sexta-feira, 6 de abril de 2007

Da conversa à … … … leitura

Todos nos havemos de penalizar por não fazermos um esforço para nos aproximarmos dos outros, quando com eles falamos. Com a aceleração que a vida hoje comporta a imagem que nós temos daqueles que conhecemos num dia raramente perdura para além dele.
Mesmo em relação à maioria dos nossos relacionamentos, não chegamos a conhecer ninguém, senão através do seu enquadramento social. Nós fugimos, as pessoas fogem-nos, não porque haja de parte a parte qualquer aversão ou outro sentimento mais negativo, mas porque é assim, naturalmente, sem dar azo a ressentimentos ou recriminações.
E todos nos vamos habituando à indiferença com que somos tratados, ao desprendimento com que hoje se estabelecem e se desfazem as mais variadas relações sociais. A pressa com que hoje se vive faz com que esta atitude seja considerada como a que melhor evita conflitos desnecessários.
Não fora a pressa que nos leva a considerar muitas situações como puras percas de tempo, teríamos ainda a constatação de que as aproximações intempestivas podem ser facilmente fonte de arrelias e arrependimento.
Em relação às pessoas com quem lidamos habitualmente, julgamos conhecê-las bem e em relação àquelas com as quais existe maior distância, julgamos conhecê-las suficientemente bem para que pensemos que possa ocorrer qualquer surpresa que faça mudar o nosso relacionamento.
Nós conhecemos essencialmente as pessoas pelo seu enquadramento social, pela rede de relações em que estão envolvidas e pensamos ser isso perfeitamente suficiente para o mais normal relacionamento.
Normalmente só é possível oferecer e encontrar nas pessoas maior receptividade se houver interesses específicos, localizados e devidamente temporizados, principalmente se essa maior aceitação dum relacionamento pessoal for importante para a satisfação dos interesses em jogo.
Esta confiança interessada, pela importância que pode assumir, pode ser o sustentáculo de um relacionamento mais aprofundado. Mas o normal é que terminada esta etapa, logo o invólucro se feche em redor e a impressão que fica não seja mais que um apontamento para futuros relacionamentos da mesma natureza e para o enquadramento social.
Os relacionamentos continuam a estabelecer-se preferencialmente com pessoas ligadas aos mesmos interesses profissionais e de negócio ou assentam em cumplicidades já suficientemente testadas para terem alguma solidez. Neste aspecto todos somos preferencialmente conservadores.
Cada vez é mais difícil estabelecer uma conversa, muito menos um relacionamento perdurável com quaisquer pessoas e em especial com pessoas com interesses, extractos sociais, idades ou experiências diferentes.
Também a comunicação por via dos jornais, livros ou através de outros meios está sujeita à mesma pressa, à escassez do nosso tempo, à economia da atenção e do relacionamento. Procuramos sempre aquilo que do antecedente já nos diz alguma coisa.
E na leitura já quase se passa o mesmo que nas conversas, mesmo que encontremos algo que poderia ter algum interesse, dificilmente temos tempo para isso e, mesmo que penalizados, passamos ao lado, indiferentes.
Hoje, por parte de quem pretende comunicar, exige-se um redobrado esforço e algum talento. Mesmo o comunicador que só transmite aquilo a que um sector específico está disposta a prestar atenção e tem por isso audiência certa, terá que acrescentar sempre algo de novo, se não é ultrapassado.
Aqueles que como eu, só esporadicamente comunicam, se forem lidos, vão-no sendo de forma cruzada, de modo a que o leitor possa apanhar aqui ou ali uma ideia susceptível de suscitar alguma curiosidade. De qualquer modo uma primeira impressão manifesta-se normalmente decisiva.
Como o leitor tem que escolher, e de, para cá chegar, ultrapassar o que lhes parece mais imediato, de entre a variedade que se lhe apresenta, provavelmente só por casualidade terá chegado aqui.
Muitos deixam de escrever, como outros deixam de tentar conversar com alguém, porque é difícil, é necessário muito esforço para mantermos viva a curiosidade, quando aquilo que escrevemos não passa de algo estranho, pela maneira como hoje se encara a vida e o relacionamento.
A melhor maneira de comunicar é aquela que se pode cingir à brevidade de uma mensagem de telemóvel. Mas se é fácil estabelecer uma cumplicidade temporária, indispensável para a eficácia desta forma de comunicação, torna-se difícil, imprevidente, estabelecer a partir daí uma cumplicidade duradoira.Ora nesta forma de comunicar pressupõem-se que na maioria dos leitores, em vez de cumplicidade, haja estranheza. E tem a grande vantagem de ser descartável. Dá-se-lhe uma reviravolta como quem deita um papel ao lixo.

sexta-feira, 30 de março de 2007

Como recuperar o prazer da leitura?

O mundo estratificado em camadas e compartimentos está acabado. Hoje em tudo se vê relação e, por mais trivial que nos pareça um fenómeno, puxando os devidos cordéis, facilmente chegamos à complexidade das coisas, aos reflexos e repercussões no mais longínquo do horizonte.
Hoje todo o grão é tido como parte fundamental no equilíbrio universal mas não há dúvida que muitas vezes, por vias esconsas, se chega a tão exagerados conclusões, a tão rebuscadas conexões que só um cérebro bem iluminado é capaz de ver, mas que nenhuma autoridade intelectual é capaz de impor.
É bem verdade que a verdade vem por onde menos se espera e aquele anúncio do “explica-me lá muito bem, como se eu fosse muito burro” tem a maior actualidade, atinge no cerne o problema. Sem desprimor para quem lê, quem escreve tem de ter esta preocupação de tudo explicar.
Muitas vezes dói-me não perceber nada do que se escreve, mais ainda mais me dói quando leio nos jornais, porque não vou ter hipótese de reler. Não tenho gosto em guardar os meus jornais e o dos outros presumo que também seguirão o caminho da reciclagem. Ou deviam seguir.
Que valor terá o que se escreve quando o escrevinhador, sem apresentar um fio condutor, quer tirar conclusões apressadas de acontecimentos mal contados ou insuficientemente esmiuçados.
Os filósofos sempre procuraram a unidade que explicasse o todo, o grão em que tudo se pudesse decompor. Há quem acredite que já tem toda a sabedoria e que num bafo a pode transmitir.
É o cérebro humano que ilumina e dá sentido, é para si a força unificadora, salvo quem procura a luz no exterior. Mas a realidade é esquiva e ninguém consegue transmitir ao outro uma visão, nem que seja tão só contemplativa, que ele possa partilhar em absoluto.
Cada homem tem a sua visão, fruto de múltiplos factores próprios, do ambiente, do passado, do presente, das expectativas, e que não pode ser transmitida como uma estática fotografia.
Para que a comunicação se faça com alguma eficiência é necessário que cada um se conheça bem a si próprio e conheça suficientemente bem as pessoas com que se relaciona.
Além de que ninguém pode ter a pretensão de ter do universo a compreensão mais próxima da verdade, de ter uma visão mais ampla ou abrangente que lhe dê alguma superioridade intelectual, também ninguém pode ter a pretensão de ser bem compreendido
As coisas são fáceis de explicar, os consensos são fáceis de obter quando nos limitamos a um universo restrito. Quanto mais se alarga o horizonte, mais difíceis eles se tornam. Quanto menos nos conseguimos aproximar do universo do outro, por falta de esforço de qualquer um, mais difíceis eles se tornam.
Por força da nossa vida ou por necessidade intelectual, o natural é que nós não nos contentemos com mundos pequenos, horizontes limitados. Mas o sábio tem que ser compreensível com o menor percurso dos outros, daqueles que se colocam na sua frente, o lêem.
Noutros tempos, um sábio tinha por primeira qualidade a sua humildade, tinha consciência das suas possibilidades e limitações. Hoje, que vemos tanto néscio a botar faladura, cada vez menos em fóruns abertos, mas arrogantes nos banquetes, seria bom que usássemos a comunicação para fazer jorrar luz.
Hoje o sábio reconhece que, sendo a luz branca, ela é composta de luzes de muitas cores. Também só várias perspectivas podem contribuir para ajudar a clarificação de muitas mentes incluindo a nossa.
Não nos podemos inibir de dar a nossa perspectiva e de abordar temas e questões de alguma complexidade. A informação que hoje surge no dia a dia impõe que saibamos tratar dela, sob pena de nos intoxicar.
Outrora dizia-se que ao lavrador só interessava o preço do milho e ele era capaz de prever a sua evolução. Hoje o preço do milho não é formado aqui e se o lavrador quiser ter a mesma capacidade de previsão tem que ter acesso a muitos dados de todo o mundo e possivelmente fica com uma informação que lhe não serve para nada.
Hoje este é o drama da comunicação: Por um lado excesso de dados, por outro excesso de analistas. Por um lado denegação dos dados mais valiosos; por outro imperícia com os instrumentos de análise.
Também nós corremos esse risco, de que os leitores verifiquem que o melhor é marimbarem-se para aquilo que escrevemos, que deste paleio não tirarão proveito nenhum.
E eu dou-lhes razão: Se a leitura se assemelhar a verborreia delirante é melhor abandonar; se da leitura resultar um efeito desintoxicante, de alguma abertura, valerá a pena perder algum tempo.

