para fazer da sexta-feira um dia de festa plena porque as preocupações que nessa altura possam existir são muito menores. Em compensação a segunda-feira, afora o carácter religioso, já não tem motivos de atracão justificativos da sua inclusão nas festas. Os actos religiosos podiam ser com manifesta vantagem noutra dia como o domingo.
A velha displicência deu lugar à azáfama, à correria. Também a improvisação tem os dias contados. Quem organiza tem de adequar o programa aos tempos das pessoas, às suas folgas, às suas disponibilidades. O tempo de todos nós é hoje medido, distribuído, pensado.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Como serão umas Feiras Novas genuínas e modernas?

As Feiras Novas, festas tradicionais de Ponte de Lima foram criadas em plena ligação com a feira, como seu complemento, que uma vez por ano comerciantes, artesãos e agricultores guardavam estes três dias para duas das actividades essenciais na vida e no equilíbrio emocional de todo o ser humano.
Nesta feira sempre se juntaram os limianos que vendiam os seus produtos aos conterrâneos e aos forasteiros ou comerciantes que vinham de fora mercadejar. Aqui se encontrava de quase tudo e se aproveitava o resto do dia e a noite para festejar condignamente a despedida do Verão.
Ponte de Lima sempre teve um espaço óptimo para este efeito. O amplo areal que se formou entre si e o rio, o Largo de Camões e as alamedas de S. João e dos plátanos chegavam e sobravam para o desenrolar do mercado, do arraial, para a instalação de todos os divertimentos que nesta ocasião aqui afluíam.
Não vai muito tempo que o espaço chegava para tudo e que tudo se desenvolvia em harmonia no tempo e no espaço. Sempre foram as pessoas que fizeram a festa, tendo os números que lhe foram sendo acrescentados contribuído para atrair cada vez mais gente.
Na verdade é que a apreciação geral, vendo-se pela atracção que anualmente é exercida, não depende por aí além das alterações que se vão operando, a festa tem “clientela” segura, uns amigos trazem outros e todos se deixam contagiar pela animação que por aqui se vai difundindo.
Onde pode começar a haver problemas é na dimensão das Feiras Novas. A improvisação já há uns anos que não vem satisfazendo as necessidades. Os intervenientes na festa já não conseguem gerir correctamente o espaço disponível e a organização tem que tomar opções claras.
O aumento da mobilidade levou a que as coisas tenham tomado um tamanho tão desproporcionado que a capacidade de absorção, de integração dos novos forasteiros, numa festa com esta tradição, nos moldes em que ela sempre se desenrolou, se tornou insuficiente.
Simultaneamente tem havido tentativas para dispersar o arraial, colocar certos eventos em zonas mais periféricas de maneira a desconcentrar nos períodos de maior afluência. Com certeza que este caminho tem que ser continuado, que o centro urbano não é elástico.
Mas ao mesmo tempo tem que serem dados passos no sentido de não deixar submergir tudo pelo comércio ambulante que aproveita todas as oportunidades para se instalar em qualquer lado com armas e bagagens. E se nós não podemos controlar os visitantes podemos fazê-lo em relação aos ambulantes.
A festa ganha com uma certa anarquia, mas perde se esta se tornar absoluta. A festa ganharia por um lado em separar aquilo que é feira daquilo que é festa. Mas tenderia por outro lado a perder algumas das características mais peculiares de uma feira que se não desmancha em três dias para que as festas se vão desenrolando no seu seio. E um balanço difícil de ponderar.
Mas talvez a separação venha a ser inevitável no futuro. E aí reside a grande divergência que eu tenho com os caminhos que estão a serem seguidos. Em vez de se ir separando a feira das festas, eliminando promiscuidades, criando espaços delimitados, vai-se arquitectando paliativos que só adiam e tornam cada vez mais difícil uma solução definitiva.
O comércio deve ser feito em zonas só a isso destinadas. Ao comércio alimentar em particular deve ser-lhe exigido o respeito de adequadas condições, não deixando que a coberto da tipicidade perdurem situações de manifesta falta de higiene. Neste aspecto a modernidade não é descabida.
Uma falsa originalidade não pode servir de álibi para que não sejam praticadas as normas que as novas exigências de salubridade exigem. Ao contrário do que se possa pensar não é a desordem e a imundice que são típicas. Aquilo que satisfazia as condições mínimas há cinquenta anos é evidente que não satisfaz as condições exigíveis hoje, ainda para servir uma clientela em maior número.
A ideia de que pode haver quem esteja interessado em acabar com as Feiras Novas não é defensável. Mas nada é estático e haverá possibilidade de melhorar aquilo que aos olhos de muitos não é já tradição mas um anacronismo incompatível com as normas de hoje.
Mas a questão do comércio alimentar é só um dos problemas que se nos deparam. Todo o comércio ambiciona estar perto da sua clientela, tão perto que os transeuntes sejam obrigados e entrar pela sua barraca. Nestas ocasiões ninguém vê que não é por tanta gente se ver comprimida que o comércio sai beneficiado.
Quando vamos para a festa não devemos levar preocupações destas. Sou daqueles que acredito no bom senso das pessoas e que elas tudo farão para que não surjam problemas de maior. Mas para quem não conhece as pessoas envolvidas há situações em que se lhes levantam muitas dúvidas. Além do mais sabemos que as soluções são difíceis mas com o adiamento cada vez o serão mais.
Vamos vivendo a festa no nosso cantinho, na nossa praça, na nossa alameda. É tempo de nos empenharmos em que a alegria a todos chegue na dimensão que cada um achar mais adequada para si. A alegria tem que ser tão natural como a cristalina água das nossas fontes naturais, porque não, como o saboroso vinho das nossas cepas.
As Feiras Novas merecem que se lhes olhe para os aspectos mais típicos, mais característicos, mais relevantes. A maioria dos de cá está receptiva a guardar a genuinidade promovendo a modernidade, para que a festa seja cada vez maior e todos aqui caibam.
Toda a gente é bem aceite, venha com o espírito de compartilhar connosco esta festa única.

As Feiras Novas são aquela Festa…

De repente um acontecimento que ainda havia de vir passava a condicionar o tempo. Já não era mais o tempo de praia, dos mergulhos nas límpidas águas do nosso Lima. Com o fim de Agosto a temperatura já diminuiu bastante, o Sol é já menos agressivo, o clima tornou-se mais ameno e apaziguador. Houve como que um abrandamento do ritmo da vida.
Nos campos a vivacidade das plantas foi-se perdendo e o espírito virou-se para as colheitas. Até os jovens parecem contagiados. Há sempre um tempo de sementeira e um tempo de colheita e todos nós nos viramos para recolher à nossa maneira o fruto de uma época de labuta.
Aproxima-se, não mais uma, mas a festa das festas, a suprema festa, o culminar de todas as festas que ao longo do ano se vão realizando. Quão inigualável é esta festa!
Não tardaria muito as aulas recomeçariam e era necessário encará-las com o espírito renovado pela satisfação de se ter vivido mais um ano de uma despreocupada juventude. O momento não podia ser mais oportuno para uma despedida e um até breve, que o tempo de aulas se tornaria mais leve.
Durante o resto do ano tudo se podia comemorar, sempre haverá razões para fazer uma festa. No ciclo da vida rural, da sementeira à colheita sempre há motivo para celebrar. Mas agora que os frutos vão ficando maduros, agora que se aproxima a necessária acomodação a um Inverno áspero e inclemente, celebra-se o sucesso possível de um ano de esforço e empenho.
Quaisquer que tivessem sido as vicissitudes por que passamos, algum ânimo terá sempre sobrado, algumas energias ainda teremos para dar vivacidade, emprestar uma alegria efusiva e contagiante a esta festa de louvor à vida. No final as nossas forças sairão mais renovadas.
As Feiras Novas são aquela festa que qualquer outra não consegue ser. O tempo é bem escolhido, é o momento próprio para a celebração. À festa não faltam as habituais pessoas de todas as Serras e Vales do Alto Minho e mesmo para além, algumas de bem longe. Chegada a época, espalha-se o chamamento.
Em crianças pressentíamos, como que pelo cheiro, o ar transmitia-nos a nova com maior velocidade que os ronceiros carros que transportavam os divertimentos. De súbito, como um frémito entre a criançada, todos os olhos se virassem para um só lado.
Era de lá, daquela estrada que bem se via do Largo de Camões que se esperava que tudo surgisse. Enfim chegaria a efectiva certeza de que a festa se faria. Para nós, jovens despreocupados, todos os anos se repetia a magia do nascimento. Se sabíamos que o arraial era o resultado da conjugação de muitos esforços, a nós só a ansiedade da espera nos ocupava.
A velha estrada de Viana era o caminho que tudo trazia e o Alto de S. Gonçalo era o nosso limite visual. Uma carroça, uma velha camioneta de carga e aí estávamos nós prontos a uma correria para confirmar se já se tratava mesmo das primeiras traves dos carrinhos, dos carris para o carrossel ou outro qualquer equipamento que viesse dar forma à festa.
Ou até, quem diria, as bancadas de um qualquer circo, que também eles cá vinham por vezes nesta altura. Anualmente visitavam-nos os espelhos que nos desfiguram, os comboios fantasmas, as motas que trepavam o poço da morte, os cavalos em que com alguma imaginação galopávamos, os carrinhos de choque, os aviões que subiam na vertical, as cadeirinhas, qual baloiço que arremessávamos pelo ar. Cada um teria a sua preferência mas todos eram bem vindos.
Fosse o que fosse o primeiro que pusesse as suas rodas no areal, já nos tinha à perna. Logo era assaltado pela miudagem pronta a ajudar à medida das suas forças na edificação da cidade fantástica de cor, bulício e alegria que nos três dias de festas nos faria rodopiar pelas suas ruelas sempre apinhadas de gente sorridente e atrevida.
Com sorte arranjaríamos umas fichas como paga de algum serviço mais leve, como ir buscar uma bebida ou chegar uns tacos de madeira para nivelar bem o que começava por serem estranhas armações que haveriam de levar em cima com ferros e madeira que dariam formas aos tão esperados divertimentos.
Se por acaso fora um circo a nossa persistência podia vir a ter o almejado prémio. Não só ver mas viver mesmo alguma da magia do circo. Até nos podiam dar por tarefa vender durante os espectáculos umas fotografias das trapezistas, uns bolos ou rebuçados ou os pirolitos de bolinha que matavam a sede de tanto rir.
Gostava sobretudo desta vida de bastidores em que tão brilhante era o frenesi de trás do palco como o esplendor colorido dos que actuavam à luz dos holofotes. Haveria sempre tempo para percorrer todas a festa, uma e outra vez, sempre se mostrando diferente, sempre novas caras, outro colorido, outra animação.
A festa dos jovens era fascinante, a sua recordação entusiasmava-nos o ano inteiro, ajudava-nos a aceitar melhor os horrores da disciplina e do estudo que tanto tempo nos ocupava. O tempo de festa era imenso enquanto durava e persistente depois de ter terminado. Era um tempo que não terminava nos nossos sonhos.
Só três dias de euforia, mas que únicos pela diversidade dos atractivos, pela liberdade impar que nos proporcionava, pela ausência de qualquer medo de perca ou rapto, eram sempre dos mais felizes que nesse já longínquos anos podíamos viver. E todos os aproveitávamos bem.
O desmontar do arraial era uma tristeza. Saber que só para o lado a festa se repetiria era confrangedor. Até que as aulas recomeçassem, lá deambularíamos por esta cidade fantasma, gastando o tempo nas barracas de bonecos que sempre ficavam mais uns dias. E quase sempre era a chuva que fazia o seu aparecimento para nos convencer que tudo tem o seu fim.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

