sexta-feira, 22 de junho de 2007

Quem tem direito a atirar a primeira pedra?

A busca de reconhecimento social assume diferentes importâncias para as distintas pessoas e nos diferentes ambientes que constituem o todo social. Também cada pessoa em si lhe atribui diferente valor nas várias etapas da sua vida. E acima de tudo em cada momento cada um vê o seu reconhecimento, e o reconhecimento que faz dos outros, por prismas diferenciados.
Normalmente a plausibilidade do reconhecimento depende do respeito por aquilo que em cada momento é considerado mais válido pelo senso comum. Pelo que não é de esperar grande reconhecimento quando os nossos valores conflituam com os prevalecentes na sociedade.
Mesmo assim, e ainda bem, podemos ver serem tolerados ou aceites valores contraditórios no domínio pessoal e social. Porém esta situação nem sempre satisfaz os objectivos das pessoas. Em alternativa não raro recorremos à falsidade baseada na discrepância total entre aquilo que é importante para cada um e aquilo que cada qual faz transparecer como tal para os outros.
Muitas vezes ocorre a situação de se instalar no nosso espírito a dúvida entre cada uma de duas atitudes das mais próximas no espectro das reacções que podemos esperar da parte do grupo social ou da sociedade no âmbito do qual “queremos” actuar. Entre a rejeição, a tolerância, a aceitação e a plena integração social há um vasto leque de hipóteses a considerar.
Nunca pode ser aferida com precisão e a cada momento aquilo que é mais consensual na sociedade. Nem mesmo podemos ter certezas sobre muitos dos valores que se dizem patrocinados pelo Estado ou por outras organizações transmissoras de valores que interferem na vida social. Não raro os seus diferentes componentes estão em desacordo quanto a aspectos fulcrais.
Este tipo de dúvida surge muito mais facilmente no espírito das pessoas esclarecidas e sinceras do que entre os ignorantes e os falsos. Estes últimos não têm tempo para estas lucubrações. Agarram-se às certezas que consideram suficientes para os ajudar a obter o que ambicionam ter e preocupam-se só em ter um grupo social com que se identifiquem e que lhes possa servir de apoio. Os mais capazes destes obtêm mesmo apoios fora dele.
Mas o facto de termos dúvidas não nos pode inibir de tentar influenciar os valores sociais que achamos que devem ter uma solidez bastante no domínio da sociedade. Pode ser mesmo uma questão de sobrevivência porque mesmo as pessoas que estão de paz com a sua consciência, por julgarem estar a corresponder àquilo que é socialmente mais valioso, não raro são vítimas indefesas da perversidade, dos volte faces sociais.
O conflito permanente entre valores pessoais e sociais torna-nos vulneráveis pelo que devemos ser cautelosos, sem ser calculistas, nesta questão crucial para a nossa vida que é termos de percorrer com maior ou menos regularidade o percurso entre a confrontação, a condescendência, a convivência e a vivência irmanada.
A procura de uma estabilidade dinâmica, que não prescinda da procura de avanços para os valores que mais prezamos, é pois a melhor postura que podemos assumir perante a vida e a sociedade. Mesmo que saibamos que esta não valorize sobremaneira este modo de agir e no seu “egoísmo” nos queira agrilhoar a uma postura estática e de preferência subserviente.
Nós temos direito de mudar, de nos adaptarmos, de intervirmos e, se nos é imposto um limite, ele deve ser o princípio da lealdade para com aqueles com quem convivemos regularmente. Este princípio é porém caracterizado por só ser válido se for reciprocamente aceite.
Aos valores sociais não se pode exigir qualquer lealdade quando nós os não partilhamos ou não reconhecemos aos outros a sua representação. Este princípio é pessoal, embora possa ser alargado às pessoas que o partilham.
Porém a natureza das diferentes relações sociais que estabelecemos, suspendemos e reatamos levam-nos a não podermos partilhar com a maioria dos outros qualquer convergência, se não casuística, em relação a princípios.
O facto de ser para certas pessoas quase um constrangimento estar a pensar e abordar estas questões não se podem inibir de o fazer. O embaraço de muitos que estão mais sujeitos à exposição pública é porém compreensível. É mesmo legítimo não gostar de que se ponham em causa princípios basilares da sua vida mais pessoal, mas não o é proibir que os outros o façam.
Existem aqui princípios que, mais para além do que a lealdade, devem ser aceites por todos: ser humano, humilde e condescendente. Há elementos de falsidade contidos em muitas vidas que lá estão contra a vontade consciente dos que as viveram. Mas por isso não podem ser branqueados, como não devem ser usados para humilhar ninguém. Quem tem direito a atirar a primeira pedra?
Normalmente nós, se gostamos de uma pessoa e a adoptamos até como exemplo a seguir, condescendemos com ela do mesmo modo como faríamos em relação a nós próprios. Porém se não gostamos dela somos intolerantes e exigimos a ela aquilo que estamos longe de exigir a nós mesmos.
O único aspecto que podemos lamentar é não gastarmos, para pensar os outros, o mesmo tempo que gastamos para os endeusar e adorar ou para os denegrir e aviltar. Nem mesmo nos chega dizer que queremos para os outros exactamente o mesmo que queremos para nós próprios. Ninguém acredita nisso.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Corrupção, suborno, influências, como combatê-las

Corrupção, suborno, chantagem, acesso a informação privilegiada, uso de informação reservada, aproveitamento de influências ilegais, de tudo se vê um pouco por todo o lado, associando os detentores do poder, seja em representação do Estado, seja de organizações sociais, com gente igualmente sem escrúpulos, desonesta, sem dignidade.
Pela vastidão deste universo, quase nos custa levantar o dedo para alguém. ¿Porquê a uns se há-de tornar vítimas, se são muitas as hipóteses de apanhar os pequenos e poucas as hipóteses de apanhar os grandes corruptos e não há quaisquer umas de apanhar a grande maioria?
São muitos os organismos onde há imensas irregularidades porque se facilita e confia bastante ou porque a fronteira entre o legal e o ilegal é ténue. Aí nunca funciona qualquer “direito/dever” de delação. Terá que haver quem por profissão o faça com legitimidade e, embora só podendo abarcar uma parte diminuta da realidade, sempre exercerá um efeito dissuasor.
Se as pessoas souberem que houve uma denúncia, ganharão ódio ao denunciante, na vida social este sai penalizado. As pessoas ainda não compreendem que se seja pelo Estado contra os particulares, mesmo que estes desrespeitem todas as regras que os outros aceitam e defendem.
Mas se forem os serviços, por sua iniciativa, a pôr cobro a uma situação delituosa ganharão mais credibilidade, aumentará o respeito, aqueles que nunca respeitarão pelo menos atemorizar-se-ão. É necessário haver regras mas essencial que haja quem as faça respeitar.
Haverá sempre quem tente passar as malhas de qualquer rede de controlo desde que o risco compense. È o que se passa com o contrabando e o tráfico ilegal de estupefacientes. Quando se consegue diminuir ao benefício, diminui-se necessariamente o delito.
Também haverá sempre quem nos supermercados roube pequenos objectos de pouco valor porque há taras para tudo. Mas este prejuízo já está previamente assumido e não é por isso que nos devemos tornar um País de delatores.
O Estado no entanto não pode prescindir a favor dos particulares de parcelas significativas da actividade económica, que serão sempre apetitosas para quem seja menos escrupuloso. Também não pode legalizar o que não o pode ser, só para que não seja tão atractivo.
A única saída para o Estado só pode ser castigar severamente aqueles que, estando na parte de cima do edifício social, dão a sua cobertura, escondem, ilibam, decidem contra a lei. Quer se tenha ou não a convicção de que é por aí que se pode acabar com o crime, é essa a expectativa das pessoas.
São estes comportamentos que mais difundem o crime, como possibilidade “normal” de obter benefícios. São alguns dos criminosos deste tipo que ocupam o topo dos vários aparelhos de poder (autárquico, futebolístico, etc.), que se pavoneiam nas televisões e são endeusados na sua terra.
Muitos tornaram-se ídolos das multidões por falarem mais alto, de modo mais troante. Já estão calejados mercê de uma actuação sistematicamente marginal, mas as pessoas adoram-nos. Bamboleiam-se na corda, mas ganham resistências inesperadas. Põem à luz do dia a impotência do Estado.
Como não ter pena daqueles que fazem tentativas desajeitadas para usufruir esporadicamente de algum bem? Daqueles que pouco ganham com o crime, nem são exemplo para ninguém? Os “bons” exemplos estão lá em cima.
Ao contrário do que hoje acontece, o sistema legislativo e o sistema judicial devem assumir claramente que este tipo de pessoas só é ilibado por ter uma boa “integração social”, mesmo que seja um exemplo desprezível.
O nosso sistema aposta muito nesta vertente da integração social e deve-a prosseguir para que os criminosos não socialmente inseridos sejam integrados. Mas não pode utilizá-la como álibi para ilibar os que já estão socialmente integrados por estarem na parte superior da pirâmide social.
Se o facto de ter amigos não quer dizer que se não mereça a cadeia, também o ar de normalidade atribuído a certos crimes, como o económico, tem que ser combatido. Não é pela falta de legislação exigente, mas é a grande compensação que se pode obter com a fuga a certas obrigações sociais, como os impostos, que torna estes crimes “bons” e cria apetência para tornear a lei.
Se há crimes “acessíveis” a todos, há pois “bons” crimes só possíveis aos poderosos, socialmente bem inseridos. Por exemplo, a informação valiosa que corre em círculos restritos só chega a quem é conveniente que chegue. Aos fracos nunca será permitido dela beneficiar, serem corruptos.
As redes de interesses que se espalham por corredores, gabinetes e salas de jantar estão bem oleadas, rapidamente de reconstituem quando atacadas, contaminam quem se aproxima, apanham os mais prevenidos. Pode-se apanhar uma ponta, mas a maioria da rede permanece impune. Trata-se pois de um combate que tem que ser persistente, consistente e também preventivo.
Seria necessária firmeza, decisão, para que saíssem de cena muitas destas personagens, para trazer alguma decência à nossa vida pública. Se “alguns” poderosos fossem castigados, a punição social se encarregaria de os erradicar do palco mediático e até deixariam de ser exemplo para os fracos.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