sexta-feira, 9 de março de 2007

A preocupação pela segurança não é de esquerda ou direita

Dois assaltos, de alguma monta, à propriedade alheia, um a um depósito de tabaco em Ponte de Lima, outro a uma ourivesaria em Ponte da Barca, levam-nos a concluir que os larápios não escolhem a cor das fardas das forças de segurança em presença nestes burgos.
Os rapinadores escolham a hora do dia, os meios de transporte, os ramos de comércio e actuam no geral na maior impunidade. É uma praga que vem de longe, da Galiza ou dos arredores do Porto e que cá vem com a facilidade que as auto-estradas e os bons carros roubados facultam.
Perante armas tão desiguais ninguém duvida que o papel das forças de segurança tem a ingratidão que a impotência, a falta de meios capazes lhes dá. Além de que ninguém lhes agradece que sejam heróis, que a confusão processual em que se metem por usar meios mais violentos é motivo suficiente para eles evitarem conflitos.
Neste contexto a justiça, pela sua formulação e pela prática, no seu papel de dirimir os conflitos sociais, tem, nestes tempos, colocado as duas partes, por natureza tão diferentes, em igualdade de circunstâncias. A própria opinião pública, por reacção a atitudes menos pensadas de alguns agentes da autoridade em situações que não justificariam o uso de violência, não se mostra favorável à utilização de meios mais radicais de imobilização dos criminosos.
O meio de luta mais consensual é a prevenção mas para este tipo de violência nada podemos fazer. Os seus agentes não são de cá, usam os meios mais evoluídos, tem a seu favor o tempo, o segredo, a organização.
A situação das coisas tem de ser alterada. O que podemos fazer é clamarmos por um reforço dos meios dos agentes locais de autoridade o que passa também por os ver inseridos num sistema centralizado de rápido acesso a meios informáticos, de pessoal e material.
Esta é uma das razões porque é vantajoso que em Ponte de Lima houvesse uma só força de polícia, chamem-lhe o nome que quiserem, mas a dispersão de meios por duas linhas de comando e a prevalência nos concelhos limítrofes de uma outra força diferente e cá minoritária, não favorece a articulação e a maleabilidade dos meios existentes.
Vai-se caminhar para a uniformização, não há dúvida, mas enquanto se lá não chega temos de continuar a solicitar o reforço dos meios, perfeitamente desajustados mesmo que não houvesse desperdício.
É necessário darmos aos agentes que se empenham em evitar o desrespeito pela lei, pela propriedade particular e pelos bens de domínio público, em defender o sossego e bem-estar da população, a solidariedade nos momentos difíceis em que os insatisfeitos manifestam alguma incompreensão.
O trabalho de polícia, exercido com dignidade e aprumo, é dos mais gratos para quem o exerce e não devemos estar alheios à sua importância. A farda que se veste é irrelevante na sua cor ou corte, qualquer uma deve ser vista no sentido de um símbolo que é necessário respeitar e dignificar.

Formação certificada, uma questão de justiça ou de economia?

Uma questão como esta do Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências deveria estar absolutamente dissociada da questão da Formação.
A Formação é necessária, não só dentro das empresas para ir adequando os trabalhadores à evolução tecnológica, como fora para preparar os desempregados, os que procuram um primeiro emprego ou querem tão só mudar de emprego, com habilidades para o desempenho de nova ocupações.
Sem formação permanente é cada vez maior o fosso entre a qualificação dos trabalhadores mais antigos e as necessidades das empresas e a presumível qualificação dos mais novos. Mas esta deverá ser sempre um complemento da formação de base obtida nas estruturas normais de ensino.
Como complemento não deve ter em exigência diferente e a sua certificação deve ser feita por entidade diferente da que ministra a formação. A cada formação deverá corresponder um número de créditos adequados ao seu valor e dificuldade para que possa ser atribuída uma correspondência ao esquema normal de ensino, após a obtenção de um número determinado de créditos.
Problemático é obter uma fórmula de avaliação da auto-formação, principalmente quando não é orientada, e dos conhecimentos obtidos da pura prática. Aí só o resultado prático poderá dar consistência à certificação.
Todo o conhecimento não sistemático tem um valor relativo, veja-se as pessoas cuja verborreia é por demais profícua mas que não são capazes de fazer nada no concreto. Podem ser pessoas “espertas”, que conhecem todas as manhas e artimanhas de uma dialéctica cujo objectivo é tão só “ficar por cima” em qualquer conversa de café, nem que tenham que saltitar entre visões fragmentárias e redutoras da realidade e baralhar conceitos sem decoro.
Integram-se neste rol as pessoas que, alegremente, sustentam que não precisam de formação, No geral não dispõem de uma disciplina mental adequada, mas que aparecem quando surge a oportunidade de subir em grau académico. Avaliar e atribuir graus académicos aos portadores deste tipo de conhecimento é um puro desperdício, a promoção de uma injustiça relativa, a eternização dos esquemas mentais do Chico-espertismo nacional.
Nada mais justo do que a possibilidade de obter graus académicos fora do esquema normal de ensino, nada mais justo do que a avaliação ser feita neste caso a conteúdos diferentes dos normais. Nada mais injusto do que atribuir graus iguais com exigências diferentes nas duas possibilidades de formação.
A diferença entre as duas possibilidades não deve estar na rigidez da exigência, mas somente na substância da formação que é sujeita a validação. Caso contrário só nos estamos a iludir, a pensar que estamos a diminuir o fosso que se criou e na realidade estamos a criar um fosso maior.
Além do mais estamos a iludir a própria juventude, que ela própria está a ser aliciada para aos dezoito anos entrar em esquemas ilegais que, como já é hábito, se vão criar para sacar fundos europeus. E esta questão deve ser vista no domínio estrito da economia, mas não neste imediatismo confrangedor.
Tanto lamentamos o dinheiro já mal gasto, tanto nos culpamos pela nossa avidez, que seria dramático que não aproveitemos bem, bem para a comunidade, para a economia nacional, esta nova e última oportunidade.