As Geminações na defesa do nosso património cultural

As geminações entre terras de diferentes países são patrocinadas pela Comunidade Europeia como forma de proporcionar o intercâmbio de actividades de natureza cultural entre povos com passados distintos e um futuro que se quer de paz, de solidariedade e harmonia, convergente nos objectivos.
Em Ponte de Lima são já vários os casos de geminação com terras de diversos países a que nos ligam laços bem anteriores à integração europeia. Mesmo assim nem todos têm tido sucesso e pelo menos um já estará esquecido.
Talvez que a ideia dos patrocinadores não tenha correspondido uma implementação correcta e eficaz, essa geminação não tenha sido assumida e vivida pelos vários extractos sociais, não tenha sido garantida uma continuidade para além do acto institucional.
É claro que para este parcial fracasso terão contribuído uma série de equívocos. Em primeiro lugar porque, sendo a geminação feita entre terras, estas são representadas por pessoas que são transitórias nos cargos políticos e associativos que dão corpo a este tipo de associação.
Se há mudanças nas direcções e não se dá continuidade a um esforço, só porque ele foi iniciado por outros que se querem menosprezar, quando as prioridades passam a ser outras, corre-se o risco de dar origem a uma rotura num processo que, quando está no começo, é ainda muito frágil.
Depois porque os promotores são no geral emigrantes que encontram na geminação uma forma de manter os laços com a sua terra de origem ou pelo menos com o seu País. E da parte dos que por cá estamos encontra-se na geminação uma forma de compartilhar uma aventura passada que não vivemos, de seguirmos de forma mais aprazível um caminho que para eles foi de sacrifícios, quando não de pesadelos.
Esta lógica é legítima, deve ser incentivada e apoiada, mas é necessário que não só estas personagens participem no processo. Todos os elementos das duas comunidades locais, seja qual for a sua origem, devem ser chamados a integrar o espírito que preside a esta associação e incentivados a partilhar esta vivência.
O facto de haver um núcleo de emigrantes bem integrados deve ser visto como um elemento facilitador da ligação e a garantia de uma maior colaboração entre as duas comunidades locais. Também na comunidade de origem é necessário que haja um grupo de pessoas que viva esta associação mas também a divulgue e a abra a outros sectores sociais.
Uma geminação para ser de sucesso tem que ser capaz de criar múltiplos elos de ligação. O pior que pode acontecer é isolar-se numa só ligação exercida em regime de exclusividade. Sem prejuízo de uma coordenação e de haver certos domínios privilegiados, se não houver vivacidade e dinamismo, a associação, se se tornar repetitiva, esmorecerá com o tempo.
Os contactos entre duas comunidades não se pode restringir àqueles que por natureza já são semelhantes, nem sequer a uma só geração. A segunda geração de emigrantes é importantíssima porque já tem outras possibilidades de ter um melhor conhecimento e integração no espírito do novo lugar e ainda mantém alguma ligação ao lugar de seus pais.
Maugrado o diferente estado de desenvolvimento que forçosamente existe entre duas comunidades desta natureza, maugrado as diferentes características que adquiriram num passado com frequentes divergências, é possível haver uma aceitação dessas diferenças, uma vivência e uma apreço mútuo.
Uma das razões de interesse é mesmo haver manifestações culturais variadas que criam o gosto pelo seu intercâmbio. Se não fora os emigrantes quem poderia dar início a este processo? São eles que nas terras de acolhimento ganham gosto pelos seus habitantes e mais gosto sentem em que estes também tomem contacto com a comunidade que os viu nascer.
As geminações podem dar um grande contributo para que os locais compreendam melhor os seus recentes conterrâneos. Afinal há muitas mais afinidades e convergências do que pode parecer à primeira vista entre quem, com mais ou menos atropelos, foi criado a respeitar os mesmos princípios civilizacionais.
Integrado neste espírito, devem ser ultrapassadas as barreiras de certo artificio que sempre existem, desenvolvendo esforços a nível do ensino e da formação para dar a todos as mesmas possibilidades de realização pessoal. Cabe às associações de geminação reforçar pelo intercâmbio juvenil a cooperação prática, no sentido da integração e partilha de valores.
Não haverá pois grandes problemas se as novas gerações foram colocadas em contacto de modo a desenvolverem laços que dêem continuidade ao trabalho desenvolvido pelos seus pais. È importante que se promovam contactos a nível de folclore, da música, do desporto, do artesanato, da gastronomia mas é a sensibilização das famílias para acolher alunos e permitir que os seus filhos tenham períodos de estudo noutras comunidades que pode alicerçar uma geminação que perdure.
Uma forma de defender o nosso património também passa por dar apoio aos nossos emigrantes para que, à medida que vão criando as suas famílias nos países de acolhimento, não vão perdendo os laços que os ligavam à sua terra e antes os alargam à comunidade em que agora se integram. Todos os elos que se possam criar são bons para manter essa ligação e esse amor pela terra mãe.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Os Heróis versus malfeitores no movimento associativo