As impressões que se trocam nas filas de espera

Quase todos nós odiamos as tradicionais bichas, as filas que se desenvolvem um pouco por todo o lado. Elas formam-se para apanhar o autocarro, marcar uma consulta médica, mandar uma encomenda pelo correio, fazer pagamentos nas finanças, ser atendido no banco, até para levantar dinheiro no Multibanco.
Umas são devidas à burocracia, outras ao tradicional deixa andar até à última hora, coisas que eventualmente se corrigiriam, mas outras há que não têm fim à vista. Por exemplo a fila para comer num refeitório, até num restaurante.
Hoje em dia até há um novo tipo de fila de espera que ocorre na Internet sempre que utilizamos um servidor obsoleto cuja lentidão deriva da grande quantidade de tentativas de acesso para uma capacidade limitada. Estas são particularmente chatas porque, embora nos não obriguem a estar de pé, nos põem a olhar para o visor sem hipótese de interactividade. Até desconhecemos o nosso lugar na fila e por isso o seu fim.
Acho que a cara com que encaramos qualquer fila é sempre igual, mas aqui não vemos os concorrentes/companheiros de jornada e não podemos trocar umas impressões com eles, que isto de conversas não é para este terreno movediço que repentinamente até nos pode colocar em filas diferentes, que o mesmo é dizer, podemos deixar de nos ver.
As impressões que trocamos nestas ocasiões estão como que a meio caminho entre o vazio, a ausência de qualquer contacto ou ligação e a conversa que assenta em ideias partilhadas ou que se querem construir no sentido de fortalecer qualquer contacto ou estabelecer uma ligação duradoura.
Mas nem as impressões ou conversas chegam para colmatar uma falha que nós atribuímos à organização e que nos deixa sempre pendurados, sem estarmos previamente preparados para ocupar o tempo. O estar numa fila só serve para criar ansiedade desnecessária.
Este problema resulta em muito de normalmente não irmos para uma qualquer fila com quem queremos, é quase sempre uma incógnita que se nos depara. Só numa fábrica, num escritório será possível criar hábitos de se juntarem as mesmas pessoas numa bicha para almoçar, por exemplo. Mas até isso pode ser um aborrecimento, o estar sempre com os mesmos no trabalho e na fila para o refeitório. Às tantas nem respiramos.
Já, se não “escolhemos” as companhias, mais difícil se torna o estar a falar de coisas vagas com quem “conhecemos” há tanto tempo sem com ele convivermos. Além da maldade que é o trabalho nestes lugares, esta é a pior de todas as filas que podem existir, porque nos colocam na imensidão do nada.
Infelizmente teremos que continuar a preparar-nos para entrar em filas de toda a ordem porque as promessas do seu desaparecimento não podem ser encaradas com a mesma benevolência com que as encaramos a elas. Nós as acharíamos perfeitamente evitáveis, quando o bem almejado não escasseia.
Já quando se trata de um bem raro, como os bilhetes para um bom espectáculo, porque existe muita procura há escassez de tempo e as filas tornam-se inevitáveis. Mas aí corre-se por gosto. Só que também aí a ansiedade é possível.
Mas também quando se quer mostrar às pessoas que o objectivo a atingir não é fácil de alcançar, quando ele implica esforço e não pode ser colocado à disposição de todos, cria-se propositadamente uma fila para lhe dificultar o acesso. É a técnica do conta-gotas.
Perversão ou necessidade da economia e da organização, a formação das filas tem de ser encarada com alguma boa disposição. Se não é possível trocar impressões, conversas, se até o olhar se torna cansativo, se as pernas se tornam pesadas, resta-nos ao menos criar com pequenos passos a ilusão de que vamos estando mais perto do seu fim.
Cada vez mais perto, que atrás desta outra virá e incessantemente, com passos maiores ou diminutos, nos aproximaremos do seu término. Desde o nascimento que assim é e com a agravante que na vida muitos passos têm que ser dados no escuro.
Já nos dão à partida um lugar numa fila em que nem tudo está à vista, cujas regras desconhecemos, mas que se nos vão revelando irracionais, inumanas, imprecisas. Falta a luz que ilumine o nosso caminho.
Para lutar pela sobrevivência, pela segurança, pela dignidade, rodeados de gentes desleal, egoísta, cínica, resta-nos pisar alguns, saltar sobre outros, pedir desculpa que lá vamos nós, para cínicos, cínicos e meio. Onde estará o ponto de equilíbrio?

sexta-feira, 1 de junho de 2007

A Portugalidade está a um preço exagerado

A invocação de questões de origem étnica, etnológica, de proximidade, até de antiguidade nada acrescenta às possíveis razões para a regionalização. Respeitando e até louvando os estudos de pormenor que sobre esses aspectos se vão fazendo, não é por aí que chegaremos a algo de consistente que constitua uma mais valia irrecusável.
É que razões para nos separarmos, para ao menos nos demarcamos, sempre se arranjarão. Para nos unirmos é que é mais difícil. Faz-me lembrar os tempos de Salazar, os quais na área agrícola só agora se estão a modificar, em que a agricultura era estudada tão ao microscópio que havia regiões, sub-regiões e micro-regiões para tudo.
Aqui porque a vinha era a latada e ali de enforcado. Aqui porque as quintas eram delimitadas a muros de lei e acolá não. Aqui porque o gado tinha cornos, mais além era galego. Aqui porque a couve era galega, lá mais longe havia a penca de Chaves.
Quando queremos, tudo serve para nos zangarmos com o vizinho. Dir-se-á que os princípios não interessam, que os nascimentos se podem fazer em leito de palhas ou de mato. O aspecto principal é as consequências. Mas nós não queremos uma regionalização cujos fundamentos assentem na zanga.
A Lei determina e bem que haja um referendo, que haja um consenso tão vasto quanto possível, uma colaboração entre as partes e entre estas e o todo. Só há um princípio que a Lei não estipula e o devia fazer de forma vinculativa para todos:
Para dar seguimento à regionalização, o Sim no referendo teria que ocorrer em todas as regiões em que se quer retalhar o País. Não podemos obrigar uma região a existir se ela própria acha que não tem condições para tal, mas que já teria se englobada noutra ou com um a diferente partição.
Acima de tudo é necessário preservar a unidade nacional, garantindo a coesão territorial. Se Portugal nasceu a Norte, fixou cedo as suas fronteiras, cimentou cedo o uso de uma língua e de valores espirituais comuns, fortificou a sua coesão lutando em todas as zonas do País contra os adversários externos.
Portugal resistiu em uníssono contra a força centralizadora de Castela, garantiu de tal modo a sua identidade nos século XIV que, quando dinasticamente caiu na esfera espanhola, já as diferenças eram tantas que não era fácil suavizá-las.
De qualquer modo valeu-nos a derrota da Armada Invencível e toda a ajuda inglesa. Não se sabe se melhor ou pior, mas a história teria sido seguramente outra. São as contingências da sorte, do destino, do fado.
Em Portugal nunca ocorreu uma tentativa separatista com esse fim último. A Portugalidade faz-se sentir de S. Gregório a S. Vicente, nas Ilhas Atlânticas e até pelo mundo fora. O esforço desenvolvido pelos descobridores não foi feito pelos moradores da Ponta de Sagres, mas por todos sem distinção.
A produtividade do Minho em homens sempre se diluiu por Portugal, por Lisboa, pelo mundo. Aí não há diferenças. Lá fora os nossos casam-se mais entre si que cá dentro. A nossa fraca mobilidade interior é secular e já fez que nós só conhecêssemos o caminho do mar de Viana do Castelo a Lagos e das cidades ribeirinhas de Porto e Lisboa.
São movimentos que se não podem atribuir a má vontade dos políticos de hoje. Os nossos melhores cérebros seguem os mesmos caminhos há séculos de migração e emigração. Os nossos políticos, mesmo sem serem cérebros (serão?), são na maioria “provincianos”, até têm vaidade nisso.
Furtamo-nos à força centralizadora da Meseta Ibérica, o Planalto Castelhano, e caímos noutras. Os nossos primeiros barcos partiam de Sagres, mas quando passaram a trazer especiarias e oiro era de Lisboa que largavam e onde fundeavam. Pouco podemos fazer contra esta centralidade. Não podemos reescrever a história.
Podemos e devemos dizer que nem com Salazar houve um aparelho central tão vasto, tão forte, tão cheios de mordomias, tão convencido, tão afastado das realidades nacionais, tão parasitário, tão sugador de recursos.
Tudo o que for possível conquistar tem que ser efectivo e não por duplicação. As sanguessugas não podem passar de “produtoras” a “fiscalizadoras”. Ninguém pode ser cosmopolita à custa dos outros.
A regionalização tem que se fazer em prol de um Estado mais eficiente, enquadrada numa perspectiva nacional, que não podemos menosprezar, mas que não nos pode sair ao preço por que está actualmente. A regionalização tem que constituir um reforço da nacionalidade, da Portugalidade.

Um boato sabe-se como nasce mas não como terá fim

Se não gostamos de boatos, sempre damos seguimento a alguns. Quando procuramos certificarmo-nos podemos recorrer às pessoas erradas que, não tendo a nossa perspectiva, dão continuidade ao boato, passam a outrem como uma certeza absoluta a dúvida que nós lhe formulamos.
Talvez a solução fosse perante a dúvida calarmo-nos. Mas o problema é que nas nossas mentes a dúvida pela-nos. O querer ficar sem dúvidas é normal e nada diz sobre qual seria o lado para o qual tenderíamos se nos coubesse desfazer a nosso prazer a dúvida em causa.
Nós convivemos mal com a dúvida. Nós queremos despejá-la depressa, queremos ter certezas. Nem que, perante a demora da verdade, nos sejam dadas só inconfirmadas certezas.
Os piores de nós nunca aceitarão dúvidas, perante a sua própria má vontade já terão certezas. Uns nunca aceitarão boatos, porque rejeitarão a sua natureza. Outros, pelo contrário estarão sempre à espera de boatos que tragam dúvidas, que de preferência nunca se resolvam, porque certezas já eles têm.
Mas mesmo entre os menos maus não faltará quem também esteja à espera do boato, quem queira achincalhar os outros e não é com dúvidas que o fará. O boato já lhe dará as certezas de que precisa.
A leviandade levará muitos a arremeter com as falsas certezas que tem e os outros que se desunhem. Também para estes se a verdade nunca vier ao de cima, tanto melhor.
Um boato na verdade nunca deixa de o ser, mesmo que as pessoas se cansem dele, mesmo que seja esclarecido pela imprensa ou pelos visados, desmentido por todos.
Mas também é verdade que aquilo que nasceu como boato, por mais que se confirme, para muita gente nunca será verdade. Nunca será mais que uma maquinação urdida para tentar destruir alguém.
Um boato faz o seu percurso, seja às claras seja subterraneamente, às escondidas, está sempre pronto a renascer, de preferência nas alturas mais incómodas, com a perversidade que cada um lhe possa dar, porque são as pessoas que lhe dão a substância e a qualidade.
O boato é como uma bomba de relógio que alguém leva com mais ou menos apego, com mais ou menos alarido, mas de que não tem o controlo. Transporta a tal dúvida que ninguém quer. Em quem tenha muitas dúvidas, mas gostava que ele fosse verdadeiro, o boato cria um medo tremendo porque lhes incute um indesejável comprometimento.
O boato também não é nada cómodo para quem, sabendo que ele é verdadeiro, gostava que ele redundasse em mentira. Porque o boato só fere verdadeiramente quem “sabe” que ele é verdadeiro, e só tem por desejo que se fale o mínimo dele, que passe por ser esquecido ou melhor ainda que se transforme em calúnia, o que será bastante difícil.
O boato é como uma bolha de sabão que tem o seu ponto óptimo para rebentar e causar estragos. Quando se confirma já pode vir tarde mas também pode tornar-se um escândalo. Tanto pode ser uma certificação, como constituir uma extraordinária surpresa. Para o boato deslizar bem quanto menos se estiver à sua espera melhor.
Para uns o boato desempenha bem o seu papel quando é falso. Porque mesmo que isso se venha a provar, pelo menos parte do seu efeito perdurará, às vezes todo o efeito pretendido por quem o lançou.
Para outros a sua plena justificação consegue-se quando se vem a atestar a sua veracidade. Há verdades, certezas absolutas que mesmo assim não são facilmente assumidas. O boato é a forma encontrada por muita gente para não correr riscos, para não ser abafada, logo que fale ou manifeste intenção de o fazer ou então porque se não sente com legitimidade para falar mas com obrigação de o fazer.
O boato, caso se não provar, pode sujar quem o espalhou e lhe deu asas, a ele aderiu e o difundiu. Mas haverá sempre quem veja com maus olhos um boateiro, original ou não, por mais consciente que este seja.
Muitas vezes nunca se consegue descobrir onde esteve a origem, o ponto de ignição do boato. Naturalmente que é das primeiras coisas que queremos saber porque daí derivará muita da sua credibilidade. Mas todo o seu sortilégio está nesse desconhecimento.
Se quem lhe dá origem quer, pelo menos numa primeira fase, passar despercebido, o mesmo acontece com muitos do que lhe dão continuidade, porque sempre podem ser acusados de eles ou organizações de que façam parte estarem na sua origem.
Aqui a imprensa tem um papel melindroso. Não faltará quem queira passar despercebido na correia de transmissão do boato e queira ver a imprensa a revelar em primeira-mão, num estado virginal, a novidade que lhe dá gozo. Ora a imprensa não pode contribuir para “peditórios” destes.Numa sociedade democrática ao boato ser-lhe-á sempre atribuída uma natureza ofensiva, um carácter insidioso.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