terça-feira, 6 de março de 2007

Catorze romeiros em convívio serrano

Que íamos só ali à Serra, uma maneira de nos encontrarmos, de conviver, de folgar. E isso a propósito de um bom manjar, de um cozido à portuguesa que não há haverá igual. Já outras pessoas me tinham falado desta iguaria, no fundo tão vulgar no nosso meio, mas que se não confundiria com outra.
E lá fomos, que isto agora é mesmo perto: Pela auto-estrada para Viana e em Meixedo seguimos pela estrada de Âncora. Num instante estamos junto à Igreja da Montaria, que reza na sua frontaria já ali estar desde 1714. E à sua frente lá temos o nosso destino: O Restaurante Serra d’Árga.
Que nós avisamos o Senhor Alcides de que estaríamos lá pelas uma hora e meia e não tínhamos pressa, a tarde é nossa. Quando o celebrado prato veio para a mesa, o aspecto já prometia, que nisto, como é sabido, os olhos comem pelo menos tanto como a barriga.
À primeira prova da lombarda foi logo dado um sinal ao estômago de que se fosse preparando, que a coisa não ia ficar por aqui. Porquê? Se houver alguém mais atrevido que questione à cozinheira, que eu não sou perguntadeiro de segredos que interessa preservar.
Afinal o cozido à portuguesa tinha tudo que um cozido tradicional deve ter, salvaguardando algumas diferenças de região para região. Tinha chouriço à moda da Serra de Arga, que, como o nome diz, é mesmo característico de cá.
Depois tínhamos a chouriça de cebola, as carnes frescas e fumadas de porco, a carne de frango e mesmo de vaca que estavam um primor. Onde estará porém a diferença? Eu sugiro que é da especial gordura de um destes elementos, embora se diga que a gordura é maléfica para o organismo.
O certo é que as batatas, as cenouras e as couves tinham um sabor tão esmerado que é difícil ser mais apetecível. Também se come leite-creme em muito lado mas este estava saboroso e não desmerece do doutras regiões.
Quando tudo sai bem o convívio é mais agradável e os catorze amigos que aqui se juntaram, a grande maioria aposentados e disponíveis para estes convívios à quinta-feira, estão bem vivos e bem dispostos, valha-nos isso, cheios de projectos para o futuro, todos se sentiram satisfeitos com o repasto.
E no regresso que melhor do que ir apanhar o ar fresco da Serra de Arga, por Dem, Arga de S. João e S. João de Arga fazendo a paragem obrigatória na “Tasca do Horácio” em Arga de Baixo. Esta é a paragem obrigatória de todo o viandante que atravesse esta Serra, que aqui, fosse ou não à caça, também muitos de nós já paramos.
Tal como os Presidentes ou os visitantes da Arte na Leira, também nós aqui prometemos voltar, mas agora depressa o dia se faz tarde e lá temos de rumar de novo à nossa terra de Ponte, que aliás já ali está passada Arga de Cima.
Num instante estamos no nosso Largo de Camões, sala de visitas de Ponte, local privilegiado de convívio mas de que é saudável sair de vez em quando, que à boa mesa se fortalecem laços e se revivem recordações.
Tudo correu bem: Um prato excelente, a conversa animada, que neste aspecto temos aqui bons dinamizadores, como o Costa e o Fernandes, sempre prontos a dar uma alfinetada na realidade, quando ela parece mais apática e resignada e a trazer à memória velhos episódios de caça, de festa e cenas de típico rosquêdo limiano. E, dada um pouco de corda à língua, com o espírito mais liberto, as surpresas lá vão surgindo de onde menos se espera.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Seremos todos capachos, “camarada” Defensor?

Há uma ideia vagabunda que, quando é conveniente, é apanhada por alguns agentes políticos que é a de que o País é o simples somatório de alguns territórios e por consequência de alguns poderes parcelares.
Como os poderes do Estado extravasam em muito o que seria admissível que emanasse das pequenas parcelas, há actores que se arrogam a representação de outras pequenas parcelas similares. Incham, incham e ninguém parece segurá-los.
Tudo era mais claro se o Estado tivesse uma organização coerente e não “permitisse” a estes senhores a desfaçatez de se dizerem possuidores de poderes que ninguém lhes delegou, nem o Estado, nem quem neles votou só para o exercício de poderes específicos, nem muito menos os vizinhos que não votaram neles para nada.
Podíamos ir à Madeira mas temos casos, não tão aberrantes, mas igualmente fora das normas, aqui ao pé da porta. É o caso de Defensor Moura que fala como se falasse de um grupo de municípios sem passar patavina a nenhum dos integrantes, e até sobre assuntos que só dizem respeito ao povo. Por isso ele afirmou:
“Eu se quisesse tinha a presidência da Valimar. Eu não quero comando, mas também não quero ser comandado”. Além da linguagem inadequada, mas que diz bem do seu carácter, que hoje já se fala e se vai praticando a liderança, ainda afirma que “Sempre achei o Francisco Araújo era um bom presidente e deleguei nele”. Se não fosse caricato diria: É Campelo um capacho?
Para Defensor a sua quinta está bem e tanto basta:”Viana está bem como está. Tem o sistema ideal: associação com os municípios do Vale do Lima e com os do litoral”. No meio, principescamente, Defensor vangloria-se “conseguiu o sistema de águas e a via rápida”.
Os de Ponte de Lima e os outros que paguem a água de que não precisam (de Touvedo) e as auto-estradas que em Viana é tudo à borla (do interior paga-se para ir ao Porto). Com o estômago cheio vá de falar para o País:
“Sou contra o Minho, a organização administrativa do Estado tem de ser Norte de Portugal e depois o Distrito seguido do município”. Nós que já julgávamos o Distrito enterrado, não me digam que a sua ambição é ser governador civil!
E para que Daniel Campelo não fique só na sua saga contra a nossa agricultura, depois do seu ataque ao queijo flamengo, é a vez do vinho verde, acabem-se com eles, são uma p…. Bom vinho do Porto e viva o F.C.P., Também este quer “lulas = agradar a alguém” é o que é.
O Norte, enquanto se não definir, pode ser tudo o que queiramos, mas é multifacetado, multicolor, multicultural. Não é bom remetermos para a falta de um poder regional as nossas frustrações colectivas, fruto de não nos conseguirmos entender sequer ao nível de micro-regiões. O Norte merece mais do que isso, não preciso daquilo que estes Senhores lhe querem dar.
Numa região a Norte e muito menos se Minhota, Defensor Moura sabe que lhe não chega ter “quatro municípios que tinham três partidos diferentes e quatro presidentes de Câmara que não tinham passado político importante, que colocaram os interesses do Vale do Lima acima dos partidários”
Defensor Moura é pelas minorias de bloqueio, pegou numa manta de retalhos, aproveitou a imaturidade destes jovens políticos, temerosos de morrer no anonimato, e deu-lhe uns rebuçados, o que lhes permitiu um brilhosinho nos olhos. ¿Quem votou neles para defender interesses do Vale do Lima e não para defender o Alto Minho, o Minho, o Norte, ou outra região qualquer?
Este homem tem méritos, tem uma ideia de cidade, luta por ela e com algum arrojo. Mas não tem uma ideia de região, nem de País. Fica-se pelo vinho do Porto, infelizmente cada vez menos importante, pelo mundo aleatório da bola, ainda não livre de acusações de corrupção e encobridor de negócios obscuros.
“Não queremos T.G.V.”, claro que esse vá chatear lá para cima. Quando a sua intervenção pode ter repercussões para além do seu quintal, desculpabiliza-se e às Águas de Minho e Lima, que “são estradas com muito trânsito, em que é difícil trabalhar com eficiência e segurança. Compreendo”.
Isto dos buracos nas estradas não dá mediatismo mas já quanto à A28 “disse aos membros da Comissão de Utentes é que eram pouco persistentes, pouco mediáticos a fazer as suas reivindicações. É necessário fazermos ouvir a nossa voz e gritar um pouco mais alto. Eu próprio faço isto”. Já sabíamos.
A solidariedade, a conciliação de interesses, que não dos que presidem às Câmaras de cada terra, mas das populações que lá habitam, tem de estar presente nos discursos e na prática de qualquer político que queira ter alguma credibilidade. Mas não se pode substituir à voz do povo.
Defensor não tem qualquer credibilidade fora da sua terra: “ Eu tenho que defender os interesses dos Vianenses”. Se há políticos que nos enganam, este é bem claro. Não engana porque não combinou nada connosco.
Defensor desconfia de todos, de pequenos e de grandes. Quanto à “Universidade do Minho precisava de massa crítica” e “nós não somos súbditos” e “o Minho é uma província do séc. XIX que nunca teve poder administrativo”, quem não tem poder não interessa.
Todos querem controlar tudo, menos ele, até aquela “meia dúzia de municípios do distrito se juntaram, com 10.000 habitantes cada um, e querem controlar e mandar no distrito”.
Ninguém é santo mas este Senhor não dá oportunidade a ninguém. Talvez ele seja santo na sua terra, que cá fora todos o temos de ver como imbuído de algum maquiavelismo.
Eu que não sou filiado no seu partido, queria que ele tivesse uma intervenção cada vez maior na vida pública, na defesa dos interesses do Alto Minho, dos seus concelhos, associados ou não, mas não separados, pela intervenção dos socialistas desta mini região, como seus representantes ou não, mas que pertençam a qualquer órgão que possa ter alguma intervenção.
Eu queria que houvesse políticos cada vez mais credíveis e acho que o Partido Socialista terá que deixar de dar voz a quem não representa os ideais socialistas, antes perfilha visões paroquiais e métodos antiquados de fazer política. Só o não faz se houver um centralismo que viva bem com estas divisões, ou se esta “pequena” politica não interessar à “macro” política.
A imprensa não pode ser utilizada somente por estes Senhores que querem engrossar a voz, mas por quem se vê espoliado do direito a ter políticos que saibam fazer a intermediação entre os vários patamares do poder e não queiram ser eles a tudo decidir nas costas do povo. Se assim fosse este género de políticos não subiam tão alto. Mas ainda lhes podemos bater na cabeça.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

O que está em causa no referendo sobre a I. (V.) G.