A nossa intervenção cívica pode ter um carácter individual ou associativo. Com este último nós cingimo-nos ao âmbito da intervenção que os estatutos da associação em que nos inserimos expressamente determinam.
Numa associação podemos dar tudo por poucos objectivos mas sermos mais eficazes. Individualmente nós podemos fazer uma intervenção mais ampla nos objectivos, menos dirigida, porém possivelmente mais dispersa, menos eficaz.
As associações, se nos podem ajudar a ter uma intervenção mais consistente, impõem-nos várias limitações. Primeiro temos que conciliar a nossa intervenção com a dos outros associados e agir colectivamente o que nem sempre é fácil. Depois dificilmente o seu âmbito e o seu estatuto são coincidentes com aqueles em que e com que gostaríamos de actuar.
Mas há associações de naturezas diversas, exigências diferentes. Umas, com responsabilidades mais viradas para os próprios membros, satisfazem interesses mais particulares e de grupo, outras, mais viradas para a sociedade em geral, satisfazem interesses mais colectivos e gerais.
Eventualmente nós podemos pertencer a mais do que uma associações que se complementam. Em qualquer uma devemos contribuir para que elas não existam só no papel, para que elas exerçam os deveres estatutários que tenham assumido e para que os seus membros participem activamente nas suas decisões e na sua concretização.
Mas todas as associações têm a sua direcção que, com maior ou menor elasticidade, define as tarefas que está na disposição de levar a cabo, dentro dos condicionalismos existentes. E a maioria delas não se abre à participação dos seus associados, fora dos actos eleitorais.
Quando por natureza são associações defensoras dos interesses dos seus membros, às suas direcções é atribuída uma maior responsabilidade porque se as outras fazem o que podem e a mais não são obrigadas, como sói dizer-se, estas são responsáveis por acção e omissão e as tarefas que podem executar são muitas vezes imprescindíveis para os associados.
São associações que muitas vezes constituem a única forma de os seus membros se fazerem ouvir. Portanto deve ser-lhes dada a possibilidade de ter uma intervenção mais directa na formulação das propostas que as direcções devem ter em consideração na sua actividade futura. Assim se deve passar em sindicatos e grémios patronais.
Mas a vontade da generalidade das direcções é que os seus associados se limitem a dar cumprimento às suas orientações sem cuidarem da sua justeza, nem sequer da sua legitimidade. Escudando-se na legitimidade do voto e relegando para futuras eleições a avaliação da sua actuação, só solicitam a participação dos associados para a execução do que a direcção determina.
Mas, se aqui estão em jogo, ou podem estar, interesses próprios cuja cautela é o próprio motivo pelo qual os associados se agrupam, em qualquer altura a intervenção destes é legítima. Se não impuserem a si mesmos uma assídua atenção aos actos directivos, estão a ser ingénuos e a demitir-se da sua função fiscalizadora.
Infelizmente quando as direcções não fomentam, nem são receptivas a um tipo de intervenção mais imediata, esta vai emagrecendo e diluindo e vai mesmo definhando a capacidade de ela mesma se fazer. Os estatutos rapidamente se esquecem, o costume prevalece.
Nas associações mais viradas para interesses colectivos e gerais a participação ainda é menor, por desinteresse de direcções e associados. Quanto menos interesseira ela for, mais protagonismo as direcções alcançam e menos intervenção têm os simples membros.
Com a demissão geral, em todas as associações podemos chegar ao ponto de só termos razões morais do nosso lado para brandirmos contra as direcções que se esquivam de qualquer modo a executar o que achamos deverem ser as suas obrigações. Mas também é com facilidade que concluímos que a direcção é a única culpada de não agir correctamente.
Mas se não nos ficarmos só por aqui, pelas razões morais, ainda poderemos concluir que as pessoas que constituem a direcção de uma associação se desviaram nitidamente de um rumo conforme às suas obrigações estatutárias e então caem no domínio do logro, do embuste. Mas coisa diferente é pormos em causa a honestidade das outras pessoas.
No entanto as associações são, pela sua natureza de organizações de difícil controlo, uma tentação para pessoas de baixo carácter. Não só baixo carácter dos que lá estão mas de muitos dos que entram depois a porem de rastos aqueles que os antecederam. E aqui baixo carácter e ganância não tem só a ver com dinheiro.A fase de mudança de direcção é sempre a mais problemática porque aí vem tudo ao de cima, com a intenção de tornar ilegítimo o que foi legítimo, errado o que foi certo, confuso o que foi linear, nebuloso o que foi claro. È muito difícil reconhecer o bem, quando este existe e às vezes são os maus que passam por heróis.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

O choradinho nacional, uma fórmula de sucesso

O choradinho nacional pode ser abominável mas é sem dúvida um desporto rentável. Não é que não haja pessoas que tiveram ou tenham razões de queixa da sua sina. Infelizmente haverá muitas com razão para lamentar a sua má sorte e que até o não fazem. Mas mais ainda são as que choram e não têm razão nenhuma.
O choradinho encarna a injustiça. Há muitos a quem as razões não faltariam para se agarrarem a ele, mas são incapazes, têm vergonha de o fazer. Os que já perderam esta vergonha, esses retocam o seu caso com as cores que mais lhes agradam ou criam mesmo um fenómeno colectivo que só eles vêm. Assim há choradinhos para todos os gostos.
Muitos escrevinhadores, opinadores, mais da Internet, mas ainda da imprensa clássica, empregam este método, generalizam casos particulares. Com teses para justificar e com medo de terem pouca razão, não suficiente para desnivelar no seu sentido os pratos da balança política, pintam excessivamente de negro o panorama social.
Há quem veja sempre a pobreza a crescer, as condições sócio-económicas a diminuírem, a descriminação social a aumentar. Os progressos genericamente conseguidos não chegam para que eles transmitam uma réstia de esperança. Mas acima de tudo está-se a ir contra a natureza das coisas ao não se reconhecer que o social está dependente do económico, ao não distinguir o individual do colectivo.
Não se pode deixar de lamentar que a diferenciação social seja cada vez maior, todos os justos o reconhecerão. Mas o progresso não é linear, há altos e baixos. Equilíbrios destroem-se, novos equilíbrios constroem-se, incessantemente, num sistema de economia aberta em que há poderosos factores incontroláveis.
As coisas não são cor-de-rosa, mas também devemos estar conscientes de que nunca o serão. Contentemo-nos em dar mais vida ao rosa, denunciando e combatendo a excessiva diferenciação, as novas formas de marginalização social, o excesso de gasto de energia, de consumo de bens escassos, a depreciação do ambiente, a obsessiva procura do bem-estar, do lazer, do prazer, da perversão.
Identificar os perigos não é necessariamente ser catastrófico. A rotura do equilíbrio ambiental, o fim dos recursos disponíveis, o prazer no sofrimento alheio, o fim de todos os valores de humanidade, de certo que, sendo uma responsabilidade global, o primeiro de todos que a deve assumir é cada um de nós, sem entrarmos em pânico nem promovendo movimentos colectivos desta natureza.
Da parte dos políticos há uma grande contribuição para o agudizar destas situações porque não fazem promessas legítimas, fecham os olhos à justiça, não incentivam o altruísmo, não promovem a colaboração. Serão mesmo os culpados, mas só enquanto membros e expoentes de um sistema que assim funciona com a colaboração de tantas pessoas e tantos opinadores.
Se não se pode deixar que os políticos adormeçam, se são os políticos que estão no poder os únicos que apetece castigar porque também são os únicos que podem sofrer de imediato as consequências da contestação, não podemos esquecer que o mal começa na falsidade em que todas as campanhas eleitorais assentam, o que compromete todos os partidos.
A pior maneira, a mais desacreditada e menos sensata, mas a mais fácil e mais disponível porque está na ponta da língua, é a promoção desenfreada do choradinho nacional que dum caso quer fazer uma calamidade nacional, que quer contaminar o ânimo daqueles que sabem que têm que trabalhar, lutar e contribuir para a sociedade para que esta lhes proporcione os meios de uma vida digna.
O choradinho é uma tentativa de desculpabilização própria, de criação nos outros de sentimentos de culpa que produzam algum efeito paralisante. Como esta doença está tão largamente espalhada, às tantas todos somos simultaneamente inocentes porque acusamos e culpados porque somos acusados. Todos sempre temos algumas razões para nos acharmos vítimas de alguma má vontade.
Afinal tivemos quase cinquenta anos a direita no poder e aí o choradinho não tinha lugar, estava ferreamente contido pelo regime político de Salazar. A miséria via-se mas não se falava dela, os pedintes deambulavam mas não lamentavam a sua sorte, os poderosos inchavam mas procuravam não ofender.
Afinal o 25 de Abril permitiu o grito dos desfavorecidos, o desmascarar de uma situação hipócrita, a abertura de novas perspectivas de justiça. Mas parece tão mal que no salazarismo quase ninguém tenha sido capaz de verter umas lágrimas e agora haja gente de direita que promova, com manifesta injustiça, o verter de tantas falsas lágrimas a querer dar a ideia de uma pranto geral.
Não podemos permitir que uma nítida hipocrisia seja substituída por outra, agora com possibilidades de abrirmos bem os olhos e ver a realidade sem disfarces e fantasias. O saco lacrimal, se estava cheio, deve ser esvaziado doutro modo. Nada mais prejudicial para quem tem razão que esta nuvem criada por quem tem intuitos mal definidos.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