O sentimento persecutório no diálogo social

Um diálogo sem barreiras tem que ser assumido como tal entre as partes. Se ele parece pertencer ao domínio da liberdade, também se tem que dar às pessoas a liberdade de o aceitar ou não, mas não de o condicionar.
Mas quando o diálogo se faz através dos meios de comunicação pode haver condicionamentos externos aos intervenientes. Estas pessoas submetem-se a um estatuto editorial que, seja mais ou menos permissivo, nem sempre é respeitado. Mas é nos meios do Estado que há mais litígios a este propósito.
Neste diálogo mediado há intervenientes activos e outros que só o são passivamente. Temos pessoas das mais diversas origens e formações. Em tempos os limites ponham-se a nível de conveniências sociais, de susceptibilidades, de melindres, o que tornava o diálogo difícil.
Hoje o problema coloca-se ao nível da preparação das pessoas para se questionarem abertamente sobre valores que possam estar implicitamente contidos no tema em discussão., o que nem sempre acontece.
O diálogo sem barreiras pode parecer, mas não é uma coisa comum, não é tão vulgar como dão a entender os debates na televisão. A realidade é bem diferente. Só que a habituação faz com que, mesmo que os não partilhemos, já não pomos reservas aos valores que lá são transmitidos.
O nosso mundo se parece se expandir porque a televisão chega a todo o lado, mas está cada vez mais restringido por essas câmaras manipuladoras. Nós deixamo-nos persuadir muito mais por quem aparece na televisão, do que por quaisquer outras pessoas que a ela não tenham acesso.
Nós expomo-nos muito mais àquelas pessoas que nos “dão” um bocado do seu tempo, e a quem atribuímos qualidade, do que aos vizinhos e amigos. Os nossos diálogos são cada vez mais através dos “média”. Há pessoas que já não dialogam com mais ninguém.
Temos a obrigação de nos interrogarmos sobre se estamos a ser condicionados na forma e no conteúdo da nossa relação com o mundo. Se estamos a configurar o nosso espírito para a aceitação e rejeição de certos princípios e até para a ignorância de outros.
Se vemos quase toda a sociedade a aderir a este espartilhamento, que nos resta de liberdade individual? Cada vez menos nos apercebemos que estes diálogos estão tão cheios de barreiras que mais parecem monólogos. Os nossos interlocutores estão cheios de certezas absolutas e verdades infalíveis.
Só nos abrimos àquilo que é discutido na televisão e da maneira como lá é apresentado. Simulamos diálogos que nunca existiram e importamos certezas que criam barreiras que não sabemos controlar. Por isso cada vez mais nos fechamos em mundos irreais a que a publicidade dá um particular colorido.
Assimilando desta maneira as nossas certezas, de forma acrítica, passiva, nunca as chegaremos a controlar, justificar, tornar coerentes com o nosso paradigma cultural. Criamos artificiosamente um verniz que cobre o nosso vazio.
Não é por aqui que chegaremos a ter algum “fundo” para discutir seja o que for. Persuadidos que estamos por verdades temporárias mas inquestionáveis, ficamos inibidos de manter diálogos sobre a realidade que não sejam uma versão tosca do que se passa nas pantalhas televisivas.
A simples divulgações pela televisão das principais questões do momento já nós dá (?) a panorâmica suficiente para termos uma visão actualizada do mundo. ¿Para quê insistir que há outras verdades bem mais profundas, que a televisão é um filtro demasiado fino, que se devem ouvir outras pessoas?
Enchem-nos de lugares comuns cheios de apriorismos “incontestáveis”. Para conversar com verdade temos de nos alhear quanto possível dos modelos televisivos. O nosso património espiritual pode ser fraco mas deve ser um edifício coerente, o que esta assimilação não garante.
Estamos cada vez mais vulneráveis àquilo que chamamos demagogia, que mais não é que o uso pelos outros das suas capacidades de persuasão. Aquilo que é mentira e o que é verdade passam mais facilmente sem contestação pelo filtro da nossa consciência
Um homem livre é aquele que não descura o núcleo duro das certezas que ao longo da vida vai elaborando, mas não deixa de as testar quando achar conveniente e de, sem sofreguidão, as alimentar sempre que pode com novos dados e experiências.
Um homem digno pode deixar cair verdades que passou a achar questionáveis, mas não está imune a louvores ou críticas. Ao encontrar razões para as abandonar e aderir a novas, não renega mesmo assim o seu passado, nem quem possa ter um passado idêntico.Há quem ponha em causa as razões da mudança de outros e alimente no seu ego pensamentos persecutórios, mesmo que só de carácter psicológico. Tais pessoas são indignas e em relação a essas, às que querem ser cada vez mais na mesma, devem ser criadas fortes barreiras pessoais e sociais.

Canoagem contra a maré

O Clube Náutico de Ponte de Lima não deixou os seus créditos por mãos alheias na deslocação das suas Esperanças da Canoagem a Abrantes. Além de subidas ao pódio em várias das subcategorias, venceu esta terceira prova, e o campeonato nacional respectivo, colectivamente.
O mérito é de um grupo heterogéneo de atletas pelas suas idades e características, capaz de brilhar em todas as provas, homogéneo na vontade, na união, no espírito de grupo e grande na dimensão e valor. A grande coesão demonstrada, o apoio mútuo, o incentivo dado pelos colegas e líderes também contribuíram significativamente para garantir estes sucessos.
Mas tal só é possível através de um trabalho profundo, continuado e empenhado de directores e monitores que, numa população tão dispersa como a limiana, conseguem pesquisar, agregar, dar consistência a um colectivo que assim se vem refrescando, reforçando e afirmando cada vez mais no panorama nacional
As dificuldades são imensas. Começam logo pela própria incompreensão de muitos pais em relação à importância, ao carácter quase fundamental que a actividade desportiva assume nos dias de hoje, tanto por si mesma, como pela sua função de encaminhamento dos jovens para um aproveitamento saudável dos seus tempos livres, para a convivência que passe ao lado das sub-culturas lesivas para a juventude mas que sempre se insinuam entre ela.
Até na questão dos custos, muitos pais consideram qualquer gasto monetário que garanta a prática desta actividade (equipamentos, deslocações, refeições) um dispêndio inútil, o que é perfeitamente absurdo. As Associações, com tantos problemas que têm, não dispõem de meios para assumir todo este investimento, mas que custa a ser percebido como tal por vários pais.
Depois de outros problemas “menores”, há o grande problema do local de prática desportiva. Aí toda a gente se diz pronta a colaborar, mas acho que muitos, em lugar de ajudar, só atrapalham. Embaraçam pelo seu silêncio, que simplesmente o falar deste assunto parece perturbá-los.
Uma das razões pelas quais se vive hoje este problema dramático para a modalidade em Ponte de Lima é não se ter pensado seriamente nele e na maneira de o obviar quando se fez o açude e o Centro Náutico. Mas em Ponte de Lima o que interessa é o momento dos foguetes e do cortar das fitas.
Ninguém decerto, dos que tinham obrigação disso, pensou na manutenção em boas condições do espaço adequado à canoagem. O Saber e a Experiência terão ficado para melhor ocasião, como infelizmente é costume.
Esta obra foi importante, o que é diferente de ser bem feita, está longe de ser uma obra de fachada, mas é uma obra que deveria ter continuidade, não se pode ficar por uns anos, como se ela fosse efectivamente só para a ocasião.
Depois de tantas transformações que o Rio levou, das agressões de que foi vítima, pensou-se em o proteger. Se a intenção foi essa, em muito se conseguiu. Mas porque é necessário efectuar agora um estudo de impacto ambiental para fazer um desassoreamento perfeitamente definido, limitado, que está longe de repor as condições existentes no passado.
Erros destes não se deveriam cometer, mas há que o corrigir e não voltar a cair neles. Se a Lei o exige, se tem que ser feito, que se faça, mas em função de uma intervenção continuada que vai ser imprescindível levar a cabo mediante um acompanhamento permanente das condições de navegabilidade do rio. Não se pode andar a pagar estas coisas todos os dias.Que se faça e que haja quem pague. É obrigação, mais do que dever, da Câmara fazê-lo, dar o pontapé de arranque para que não morra nas suas
mãos o sonho, hoje realizado, de ter em Ponte de Lima, o maior Clube Náutico do País.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

A dignidade humana defende-se pelo diálogo franco e leal

Quando iniciamos uma conversa com alguém, invariavelmente já carregamos connosco imensas verdades, não só sobre aquilo que nós somos, como sobre aquilo que os outros são, até sem os termos visto antes ou sem os vermos há muito, e sobre aquilo que nós queríamos que os outros fossem.
Aquilo que nós somos advém do que pensamos ser, daquilo que os outros pensam que nós somos e daquilo que nós queremos ser. Nisto está muito do que nós queremos que os outros pensem de nós.
Aquilo que os outros são advém obviamente das comparações que fazemos, do percurso que lhes adivinhamos, do que eventualmente sobre eles nós já conhecemos, das certezas que lhes atribuímos.
Existe pois uma zona de conflito permanente que nós atribuímos a erro ou precipitação dos outros e os outros normalmente retribuem do mesmo modo. Esse conflito pode existir sempre porque, para lá disto, nós podemos ter um conflito interno que interfere no nosso relacionamento.
Tal conflito será tanto menos grave quanto menos o que os outros pensam de nós esteja longe do que nós somos e/ou daquilo que nós queremos ser, e esta opção é nossa.
Igualmente será tanto menos grave quanto menos o que pensamos dos outros esteja longe do que eles pensam de si próprios e do que eles próprios querem ser e da importância relativa que atribuem a este dois aspectos.
Nunca conseguimos que haja um equilíbrio perfeito nos nossos relacionamentos. Basta a nossa constante procura de um equilíbrio interno, a busca incessante de uma nova centralidade interior, para podermos estar a colocar os outros num diferente enquadramento.
O nosso gosto pelos outros não é eterno. Por vezes deixamos de gostar deles mesmo sem eles mudarem ou passamos a não gostar deles caso haja uma alteração na maneira como se nos apresentam.
O nosso desejo de manter uma relação saudável fazer-nos-á avaliar as partes em que sempre dividimos os outros e pesar se aquelas de que gostamos compensam as que rejeitamos. O certo é que mesmo que isso aconteça a relação pode deteriorar-se irremediavelmente.
Independentemente da divergência de opiniões, a harmonia pode existir se tivermos o mesmo conceito de dignidade humana. O nosso conceito de dignidade pode-nos levar a, mesmo assim, manter uma concordância sólida de valores.
Mas nem sempre se consegue sustentar uma forte convergência na defesa da dignidade das partes. Quando tal não acontece facilmente se cria um crescente espaço de indefinição e desagrado entre o que os outros são para nós e aquilo que nós gostaríamos que eles fossem.
Esta situação leva, quantas vezes e quando menos esperamos, ou nós ou as pessoas com quem falamos a arrogarem-se o estatuto de conselheiros, atribuindo-nos mais ou menos ascendente sobre os outros. Ou até de justiceiros se formos mais atrevidos.
Mesmo que procuremos não nos pormos a jeito, há tanta gente com tantas certezas adquiridas que, se nós não aceitarmos alguma condescendência, não chegamos a admitir conversar com quem não sabemos se vai dar de modo intempestivo largas a esses laivos de arrogância e agressividade.
Para além de os outros não serem obrigados a ter certezas, não são obrigados a revelá-las e muito menos a defendê-las. Não podemos entrar na contestação sistemática às certezas dos outros, muito menos sem o seu assentimento, sem deixarmos às suas faculdades a avaliação e a tomada de todas as decisões que os afectem.
Não podemos praticar quaisquer actos de coacção confundindo-os com eventuais poderes de persuasão. As nossas certezas podem-no ser só para nós. A sua natureza e a forma pelas quais nós as adquirimos devem-nos fazer pensar sobre a forma como as queremos transmitir. Não será normal que o façamos por meio diferente daquele pelo qual as adquirimos.
Na realidade assumimos muitas “verdades” por uma questão de fidelidade à família, ao grupo, à sociedade. Maugrado haver uma sociedade cada vez mais livre, com características de heterogeneidade e essa fidelidade estar longe de ser generalizável, em relação a toda a gente.
Muitos têm dificuldade em “beber” das fontes e outros não se sentem obrigados a aderir a elas pelas mesmas vias pelas quais nós aderimos. Muitos não podem pôr em causa as suas próprias certezas e não nos cabe a nós fazê-lo. Seja qual for a sua natureza e a forma de aquisição, essas certezas fazem-lhes falta, como as nossas nos fazem falta a nós.
Mesmo que nós não precisemos já de certezas que em nós advieram de qualquer decisão não consciente, isso não nos dá o direito a contestar as dos outros. Se nós já as substituímos, os outros podem não as substituir facilmente e podem continuar a precisar de certezas assim adquiridas.
Quando conversamos franca e lealmente com alguém respeitamos-lhe o ser, e mesmo quando pensamos poder influenciá-lo, não devemos ter preocupações de ascendente, nem ultrapassar as barreiras que ele possa ter instituído para defesa da sua integralidade.

As regiões – poderes positivos ou de oposição e bloqueio?