O referendo sobre a Interrupção (Voluntária) da Gravidez vai ter implicações para além do tema em si. Definitivamente, ou:
Se vai institucionalizar esta forma de um exercício profícuo da democracia, caso o resultado for vinculativo, isto é, votando a maioria dos eleitores, sinal de que estão conscientes da sua cidadania.
Ou não votando essa maioria e por ser a terceira vez em que ela se não atinge, o referendo ficará para sempre desacreditado, nos termos em que a Lei o define, as pessoas não vão mais acreditar nele, isto é, nos outros, enquanto pessoas dispostas a dar credibilidade a este processo democrático.
Porém o resultado terá as suas implicações próprias sobre um tema que urge clarificar e que, pela sua importância, só por si condicionará o comportamento das pessoas que são chamadas a votar.
Se muita gente, inclinada a votar num sentido ou noutro, se sente inibida para votar sobre um tema que sabe ter mais implicações morais do que acredite vá alterar alguma coisa em termos de prática, é necessário chamar a atenção que as implicações a nível social que só por si são suficientes para que nos sintamos impulsionados a intervir e a votar.
Neste referendo está em causa se votar NÂO, que contrariamente à Lei:
a) Continuará a haver aborto clandestino e aborto no estrangeiro.
b) Continuarão a não ser penalizadas as mulheres que abortam.
c) Continuarão a não ser penalizadas as pessoas que executam o aborto e no geral se pagam bem por isso, continuando a contribuição do aborto para a economia paralela.
d) Continuarão as mulheres que abortam a poder sofrer consequências nefastas de abortos feitos sem condições e a recorrer aos hospitais públicos para resolver problemas derivados de maus procedimentos.
e) Continuarão as boas consciências a sentirem-se bem porque poderão continuar a tratar as vítimas do aborto como vítimas do pecado, que para sentirem o seu peso não devem ter facilidades.
f) Continuarão as boas consciências a pensar que a penalização do aborto, mesmo sem efeito, é a última resistência à libertinagem moral.
g) Continuarão os filhos indesejados a ser vítimas dos maus-tratos, da falta de afecto, da marginalidade que sobre várias formas sobre eles se abate, primeiro na família depois na sociedade.
h) Continuarão os filhos indesejados a ser o único e fraco sustentáculo para muitas uniões sem outras bases sólidas e que na falta disso e para melhor se desmoronariam.
Neste referendo está em causa se votar SIM, que a Lei será alterada para que:
a) As mulheres poderão recorrer aos serviços médicos, públicos ou privados, para interromper uma gravidez que tenha dentro do período de dez semanas e não corresponda ao seu projecto de vida.
b) As mulheres poderão recorrer a outro tipo de apoio, incluindo psicológico, se após um período de reflexão entenderem não levar para a frente a sua intenção inicial.
c) As mulheres que abortem fora das condições previstas na Lei serão penalizadas conforme a gravidade do seu procedimento.
d) Quem contribuir para a interrupção da gravidez fora dos condicionalismos previstos na Lei será seriamente penalizado, mais gravemente se for pessoal médico ou paramédico.
e) As boas consciências dedicar-se-ão a condenar moralmente quem quiserem e pelo prisma que entenderem e a denunciar os casos em que haja violação da Lei, e benefício indigno com esta situação.
f) Diminuirão os filhos indesejados, melhorando o tratamento e o afecto dispensado aos filhos e diminuirá a marginalidade familiar e social, que não haverá mais “desculpas” para isso acontecer.
g) A diminuição dos filhos indesejados permitirá que as uniões em que as mulheres desejem participar tenham maior consistência.
Votar é assumir uma atitude responsável. A democracia sairá mal da contenda se não houver maioria de votantes. O voto no referendo é pois um voto na democracia.
O voto Não, mesmo mantendo a incerteza, é um voto na democracia.O voto Sim é um voto na democracia, na clareza, na legalidade, na certeza que cada vez se farão melhores e mais respeitadas Leis.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

A feira na economia local

A feira, quer se queira, quer não, está connosco, é um “organismo” bem vivo. Sendo a feira um acontecimento inserido no campo da economia, tem de ser analisada nesta perspectiva. Mas, se quisermos, também a podemos inserir no domínio da tradição e da tipicidade. Também lá podemos ir.
Sob o ponto de vista económico, a feira evolui porque evoluíram as condicionantes económicas. Por exemplo as acessibilidades, o tempo e o preço do transporte.
Para vermos a diferença, em tempos vinham algumas camionetas de carga com bancos laterais apinhados de passageiros, em especial mulheres, cada uma com a sua trouxa de retalhos, para não dizer de trapos. Hoje vêm dezenas e dezenas de grandes carrinhas, cada uma com material que daria para encher um estabelecimento de boas dimensões.
Evoluíram também o tipo de mercadorias com interesse para as pessoas. Dos produtos agrícolas passou-se aos produtos industriais. Do artesanato passou-se à manufactura e à automação.
Evoluíram o destino das mercadorias e a natureza da feira. De uma feira de compra e venda passou-se a uma feira praticamente de só compra. De uma feira de permuta passou-se a um mercado de abastecimento.
Antigamente era na feira que os lavradores vendiam quase todo o tipo de produtos agrícolas, excepto o vinho. Só com essa venda os agricultores adquiriam os meios financeiros que lhes permitia comprar aquilo que os feirantes traziam: roupas e utensílios.
Antigamente os feirantes não eram só os que vinham vender. Talvez a maioria vinha mesmo comprar. Muitos dos produtos agrícolas, e em grandes quantidades, eram levados para longe, para fora do concelho, para o país. Há todo o interesse que os feirantes não só tragam mas também levem alguma coisa daqui.
Os locais também vendiam uns aos outros, faziam uma permuta indirecta. Hoje praticamente nada de cá se vende, seja do campo, seja do artesanato.
Hoje os poucos produtos agrícolas vendáveis já não passam pela feira. Quando muito é na feira que se fazem alguns contactos e contractos. Quanto aos produtos dos artesãos já foram substituídos por outros com outras proveniências.
O trabalho que cá se oferece não dá rendimentos a todas as pessoas. A degradada agricultura e a incipiente industria são insuficientes. Há muita gente a trabalhar fora e longe do concelho e que continua a comprar na feira.
O certo é que as pessoas vão tendo alguns rendimentos porque senão os feirantes não vinham para cá. Não tem os rendimentos suficientes ou hábitos exigentes para outros luxos, mas a própria feira se vai adequando à evolução do tipo de procura.
Hoje a feira diversificou-se muito. Qualquer produto vendável que seja cá trazido a preços competitivos é susceptível de ser aceite na feira. Condicionalismos só para os produtos mais degradáveis ou vulneráveis de origem local.
Aqui nós poderíamos entrar no domínio do que é característico ou pitoresco. Mas nós não podemos obrigar as pessoas a comprar cântaros de barro quando elas preferem os de plástico.
A feira consegue andar sempre à frente do comércio local e as pessoas ganham hábitos que dificilmente perdem. Há uns baldes de plástico reciclado, indevidamente usados para produtos comestíveis, que são já há anos comercializados em todo o lado a 1,5 €. Eles também estão à venda nas lojas locais, mas as pessoas continuam a comprá-los preferencialmente na feira.
Uma das características da feira é que as pessoas conseguem encontrar tudo ou quase tudo num espaço relativamente pequeno. É essa também a estratégia dos supermercados e das lojas dos chineses. São desordens organizadas, memorizações que as pessoas fazem, como quem memoriza a Salve-Rainha.
O feirante tem sempre por ambição meter a sua mercadoria pelos olhos dentro dos possíveis compradores. Nas modernas superfícies comerciais só entra para vender quem o seu dono quer e a amostra é organizada. Nas feiras tem que haver quem assuma esse papel moderador e modelador.
Aqui, mais do que os interesses dos feirantes, o interesse nas taxas por eles pagas ou o interesse num pretenso pitoresco, há que zelar pela defesa do espaço, do património, do direito de estabelecimento, pelo incentivo à fixação do comércio, pela promoção do comércio local, pelo apoio à agricultura e à pecuária, pela conciliação dos vários interesses em jogo.
A feira está para a economia local como um eucaliptal para a floresta mediterrânica. Mas é possível conciliar os interesses que confluem ou são afectados pelas feiras. Mas como em tudo, uma conciliação só pode ser o resultado de interesses que se manifestam e que adquirem poder negocial.
Nestas, como noutras questões, detectam-se factores que deveriam ser tomadas em consideração para tomar decisões num ou noutro sentido, mas que, para que tal acontecesse, era necessário que fossem partilhados por alguém.
A inépcia das associações existentes, que deveriam partilhar esses valores, é por demais manifesta. Para não dizer que há uma demissão da responsabilidade de muitos, mas é isso que eu ouço em termos certamente mais sugestivos e agressivos.
Parece que todos estão à espera que, para esse fim específico, venha dinheiro da Europa, entretidos que estamos, salvo seja, a dar caminho ao dinheiro que vai vindo.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Regular ou manter a desregulamentação penal da I.(V).G.