A crítica superficial e sem seriedade

A crítica superficial é a que mais prolifera na praça pública. Não só porque as nossas capacidades para entender, fazer alguma coisa ou contribuir de algum modo para mudarmos a realidade são limitadas mas porque há forças politicas apostadas em que assim seja e outras, quase todas, que disso se aproveitam.
Como há muita gente a pensar imediato, é fácil encontrar o número suficiente de pessoas para dar a certas afirmações jocosas uma ressonância despropositada. Quem dos meios político/jornalísticos acha que isso lhe será favorável reforça em meios mediáticos aquilo que corre nesse imediatismo fácil.
Não faltam pessoas que já tenham verberado esta situação. Mas por mais que tenham gritado que assim não pode ser, que se não pode recorrer à crítica fácil e na ponta da língua, ao insulto e à frase achincalhante, assassina, pretensamente hilariante, não se vêem melhorias significativas.
Não chega, se é que isto leva a lado algum. Afinal são vozes de quem é a primeiro objectivo deste deita abaixo. Este jogo persistente em que o facciosismo está sempre presente, ora se bate para uma lado ora para outro, está enraizado de forma bem segura na alma nacional. Os críticos de hoje sabem ser os candidatos a criticados no futuro. E ninguém se parece preocupar seriamente com isso.
Depois há aqueles tão versáteis que estão sempre do lado dos críticos. Uns por debilidade mental, por interesse em agradar, outros que assumem uma pretendida superioridade de quem julga ter solução para tudo. Há gente que está sempre a ver o grotesco nos outros e não olha para as tristes e mesmo miseráveis figuras que faz. Para esses os outros falham sempre.
Mesmo quando temos sérias e honestas razões para criticar e até gostaríamos e veríamos com bons olhos que os outros criticassem também aqueles ao lado dos quais, à falta de uma opção melhor, nós estamos, somos obrigados a demarcarmo-nos de certas críticas assentes em argumentos errados e assim desonestos e maldosos, sem fundamento.
Pugnar pelo aperfeiçoamento dos mecanismos sociais, pela gestão equilibrada da coisa pública, por fazer prevalecer a solidariedade face ao egoísmo reinante, passaria por uma crítica que tivesse em si os argumentos que se auto-justificassem, no sentido de se conseguir melhor politica, melhor ambiente social.
Haverá gerações para que isto mude. Mas se estamos à espera que as condições sócio-económicas mudem para que este panorama psíquico melhore, para que as dúvidas que assolam os espíritos se esvaziem, nunca mudarão o suficiente para desarmar esta chacota parva em que todos nos deixamos levar, à falta de melhor para passar o tempo.
Incrivelmente, quando já julgávamos ter alcançado uma situação há anos impensável e que satisfaria as pessoas que estão eram as protagonistas, tudo cai por terra e a insatisfação ressurge nas novas gerações persistente e indomada. Que é feito dos nossos conhecimentos? Quem está encarregado de os transmitir?
A principal condição do aperfeiçoamento do nosso conhecimento ou ao contrário da manutenção deste espírito medíocre de crítica acéfala é a forma como se exerce o ensino e a maneira como é reproduzido a nível dos meios de comunicação. É que o conhecimento se desenvolve mais rapidamente do que o nosso entendimento individual é capaz de acompanhar.
Todos aqueles a quem não chegam as capacidades para a explicação da realidade se deixam tomar por essa verborreia imensa que lhes esvazia a alma. O jornalismo é arrastado, a honestidade intelectual não é paga e mesmo nos órgãos estatais campeia a crítica mais descabelada e patética. Também se obriga o governo e as câmaras a darem espectáculo para verem passar a sua mensagem.
O império das audiências e das leituras faz com que, por mais intelectuais em que nos armemos, por mais séria que queiramos que seja uma discussão, se nela não encontrarmos umas partes que nos ponham a rir, já não achamos graça nenhuma e para a próxima possivelmente não nos apanham a ver ou ler.
Enfastiamo-nos facilmente e só guardamos aquilo que podemos utilizar para a chalaça, a tirada fácil, o insulto soez. Damos pulos de contentamento se descobrirmos nos outros uma brecha, uma réstia de descontinuidade de que, no nosso entendimento, podermos fazer um caso grave de incoerência.
Vamos persistindo com raiva e desfaçatez em perseguições teatrais na busca de roupa suja para espalharmos de forma acintosa no estendal mediático. Quando a bola de sabão tiver dimensão razoável já ninguém olhará para quem lhe deu origem, para os seus defeitos e propósitos.
Passamos a vida a chamarmo-nos ignorantes, parvos e outros mimos ainda mais agressivos, a hipocritamente pôr nos outros a defesa dos valores económicos quando a economia é de todos e é o coração, o cerne e a seiva da nossa vida. Relativizamos tudo, até a liberdade e a democracia, conforme as conveniências de uma retórica balofa e sem sentido.
Todos temos a pretensão de saber de todos sem desvendar os nossos interesses e objectivos. Conforme as nossas necessidades argumentativas, assim vamos atacando os outros e colocamo-los despudoradamente a defender as proposições opostas às que nós efectivamente defendemos.
Para nunca estarmos desarmados, organizamos um catálogo de tiradas bombásticas que nós vamos arquitectando e tornando disponível para arremessar, qual fumo atirado aos olhos alheios, quando não sabemos ou não queremos responder às questões legítimas que nos colocam os nossos adversários.
Com um número razoável de proposições verrinosas montamos um cerco à pessoa que desejamos derrotar de modo a perturbá-la, condicioná-la e fazê-la assumir afirmações que nunca terá feito ou corroer-lhe o ânimo. No fundo os fracos só se limitam a copiar quem dá o exemplo, os poderosos.
Humilhamo-nos sem necessidade, por perversidade, por gosto. É um jogo desleal, ignóbil, ardiloso, cobarde. Mas é nesta cultura de espertismo e de ofensa à inteligência que nos sentimos bem. E, para cúmulo, raramente ganhamos algo com isso, o que não favorece a bondade da questão, mas que lhe dá um aspecto fútil.
Vamos percorrendo caminhos velhos sem despertar para a novidade e o futuro. Não abrimos horizontes de liberdade e inovação, antes investimos na subserviência e no atavismo. A mantermos as nossas divergências neste patamar de acusações não conseguimos sair do passado, se é que o queremos.
Isto leva-nos a evitar o diálogo e a remetermo-nos a uma trincheira. Em vez de abrir fronteiras construímos barreiras. Trocamos o gosto pela vida pelo gosto de desagradar. Em vez de expandir a claridade fechamos a luz. Aviltamos o homem, de modo algum o nobilitamos.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Estudar é fácil com uma boa gestão do tempo e das expectativas