A regionalização consistirá no direito a escolher um modelo próprio de desenvolvimento, presumimos sempre mais adaptado, nos aspectos rural, industrial, turístico, económico em geral, ambiental, urbano e cultural às condições existentes em cada região.
O modelo político a adoptar tem que ser o mais adequado às condições existentes no País, assegurando o princípio da igualdade entre todos os cidadãos, quanto ao usufruto dos benefícios gerais e à repartição dos encargos e dos meios financeiros disponíveis.
Infelizmente este aspecto político é o mais referido e reclamado. Mas se é legitimo reivindicar alguma parcela de soberania, também é justo que nos seja pedido o que viremos a fazer com ela, maugrado muitos convencidos não gostem que se lhes pergunte, já o “sabem” há décadas.
O acto primeiro da efectiva regionalização é a institucionalização dos órgãos próprios de poder das regiões, equitativamente dotados dos meios financeiros indispensáveis à sua acção e que os aplicarão segundo o modelo de desenvolvimento escolhido.
Um órgão de poder regional não pode ser a direcção de uma associação de municípios, porque não vai exercer poderes delegados por estes. Não vai exercer somente poderes de coordenação, recebendo as solicitações e repartindo os meios por rateio.
Este novo órgão vai ter um poder efectivo que necessariamente irá quase sempre contra o interesse de alguns municípios e a favor de outros. Por isso é necessário um acordo de princípio para implementar um modelo político de carácter nacional, isto é que não possa ser enviesado por acordos locais e circunstanciais e obvie a conluios e marginalizações.
Numa associação devem respeitar-se os interesses dos associados até ao pormenor possível. Num órgão de poder autónomo como este, continua a ser tido em conta o interesse manifestado pelos órgãos de nível inferior, mas não pode, sob pena de ficar manietado, ir àquele ponto, tendo até por vezes de avançar contra a opinião da maioria, quiçá de todos.
Muitas vezes delegamos no governo do País com a sensação de que o não faríamos se não fossemos obrigados a isso, se acaso tivéssemos outra opção, que não temos, de exercer de outra forma os nossos direitos democráticos. Por exemplo promovendo um referendo constitucional.
Mas por princípio para um País tem que haver sempre um só governo, gostemos ou não dele. Podemos puxar a corda, dar-lhe mais ou menos elasticidade mas sempre conscientes que ela pode correr o risco de se quebrar e de podermos cair na anarquia.
Só que mesmo esse governo não é senhor de toda a soberania, há algum balizamento da sua acção que é exercido por outros órgãos e até pela opinião pública. Há uma parcela de soberania que está entregue a esses órgãos e de que eles não podem prescindir.
Quanto às regiões esse balizamento será ainda maior. Enquadradas entre o todo nacional e os municípios, financeiramente mais condicionadas que o governo, também mais próximas dos eleitores, a sua margem de manobra terá sempre bastantes constrangimentos.
Os seus poderes têm que ser definidos com a necessária precisão para que só no mínimo conflituem com os do governo e dos municípios. Estes serão sempre tentados a aumentar as suas limitações nas áreas que mais prezam e assacar-lhes as responsabilidades que não querem.
Mas também as regiões não se podem constituir como poderes de oposição e bloqueio que se acrescentam aos das autarquias para enfrentar o governo, também por nós escolhido. Nem se podem arrogar poderes que, acrescentados aos do governo, tirem do mapa político as autarquias, que nós elegemos.
O poder das regiões seria um falso poder se fosse só um acréscimo de voz, um poder contestante. Mas também seria um poder inútil se fosse avassalador para os municípios. Tem que ser um poder consciente do seu lugar, do seu espaço de actuação e que aja sem peias.
Definida a profundidade da sua intervenção, a autonomia quanto aos meios financeiros, ao poder regional faltará ganhar independência das boas e das más vontades, ter a solidariedade possível com o poderes convergentes.
A ideia que muitas pessoas têm sobre um poder regional baseia-se muito no princípio de que ele não será um poder acrescido ao nacional mas antes suavizará esse poder, amortecerá os seus efeitos mais agressivos.
Amiúde ao poder regional atribuem-lhe somente poderes negativos, quando o que se espera é que use, e o saiba fazer bem, os poderes positivos que lhe serão outorgados.

sábado, 12 de maio de 2007

A suspeição turva irremediavelmente o nosso espírito

É vulgar uma discussão acalorada sobre uma acusação determinada redundar num seguinte dilema em que uns pretendem que uma determinada norma é genérica o suficiente para englobar o caso e outros que essa norma tem uma aplicação restritiva e não lhe é aplicável.
Normalmente isto acontece assim porque todas as nossas divergências descambam para a existência ou não de dois pesos e duas medidas, para a existência de uma questão de favorecimento na aplicação da Lei.
Porque há a ideia, geralmente razoável, de que nada é inocente e há sempre alguém a beneficiar propositadamente destas dúvidas e pretendidas incoerências. Quem redige as leis ou quem as aplica é sempre acusado de, com algum propósito escondido, ora encobrir ora descobrir.
Para activar mais esta permanente suspeição temos ainda as normas legais que determinam que em caso de dúvida os suspeitos são inocentes, o que subjectivamente levará alguns a serem mais expeditos em tentar a sua sorte no desrespeito da Lei.
A suspeição assume às vezes um carácter quase obsessivo, em tudo vemos uma tentativa de enganar alguém. Mas na prática, para nosso desespero, o que mais se aplica é a conclusão de sermos todos inocentes, de alguma forma até vítimas de uns tantos mal intencionados.
Só que esta conclusão não é suficiente para nos deixar sossegados. Passado algum tempo lá voltamos às ideias antigas e vá de acusarmos tudo e todos de estarem conluiados no desrespeito da lei para obter benefícios indevidos. É uma conspiração que se urde no silêncio.
As suspeições retroactivas são as mais difíceis de esclarecer. Vêm normalmente à baila por comparação com casos recentes o que torna complicado fazer o enquadramento legislativo adequado.
Há ainda o perigo de estarmos a comparar casos em que a natureza só aparentemente é semelhante. As circunstâncias mudam, as opiniões mudam, são diferentes os valores em que o legislador se fundou para elaborar a legislação aplicável. O nosso juízo só pode por em dúvida aquilo que conhece.
A suspeição tem uma autonomia invejável. Faz o seu caminho por tudo que é sítio, por tudo que são épocas, mesmo as mais remotas, por todos os grupos, famílias e gerações. A suspeição corrói-nos as raízes.
Há uma necessidade premente de controlarmos a suspeição. Em vez de constituir aquele alerta que às vezes nos falta, corre o risco de se tornar um anestesiante que faz de nós inoperantes e cismáticos. Quanto mais suspeição manifestamos mais enganados somos.
Ninguém gosta que lhe vendam gato por lebre. Isso tanto vale para a actividade económica como para a social e política. Mas não podemos confundir todo o comércio com usura. Não vamos a lado nenhum enquanto não retirarmos do nosso espírito este farisaísmo doentio que herdamos.
Historicamente já houve tentativas de, começando pela actividade económica e perante a dificuldade de separar o legítimo do ilegítimo, se proibir tudo o que fosse para além da troca directa.
Ora se se confirma que o mal está no vil metal, não é acabando com ele mas seguindo-lhe as movimentações que podemos ter algum sucesso. Mas nós lançamos antes as nossas suspeições para os vizinhos e extasiamo-nos a olhar para aqueles que são efectivamente ricos, não se sabe como.
Quanto o mal não está na Lei e ela é desrespeitada sentimo-nos feridos com isso, com a impotência de a pôr em prática por parte de quem detém o poder. Mas quando o mal está nela, mais nos sentimos despeitados, porque percebemos que os poderosos chegam com os seus tentáculos à sua feitura.
Um clima de suspeição generalizada só termina quando a exigência e o rigor forem aplicados naquele acto de concepção e regulamentação da estrutura mais apropriada a uma boa convivência social, simplificando e limitando ao máximo a existência de dúvidas, preparando devidamente quem as deva passar à prática.
Os benefícios que alguém pode usufruir de alguma actividade, de alguma posse, no fundo o resultado de uma outra posse ou duma actividade anterior, devem estar devidamente regulamentados para que os benefícios ilegais possam ser perfeitamente identificados.
Mas as leis, mesmo as punitivas, não podem ser o reflexo de espíritos persecutórios e doentios, como por vezes os nossos correm o risco de ser. Na realidade nós comprazemo-nos quando alguém é apanhado nas malhas da Lei, vai a inquérito, é arguido, mas a partir daí já só nos vem a compaixão, condoemo-nos irremediavelmente, afinal quem é culpado de quê?
Na verdade os nossos estados de alma são tão variáveis, tão facilmente assumidos, que não resultam de raciocínios lógicos mas já quase os temos à mão para corresponderem aleatoriamente às incompreensões que se vão manifestando no nosso espírito.
A maioria de nós, com mais ou menos sacrifício, podemos ter que assumir vários papéis, em vários cenários, em diferentes contextos sociais, mas não está preparado para isso. Alguns há que são capazes de representar vários estados de alma e simultaneamente beneficiar de todas as situações através de qualquer imaginário artifício. Não suspeitemos de todos.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

As expectativas sociais e as possibilidades do crescimento

Nos dias de hoje, de forma mais evidente do que sempre aconteceu, as pessoas não se diferenciam pelas posses que têm, pela “classe social” a que pertencem, mas sim pelas expectativas que transportam.
Quem tiver as expectativas conformes à sua condição sócio-económica é visto como um retrógrado, quando muito um conformista. Na realidade essa conformidade deve ser combatida no sentido de que ninguém pode, à nascença, ficar agarrado a uma condição eterna.
A mais importante das lutas, a luta pela liberdade só tem sentido quando se coloca como princípio basilar uma igualdade que dê a todos as mesmas “possibilidades” de acesso a melhores condições económicas e sociais.
Esta constatação levou muita intelectualidade, muitos jovens a optar pelo comunismo como única forma viável de atingir este desiderato. Nisto, como noutras epopeias em que o pensamento humano se meteu, só a experiência veio a provar quanto a mente humana é “perversa” e relapsa a determinismos.
O corporativismo salazarista tudo fez para conter as expectativas das pessoas dentro de parâmetros que o sistema pudesse controlar. Para tal o regime utilizou todas as artimanhas, umas legais, outras menos ilegais, outras claramente ilegais e reprováveis. Cortava à nascença todas as possibilidades.
O regime haveria de cair por efeito do isolamento internacional, pelas dificuldades próprias da guerra, pelo imperativo de acabar com o condicionamento industrial e promover o crescimento económico e por efeito de um golpe de misericórdia dado por um grupo “vencido” de militares. Os grandes valores invocados não escondem as razões mais triviais, mas louvemos muitos efeitos positivos, lamentemos alguns.
Se a igualdade de possibilidades deve ser colocada como objectivo, nem à partida, nem à chegada, nem em nenhuma fase da evolução são passíveis de assumir carácter absoluto. A sua graduação depende das próprias condições da sociedade no seu todo. Quem está na defesa do progresso deve pugnar pela sua evolução no sentido dessas possibilidades serem cada vez menos teóricas e mais práticas, não descurando a implacável realidade.
O desenvolvimento natural da sociedade coloca à pretensão de uma igualdade de possibilidades um pesado obstáculo. Os sectores de topo criam constantemente novas expectativas, incentivam com a imaginação e espalham com a publicidade novas formas de “gozar a vida”, novas ambições, “novos prazeres”, novas formas de estar melhor com cada vez menos trabalho.
Vai-se assim criando um maior afastamento entre quem está na base da pirâmide social e quem está no topo. Como as expectativas se espalham e os meios de as satisfazer não, antes pelo contrário, há cada vez uma maior diferenciação e por esse efeito uma maior dificuldade para quem está na base poder subir alguns degraus.
A nossa entrada na Comunidade Europeia desligou-nos definitivamente da herança salazarista e criou um efeito perversíssimo a que os governos se não tem conseguido opor com eficácia. Nunca nenhum foi além das boas intenções e então o de A. Guterres foi um desastre. Porque nisto sabe-se como as expectativas se geram mas não se sabe como elas se devam abrandar.
As pessoas levam a mal serem chamadas à atenção para reduzirem as suas ambições, muito mais para serem realistas, pior ainda para fazerem sacrifícios e voltarem a uma condição que parece lhes não pertencer já, porque nunca pensaram ter que lá voltar.
Normalmente só uma hecatombe social fará com que as pessoas aceitem isto, porque neste caso a imersão é global e o nível final se mantém sensivelmente idêntico. A consciencialização de largas camadas sociais de que estamos numa situação com este cariz é o grande mérito de Sócrates.
Mas este é só um primeiro passo para quem quer lutar para que a sociedade seja mais solidária e humana. Até aqui só se conseguiu uma certa neutralização dos sentimentos que nesta perspectiva são mais negativos: o egoísmo, a inveja e a vaidade.
O segundo passo é conseguir que o leque de expectativas sociais se não continue a expandir ao mesmo ritmo do crescimento económico. A necessidade de mais expansão económica não deve ser conseguida utilizando só as velhas fórmulas, próprias do capitalismo selvagem, de apelo aos sentimentos mais ferozes, que agravam os problemas sociais.
Normalmente só copiamos os aspectos mais primários dos manuais de empreendorismo. É necessário que tenhamos em consideração aquilo que no aspecto social as análises de muitos gestores de topo já comportam. E que os agentes sociais não contribuam para o exacerbar de expectativas desmedidas, que agravam os problemas sociais e incentivam as agressões ambientais.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