Por força do progresso, pela complexidade crescente da vida económica e social, pela exposição cada vez maior de aspectos da vida pessoal que por esse facto passam a ser, pelo menos parcelarmente, do domínio público, o Estado, como regulador, cria continuamente novas leis para regulamentar factos novos, para complementar ou substituir as antigas.
Muitas vezes o Estado imiscui-se em domínios que são mais do foro pessoal que social mas de forma a balizar comportamentos dentro de normas com uma coerência própria, independente da legitimidade que para isso se possa invocar, que em muito se vai buscar ao grau de exposição dos factos.
Qualquer intromissão excessiva no foro estritamente pessoal acaba por ser rejeitada, tudo começando com o desrespeito generalizado da lei e nada pior do que isso para a garantia de credibilidade que todos devemos esperar do Estado. Sobre factos do foro pessoal, penalizáveis pela lei, mas que na prática o não são, nem têm uma repercussão evidente na vida social, a lei está a mais.
Argumentarão alguns que, havendo penalização do aborto, alguém dos potenciais infractores respeitará a lei e isso, só por si, é suficiente para a justificar. Fraco argumento se aqueles que o querem fazer o fazem mesmo e só uma parcela muito residual, por força da debilidade económica, razões morais ou familiares e sociais, o não faz quando essa seria a sua intenção.
O que não podemos esquecer é que são estas pessoas mais debilitadas e incapazes de assumir uma paternidade consciente, que criarão os filhos com mais dificuldades, os deixarão menos preparadas para enfrentar as dificuldades que se lhe vão deparar durante a vida.
Um filho indesejado pode constituir um estorvo e se nós dizemos que isso nunca deveria acontecer, sabemos que infelizmente isso é verdade com muita gente que, com legalização ou sem ela, continuará a não assumir as suas responsabilidades paternais.
Mas a legalização será um passo importante no sentido de não mais haver desculpas para quem maltrata os filhos, os violenta.
Um Sim à despenalização da I.V.G. é um Não aos filhos indesejados, um Sim à paternidade responsável e um Não à violência sobre as crianças, seres realmente vivos e conscientes.
Um Não à despenalização da à I.V.G. é um Sim aos filhos indesejados, um Não à paternidade responsável e um Sim à violência sobre as crianças.
Um aborto não me indigna porque eu o não vejo, é assunto que deve ser tratado entre a mulher, a sua família, mais restrita ou mais alargada, os serviços de assistência psicológica e social, os serviços médicos e os serviços de adopção.
Por outro lado a violência sobre os jovens amedronta-me, aterroriza-me, indigna-me o suficiente para aceitar que sejam tomadas medidas radicais de esterilização sobre quem não tenha comportamento saudáveis.
Um embrião não é um ser social, não tem vontade manifesta, não é capaz de emoções, nem transmite sentimentos.
Uma criança é um ser social, já tem vontade, emociona-se, elabora e transmite sentimentos, grita a sua indignação perante a iniquidade de quem cobardemente a agride.
Há duas realidades distintas que devem merecer do Estado tratamento diverso: Deixar ao domínio pessoal e familiar o que é dessa esfera e intervir mais eficazmente na esfera social, de protecção daqueles que devem merecer o apoio da sociedade.O Sim à despenalização da I.V.G. é acabar com uma situação hipócrita que não contribui para a credibilidade do Estado, nem sequer para a natalidade. A condenação moral ficará para a família, para o grupo social, para a consciência da própria pessoa. Se não funcionar por aí não funciona mais.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