Quando se coloca a matemática como o campo em que se separam os inteligentes dos espertos não se está a prestar grande contributo para a melhoria do seu estudo porque, a aceitar-se que assim seja, na sociedade a esperteza é de longe mais favorecida. E até os alunos já sabem disso.
Mesmo que se não trate de saloia esperteza não é precisa grande argúcia matemática para multiplicar proventos, benefícios e recursos. O discernimento necessário está mais no bom aproveitamento das oportunidades, na escolha certa dos lugares e dos relacionamentos, na experiência transmitida e adquirida, dons e atributos que devem ser aproveitados em benefício de toda a sociedade.
A matemática também tem vários níveis e cada um tem valor próprio e suficiente para cada objectivo a atingir. Mas a matemática só é verdadeiramente valorizada para tirar cursos vantajosos, para aquilo em que é imprescindível, que no restante os alunos se vão deixando levar pela fuga a um esforço exagerado. A matemática fica a perder no confronto com a esperteza.
Entende-se no geral que, se a matemática não for absolutamente imprescindível, o tempo que se lhe pode dedicar pode constituir uma perca sensível comparativamente à sua utilização no estudo de outras áreas e até noutras actividades económicas ou sociais.
A matemática é assim susceptível de arranjar pessoas que lhe são indiferentes e outras que lhe têm manifesta aversão. E este argumento, além de influenciar muita gente, com o passar do tempo cada vez mais peso tem, que, para recuperar o atraso, vai ser necessário mais tempo quanto mais ele vai escasseando.
Para que o problema não entre irreversivelmente neste plano inclinado, da diminuição progressiva das possibilidades de inversão da situação, de deterioração das condições psicológicas de estudo, quando não há uma clara simpatia pela matemática, é imperioso colocar em marcha outros factores que possam influenciar o aproveitamento escolar genérico e especifico.
O problema, visto pelo seu aspecto mais básico, está ligado à gestão que cada qual tem que fazer do seu tempo. O estudo tem de ser tido em conta nessa gestão e não tem a ver só com inteligência e esperteza mas também com o ambiente familiar, a motivação induzida e a gestão das expectativas dos alunos.
O ambiente familiar é determinante para estimular uma gestão adequada do tempo, conciliadora do estudo e das “distracções”, uma aceitação incontestada da ordem familiar e de todas as ordens que lhe são correlativas, como a escolar, da disciplina e do rigor. Embora parte da responsabilidade deva ser delegada pela família na escola, esta não se pode substituir àquela.
Só que, além de que os familiares dos alunos poderem ter outros problemas mais visíveis e que lhes absorvem a atenção, podem não ter capacidade para lhes mostrar a necessidade do estudo e em particular deste. Além disso podem tornar caótica a sua própria gestão do tempo, atribulada a gestão dos conflitos familiares, transmitir a instabilidade, a inquietação, a marginalidade.
A ausência de uma base familiar sólida, capaz de firmeza e com flexibilidade bastante, só pode ser suprida em parte por acção do colectivo escolar, sendo que, não raras vezes, um professor é suficiente para desestabilizar e tornar o ambiente de toda a escola, como é percepcionado por ele, hostil ao aluno ou demasiado permissivo.
É um trabalho complexo dependente da preparação dos professores e de outros agentes do ensino em que aqueles que estão habilitados e psicologicamente preparados nem sempre vêm o seu trabalho facilitado por acção da inépcia, da inveja e da sabotagem de pessoas mal intencionadas e irresponsáveis.
E é um trabalho melindroso que tem que visar a conciliação da dinâmica familiar com a dinâmica escolar de modo a que, para se evitarem roturas aqui se não vão criar roturas na família. Uma intervenção emocionalmente desequilibrada pode criar mais problemas do que os que resolve.
Só esporadicamente aparecerão alunos que consideram a escola/ensino como um refúgio e vivem bem com uma situação familiar deficitária. Também poucos, nas actuais circunstâncias, mesmo que sob a influência de uma família disfuncional, criarão uma aversão absoluta à escola.
As situações mais melindrosas são as situações extremas em que a integração em grupos agressivos na escola são um escape para um desequilíbrio emocional gerado na base familiar. De igual modo pode acontecer se a família se dedica a actividades marginais, mais atraentes para a imaginação juvenil.
Este trabalho é para equipas devidamente preparadas para o efeito, mas a acção individual dos professores pode contribuir e, nos casos mais normais, pode ser suficiente para induzir nos alunos a motivação necessário para o estudo, pelo menos na sua área específica.
Uma das áreas em que podem actuar é na gestão das expectativas, ora para conter as expectativas exageradas trazidas dos meios familiares ora para alargar o leque das possibilidades ao dispor dos alunos. São as expectativas que geram os impulsos e condicionam a emotividade
Uma turma equilibrada não é aquela em que todos os alunos são todos bons ou todos são uma lástima. Uma turma equilibrada é aquela em que há uma gestão equilibrada das expectativas, sem que no aspecto lectivo tenha que ser um contra todos e todos contra um, aquela emulação tão fácil de implementar.
Aliás a complementaridade é muito mais importante na formação humana e social do que uma pretendida homogeneidade, reprodutora da diferenciação social e geradora de uma competição desumana e frustrante e criadora de “monstrosinhos”, chamo eu a seres egoístas e avarentos.
O trabalho mais importante, muito para além da gestão dos exageros, uns desmontáveis outros nem tanto, é a recuperação das expectativas entretanto abandonadas, o incentivo às expectativas realistas que possam levar a uma integração social sem traumas e sem humilhação. O jovem é uma pessoa em permanente risco.
A matemática desempenha um papel fulcral por ser fonte de muito desencanto, de muita frustração, de muito abandono. Também o seu ensino deve ser encarado no sentido de manter o equilíbrio entre aqueles que querem e são capazes de mais e aqueles que, não querendo, têm que ser incentivados, e, não sendo capazes, têm que ser ajudados.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Como ter um poder autárquico insuspeito

As estruturas partidárias são indispensáveis a nível nacional mas cada vez mais vistas como um mal necessário, o que faz que a nível local já quase sejam vistas como dispensáveis, tanto pelo eleitorado como pelos presumíveis candidatos a candidatos. Mas claro que só até certo ponto.
Se verificarmos raramente aparecem candidatos genuinamente independentes. Os que se habilitam a exercer cargos autárquicos são normalmente indivíduos que já fizeram parte de partidos mas que foram marginalizados e excluídos ou se auto-excluíram.
Utilizaram os partidos para adquirirem visibilidade, experiência e, quiçá, alguma sabedoria, conseguiram alguma projecção na opinião pública e influência através de amigos e correligionários, adquiriram um peso político próprio que lhes permite pensar que serão capazes de voar sozinhos, sem necessidade de rede que os ampare e bússola que os oriente.
Mas para se ser “independente” não é necessário abandonar os partidos. Na verdade seria pressuposto que, uma vez eleitos, os autarcas mantivessem um certo vínculo partidário no sentido de prestarem contas e receberem orientações de quem os indicou para o exercício de cargos públicos. Na realidade isto não se passa e geralmente, uma vez eleitos, todos passam a funcionar em roda livre.
O que seria necessário era garantir um outro tipo de independência que raramente existe. Continua a exercer-se quase genericamente uma influência ilegítima que tem a ver com favores pessoais e partidários. Aos autarcas convém manter a ideia que existe influência, que estão a defender valores partilhados pelo seu partido, mas não curam muito de saber da legalidade do que fazem.
A independência indispensável não colidiria com a obediência a princípios orientadores de que os partidos devem ser os fiéis depositários. Porém a debilidade das estruturas destes a nível local permitem que mais depressa aqueles princípios sejam apropriados e distribuídos por quem exerce alguma forma de poder e avaliados pelos critérios subjectivos de cada um.
Os partidos nada fazem para alterar este estado de coisas, para separar a orientação política da execução prática porque sabemos quão difícil é pôr alguém a dar suporte a quem executa o que bem entende e pôr alguém a executar o que outros decidem como lhes apetece.
Esta separação é sempre entendida como dando origem, não a um trabalho de colaboração e convergência, mas a que uns se imiscuam no trabalho dos outros e se constituam alternativas conflituantes, surjam lutas intestinas pelo poder, no fundo divergências mais de forma do que de substância.
A impotência dos partidos para acabar com esta salgalhada leva a que muitos políticos a invoquem para se desligarem de responsabilidades, para se tornarem independentes, o que na verdade nunca vêm a ser de forma mais pura do que aquela de que já são. Não há mesmo pior independente do que o ressabiado, aquele que culpabiliza os outros pela pouca importância que lhe foi dada.
Mas a população em geral gosta disto, que seja dado azo a que ela mesma possa manifestar a sua quota-parte de ressentimento porque, quando vota, gosta mais de ter em conta os motivos para votar contra do que as razões de um voto a favor. Na verdade os partidos também usam a mesma lógica e quando a não usam, quando utilizam o discurso mais positivo, são penalizados por isso.
É sempre preciso vincar bem que os outros são incapazes, fazem tudo ao contrário. É a lógica da demarcação, da criação clara de barreiras, da definição dos campos em que nos colocamos, que todos adoramos, nem que no dia seguinte estejamos a dizer que gostávamos que todos rumassem na mesma direcção.
Por isso os partidos se não preocupam em apresentar grandes propostas, não privilegiam grupos de estudo, não incentivam o trabalho de grupo. Para quê se, chegados às eleições, os eleitores não ligam nada a isso, preocupam-se mais com aqueles aspectos que, não sendo evidentes na acção política, gostam de ver realçados nesses momentos e que passam pelo dito demarcação e perfilhamento?
No fundo o que a população já compreendeu é que qualquer independente, daqueles ex-partidários com um pouco de experiência, serve para exercer um cargo autárquico, que afinal nada mais é pedido aos outros, àqueles que mantém a ficha no partido, garantia apenas de poderem ter um melhor acesso.
Mas na minha opinião votar nestes independentes é contribuir para o folclore e não fazer nada contra a degradação, a promiscuidade entre o poder económico e o político, a demissão da intervenção política das pessoas que, se não for através dos partidos, na maioria dos casos também se não fará doutra maneira.
Também se podia dizer que os candidatos para não serem partidários, nem individuais, deveriam partir do esforço conjunto de associações, o que lhes daria a vantagem de terem um vínculo mais flexível de que os partidários, sem ter o excesso de flexibilidade de um individual.
Só que as associações têm elas próprias uma maior amplitude de respeito pelos princípios estatutários que facilmente pode ir de fundamentalismo mais exacerbado à permissividade mais irresponsável. Uma associação só dá as garantias à sociedade que os seus associados activos estiverem dispostos a dar.
Por isso aparecem pessoas a quererem constituir associações ou a se integrarem noutras e a quererem dar-lhe um domínio de intervenção claramente excessivo e inadequado. O que pretendem é usá-las como trampolim, fazendo valer o seu peso específico com a repercussão transversal assim obtida.
Também aqui temos uma outra categoria de independentes que, porém, por força da cada vez menor intervenção cívica das pessoas e de pouca qualidade da sua intervenção, está em evidente desaparecimento e desacreditação.
Em suma teoricamente a melhor maneira de resolver a questão seria serem os partidos a indicar os candidatos a dirigentes autárquicos mas estes, uma vez eleitos, tornar-se-iam independentes e enquanto exercem essa função deixariam de integrar estruturas partidárias para não terem coberturas acríticas.
Todos estariam em certa igualdade e privar-se-ia o poder local de influências ilegítimas. A haver desrespeito pelos princípios defendidos pelos partidos os candidatos só seriam penalizados na recandidatura a novo mandato. Se houvessem pressões ilegítimas durante o mandato elas também seriam mais facilmente desmascaradas. Afinal o recandidato não precisa do partido para nada.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Como pode ocorrer a mudança na C.M. de Ponte de Lima