A mensagem que encontrou mensageiro em Abril

Muitos lutaram antes do 25 de Abril para que o regime vigente à altura sucumbisse. A contribuição de cada um para essa revolução nunca foi demasiado relevante, as próprias organizações permanentes da oposição nunca adquiriram dimensão significativa. Também não foi um povo inteiro que se levantou.
A conjugação de factores que determinaram aquela ocorrência não surgiu por acaso, mas os factores imediatos são doutra natureza e são tanto de ordem interna como externa. São o isolamento internacional, as necessidades económicas, são o inimigo principal de Salazar, mas que ele nunca conseguiu identificar com precisão. São, como ele dizia, “os ventos da história”.
Os protagonistas, aqueles que quiseram evitar o suicídio, porque neles o medo suplantou a vergonha, foram os militares, porta-bandeiras de uma causa de que pouco mais conhecimento tinham que o comum dos cidadãos: Umas breves leituras em momentos de desalento, uns contactos com outros militares.
A falta de preparação dos militares para a democracia, a sua incapacidade de separar as suas obrigações como militares e cidadãos, o facto de os valores democráticos não terem o enraizamento necessário na sociedade em geral, levou à tomada de atitudes precipitadas e à colagem dos militares às forças sociais e políticas que foram apresentando maior dinamismo.
Em alguns aspectos salvou-se o resultado, noutros nem por isso. Podemos dizer que os povos das colónias quiseram ser livres, tiveram a liberdade, mas não assumimos a responsabilidade de uma descolonização menos sofrida, que comportasse menos dramas tanto aos “circunstanciais” colonizadores como aos “não preparados” colonizados.
A maior vergonha neste aspecto resultou do abandono daqueles que tinham sido o suporte local da administração e do exército coloniais, porque, ao contrário dos outros, o seu destino era previsível: A morte.
Internamente, embora que por processos tortuosos, chegou-se a uma situação em que as feridas deles resultantes sararam. Acabou-se com o sistema de monopólios, liberalizou-se a actividade económica, alargaram-se a segurança social e as possibilidades de acesso aos patamares mais altos do ensino e às diferentes profissões.
O que se cumpriu, porque comporta em si a Liberdade, porque passou ao lado de um processo ditatorial, sem sentido, mas hasteado como bandeira por alguns, é de tal maneira importante para configurar o nosso futuro que aquilo que muitos dizem faltar cumprir não lhe é comparável.
Porque tudo se tem que fazer com as pessoas que somos, com o País que somos, no sítio em que estamos, todas as culpas por não estarmos numa melhor situação nos têm de ser endereçadas a todos nós em conjunto, sabendo nós que não temos o dom da omnipotência e da ubiquidade.
Quem fez o 25 de Abril poderia tê-lo feito com objectivos diferentes, nunca tão vastos como aqueles que se propalaram, nunca tão míseros como aqueles a que alguns os quiseram reduzir. Mas restituída a soberania ao povo, a este cabe decidir, é o povo que mais ordena.
Só existe democracia quando o povo não renuncia ao seu poder soberano, antes o delega periodicamente em quem o possa exercer em seu nome no dia a dia. Este estado maduro, no qual o povo está seguro que delega o poder mas não renuncia à democracia já o teríamos atingido há anos, creio.
Mas é sempre bom relembrar no que consiste o essencial da democracia, para que as franjas marginais se não tentem a capturar em seu proveito e capricho o poder que ela faculta, mas que deve, tão só, assegurar o bem e a liberdade de todos.
O 25 de Abril foi o despoletar das energias populares que levaram o País a viver esta imensa Liberdade de nos podermos expressar. Cabe-nos a nós não ter vergonha do passado e aprofundar a democracia, desenvolver e melhorar a sociedade para que a herança a transferir seja de valor superior.
Se não havia uma mensagem precisa, detalhada, como os mais fracos estariam à espera, se a mensagem foi sendo usurpada por uns e por outros e deturpada em conformidade com a ideologia de cada um, se só a experiência nos foi avisando dos muitos perigos que qualquer sistema comporta, fomos nós que ficamos a ganhar.
Também a experiência nos vai ensinando que ela mesma, permanecendo como tal, vai sendo esquecida e perdendo os seus efeitos positivos. Há que tornar a experiência em sabedoria e esse é o nosso maior desafio. Qualquer dia, se nos deixarmos andar nesta quietude intelectual, o 25 de Abril tem o mesmo significado popular do 1 de Dezembro ou do 5 de Outubro.

terça-feira, 24 de abril de 2007

Por cortesia … Senhor Engenheiro! Não … Senhor!

À imprensa cabe ser incisiva. Ao jornalista cabe elaborar a notícia com o maior rigor e independência, sob pena de se estar a desacreditar. Ou então arrisca-se a falar e a escrever só para um público restrito, cujos ouvidos já estarão programados para certas leituras.
Reconheçamos que do lado do jornalista nem sempre tudo funciona bem Muitos jornalistas fazem hoje uma afirmação como comentário, como juízo de valor, e estão no seu direito, não podem ser penalizados por isso, mas logo amanhã transformam o comentário em afirmação infalível e objectiva, como não precisasse de ser provada.
No caso de José Sócrates enredou-se muito comentário com muito informação, de tantas proveniências e com diferentes graus de fiabilidade. Se não fora o próprio a dar um fio condutor, dificilmente desembrulharíamos o novelo.
José Sócrates, como qualquer português médio, tirou um curso de engenharia técnica de construção civil em Coimbra, talvez o que lhe estava mais a jeito, empregou-se na Câmara da Covilhã e toda a gente o tratava, com o máximo de naturalidade, por engenheiro. Por cortesia, por respeito, como se diz, que mais não é que subserviência e temor, pouco interessa.
Não ia o homem engolir uma cassete que repetisse a todos que lhe falavam, olhe que não sou engenheiro sou engenheiro técnico e não estou inscrito na Ordem dos ditos. Todos conhecemos casos semelhantes. Engenheiro chegava, era económico, rápido. Contrariamente, tenho para mim que o máximo respeito que se pode manifestar por outra pessoa é tratá-lo por Senhor.
Enveredando pela política e como deputado, todos, por cortesia, por hábito, à falta de outro qualificativo mais apropriado, continuou a ser tratado como engenheiro, que lá nisso a Capital na saloiada não é diferente da província. E sabemos que nisto o hábito até faz o monge.
Inscrito num Curso que lhe daria um Diploma de Ensino Superior Especializado lá tirou várias cadeiras, talvez até ao dia em que um professor lhe tenha dito e a outros alunos, porque não vêm comigo para a Universidade Independente, que tem uma licenciatura.
E lá foram, alegres e contentes para um Curso que, no essencial, muito pouco mais valeria que o D.E.S.E. original. Já chegados a um Universidade em que os poderes paralelos, pelos vistos, existiram sempre, Arouca não era à altura Reitor, mas era quem mandava, verificaram que o curso só tinha começado há dois anos e as cadeiras que lhes faltavam eram das últimas.
Vai daí criaram uma turma especial com dois professores, um para a área técnica e outro, o Arouca, para o Inglês e vá de acabar o curso. Para mim o problema só reside na legalidade ou não de a Universidade, que havia começado um curso dois anos antes, poder emitir diplomas de final de curso, embora à base do plano curricular necessariamente já previamente definido.
O que se não pode ver é uma questão de favorecimento e muito menos pessoal, já que envolveu outros alunos. O que se poder ver é um facilitismo e uma desregulamentação, que aliás é comum a muitos Universidades a operar nesse tempo, de que teria resultado algum favorecimento, não terão os interessados disso tomado consciência. Porque se outros interessados aparecessem nas mesmas ou em condições parecidas seriam bem recebidos.
Se a emissão do diploma era ilegítima por incapacidade legal de naquele momento a Universidade o fazer, não é o destinatário que se pode penalizar mas sim o emissor.
Facilitemos as coisas. Tratemo-nos todos por Senhor, que é a mais digna e elevada maneira de tratar os outros, embora muitos o não mereçam, mas sejamos também condescendentes.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

As imagens podem simplificar a comunicação

A evolução não se faz sem sobressaltos. Os períodos negativos apresentam-se-nos com uma inevitabilidade que nos entorpece e paralisa. Mesmo em períodos de progresso sofremos as consequências dos efeitos perversos, o que nos leva a fazer pensar se os benefícios compensam os prejuízos que podem advir.
Mas quando decidimos avançar, quando nada podemos fazer para suavizar essas consequências, para diminuir ao grau de perversidade que está subjacente às acções a empreender, ainda temos uma solução minimizadora.
Actuar preventivamente, aumentar as resistências nas pessoas que possam vir a ser vítimas desses efeitos nefastos. É um pouco a teoria de que o mal deve estar presente no mundo para que seja visível e evitável. A não estar presente na paisagem deve estar presente na mente das pessoas.
Os drogados que parasitam pelos locais de estacionamento fazem mais pelo combate à droga de que cem campanhas de sensibilização. As crianças de hoje, sujeitas a este espectáculo degradante, adquirem resistências que os actuais drogados não têm. E afastamos a necessidade de o verem mais tarde.
Como vítimas de um processo de auto-destruição que sucessivas gerações têm tolerado ou incentivado, a sua emersão numa sociedade hedonista tem de ser combatida com essa imagem capaz de provocar uma emoção forte e ser memorizada pelas gerações vindouras.
Este método tem sido usado com algum sucesso noutros domínios o que só prova que nada se deve esconder e deitar para baixo do tapete para que se não veja. Mas em consequência da proliferação de imagens fortes também elas vão perdendo o seu efeito.
O mundo de hoje exige cada vez mais clareza, que se vá para além do efeito imediato que a imagem pode provocar. Exige-se que o fenómeno que deu origem à imagem destinada a causar aversão se investigue, se explique.
É por esta via que as pessoas podem ter cada vez mais resistências próprias àquilo que é intrinsecamente mau, mesmo sem curar de saber qual o melhor caminho, que a escolha deste o devemos deixar ao nosso espaço de liberdade. Mesmo sem esta consideração a verdade é que a indicação de um caminho se mostra cada vez menos capaz de produzir um efeito positivo.
O uso vulgarizado da imagem vai mesmo fazendo que o seu efeito se perca mais rapidamente. A tal ponto que as pessoas, em vez de resistirem àquilo que com a imagem se quer mostrar, podem ganhar resistência à própria imagem. È o que acontece a alguns muçulmanos que, em vez de aderir à condenação do holocausto, negam a veracidade das suas imagens.
Quer dizer que, mostrada a imagem, nos não podemos convencer que ela revela tudo, antes devemos aproveitar o efeito pretendido, quando ocorra, para conseguir uma adesão mais fácil a uma explicação que nunca se pode ficar por aí. Se uma imagem, como uma referência breve, não produz esse efeito então nós temos de ir desde logo mais longe à procura duma explicação convincente.
Somos um País em que vivemos muito da imagem. Pagamos para aparecer na televisão, seja num concurso foleiro, seja na Praça da Alegria, seja até no programa Fátima. Só que não seleccionamos as imagens no sentido de lhes atribuir um objectivo definido. Tudo passa à mesma velocidade. A imagem aqui é o que prejudica a clareza da comunicação.
Misturamos tudo, aquilo que são maus exemplos são mostrados conjuntamente e ao mesmo nível dos bons exemplos. Sem invocar juízos apriorísticos, antes apresentando-os como resultado de uma opção pessoal, os maus exemplos devem ser mostrados com a carga depreciativa a que se devem associar.
Em Portugal cria-se a ideia de que tudo é indiferente, e embora só já em sonhos, ambicionamos ter alguém capaz de cortar a direito e nos venha dizer claramente aquilo que é permitido e aquilo que não o é. O sebastianismo moral é uma das suas características. Enquanto desbundamos.
E parece que nós temos gosto em vivermos neste pântano. Quando conversamos com alguém, quando nos vemos atrapalhados, isto é, pairamos na incoerência, na indefinição e na indecisão há uma estratégia adoptada quase unanimemente: Promovemos a confusão, lançamos imagens isoladas, com conexões contraditórias, efeitos antagónicos de modo a não haver conclusões.
Ou então simplificamos exageradamente, localizamos o mau num espaço demasiado restrito como se pudesse ser imputável. É esta visão redutora que historicamente tem dado origem a regimes ditatoriais, mas principalmente no século vinte deu origem ao comunismo e ao nazismo.
Por isso a tão fraca qualidade das nossas conversas, e em consequência dos nossos escritos. Não podemos andar à procura de pessoas com muitas afinidades connosco e falar só sobre assuntos específicos. As nossas conversas devem ser amplas mas sem deslizar para a generalidade e a indefinição.
Por outro lado temos de ter a consciência de que as pessoas facilmente põem os seus interesses imediatos, mesmo quando eles não estão em causa, à frente de qualquer outra consideração. E quando assim é não há conversa que resista, com facilidade se desconversa.
Também os assuntos de interesse nacional são discutidos muitas vezes nesta base. Confundem-se perspectivas, imediatas ou de futuro, planos pessoais e colectivos, locais e nacionais A gravidade desta situação é que, por ser muito geral, contribui para a indecisão e a paralisia dos órgãos do Estado.