É mais agradável falar de Natalidade

A discussão sobre a despenalização do aborto é daquelas que após a decisão do referendo estará ainda por concluir. Não sendo agradável, infere ainda de muito cinismo e superstição. E todos estão mortos que chegue o dia da consulta, que depois tudo se esquecerá.
Ninguém se quer chatear e vai dizer tudo o que pensa. Muitos votarão sem estar convencidos. Talvez à última hora surjam argumentos novos, do género tentar apanhar os outros desprevenidos, de surpresa. Não se podem gastar já todos os trunfos e alguns só mediante o desespero virão à baila.
Para já os argumentos carreados para a discussão, sejam pró ou contra, são estanques porque já têm as evidências necessárias, e não mais que isso, espera-se que as deixem intactos e que as pessoas só tenham que continuar a vê-los assim, a pesá-los e dar-lhes a importância relativa.
Há uma tendência para reproduzir a mesma argumentação de há anos, alguma já com séculos, sem curar de ter em conta os progressos na ciência médica e nas ciências humanas, a influência que eles já exercem na vida corrente, isto é, sem uma nova abordagem civilizacional.
Quem quer que um lado ganhe cala os novos argumentos do outro. Insiste nos do seu lado, nem que sejam absurdos e incoerentes com qualquer política global de natalidade. Que isso é para depois ou para nunca mais.
Impõe-se já uma discussão aberta, que tenha por base todos os aspectos do problema e todos os papeis que as pessoas são chamadas a desempenhar durante a sua vida, não só a solução de um problema imediato.
Assim é necessário ter em conta as outras formas de reprodução existentes ou que se adivinham, o papel da genética no presente e no futuro, as diferentes formas de assumir a maternidade, de reconhecer direitos, deveres e da sua eventual transferência mesmo antes do nascimento.
É necessário que o Estado mostre que não sendo importante o embrião a abortar, dá o devido relevo e defesa aos filhos que nascem. É indigno não evitar que a violência se exerça sobre filhos indefesos, que é manifestamente mais perversa e nefasta do que eventuais abortos que não resultem da mesma.
Não repugnará a ninguém a esterilização forçada, decidida judicialmente, de quem, pai, mãe ou os dois que cometam iniquidades como as que se têm visto.
Já para quem pratique aborto, só por esse facto, de modo algum se justifica qualquer medida punitiva. O aborto só era penalizado devido à política de natalidade e pelo aspecto moral já que permitia encobrir realidades que sempre existiram e dar alguma credibilidade ao casamento ou a outras instituições existentes.
O aborto é um acto isolado que nem precisa de ser conhecido, aceite e acordado pelas duas pessoas que é pressuposto estarem na sua origem. É irrelevante o conhecimento de quem é a segunda pessoa, impossível se a primeira não quiser, mas seria esse conhecimento que permitiria tratar psicologicamente a questão, enquadrá-la em alguma forma de incentivo à natalidade, puder resolver o problema doutra forma.
No passado a maioria dos abortos só se fariam para não destruir casamentos ou, que fossem, uniões de facto, para não causar perturbação social, escândalo público. Ainda hoje estes são motivos de se querer o aborto livre e, já se percebeu, secreto. Quando o homem tem a situação mais estável o aborto é um acto injusto, penaliza eventualmente a pessoa menos culpada.
Embora os direitos e deveres de maternidade já hoje se não possam definir partindo do casamento ou até da família como sua base fundamental, no imaginário social ainda é dada grande relevo à sua defesa e a família, mesmo informal, continua a ter grande importância.
Com o casamento pretendia-se garantir uma grande estabilidade à família, o que hoje é na prática quase irrelevante. Porém à família é dada quase a mesma importância de outrora, mau grado os legisladores se vejam em dificuldade para acompanhar as suas diferentes formas de organização.
Pode-se também discutir se, caso se não trate de um problema de saúde, não havendo qualquer prejuízo anormal para a mulher, o aborto não será somente um problema social, resultante de novos valores prevalecentes.
Pode-se questionar quando a gravidez tiver resultado de adultério ou de relações livres não punidas na nossa sociedade, se o Estado deve “financiar” deste modo esse tipo de relações, dando cobertura àqueles novos valores.
Pode-se igualmente questionar quando, além do embrião em causa, haja um embrião de uma família a constituir-se, mas que de momento não está em condições de assumir a maternidade, se o Estado não deve “investir” numa futura maternidade responsável, destruindo o primeiro embrião.
Em muitos casos o aborto será a garantia de relações estáveis no casal envolvido. Mas não haverá dúvida que na maioria só dá garantias a uma relação paralela, por mais legítima que ela seja em relação à que deu origem à necessidade de abortar.
O Estado não tem que resolver todos os problemas sociais, fora assim e nada teria interesse, e a instituição do aborto livre não pode levar a que se vejam com bons olhos todos os abortos, independentemente da sua natureza terapêutica ou não, familiar ou não.
Do que não há dúvidas é que se o aborto for a solução para problemas de saúde, mesmo que de natureza psicológica, a sua legalização implicará que, à semelhança doutros actos médicos, a sua prática seja tendencialmente gratuita.
Já noutros casos, nos tais não vistos com bons olhos, é razoável colocar dúvidas. E também essas dúvidas são para colocar agora, senão quando se discutirão, que de cínicos e hipócritas está o mundo cheio. No dia seguinte a uma eventual vitória do Sim, à boa maneira, todos, incluindo os que votarem Não, reclamarão tudo de graça.
Nestas questões há sempre quem tenha definido linhas farisaicas de pensamento e relegue deveres e responsabilidades para trás das costas, fingindo que os direitos de uns nunca põem em causa direitos de outros.
Era importante que o Estado garantisse que neste caso não põem e isso até seria favorável ao Sim. Mas também que esclarecesse:
Que não é o uso que do sexo se faz que está em causa.
Que direitos e deveres podem estar em causa em relação à maternidade.
Que sistema vai integrar o tratamento da interrupção de gravidez.Que vai por cobro àquela violência que se exerce sobre os filhos já nascidos, que choram, que apelam à sociedade que lhes dê a lealdade que não recebem dos pais, ou doutros assumidos responsáveis, actuando de forma implacavelmente justa para com quem deles abusa.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Poetas havemos todos de o ser

Insidiosamente a doença e a morte vão provocando o seu desgaste na juventude de hoje. Se esta se mostra mais vulnerável que noutros tempos é porque hoje há comportamentos de risco que estão ao alcance de todos e não por uma especial irreverência ou liberdade que seja seu anseio.
Noutros tempos os jovens fugiam, quase que só esporadicamente, dos “trilhos”, desvairavam-se ou muito justamente tinham atitudes da revolta num mundo em que não eram tidos em consideração. Mas eram mais comedidos ao cometer riscos.
Movimentos vindos da América, muitos com a melhor das intenções, organizaram-se, deram um mínimo de substrato ideológico à sua acção ou à falta dela, proliferaram. Se à nossa escala nunca tiveram grande expressão, não faltam jovens que sentem afinidades com esses movimentos, que assumem comportamentos daí provenientes.
Os jovens têm tendência para se relacionarem em grupos fechados, devido às condições em que se movimentam. Se com o tempo cada um vai integrando outros grupos e a influência desses primeiros, e quase exclusivos ao tempo, se vai diluindo, jovens há que se auto-excluem de uma vivência normal, de pertencerem a grupos diversificados e com experiências diferentes.
Muitos jovens acomodam-se mesmo a uma não menos vegetativa vida que a da maioria que eles abominam, com a agravante de ser amiúde uma vida parasitária, difundida como ideologia de vida por grupos de “refugiados”, que se caracterizam pela informalidade com que são constituídos.
Também a esta juventude se tem de dar a possibilidade de sonhar, de assumir atitudes positivas e de se auto-afirmar, noutros cenários, noutras ambiências, sem necessidade de “induzir” estados de alma que a reconciliem com o universo, tão disforme ele se lhe mostra.
Muitos jovens, incapazes de descobrir as motivações maiores que sempre estarão por de traz dos seus comportamentos, assumem facilmente o costume geral de distribuírem culpas como quem atira flores. Só que também facilmente passam das flores às ameaças à família, às instituições de acolhimento, às comissões de apoio aos jovens, à escola, aos grupos sociais mais variados, à sociedade, à política.
Os jovens, mesmo com relativo pouco tempo de vida, acumulam culpas e elaboram os sentimentos respectivos de grandeza e destinos diversos, não raro aceitam a “voz corrente”, que é a que passa nos seus grupos, e simplesmente se deixam adormecer, como se elas transportem verdades insofismáveis e culpados devidamente identificados.
Não é tarefa fácil para os jovens aceitarem as suas culpas, destrinçá-las no meio de um emaranhado que já tem muita gente e alguma história. Tudo seria mais fácil para os jovens se tivessem como objectivo procurar a sua luz própria, orientando a sua vida para um futuro livre.
Numa sociedade que cultiva a culpa, mas que normalmente a deixa morrer solteira, seria bom que cada um a não assuma por princípio, porque isso é bloqueador. Mas também seria bom não a repelir em absoluto, nem a despejar à sorte ou em escada quando se tem a ideia feita, mas ilusória, de que o mal reside sempre no topo.
Ajudar a juventude a ser intelectualmente honesta é um primeiro passo para a sua “libertação”. Os intelectuais “super-estruturantes”, que vêm tudo como resultado de intervenções de cima para baixo, incapazes de descer e compreender as coisas simples da vida, prestam um mau serviço. O amanhã só contará se cada um abrir e trilhar o seu caminho.
Entretanto as vítimas vão surgindo. Os próprios colegas lamentam, são os primeiros a sentir a falta de alguém nas suas comunidades tão estranhamente solidárias. Estranhamente não pensam mais em si, isso não os leva a arrepiar caminho, a pensar em que a próxima vítima pode estar em cada um dos que ficam e mesmo em si próprio.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

A nossa Ponte Romano/Medieval não é uma maravilha?