No panorama político limiano é comummente assumido que o futuro passa inevitavelmente por aqueles que já tem experiência no executivo autárquico e vá lá que alguma experiência, mesmo como vereadores a tempo inteiro, já a tem alguns elementos das três forças políticas mais representativas: o P.S., o P.S.D. e o C.D.S.
No P.S.D. tudo se encaminha para que o seu candidato seja o seu actual líder e ex-autarca João Barreto, que satisfaz aquela condição. Haverá poucos interessados em fazer frente a este potencial candidato, a não ser que António Martins, a eminência parda, desenterre alguma nova surpresa da sua cartola.
No fundo o P.S.D., a manterem-se as coisas como estão, vai resignar-se a esperar que um dia a direita se una e o C.D.S. lhe deite a mão. Entretanto procura sedimentar-se à volta de um núcleo duro de históricos que, embora tendo no geral dado fraca conta de si como políticos e gestores, salve-se o líder informal, procura agora ir juntando alguns novos trunfos.
No P.S. não parece nada viável que qualquer uma das pessoas que já exerceu lugares de vereação a tempo inteiro venha a assumir uma candidatura, estando porém o actual vereador sem pelouro Jorge Silva, mercê de um trabalho aturado e persistente, só lhe faltará a necessária visibilidade para ter óptimas condições para vir a ser um candidato a ter em contar.
Dizem que no P.S. há históricos que pretendem renascer, mas não lhes auguro grande futuro. Há sempre quem tenha a visão estreita da política como um fonte de benefícios e qualquer cor lhe sirva para atingir um objectivo. Há quem nunca tenha beneficiado do campelismo porque não lhe foi dada a importância que presumia ter e pode, pensando ter chegada a sua vez, chegar-se ao P.S.
Não há guardiães do templo e todos poderão aderir. Mas, a não haver uma renovação consistente, o P.S. corre o risco de ver perder todo o trabalho que está a ser feito e de ficar num dilema de ser tomado ou por anteriores derrotados ou por arrivistas ou por uma aliança dos dois.
O P.S. é um partido vulnerável, sem apoios regionais ou nacionais, com muita gente próxima, mas sem motivação para aderir e que só a custo se integrará. É necessário um corte com o passado em que desempenhou, quando lhe deixaram, o papel de acólito e de mestre-de-cerimónias de outra força política substancialmente diferente e chamar a si um papel afirmativo e bem demarcado.
Perdeu os votos a partir de 1989 quando do voto táctico em Fernando Calheiros e Daniel Campelo, perdeu a alma a partir de 2001 quando dos diabólicos acordos Campelo/Guterres. Não será fácil conseguir agregar um conjunto vasto de pessoas credíveis, capazes de defender um projecto perdurável que se saiba não estar dependente de conjunturas exteriores, nem de malabarismos interiores.
È que não falta gente, pronta a alinhar pelo P.S.D. ou pelo P.S. que queira agitar as águas, mas não o faz, nem sabe como o fazer. Este tipo de gente que exerce um efeito paralisante, porque espera sentada que factos menos correctos sejam trazidos à baila, não deixarão de pretender aparecer na primeira fila a querer reclamar alguma gratificação pelo nada que fizeram.
É necessário implantar na vida pública princípios de seriedade e rigor, fazer partilhar as ideias, oferecer colaboração institucional e ter lealdade para quem corresponder do mesmo modo. Mas a cultura que se instalou em Ponte de Lima é antes favorável ao chico-espertismo, o desenrasque de cada um, ao recurso aos amigos, aos conhecidos, aos favores políticos e outros.
Não é que esta cultura, por natureza situacionista, seja um exclusivo do C.D.S. de Ponte de Lima, porque tem defensores por esse País fora, mas em Ponte de Lima tem sido aproveitada com mãos de mestre e com a ajuda da televisão, para prosseguir uma política desconexa, festiva mas suicidária.
Este interesse televisivo é mesmo a manifestação clara que há aqui algo errado, que certo não vejo o quê, e as estrelas televisivas são o que são. Mas Daniel Campelo, como estrela com lugar assegurado no firmamento televisivo, corre sereno, consciente de que tem na mão o seu futuro, caia ou não Paulo Portas, suba ou não Abel Baptista.
As iniciativas que promove são todas patrocinadas pelo seu único e exclusivo critério, a que os seus vereadores se têm que sujeitar para terem algum lugar no palco mediático. Contidos na sua projecção própria, cirandam à volta do líder, louvam-lhe o gosto, despem-se de quaisquer ideias que os seus espíritos possam conceber, se é que ainda geram alguma.
Os seus papeis são diferenciados como convém a um bom líder que escolha a sua gente meticulosa e friamente, tratando de lhes podar os ímpetos de rebeldia. Quem lê o “Foi Assim” de Zita Seabra não encontra grandes diferenças com Álvaro Cunhal. Assim sendo não há a preparação de um sucessor, de alguém que agarre a “obra” e que a diga sua, porque isso nunca corresponderá à realidade.
Aliás nenhum líder tradicional se pretende clonar, não seja o clone melhor do que ele, sequer tão bom. E que se saiba até hoje Daniel Campelo só procurou caixas de ressonância, que se acha suficiente para o trabalho que tem. De herdeiros não vejo nem bons nem maus, vejo vereadores funcionalizados sem qualquer peso político, que não vá além do tradicional caciquismo.

Porque fazer da matemática um drama?

Não precisamos de ir muito para além do conhecimento empírico mas estes Americanos são uns desconfiados e vai de fazer estudos e mais estudos que eles queriam saber porque raio de razão hão-de ficar atrás dos Japoneses nesta questão das matemáticas.
E vai de chegar à conclusão que do talhado para a dança dos números até ao mentecapto, perfeitamente incapaz de fazer algo a dois números, seja qual for o sinal que os ligue, vai uma gradação contínua, pelo menos enquanto não houver correcções genéticas e inseminação artificial generalizada.
Não era coisa que não soubéssemos, que em teoria assim seria, mas na prática há países que apresentam melhores resultados no ensino e em particular o Japão, sem tal se dever a razões genéticas. Foi um descanso para a consciência americana quando, pelos estudos realizados, se chegou à conclusão que os Japoneses só conseguiram distorcer a sua performance matemática durante o período de ensino e com reflexos cada vez menores nos cinco anos seguintes.
Recomecemos para melhor percepção: As capacidades das pessoas são muitos semelhantes em quase todos os países com características parecidas em certos vectores, como o desenvolvimento médio e outros que aqui não interessará especificar. Grosso modo há uma norma de 20 % de pessoas predispostas, 20 % de tolerantes, 20 % de resignados, 20 % de renitentes e 20 % de relapsos.
Os adjectivos que eu utilizo dão bem a ideia do sentimento estritamente pessoal que cada pessoa assume nesta relação com a dita. Este sentimento pode, nos extractos médios, ser objecto de alguma intervenção das condições ambientais de modo a fazer tender a balança para um dos lados. Melhorando no caminho da excelência ou piorando no caminho da mediocridade.
Os Americanos queixavam-se de não sair da reles mediania. Os Portugueses queixam-se de não sair da pior mediocridade. Os Japoneses esses conseguiram, com uma grande dose de empenho e espírito de sacrifício, distorcer para melhor o seu panorama matemático, reduzindo drasticamente o número de péssimos e fracos e aumentando significativamente os excelentes e bons.
Como prémio de consolação os Americanos ficaram a saber que este resultado não é eterno e que aquela norma dos 20 % é para durar, na medida em que os alunos que conseguem melhorar a sua performance no ensino se não derem a devida prática aos conhecimentos adquiridos nos cinco anos seguintes, voltam ao nível médio que os Americanos com menos esforço conseguiram obter.
Como os conhecimentos adquiridos não o devem ser só para efeito documental, do dito canudo, mas para habilitar as pessoas ao exercício de uma qualquer actividade exigente, essas pessoas, utilizando-os, preservam-nos ou melhoram-nos mesmo com o tempo. A nós, como pior não podemos estar, restar-nos-á esperar também que as coisas não piorem depois do ingresso no mundo do trabalho e aí se consiga evitar a erosão natural dos conhecimentos ou na melhor das hipóteses alguma melhoria.
A melhor preparação matemática tem resultados económicos evidentes, maugrado a economia ter muitas outras linhas a cozê-la. Todos em Portugal acham que seria provável que um esforço determinado nesta área poderia ser determinante no acesso a outro patamar de desenvolvimento. A questão está em saber onde se deve aplicar esse esforço: se nos alunos, se nos professores ou será nos políticos?
As explicações para os nossos resultados medíocres estão ao nível das explicações para o nosso abandono escolar. Este, em grande percentagem, deve-se à criação de aversões enigmáticas e parece irreversíveis a algumas disciplinas, entre as quais o lugar de topo é ocupado pela dita.
Haverá pois que prevenir atempadamente o surgimento dessas rejeições, tarefa que, a não ser desempenhada pelos pais, tem que ser desempenhada pelos professores. Porque, se os pais não incentivam, só em certos casos, com graves anomalias familiares, atrapalham.
Pelo contrário existe uma grande percentagem de professores que atrapalham e não é pouco: Aqueles que foram alunos medíocres, aqueles que exercem outras profissões, sendo a de professor um part-time, aqueles a quem só lhes resta a vontade de dizer mal do Estado que lhes paga de modo principesco, entre outros.
Assim como o aluno não pode ser incentivado a abandonar o sistema de ensino prematuramente, antes de ter conseguido atingir um mínimo ao alcance das suas capacidades, também não deve ser estimulado a achar-se incapaz de progredir no conhecimento matemático a níveis razoáveis, o que os professores fazem, declarando-se incapazes de inverter a situação dentro do sistema.
A dificuldade inerente à matemática está provado ser ultrapassável, dependendo tão só do esforço que cada um possa despender no seu ensino. Se só está ao alcance fácil de um em cada cinco alunos está provado. Mas também o está que muitos outros têm capacidade com um pouco mais de esforço de chegar a bons e mesmo excelentes níveis. Haverá uma minoria que digamos “nem a martelo” mas convenhamos que isso em nada diminui essas pessoas.
Entre o excelente, o bom, o razoável, o mínimo e o péssimo, nem todas as pessoas vão ter necessidade durante a sua vida de utilizar sequer os conhecimentos que têm. Depois a sociedade tem lugar para todas essas pessoas. Além disso uma pessoa nunca está só numa sociedade em que, pelo menos teoricamente, haverá sempre funções complementares.
O papel da matemática é uma parcela no todo do saber e só será nefasto se, atrás de si, forem negligenciados outros saberes que da mesma só partilham uma dose muito reduzida. Pode ser contraproducente tanto empenho num só ramo por poder fazer tombar toda a árvore ingloriamente, antes mesmo de dar frutos.
O melhor seria um esforço global que nos alcandorasse acima da nossa proverbial displicência, abaixo da qual estão alunos e professores. Restará aos políticos formularem teorias coerentes assentes em organizações capazes.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Políticos, os catalizadores da nossa impulsividade