terça-feira, 17 de abril de 2007

Quando damos mais do que recebemos podemos morrer em paz

Manuel Luciano era daquelas pessoas que durante a vida vão juntando amigos, amigos e mais amigos. Não quer dizer que não haja falsos amigos, daqueles a quem as suas atitudes e o seu modo de ser não agradassem e a quem faltasse a coragem de lho manifestar.
Mas Luciano seguia o seu caminho, imperturbável na sua convicção de que dava a todos mais do que recebia. Nele havia sempre boa disposição e uma palavra amiga para quem quer que fosse.
Um pouco mais velho do que eu, lembro-me dele da nossa velha Freiria, mas particularmente desde o meu tempo de estudante no Externato, quando ele já trabalhava na Tipografia do Jornal Cardeal Saraiva, e tendo assumido um compromisso com um departamento estatal, tinha de ir analisar umas duas ou três vezes por dia o dispositivo que registava o caudal do rio Lima.
Religiosamente, às horas determinadas, entre as quais me lembro era certa a hora do meio-dia, atravessava a ponte rumo a Santo António, em pé ligeiro, no seu andar leve e despachado, com as chaves já na mão para abrir a caixa que continha o rolo com o gráfico em que era registada a altura do caudal de água, que por um tubo era comunicada da bóia ao mecanismo de gravação.
Mas a água foi descendo, descendo e às tantas o Luciano já tinha que registar manualmente, lendo de uma régua que foi colocada no primeiro arco da ponte. Até que o próprio arco ficou seco e o Luciano com bastante tristeza lá deixou de vir ao seu escritório diário.
Em todos os momentos em que podia, o Luciano aproveitava e visitava, já depois de casado, os seus pais na Além da Ponte, tão forte era essa ligação. Cruzava-me com ele, acompanhava-o, mas também conversava com ele pela janela da apertada tipografia, ele sempre agarrado aos seus caracteres que com uma destreza impressionante ia acumulando de modo a formar a palavra, a frase, o jornal.
No jornal do Luciano não havia gralhas, que ele antes corrigia as falhas dos colaboradores. Era o trabalho de que ele gostava e no qual arranjou muitos amigos, que amigos afinal lhe não faltavam por onde passasse. Na tropa Luciano foi pára-quedista, mas o que fez, fê-lo por sentir ser sua obrigação, nunca fazendo alarido dos feitos, nem desrespeitando os adversários.
Luciano foi um desportista, jogando futebol nos Limianos, com ele joguei a brincar, claro, nos domingos de manhã e também com ele corri por estadas e caminhos, entre a Madalena e Santo Ovídio, enquanto eu pude, que a sua preparação era outra.
O Luciano, com o seu voluntarismo, estava sempre pronto a colaborar em actividades desportivas, festivas, de apoio aos outros. Não faltava na Rua do Souto a dinamizar o seu arranjo para que na quinta-feira de Corpo de Deus estivesse devidamente atapetada de cores e flores.
Nos últimos anos o Luciano deu uma importante colaboração à Comissão de Festas das Feiras Novas, a que pertencia, e que presumo vai ter dificuldade em encontrar um substituto com o mesmo entusiasmo e empenho. Aliás o Luciano ponha essas qualidades em tudo aquilo em que se metesse.
O Luciano tinha um alto sentido de família, demonstrava em relação aos amigos um apego invulgar, que o diga o seu amigo mais próximo, o Padre Eurico. No seu semblante não se notava rancor, sempre discreto e apaziguado.
Luciano era um valente que viveu a vida sem temor, sem rancor, como acho que deve ser vivida. Em relação aos amigos, no Luciano notava-se um forte carácter, não era homem de ressentimentos. Era um bravo e um justo.

sábado, 14 de abril de 2007

Precisamos de ter certezas e … … … cumplicidades

Quando queremos comunicar com a generalidade das pessoas, quando não escolhemos nem segmentamos o auditório ou o leitorado, seja pela oralidade ou pela escrita, é nossa obrigação falarmos com a nossa própria voz.
Há na conversa sempre aquela possibilidade de puxarmos a nossa maneira de nos expressarmos mais para aqui ou mais para ali, de modo a nos aproximarmos da terminologia e da postura mais adequadas para quem ouve.
Na conversa há mesmo a possibilidade de acrescentarmos explicações complementares e até marginais, que na economia da linguagem escrita são de todo dispensáveis e quiçá prejudiciais.
Com as limitações de tempo e espaço, não podendo usar aquelas técnicas para “levarmos a água ao nosso moinho”, tendo que usar uma linguagem universal, que podemos fazer para sermos lidos?
Este jornal, tão difundido na nossa emigração, com certeza que encontrará uma dificuldade acrescida. A maioria dos nosso emigrantes têm uma terminologia mais rica em Francês, ou na língua do País de acolhimento, do que em Português. O contrário se passa connosco. Se acrescentarmos as diferentes vivências são enormes as dificuldades que temos que enfrentar.
É nossa obrigação mantermos a continuidade do discurso, não é vã pretensão, que as pessoas se vão habituando a interpretar o texto pelo contexto, com o esforço que isto requer, e a serem capazes de ler escritos de várias proveniências.
A facilidade de leitura é hoje fundamental, porque ninguém está para fazer grandes esforços para, muitas vezes, ter acesso a coisa nenhuma. Daí a necessidade de o jornalista de hoje ser cada vez mais “directo”, mais”asséptico”, mais “redutor”.
Mas não há volta a dar, os “factos” nunca são os factos, nunca ninguém tem uma visão global, unitária de um acontecimento e o consegue resumir e embalar num invólucro em vácuo e o envia directamente e de modo a ser deglutível, sem um aditivo sódico, pelo destinatário, qualquer que ele seja.
Assim, não sendo eu jornalista, não convirjo nesta orientação, assumo claramente que não falo a verdade, falo com a consciência da mais perfeita contingência. Mesmo quando parece que falo de certezas falo só naquilo que é verdade para mim e o poderá ser também para quem comigo consiga estabelecer um mínimo de cumplicidade, historicamente falível e intelectualmente descomprometida.
É na facilidade de estabelecer esta cumplicidade que reside a diferença entre conversa e escrita. A relação social, a conversa, quando nos aproxima, leva-nos a adequar a linguagem, a fazermos pequenas concessões, nós não vamos estar a desconversar constantemente a propósito de tudo e de nada, sem que isso queira dizer assentimento.
Na escrita temos de manter uma linha de rumo, temos de nos convencer que estamos a falar para estranhos, que teremos sempre leitores novos, que não podemos nem queremos escolher, que não sabem nada de nós, o texto tem de ter o valor só por si, na medida em que outrem o possa fazer, pelo menos parcialmente, seu.
Na escrita só a tempos podemos e devemos repensarmo-nos e repensar os outros, os eventuais leitores. Não temos “feedback” suficiente mas temos mais tempo para especular sobre a forma de, sem nos chegarmos a aproximar, pudermos urdir cumplicidades.
Aparentemente não há nesta situação uma relação social. Na realidade há uma relação social não explícita que inevitavelmente se estabelece entre quem comunica e quem aceita de forma activa a comunicação. Não nos podemos esquecer que, de parte a parte, estamos a acrescentar a nós mesmos algo de novo.
E isso não depende da qualidade do contacto, do carácter positivo ou negativo que advenha do conhecimento que se estabelece, da mais ou menos valia que ele possa constituir. Todos os nossos contactos com o mundo exterior nos afectam seja ténue, seja marcadamente.
Perante a fraqueza do ensino é mesmo pela comunicação social, pelos contactos com amigos e menos amigos, com a Internet, até com a publicidade, que nós apreendemos mais do mundo. Esta situação deve levar-nos a estudar melhor todo o género de comunicação, que a que prevalece não é mais a dos meios familiares. Não nos podemos deixar levar pela aparência.
Porém na vida prática não podemos ter a dúvida metódica sempre presente. Precisamos de certezas, nem que elas sejam só temporárias. Precisamos de cumplicidades nem que elas sejam só parcelares. Precisamos de ter confiança em alguém e de desconfiarmos o suficiente de todos.
Não se trata de dividir o mundo entre o Bem e o Mal. Toda a dicotomia é redutora, não nos permite pensar mais para além. Só por simplificação podemos atribuir a “Bondade” à Natureza e a “Maldade” à Insídia. Mas toda a simplificação não dá clareza, antes perturba as nossas palavras.
Devemos estar preparados mas não obcecados com a Naturalidade ou a Insídia. Toda a luz que consigamos projectar sobre a realidade favorece o estabelecimento de uma relação saudável entre as pessoas, ajuda a que a não deixemos inquinar por aquela perspectiva primária que sempre nos persegue.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Critiquem-me por ser gordo, orelhudo ou vesgo mas não por ser político

Entre dois copos, pelo meio da descrição que o amigo de ocasião lhe fazia dalgumas desventuras lá na aldeia, Guerrinha já começava a magicar nos versos que haveria que verter para o seu testamento, dito do Judas, lá para mais perto da Páscoa. O número de quadras talvez dependesse dos copos que viesse a beber.
Para o Judas arder bem, era necessário que as quadras deitassem as suas chispas bem dirigidas, que todos se haveriam de rir. Embora ele próprio, o Judas, não estivesse ainda bem arquitectado, que poderia surgir uma figura mais bonita, mais característica, mais popular. Só lá para o Carnaval lhe seriam definidas as feições.
As histórias tragicómicas iam chegando de todo o lado, que aqui é tão só o concelho de Ponte de Lima. Havia aqueles que para sua alta recriação, para a sua vingançazinha, se dirigiam ao Guerrinha. Mas havia também os doutores lareiros, velha classe, hoje em decadência, e cuja falta os Presidentes de Junta nunca conseguiram suprir.
Estas pessoas sabiam efectivamente de tudo e se não sabiam perguntavam e tinham amigos que, como humildes, essa era a sua grande arma. Levavam e traziam. Na Vila ficavam ao corrente do que mais invulgar se passava. Na aldeia informavam-se do mais rocambolesco que ocorria por lá.
Sem exagerada maldade, mas com malícia quanto bastasse, quanto homem mal casado e mulher folgazã, quanto amigo do alheio ou vigarista encartado, viam o seu nome mais depressa na lama lá longe do que perto da porta de casa. Quando aí chegasse já estava o caldo entornado.
Nem todas lá chegavam, mas qualquer história de malandrice ou malandragem estava sujeita a vir a cair no testamento. Tudo era sugerido que não se podia referir explicitamente ninguém. As referências eram porém normalmente suficientes para que se chegasse a uma identificação das vítimas, que o crime, esse era claro, da carne ou da carteira.
Fossem padres ou sacristães, criados ou morgados, ricas donzelas ou viúvas rapioqueiras, todos que se metessem em altas cavalarias estavam sujeitos a cair na voz popular. Mas não era o Judas que ia afectar a normalidade da vida, que uns continuariam a dizer que sim e outros que não.
Hoje fala-se, fala-se, fala-se, mas ninguém vê nada e todos se recusam a pôr em letra de forma aquilo que sabem. Além de que há assuntos que, por tão triviais, já não despertam a curiosidade pública. Mas continua a haver outros que assumem hoje uma enorme dimensão e que não são referidos.
O testamento na Vila de Ponte de Lima foi recuperado pela delegação de turismo e vem sendo agora feito pelo grupo de teatro Unhas do Diabo. Mas diga-se em abono da verdade, que este Diabo tem fracas unhas, é demasiado subserviente em relação ao poder, não fosse por ele pago.
Perante os poderosos de perto os lareiros de hoje vergam demasiado a cerviz. Há que bater nos que estão longe, lá para a capital, que esses não metem medo a ninguém, e provocam algum riso mesmo que forçado. Antigamente a piada estava em vir em letra de forma aquilo que só se falava e já tinha alguma graça nos lugares em que nem todos iam.
Aproveitar o Judas para pretender fazer política é mesquinho, para não dizer ordinário. A tradição consegue-se manter respeitando os pressupostos que presidiam à queima do Judas antes do 25 de Abril. Porque falar de política hoje é para todos os dias e todas as horas, quando houver assunto para isso.Fazer crítica social, de costumes, de comportamentos é mais salutar, menos banal mas menos pretensioso do que fazer crítica política de natureza primária. Acho que ninguém me criticou mas, se a alguém aprouver fazê-lo, critiquem-me por ser gordo, orelhudo ou vesgo, mas não por ser político. Mas se descobrirem que sou ladrão, insidioso ou outra coisa qualquer, façam favor também.