Dos 793 monumentos nacionais sete peritos seleccionaram os 77 mais bonitos e de maior significado segundo a organização deste evento - http://www.7maravilhas.pt/. Numa segunda fase um Conselho de Notáveis determinou quais são as 21 pré-maravilhas que estão a ser sujeitas ao voto popular para eleger as 7 maravilhas de Portugal.
A nossa Ponte Romano/Medieval resistiu à primeira peritagem, ao primeiro embate, à primeira selecção. Já quando o Conselho de Notáveis foi escolher as tais 21 pré-maravilhas deitou a nossa Ponte por água abaixo.
Protesto. Primeiro porque há um excesso de monumentos do mesmo tipo, de que seria fácil escolher menos quantidade para a selecção final. São sete monumentos do tipo castelo, fortaleza; Sete do tipo igreja, mosteiro ou convento; Quatro do tipo paço ou palácio; Duas ruínas romanas e a Universidade de Coimbra, de algum modo tipo mosteiro. Para haver tanto castelo e mosteiro não há uma ponte, um aqueduto, uma gruta, uma gravura de Foz Côa, um socalco do Sistelo.
Segundo pelo valor em si da Ponte. A parte romana tem velhice que chegue, arte e singularidade que baste. A parte medieval complementa uma obra que teria sido semi-destruída pelo tempo e talvez pelo desleixo humano, numa época de grande indefinição do poder e de grandes cuidados a ter com outros perigos, antes e nos primeiros tempos da nossa nacionalidade.
Terceiro porque, comparativamente e atendendo ao significado dos monumentos, a nossa Ponte representa um esforço sempre retomado durante séculos para, quase só com o trabalho humano e o seu engenho, lutar contra poderosas forças da natureza, para fazer e manter uma obra com evidente benefício para toda a população.
Contrariamente, há na grande maioria dos monumentos seleccionados uma manifestação de ostentação do poder, principalmente proporcionado pelas descobertas e pela exploração da escravatura e do ouro do Brasil. Mesmo que um terço deles sejam em glória de Deus.
Por isso também a minha dificuldade em escolher a minhas 7 maravilhas. Tive que duplicar escolhas de entre a mesma categoria de monumentos, o que era de todo dispensável.
Não estando a nossa Ponte, e se fosse para escolher uma só maravilha, restava-me o Palácio Nacional da Pena em Sintra, pelo seu ecletismo arquitectónico, pelo exotismo, pelo manifestação de romantismo, pelo seu carácter volúvel que representa o carácter volúvel da monarquia Maria/Fernandina.
Dir-se-á que este Palácio tem beleza, sumptuosidade, esplendor, que tem. Que o Castelo de Almourol ou de Óbidos têm imponência, que têm. Que o mosteiro de Alcobaça ou da Batalha têm religiosidade, que têm. Que as ruínas romanas de Évora ou Conímbriga têm por si a história, que têm.
A Ponte Romano/Medieval de Ponte de Lima tem história, imponência, beleza, trabalho, sacrifício feito com significado e objectivos válidos para todos, não é um objecto lúdico, balofo.
Só que, por erro de um grupo irresponsável de notáveis que não dão a cara, não podemos votar nela.

As expectativas que se abrem para o futuro

Um leve exercício conjuntural é a melhor forma de balizar expectativas. É tão grave não termos ilusões como, tendo-as em demasia, acarretarmos com a desilusão inevitável.
Há sempre momentos mais marcantes na vida que uma mera data de calendário, momentos significantes em que nos é dado fazer revisões de objectivos e sua calendarização.
Não é pois disso que em principio se trata, sendo que este ano se vão acentuar os efeitos da alteração que, presumo e acredito, se está a operar no panorama nacional no sentido de uma politica de verdade. Só isto nos fará repensar a razoabilidade de algumas das ambições que a imaginação nos traz e a que uns resistem melhor que outros.
A crise orçamental que despoletou uma série de reformas geradoras de incompreensões e conflitos atingirá o ponto ómega no final de 2007, altura em que será possível avaliar a validade e a suficiência das medidas adoptadas.
Acreditando que sim, mas nunca com carácter definitivo, e porque então estaremos a meio de um ciclo eleitoral, sem especulações a propósito de qualquer possível intencionalidade prévia, esperamos uma inversão temporária da tendência de estagnação que nos atormenta há anos.
Mas cada vez mais se impõe uma atenção redobrada, que não nos deixemos cair na tentação de pensar que tudo está feito e que não possa até haver reversão de algumas medidas anunciadas. Não podemos acreditar cegamente em ninguém, nem em sindicatos que falam em solidariedade mas praticam o egoísmo mais feroz, o que não deixa de estar na sua natureza.
Também no panorama local nos não podemos demitir das responsabilidades no exercício de uma política transparente. Mesmo fraca tem de ser levada a sério a opinião pública, os direitos e obrigações dos órgãos deliberativos que com o seu carácter colectivo possam assegurar mais clareza.
Além de se pugnar para que as coisas deixem de ser feitas em cima do joelho, que não apareçam soluções como resultado de actos de mágica, tem que se envolver a sociedade, em especial os eleitos, na definição do futuro.
As decisões têm que ser explicitadas, sejam tomadas por órgãos unipessoais ou colectivos. Não podem provir de poderes insondáveis. Neste caso escamoteiam-se os propósitos, celebra-se o efémero e institucionaliza-se a veneração. Coloca-se a demissão e a subserviência no lugar da dignidade.
Carregam-se os cartuxos no silêncio dos gabinetes porque em 2008/9 será preciso deitar alguns foguetes. Quem está condenado a só deitar fogo rasteiro são as juntas de freguesia, cada vez mais impotentes e inoperantes.
As aldeias estiolam perante a decadência do mundo rural, mantido artificialmente há muitos anos, mas que agora está no estertor final. À medida que os velhos morrem ou se debilitam, os novos procuram trabalhos economicamente viáveis.
A própria paisagem sofre a adulteração de se verem as vinhas transformadas em silvados, os campos em tojeiras, as boiças em amontoados de lenha queimada. As casas velhas não são recuperadas porque já não correspondem aos requisitos de hoje. Os processos burocráticos dificultam cada vez mais qualquer reabilitação.
Entidades várias assentam a sua mão sobre o território, criando espartilhos de que os fracos se não livram. Os poderosos torneiam a lei, aproveitam a informação privilegiada, as alterações feitas à medida das conveniências, todas as fontes de corrupção, clientelismo e suborno.
De algum modo acreditamos no declínio dos processos chantagiosos, no fortalecimento da opinião pública e no poder da crítica. Acreditamos que se venha a ter satisfação em ser honesto, em ser humilde e em adquirir sabedoria.
Acreditamos que os espíritos se iluminem com a mesma luz clara e resplandecente e que, ao iluminar os outros, com a sua força se suavizem as suas fúrias e se amenize o seu viver.Acreditamos que a miséria regredirá e que o belo e o sublime serão cada vez mais visíveis e ao alcance de mais pessoas. A desgraça deixará cada vez mais o seu lugar na evidência dos nossos espíritos ao estado de graça. A verdade emergirá brilhante do seu esconderijo de restolho e lama.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Desculpem-me … a intrusão

Muitas serão as razões que poderia invocar para solicitar a cedência de algum espaço neste Jornal. Mas escrever aqui será uma tarefa assaz arriscada, quando não tenho qualquer intenção de beliscar o seu carácter, como é evidente.
Este Jornal é feito e dirige-se a pessoas que por vicissitudes várias tiveram destinos diferentes mas que tem em comum a sua origem e vivências de alguns ou muitos anos. Num Jornal que pretende agregar pessoas, das quais eu conheço poucas, que posso eu dizer?
Precisamente o que me atrai é a condição de grupo que tem suficientes ligações para se distinguir com nitidez de outros, mesmo geograficamente próximos. E de grupo que está disposto a lutar por manter muitas características distintivas e identificadores.
Preservar os trilhos espirituais antigos é tarefa decerto mais complexa e estimulante que preservar os trilhos da natureza, malgrado a importância destes. A maneira como as pessoas se relacionam, em face das investidas do mundo exterior a este espaço, sofrem alterações inevitáveis, mas acho que há suficiente empenho em aguentar esse património.
O tempo tem um efeito corrosivo tal, que praticamente a civilizações inteiras que deram o seu contributo para a civilização geral, se deixou de reconhecer o seu rasto. Mas não faltam exemplos de grupos restritos terem conseguido que a sua herança se mantenha viva.
Os Soajeiros, por sua própria iniciativa alteraram em muito as suas condições económicas com reflexos inevitáveis nos seus modos de vida. Também a politica e a economia que se praticam no exterior vão influenciando a sua vivência social.
Estamos pois já longe do doce remanso que em tempos idos caracterizaria uma existência quase idílica. O Soajo não é uma comunidade fechada pois veja-se a contribuição que os seus naturais vão dando em tantas paragens para diferentes grupos civilizacionais.
O Soajo, ao tornar-se uma comunidade tão alargada, sujeitou-se a influências múltiplas que terão tido repercussão na coesão do grupo dos Soajeiros. Alguns se terão “perdido” nos vastos caminhos do universo mas decerto se lembrarão dos velhos trilhos da montanha.
Além desta herança “vadia”, que decerto terá servido para alicerçar uma boa integração noutros meios, há um núcleo, chamemos-lhe “duro”, que há-de constituir o reservatório das mais genuínas tradições, dos mais lídimos sentimentos, das mais legítimas aspirações.
Desculpem-me … a intrusão, mas não é necessário a unanimidade para se reconhecer um património comum e agora que, além do material, tanto relevo se dá ao património imaterial, decerto haverá poucos espaços em que estes dois aspectos da questão estejam tão interligados, com um forte inter-conexão.
As diferenças têm que ser suavizadas pela adopção de perspectivas comuns quanto ao futuro, porque, se não se estiver de acordo quanto a isso, todo o passado se esboroará, quando ao cimento que o liga for sendo retirada a consistência pelo estado de banho-maria criado pela indefinição.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