A Europa Ocidental é na nossa perspectiva a zona do mundo que age menos por impulsos, que mais tenta antecipar os problemas e encontrar novas soluções menos dolorosas, mais benéficas para todos. Procura controlar a impetuosidade de outros intervenientes sem fazer alarde da sua força.
No plano interno a Europa Ocidental ambiciona ser um espaço de liberdade em que este tenha a mais vasta possibilidade de afirmação. Cada vez mais os cidadãos europeus se consciencializam que há valores de que eles são os mais fiéis depositários e pessoas que, por mais criticadas que sejam, são as encarregues de os pôr em prática, os políticos.
Já não há um poder abstracto e sem responsáveis, valores resultantes de apriorismos incontestáveis, submissão incondicional a líderes naturais. Há poderes concretos, delegáveis, valores permanentemente testados, políticos removíveis, responsabilizáveis e sem impunidade.
A verdade é que o papel dos políticos tem sido posto em causa, pela irracionalidade da sua organização, pelas muralhas criadas à sua volta, pela dificuldade de acesso à sua responsabilidade directa., pela sua quase impunidade prática, mas daí a estabelecermos uma imputabilidade geral, a que hoje muita voz pública os sujeita, vai um perigoso passo.
O mal-estar gerado por esta entrega do nosso destino a um número limitado de pessoas, pelo facto de não estarmos mais sujeitos a desígnios superiores à nossa vontade colectiva e de estarmos sós na nossa tomada de decisões tornou os políticos em catalizadores do nosso des/contentamento.
Em relação aos políticos criamos uma proximidade que, no geral, não deixa de ser virtual, mas que permite que sobre eles descarreguemos os nossos sentimentos mais negativos ou mais positivos, conforme a ocasião. E, como os negativos prevalecem, o som de fundo mais audível é o da contestação e muito do trabalho do político é de preparação para se manter imune a ele.
Com razão ou sem ela a nossa bílis vai-se descarregando sobre as personagens mais marcantes do panorama político, mas cada vez menos há possibilidade de essa descarga ter efeitos directos. Se os políticos fossem sensíveis a todas as vozes ficavam paralisados.
De qualquer modo nós ficamos aliviados, a nossa impotência justificada, os nossos falhanços ressalvados, transformados em falhanços colectivos, as nossas expectativas de algum modo conformadas, as nossas opções tão só reduzidas ao mal menor.
No fim temos sempre uma opção a apresentar em alternativa a esta: O mudar de políticos. E aí, na impossibilidade de irmos buscar fora da Europa políticos mais impulsivos, que pudessem queimar umas etapas no glorioso caminho do usufruto indiscriminado de todos os bens, temos de nos conformar a mudanças mais limitadas, mais sensatas e mais plausíveis.
Na política há muita coisa a mudar, mas mais ainda na organização do Estado, no qual políticos e não políticos, parasitas e gente incapaz estão incrustados há muito, minando a sua credibilidade, fazendo batota, ocupando o tempo com jogos de influência e tráfico de informações.
Os políticos são necessários, imprescindíveis e insubstituíveis. Mas o seu campo de acção tem que ser drasticamente limitado porque há sempre quem não resista, a ocasião faz o ladrão e onde houver bom pasto há tentação de ir comer a erva tenra. Em Portugal impõe-se uma clara diminuição da parte do Estado sobre a influência directa dos políticos.
Os políticos têm que ver perdido o seu poder de dar cobertura aos seus apaniguados, sejam políticos ou outros, ou pelo menos seriamente restringido. Os políticos não podem enxamear a máquina do Estado de pessoas comprometidas, nem podem ter poder sobre todos os que lá estão.
Em contrapartida, os políticos têm que ter poder bastante para pôr em execução as suas medidas. Mas, se esse poder tem que ser reforçado, também tem que ser exercido através de outras vias que não as partidárias. Os políticos não podem ter outros apoios que não o dos órgãos legítimos da administração.
Os políticos não podem ter a desculpa de terem uma administração incapaz, ineficiente, obsoleta. Mas acima de tudo não podem ter o boicote, a fuga à responsabilidade, a apatia dos seus agentes. Mais do que noutros países em Portugal esta é uma verdade evidente. O facto de quase todos terem um apadrinhamento qualquer dá origem a dormirem sobre o seu cargo.
Não podemos é virar a nossa ira só para um lado, numa altura para os funcionários públicos, noutra ocasião para os políticos, noutro momento para os empresários ou para os trabalhadores em geral. Podemos, sem dúvida alguma, dizer que é todo o sistema que funciona mal.
Podemos exigir tudo aos políticos, mas demos-lhes as armas necessárias para as intervenções que terão que ser feitas noutros sectores para que possam ter algum sucesso. Afinal é sobre eles que nós temos algum poder, porque todos os outros ainda são mais esquivos do que eles.
Não podemos aceitar aquilo que já se tornou um espectáculo nacional: O ver os políticos dançarem, ora agora uns, ora depois outros, sem coragem para fazerem roturas ou deixando-as a meio. Muitos não o farão por comodismo, mas porque não sentem do povo o apoio necessário. Afinal os últimos responsáveis somos sempre nós, eles catalizam tão só os nossos impulsos.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Como não alimentar a nossa inveja