terça-feira, 10 de abril de 2007

Se não for pelo C.D.S. ... vá pelos ecologistas que vai bem

A política de Daniel Campelo (D.C.) nos últimos tempos, depois de ter perdido todas as apostas na captação de emprego, é de “ide todos trabalhar para fora e vinde viver (dormir) para Ponte de Lima”. O seu discurso passa por desvalorizar as distâncias, os tempos de viagem, como se fora igual ter emprego perto de casa ou nas cidades do Porto ou Orense.
Numa recente entrevista ao AltoMinho diz “O que preciso é que as pessoas tenham, num raio de 30 minutos um bom emprego. Há muita gente de Ponte de Lima que vai trabalhar a Viana, Braga ou Vigo e vice-versa”. Só que estes, os do vice-versa, vêm cá vender os seus produtos e os de cá, os pé-descalços, vão vender o trabalho que cá não tem aplicação. Gasta-se em transportes, polui-se o ambiente, corre-se perigos, descapitaliza-se o concelho.
Mas a outro passo D.C. tem o desplante de falar de parques industriais que não existem, de centenas de pessoas que cada um empregaria, de um ritmo de instalação de empresas que ninguém vê, da falta de mão-de-obra disponível que só ocorre porque estão todos fora e da falta de formação adequada, única coisa em que tem razão.
D.C. fala de um projecto secreto porque diz “temos de vender esta imagem de paraíso ambiental”. Vai passar a reforçar a “ protecção do ambiente e a produção biológica”. Falta saber se é ao nível da horta, do aquário ou da velha corte de gado. O mais fácil para preservar o ambiente é nada fazer, deixar tudo ao nível da Idade Média, que há ditos ambientalistas que agradecem na sua cegueira fundamentalista.
De novo vão voltar as hortas colectivas. De novo vamos ver os habitantes do centro Histórico a carregar pela madrugada, agora não para a Quinta do Olho Marinho, mas para a Veiga de Crasto, os seus dejectos orgânicos para adubar biologicamente os seus grelos e tomates. Quanto stress vai desaparecer, quanto desempregado e reformado vai deixar de recorrer ao Valium e passar a aproveitar devidamente a frescura da manhã.
Pode ser que até venha a ter algum retorno ao venderem uns nabos no mercado. O ambiente dá dinheiro que o diga D.C. com as Lagos/Penteeiros e além do mais “está na Agenda”. Bucólico como gosta de se apresentar, na sua agenda esteve sempre, não pensem os ambientalistas da nossa praça que ele vai aceitar ensinamentos, reprimendas ou reparos de gente que nunca pegou numa enxada mas é pretensiosa e ridícula.
D.C. tem gostos mais refinados, biodiversidade procura-se longe que cá, mais logo, só pinheiros, eucaliptos, silvas e matos. E nós que vejamos na televisão a desova dos salmões do Alasca, as neves do Everest, as reservas do Quénia, sonhemos com Katmandu.
O lema em que D.C. acredita “Na vida, na saúde e na natureza, na dúvida, deixa estar como está, na política vota contra, para ver se se gera uma solução melhor”, não tenhamos dúvidas, é perigoso para si. Quanto à primeira parte é redutora como todo o tipo de afirmações deste tipo. Quanto à segunda é aquilo que sempre condenou aos seus adversários, insultando-os de tudo para que eles depois lhe lambam as botas.
Pelo resultado, teria alguma razão. Estamos em Ponte de Lima, cercados por gente sem coluna vertebral, sem ideias, muitos que se dizem do contra quando isso parece ser bonito e que são os mais execráveis cínicos quando perdem a vergonha. D.C. limitou-se em Ponte de Lima a ocupar o vazio, à falta de gente com alguma lisura e verticalidade.
D.C. escolhe à pinça os seus colaboradores, não permitindo que eles tenham veleidades e o suficiente carácter para se unirem e reivindicar um pouco do seu absoluto poder. D.C. tem virtudes, tem algumas razões mas muitas mais não-razões, ao contrário do que pensam os seus mais recentes acólitos, não amadureceu, antes perdeu qualidades.Como uma pessoa incapaz de trabalhar em equipa, fechou-se na sua concha, está mais desconfiado. Poderia alguma vez ser candidato pelo P.S.? Não concebo e acho que o D.C. deveria nas sua entrevista ter posto de parte esta hipótese. Se o C.D.S. o não apoiar recomendo-lhe uma saída: vá pelos ecologistas que vai bem.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Da conversa à … … … leitura

Todos nos havemos de penalizar por não fazermos um esforço para nos aproximarmos dos outros, quando com eles falamos. Com a aceleração que a vida hoje comporta a imagem que nós temos daqueles que conhecemos num dia raramente perdura para além dele.
Mesmo em relação à maioria dos nossos relacionamentos, não chegamos a conhecer ninguém, senão através do seu enquadramento social. Nós fugimos, as pessoas fogem-nos, não porque haja de parte a parte qualquer aversão ou outro sentimento mais negativo, mas porque é assim, naturalmente, sem dar azo a ressentimentos ou recriminações.
E todos nos vamos habituando à indiferença com que somos tratados, ao desprendimento com que hoje se estabelecem e se desfazem as mais variadas relações sociais. A pressa com que hoje se vive faz com que esta atitude seja considerada como a que melhor evita conflitos desnecessários.
Não fora a pressa que nos leva a considerar muitas situações como puras percas de tempo, teríamos ainda a constatação de que as aproximações intempestivas podem ser facilmente fonte de arrelias e arrependimento.
Em relação às pessoas com quem lidamos habitualmente, julgamos conhecê-las bem e em relação àquelas com as quais existe maior distância, julgamos conhecê-las suficientemente bem para que pensemos que possa ocorrer qualquer surpresa que faça mudar o nosso relacionamento.
Nós conhecemos essencialmente as pessoas pelo seu enquadramento social, pela rede de relações em que estão envolvidas e pensamos ser isso perfeitamente suficiente para o mais normal relacionamento.
Normalmente só é possível oferecer e encontrar nas pessoas maior receptividade se houver interesses específicos, localizados e devidamente temporizados, principalmente se essa maior aceitação dum relacionamento pessoal for importante para a satisfação dos interesses em jogo.
Esta confiança interessada, pela importância que pode assumir, pode ser o sustentáculo de um relacionamento mais aprofundado. Mas o normal é que terminada esta etapa, logo o invólucro se feche em redor e a impressão que fica não seja mais que um apontamento para futuros relacionamentos da mesma natureza e para o enquadramento social.
Os relacionamentos continuam a estabelecer-se preferencialmente com pessoas ligadas aos mesmos interesses profissionais e de negócio ou assentam em cumplicidades já suficientemente testadas para terem alguma solidez. Neste aspecto todos somos preferencialmente conservadores.
Cada vez é mais difícil estabelecer uma conversa, muito menos um relacionamento perdurável com quaisquer pessoas e em especial com pessoas com interesses, extractos sociais, idades ou experiências diferentes.
Também a comunicação por via dos jornais, livros ou através de outros meios está sujeita à mesma pressa, à escassez do nosso tempo, à economia da atenção e do relacionamento. Procuramos sempre aquilo que do antecedente já nos diz alguma coisa.
E na leitura já quase se passa o mesmo que nas conversas, mesmo que encontremos algo que poderia ter algum interesse, dificilmente temos tempo para isso e, mesmo que penalizados, passamos ao lado, indiferentes.
Hoje, por parte de quem pretende comunicar, exige-se um redobrado esforço e algum talento. Mesmo o comunicador que só transmite aquilo a que um sector específico está disposta a prestar atenção e tem por isso audiência certa, terá que acrescentar sempre algo de novo, se não é ultrapassado.
Aqueles que como eu, só esporadicamente comunicam, se forem lidos, vão-no sendo de forma cruzada, de modo a que o leitor possa apanhar aqui ou ali uma ideia susceptível de suscitar alguma curiosidade. De qualquer modo uma primeira impressão manifesta-se normalmente decisiva.
Como o leitor tem que escolher, e de, para cá chegar, ultrapassar o que lhes parece mais imediato, de entre a variedade que se lhe apresenta, provavelmente só por casualidade terá chegado aqui.
Muitos deixam de escrever, como outros deixam de tentar conversar com alguém, porque é difícil, é necessário muito esforço para mantermos viva a curiosidade, quando aquilo que escrevemos não passa de algo estranho, pela maneira como hoje se encara a vida e o relacionamento.
A melhor maneira de comunicar é aquela que se pode cingir à brevidade de uma mensagem de telemóvel. Mas se é fácil estabelecer uma cumplicidade temporária, indispensável para a eficácia desta forma de comunicação, torna-se difícil, imprevidente, estabelecer a partir daí uma cumplicidade duradoira.Ora nesta forma de comunicar pressupõem-se que na maioria dos leitores, em vez de cumplicidade, haja estranheza. E tem a grande vantagem de ser descartável. Dá-se-lhe uma reviravolta como quem deita um papel ao lixo.

sexta-feira, 30 de março de 2007

Como recuperar o prazer da leitura?