No relacionamento humano há um sentimento que valoriza as relações mais afastadas e inquina as mais próximas: a inveja. Naqueles que vagamente conhecemos e/ou com quem mantemos relações distantes e virtuais facilmente encontramos motivos de admiração que subtraímos ao lodaçal do sentimento da inveja. Os próximos são sempre piores.
Em quem, senão nos que utilizam o mesmo caminho que é o “nosso”, havemos de alimentar a nossa cobiça? No entanto, se há quem queremos que confie em nós são precisamente os que partilham esse caminho. Normalmente, porque os queremos ao nosso lado, escusamos de lhes manifestar qualquer rivalidade.
Até que é a interactividade que permite que se crie uma emulação salutar, como base para dar bons resultados. Mas é a proximidade que leva à aversão ou ao desrespeito dos outros. Por isso muitos, quando são suficientemente independentes, se afastam e isolam de relações que suspeitam serem potencialmente geradoras de inveja. São as pessoas avisadas que se retraem nos relacionamentos e os restringem ao essencial.
Porém nós não podemos assentar a nossa vida nesta desconfiança permanente. Temos que saber conviver com ela, exorcizá-la ao máximo mas ser realista. Alguma inveja é sempre inevitável porque ela é apanágio das sociedades livres em que nós queremos viver.
Paradoxalmente no regime de Salazar a inveja não despontava facilmente. Quase todos se sujeitavam a aceitar o seu lugar pré-estabelecido. Éramos humildes e resignados mas só o éramos à força.
Hoje a inveja é dos tais sentimentos sempre latentes, ora incómodos ora prontos a explodir destemperadamente em caso de grave conflito e/ou quando acharmos conveniente. È a inveja que muitas vezes nos faz pôr mal dispostos por não podermos negar a sua existência mas nos dá força para lutar.
De qualquer maneira é possível falar do invejoso como aquele, secretamente ou não, faz da inveja o principal alimento da sua vontade de vencer, de ultrapassar os outros e que utiliza o seu eventual sucesso de modo mais egoísta do que seja considerado normal.
Em liberdade qualquer um pode sonhar “subir na vida” com ou sem respeito pelas regras sociais. Mas o invejoso quer é mesmo subir na vida e leva essa liberdade ao extremo, torna-se exacerbadamente individualista ao ponto de só acreditar em si e de estar sempre alerta, não vão os outros passar-lhe à frente.
Que se cuidem aqueles que se cruzem no seu invejado caminho, é o pensamento do inveterado invejoso, no seu fraco entendimento. Porque invariavelmente ele leva a sua avante. Tem um estilo que lhe permite estar bem na sociedade ou nalgum grupo mais restrito e mais permissivo.
O invejoso procura o “bom” relacionamento social. Aí sempre poderá conseguir os apoios que lhe faltam, mas sabe que vai encontrar resistências. Pelo que não descura o “mau” relacionamento, mesmo que a desgosto, na necessidade que sente de suprir a falta daqueles apoios.
O invejoso, pela sua sensibilidade ao antagonismo, tem imensa dificuldade em manter amizades, principalmente se não encontra receptividade para que lhe alimentem o ego e não vê de onde possa vir ajuda para os seus planos ascensionais. A contra-gosto vai tolerando manifestações de indiferença, mas ser repudiado é que ele não tolera.
Tudo se agrava se quem ele “quer” que se comporte como seu submisso apoiante toma destas atitudes. Quem se coloca fora dos seus planos reais ou virtuais de poder ser utilizado como apoio à sua ascensão pode vir a ser vítima da sua raiva. Não só descarta as pessoas que lhe “falham” mas até as toma por traidoras mesmo que nunca tenha feito qualquer pacto com elas.
Este invejoso é aquele presunçoso que sempre que pode se envolve numa teia social. Ambiciona a liderança mas mede bem os passos que dá. Carece de aliados e dá-se bem nos círculos em que vigora o elogio recíproco. Mantém quanto pode escondido o seu jogo e nunca o abre à totalidade dos seus confrades. Preguiçoso, está sobremaneira preparado para ocupar o vazio.
Este invejoso, no seu mercadejar constante, não conhece a lealdade. Coisa pouca ou nenhuma afinal no seu universo de valores. Tudo para ele é temporário e quebradiço. Às quebras dos comportamentos esperados dos outros chama traição, às suas inflexões chama conveniências.
Actuando sempre sob reserva mental, abre o jogo só àqueles de quem precisa no momento. Nunca prescinde do lugar que já tenha ocupado. Se pode armadilha o caminho aos outros. No geral porém é imprudente ao subestimar exageradamente a força dos seus opositores.
Este invejoso designa-se popularmente por “cão que não conhece dono”. Assume facilmente a postura de dono para exigir subserviência. O impudor e a arrogância até o levam a confundir qualquer outro sentimento mais nobre com este, sinal de que nunca pensa retribuir
Em relação a algumas pessoas que poderiam ser incluídas nesta classificação, a nossa reacção, se pode assumir a reserva mais arreigada, não deve ultrapassar a simples desconfiança, o normal “estar de pé atrás”. Temos de achar o equilíbrio entre não deixarmos que a suspeita viva permanentemente no nosso espírito e não nos deixarmos passar por parvos.

Quem serão os próximos candidatos autárquicos?

Em Ponte de Lima o P.S.D. sempre foi o Partido mais votado em eleições legislativas, mas nunca o foi para o mais importante órgão autárquico, a Câmara Municipal. Porém dos quatro primeiros mandatos democráticos o P.S.D. não se poderá queixar porque foi um fiel aliado do poder, concorrendo em separado ou integrando as listas do A.D.. Claro que se sujeitou a aceitar papéis de segunda, mas já não foi mau.
Quando pela primeira vez tentou fazer valer nas autárquicas os votos auferidos nas várias legislativas, socorreu-se das pessoas que integravam o anterior mandato do C.D.S., mas essa estratégia não veio a ter sucesso.
Nessa eleição ainda houve um certo equilíbrio, que se foi perdendo à medida que os centristas foram minando as bases de apoio social-democrata nas freguesias, conseguindo a progressiva e despudorada transferência de quase todos os presidentes de junta.
Daniel Campelo entrou em cena nesta ocasião, primeiro como vice-presidente depois como presidente, sendo estas duas eleições vencidas tangencialmente. Para isso contribuiu sobremaneira a generalizada aversão ao cavaquismo que tomou o P.S.D., como forma de estar na política, e que haveria de indispor o próprio Cavaco Silva e levá-lo a abandonar.
Sendo os candidatos do P.S.D., bem como os seus mais notórios apoiantes, pertencentes àquele grupo manipulador, a chamada esquerda fez desta tentativa de monopólio social-democrata o objectivo a derrotar e elegeu Daniel Campelo em detrimento de uma participação própria.
Nem sempre as opções populares se vieram a revelar as mais correctas. Uma grave perca para Ponte de Lima, que viria a ser a do Queijo Limiano, haveria que servir de trampolim para que Daniel Campelo ascendesse ao estrelato mediático. Como facto nada acrescenta em termos de valor, porém é um grande trunfo eleitoral que com mão de mestre tem sabido aproveitar.
Ainda por cima o P.S.D. apostou em repetentes para opor às duas primeiras candidaturas de Daniel Campelo. Este foi alargando o seu espaço, mercê do Queijo e dos dois votos a favor da passagem dos orçamentos do segundo mandato de Guterres. A oposição restou atordoada.
A inoperância, a demissão, a volatilidade, a incompetência de uma oposição deslumbrada, inconsequente e mais preocupada com os interesses egoístas dos seus membros, levou ao seu quase total apagamento. Também o P.S., recuperando embora um vereador, haveria de ser representado no anterior mandato por quem pouco mais fez que ser um mestre-de-cerimónias.
O P.S.D. limitou-se a sonhar em fazer renascer a A.D. e por essa via pôr um pé no executivo. O fim de Santana Lopes foi o fim desta expectativa nunca cumprida. Tudo está hoje em suspenso e dependente da evolução partidária a nível da direita nacional. E neste domínio tudo é imprevisível.
Os habituais aprendizes de feiticeiro vão fazendo as suas previsões e, na penumbra, é natural que os pretensos candidatos se vão perfilando na tentativa de, a caírem as coisas para o seu lado, eles já lá estarem, prontos a avançar.
Mas em vez de previsões nada plausíveis, seria bom apelar a uma participação imperiosa no aspecto cívico, independente de ambições e das ideias que se defendam. As candidaturas serão para depois mas não se sujarão os pergaminhos de ninguém se se vier a constatar que as suas ideias não chegam para passar a esse patamar.
Não vão aqui surgir milagreiros caídos do céu. Entristece-nos ver a politica limiana andar à volta de pessoas de que se não conhece uma ideia, que não conhecem quaisquer princípios de gestão, seja financeira, urbanística ou patrimonial. Que não têm sensibilidade para os problemas humanos.
Estamos numa sociedade muito vulnerável ao aparecimento de indivíduos aureolados das mais diversas maneiras. Porém muitos deles, por mais justificação que exista para este facto, não estão minimamente habilitados para a gestão municipal. Essencial é ter uma visão estratégica, fundamentada e exequível. E não ter interesses encobertos.
No domínio da preparação todos terão que partir praticamente do zero, que não há uma escola, uma prática aceitável, sequer uma experiência capaz. Ninguém é hoje senhor de dominar todos os aspectos da gestão autárquica. As Câmaras cada vez menos tratam só de cimento e alcatrão, embora estes ainda sejam importantes, e mais de aspectos sociais, educacionais e de emprego.
Seria bom que não surgissem só pessoas com exacerbadas ambições pessoais, mas sim gente disposta a dar a sua colaboração cívica sem curar de se colocar antecipadamente como dona de algum dos blocos de partida antes disposta a trabalhar em equipa, sem ideias pré definidas.Sabe-se que os primeiros a aparecer são aqueles que querem aceder ao poder municipal para os seus jogos de influência e que só avançam se virem que estão ao lado do cavalo ganhador, ou pelo menos, daquele que, sendo mais fraco, é o único que se apresta a dar-lhes guarida, porque actuam por ressaibo ou têm uma velha ambição que vem de pequeninos.