O mundo estratificado em camadas e compartimentos está acabado. Hoje em tudo se vê relação e, por mais trivial que nos pareça um fenómeno, puxando os devidos cordéis, facilmente chegamos à complexidade das coisas, aos reflexos e repercussões no mais longínquo do horizonte.
Hoje todo o grão é tido como parte fundamental no equilíbrio universal mas não há dúvida que muitas vezes, por vias esconsas, se chega a tão exagerados conclusões, a tão rebuscadas conexões que só um cérebro bem iluminado é capaz de ver, mas que nenhuma autoridade intelectual é capaz de impor.
É bem verdade que a verdade vem por onde menos se espera e aquele anúncio do “explica-me lá muito bem, como se eu fosse muito burro” tem a maior actualidade, atinge no cerne o problema. Sem desprimor para quem lê, quem escreve tem de ter esta preocupação de tudo explicar.
Muitas vezes dói-me não perceber nada do que se escreve, mais ainda mais me dói quando leio nos jornais, porque não vou ter hipótese de reler. Não tenho gosto em guardar os meus jornais e o dos outros presumo que também seguirão o caminho da reciclagem. Ou deviam seguir.
Que valor terá o que se escreve quando o escrevinhador, sem apresentar um fio condutor, quer tirar conclusões apressadas de acontecimentos mal contados ou insuficientemente esmiuçados.
Os filósofos sempre procuraram a unidade que explicasse o todo, o grão em que tudo se pudesse decompor. Há quem acredite que já tem toda a sabedoria e que num bafo a pode transmitir.
É o cérebro humano que ilumina e dá sentido, é para si a força unificadora, salvo quem procura a luz no exterior. Mas a realidade é esquiva e ninguém consegue transmitir ao outro uma visão, nem que seja tão só contemplativa, que ele possa partilhar em absoluto.
Cada homem tem a sua visão, fruto de múltiplos factores próprios, do ambiente, do passado, do presente, das expectativas, e que não pode ser transmitida como uma estática fotografia.
Para que a comunicação se faça com alguma eficiência é necessário que cada um se conheça bem a si próprio e conheça suficientemente bem as pessoas com que se relaciona.
Além de que ninguém pode ter a pretensão de ter do universo a compreensão mais próxima da verdade, de ter uma visão mais ampla ou abrangente que lhe dê alguma superioridade intelectual, também ninguém pode ter a pretensão de ser bem compreendido
As coisas são fáceis de explicar, os consensos são fáceis de obter quando nos limitamos a um universo restrito. Quanto mais se alarga o horizonte, mais difíceis eles se tornam. Quanto menos nos conseguimos aproximar do universo do outro, por falta de esforço de qualquer um, mais difíceis eles se tornam.
Por força da nossa vida ou por necessidade intelectual, o natural é que nós não nos contentemos com mundos pequenos, horizontes limitados. Mas o sábio tem que ser compreensível com o menor percurso dos outros, daqueles que se colocam na sua frente, o lêem.
Noutros tempos, um sábio tinha por primeira qualidade a sua humildade, tinha consciência das suas possibilidades e limitações. Hoje, que vemos tanto néscio a botar faladura, cada vez menos em fóruns abertos, mas arrogantes nos banquetes, seria bom que usássemos a comunicação para fazer jorrar luz.
Hoje o sábio reconhece que, sendo a luz branca, ela é composta de luzes de muitas cores. Também só várias perspectivas podem contribuir para ajudar a clarificação de muitas mentes incluindo a nossa.
Não nos podemos inibir de dar a nossa perspectiva e de abordar temas e questões de alguma complexidade. A informação que hoje surge no dia a dia impõe que saibamos tratar dela, sob pena de nos intoxicar.
Outrora dizia-se que ao lavrador só interessava o preço do milho e ele era capaz de prever a sua evolução. Hoje o preço do milho não é formado aqui e se o lavrador quiser ter a mesma capacidade de previsão tem que ter acesso a muitos dados de todo o mundo e possivelmente fica com uma informação que lhe não serve para nada.
Hoje este é o drama da comunicação: Por um lado excesso de dados, por outro excesso de analistas. Por um lado denegação dos dados mais valiosos; por outro imperícia com os instrumentos de análise.
Também nós corremos esse risco, de que os leitores verifiquem que o melhor é marimbarem-se para aquilo que escrevemos, que deste paleio não tirarão proveito nenhum.
E eu dou-lhes razão: Se a leitura se assemelhar a verborreia delirante é melhor abandonar; se da leitura resultar um efeito desintoxicante, de alguma abertura, valerá a pena perder algum tempo.

sexta-feira, 9 de março de 2007

A preocupação pela segurança não é de esquerda ou direita

Dois assaltos, de alguma monta, à propriedade alheia, um a um depósito de tabaco em Ponte de Lima, outro a uma ourivesaria em Ponte da Barca, levam-nos a concluir que os larápios não escolhem a cor das fardas das forças de segurança em presença nestes burgos.
Os rapinadores escolham a hora do dia, os meios de transporte, os ramos de comércio e actuam no geral na maior impunidade. É uma praga que vem de longe, da Galiza ou dos arredores do Porto e que cá vem com a facilidade que as auto-estradas e os bons carros roubados facultam.
Perante armas tão desiguais ninguém duvida que o papel das forças de segurança tem a ingratidão que a impotência, a falta de meios capazes lhes dá. Além de que ninguém lhes agradece que sejam heróis, que a confusão processual em que se metem por usar meios mais violentos é motivo suficiente para eles evitarem conflitos.
Neste contexto a justiça, pela sua formulação e pela prática, no seu papel de dirimir os conflitos sociais, tem, nestes tempos, colocado as duas partes, por natureza tão diferentes, em igualdade de circunstâncias. A própria opinião pública, por reacção a atitudes menos pensadas de alguns agentes da autoridade em situações que não justificariam o uso de violência, não se mostra favorável à utilização de meios mais radicais de imobilização dos criminosos.
O meio de luta mais consensual é a prevenção mas para este tipo de violência nada podemos fazer. Os seus agentes não são de cá, usam os meios mais evoluídos, tem a seu favor o tempo, o segredo, a organização.
A situação das coisas tem de ser alterada. O que podemos fazer é clamarmos por um reforço dos meios dos agentes locais de autoridade o que passa também por os ver inseridos num sistema centralizado de rápido acesso a meios informáticos, de pessoal e material.
Esta é uma das razões porque é vantajoso que em Ponte de Lima houvesse uma só força de polícia, chamem-lhe o nome que quiserem, mas a dispersão de meios por duas linhas de comando e a prevalência nos concelhos limítrofes de uma outra força diferente e cá minoritária, não favorece a articulação e a maleabilidade dos meios existentes.
Vai-se caminhar para a uniformização, não há dúvida, mas enquanto se lá não chega temos de continuar a solicitar o reforço dos meios, perfeitamente desajustados mesmo que não houvesse desperdício.
É necessário darmos aos agentes que se empenham em evitar o desrespeito pela lei, pela propriedade particular e pelos bens de domínio público, em defender o sossego e bem-estar da população, a solidariedade nos momentos difíceis em que os insatisfeitos manifestam alguma incompreensão.
O trabalho de polícia, exercido com dignidade e aprumo, é dos mais gratos para quem o exerce e não devemos estar alheios à sua importância. A farda que se veste é irrelevante na sua cor ou corte, qualquer uma deve ser vista no sentido de um símbolo que é necessário respeitar e dignificar.

Formação certificada, uma questão de justiça ou de economia?

Uma questão como esta do Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências deveria estar absolutamente dissociada da questão da Formação.
A Formação é necessária, não só dentro das empresas para ir adequando os trabalhadores à evolução tecnológica, como fora para preparar os desempregados, os que procuram um primeiro emprego ou querem tão só mudar de emprego, com habilidades para o desempenho de nova ocupações.
Sem formação permanente é cada vez maior o fosso entre a qualificação dos trabalhadores mais antigos e as necessidades das empresas e a presumível qualificação dos mais novos. Mas esta deverá ser sempre um complemento da formação de base obtida nas estruturas normais de ensino.
Como complemento não deve ter em exigência diferente e a sua certificação deve ser feita por entidade diferente da que ministra a formação. A cada formação deverá corresponder um número de créditos adequados ao seu valor e dificuldade para que possa ser atribuída uma correspondência ao esquema normal de ensino, após a obtenção de um número determinado de créditos.
Problemático é obter uma fórmula de avaliação da auto-formação, principalmente quando não é orientada, e dos conhecimentos obtidos da pura prática. Aí só o resultado prático poderá dar consistência à certificação.
Todo o conhecimento não sistemático tem um valor relativo, veja-se as pessoas cuja verborreia é por demais profícua mas que não são capazes de fazer nada no concreto. Podem ser pessoas “espertas”, que conhecem todas as manhas e artimanhas de uma dialéctica cujo objectivo é tão só “ficar por cima” em qualquer conversa de café, nem que tenham que saltitar entre visões fragmentárias e redutoras da realidade e baralhar conceitos sem decoro.
Integram-se neste rol as pessoas que, alegremente, sustentam que não precisam de formação, No geral não dispõem de uma disciplina mental adequada, mas que aparecem quando surge a oportunidade de subir em grau académico. Avaliar e atribuir graus académicos aos portadores deste tipo de conhecimento é um puro desperdício, a promoção de uma injustiça relativa, a eternização dos esquemas mentais do Chico-espertismo nacional.
Nada mais justo do que a possibilidade de obter graus académicos fora do esquema normal de ensino, nada mais justo do que a avaliação ser feita neste caso a conteúdos diferentes dos normais. Nada mais injusto do que atribuir graus iguais com exigências diferentes nas duas possibilidades de formação.
A diferença entre as duas possibilidades não deve estar na rigidez da exigência, mas somente na substância da formação que é sujeita a validação. Caso contrário só nos estamos a iludir, a pensar que estamos a diminuir o fosso que se criou e na realidade estamos a criar um fosso maior.
Além do mais estamos a iludir a própria juventude, que ela própria está a ser aliciada para aos dezoito anos entrar em esquemas ilegais que, como já é hábito, se vão criar para sacar fundos europeus. E esta questão deve ser vista no domínio estrito da economia, mas não neste imediatismo confrangedor.
Tanto lamentamos o dinheiro já mal gasto, tanto nos culpamos pela nossa avidez, que seria dramático que não aproveitemos bem, bem para a comunidade, para a economia nacional, esta nova e última oportunidade.

terça-feira, 6 de março de 2007

Catorze romeiros em convívio serrano

Que íamos só ali à Serra, uma maneira de nos encontrarmos, de conviver, de folgar. E isso a propósito de um bom manjar, de um cozido à portuguesa que não há haverá igual. Já outras pessoas me tinham falado desta iguaria, no fundo tão vulgar no nosso meio, mas que se não confundiria com outra.
E lá fomos, que isto agora é mesmo perto: Pela auto-estrada para Viana e em Meixedo seguimos pela estrada de Âncora. Num instante estamos junto à Igreja da Montaria, que reza na sua frontaria já ali estar desde 1714. E à sua frente lá temos o nosso destino: O Restaurante Serra d’Árga.
Que nós avisamos o Senhor Alcides de que estaríamos lá pelas uma hora e meia e não tínhamos pressa, a tarde é nossa. Quando o celebrado prato veio para a mesa, o aspecto já prometia, que nisto, como é sabido, os olhos comem pelo menos tanto como a barriga.
À primeira prova da lombarda foi logo dado um sinal ao estômago de que se fosse preparando, que a coisa não ia ficar por aqui. Porquê? Se houver alguém mais atrevido que questione à cozinheira, que eu não sou perguntadeiro de segredos que interessa preservar.
Afinal o cozido à portuguesa tinha tudo que um cozido tradicional deve ter, salvaguardando algumas diferenças de região para região. Tinha chouriço à moda da Serra de Arga, que, como o nome diz, é mesmo característico de cá.
Depois tínhamos a chouriça de cebola, as carnes frescas e fumadas de porco, a carne de frango e mesmo de vaca que estavam um primor. Onde estará porém a diferença? Eu sugiro que é da especial gordura de um destes elementos, embora se diga que a gordura é maléfica para o organismo.
O certo é que as batatas, as cenouras e as couves tinham um sabor tão esmerado que é difícil ser mais apetecível. Também se come leite-creme em muito lado mas este estava saboroso e não desmerece do doutras regiões.
Quando tudo sai bem o convívio é mais agradável e os catorze amigos que aqui se juntaram, a grande maioria aposentados e disponíveis para estes convívios à quinta-feira, estão bem vivos e bem dispostos, valha-nos isso, cheios de projectos para o futuro, todos se sentiram satisfeitos com o repasto.
E no regresso que melhor do que ir apanhar o ar fresco da Serra de Arga, por Dem, Arga de S. João e S. João de Arga fazendo a paragem obrigatória na “Tasca do Horácio” em Arga de Baixo. Esta é a paragem obrigatória de todo o viandante que atravesse esta Serra, que aqui, fosse ou não à caça, também muitos de nós já paramos.
Tal como os Presidentes ou os visitantes da Arte na Leira, também nós aqui prometemos voltar, mas agora depressa o dia se faz tarde e lá temos de rumar de novo à nossa terra de Ponte, que aliás já ali está passada Arga de Cima.
Num instante estamos no nosso Largo de Camões, sala de visitas de Ponte, local privilegiado de convívio mas de que é saudável sair de vez em quando, que à boa mesa se fortalecem laços e se revivem recordações.
Tudo correu bem: Um prato excelente, a conversa animada, que neste aspecto temos aqui bons dinamizadores, como o Costa e o Fernandes, sempre prontos a dar uma alfinetada na realidade, quando ela parece mais apática e resignada e a trazer à memória velhos episódios de caça, de festa e cenas de típico rosquêdo limiano. E, dada um pouco de corda à língua, com o espírito mais liberto, as surpresas lá vão surgindo de onde menos se espera.