As previsões possíveis para a vida do futuro

Vamos continuar pendurados da obtenção de uma energia limpa e inesgotável. É a miragem desta salvação que nos pode alimentar mais um ano de percurso rumo ao abismo que, à falta dela, nos está garantido. Mas mesmo que um dia acordemos, quem cá estiver, com a notícia mais importante de toda a história humana, nem assim todos os problemas ficarão resolvidos.
O efeito de estufa, o aumento de temperatura e a desregulação climática aí estão para nos atormentar com a ténue conforto dos ex-presidentes e responsáveis hoje sem responsabilidades. A já velha esperança na energia termonuclear pode não vir a tempo.
A energia nuclear suja obtida de materiais radioactivos, que tem sido o nosso pesadelo há mais de sessenta anos, não é a solução e os seus problemas reavivam-se na Coreia do Norte e no Irão. Para alguns volta a existir a visão do mal, que não absoluto, suficientemente tenebroso.
A manipulação das consciências vai continuar criando monstros onde seria presumível florescerem jardins. Cada vez haverá mais pessoas com ideias “límpidas” e certezas “absolutas” que quererão impor-se pela lei da fornalha, suprema lei dos tiranos mais perversa que a guilhotina, a bala, ou a cadeira eléctrica. O fogo purificador vai continuar a ser o alimento de todos os cultivadores de mistérios, que transformam em gases invisíveis todas as mazelas do universo.
Mas haja esperança que ainda há gente boa. Os monstros de há uns anos tornaram-se anjos protectores da humanidade. Alguns regimes árabes aparentemente passaram a tormenta do fundamentalismo. A China e a Índia ambicionam tão só tornarem-se potências económicas pacíficas. Outros países mais pequenos lutam pelo seu lugar na economia global.
Malgrado, o estertor de alguns fósseis, resistentes de um passado decrépito, produz algumas fracas imitações. Alguns países latino-americanos tardam a ter juízo e tornam-se fomentadores do narcotráfico. A África há-de continuar a ingloriamente alimentar régulos ditadores.
As mesmas aberrações, sociedades sem norte resultam de antigas influências tanto soviéticas como ocidentais. Os resquícios tanto do socialismo real como da ideologia liberal adaptaram-se à exploração dos recursos, ao seu cortejo de corrupções e distorções sociais.
A própria sociedade industrial se vê confrontada com o exagero da acumulação capitalista. Economias paralelas, dinheiro sujo, esquemas enleantes, permissividades sedutoras, informações de privilégio, decisões gizadas fora dos locais apropriados e dos contextos legais.
A sociedade do espectáculo que leva o homem público a ser uma marioneta nas mãos dos adoradores de imagens, dos malabaristas da palavra, dos ficcionistas dos destinos pré-concebidos, define regras pretensamente iguais, justas e universais.
O homem público num primeiro movimento cola-se ao lugar, ao tacho, à função, sem curar do seu desempenho, da sua substância, da sua caducidade. Se tem mais ambição transita entre eles, sem passos em falso, sem cair do patamar a que se pôde alcandorar. Até poderia ter tido mérito um dia, um só dia até, mas a sociedade paga toda a vida.
O homem público tornou-se sinónimo de parasita, que só o permanente enfoque da comunicação social na classe e a alternada atenção nos indivíduos permite dar algum brilho e esconder o cinzentismo. O homem comum é sempre dispensável de qualquer serviço em que trabalhe enquanto o público é essencial em qualquer poleiro em que se encontre.
Mas o homem público não exerce sozinho o poder, normalmente refugia-se em estruturas de assalto e conservação do poder e mesmo que nem o chegue a exercer efectivamente, contribuiu para o corpo que o exerce.
A corporização do poder que muitos idealistas imaginaram no começo do século XX como a solução para uma política justa e um mundo de paz faliu. O regresso a um passado idílico ou a um igualitarismo primitivo redundou em fracassos rotundos. As contradições internas enredaram estes sistemas.
Depois do estouro de tantos regimes, por dentro de si mesmos, resta ao homem ambicionar algo mais impessoal e inclusivo, com menos tendências e dispersão. Depois de um aparente abandono a que o homem foi sujeito pela implosão de sistemas artificiais assentes na rigorosa divisão do trabalho e de classes, grupos ou categorias, dêem-lhe hipocritamente o nome que queiram dar, o homem está condenado a procurar o seu caminho, a sua dignidade, o seu impreciso “lugar” no meio de uma anarquia que resta institucionalizada.
Com o declínio do poder das corporações os grupos foram perdendo a credibilidade, o respeito de outros grupos, a honorabilidade que era atribuída a alguns. Não faltarão as tentativas de recuperar o passado, criar uniões ocasionais, artificialismos regulamentados, racionalismos rígidos e impróprios da natureza humana. Não faltarão os perigosos iluminados, que não iluministas, prontos a levar à arreata os cegos de espírito e estes a quererem mandar para o fogo os que conservam alguma lucidez.A incerteza transferida da economia para a política vai ser agora o lugar em que o homem pode despontar, em que todos e não só os desfavorecidos vão ter que lutar e dar à sociedade mais do que o seu egoísmo permite. A dignidade perdida por muitos, porque assente em princípios erróneos, vai ter que, enfim, ser conquistada a pulso e defendida pela prática de cada um.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

Aborto/Clonagem/ Infertilidade, uma reflexão translinear sobre a Natalidade

A clonagem vai de vento em popa. Na América já haverá 150 animais clonados e uma Autoridade qualquer já disse que a sua carne é tão boa como a melhor dos apascentados no Planalto do Barroso.
Um dia destes outra “Autoridade” virá dizer que homem clonado não perde qualquer característica do uterino e até terá as suas vantagens. A mulher correrá apressada que, para dar seguimento aos seus impulsos libidinosos incontrolados, já não terá que assegurar a procriação. Ainda por cima a mulher alijará de si a responsabilidade de pôr cá neste mundo seres a que possivelmente só restará o sofrimento.
Os puristas das raças também agradecerão e com as suas manipulações genéticas vão procurar tirar dos africanos, asiáticos, euro-asiáticos e ameríndios as suas melhores características para construir um super humanóide capaz de se dedicar à guerra, desporto, jogo ou libido com a mesma alegria de um símio.
A civilização ocidental encontra-se num dilema tão brutal que, face à possibilidade de perder o domínio há séculos mantido, imagina e leva à prática toda a espécie de soluções. A ideia do aborto livre também se pode inserir na purificação das raças, seja qual for o princípio pelo qual esta é proclamada.
A mulher disposta a abortar é uma fraca, não suficientemente amadurecida, pelo que, assim sendo, fica também aberta a porta ao incentivo ao aborto praticado por quem não “soube” obter as condições económicas para criar os seus filhos. E os fracos não são reproduzíveis, argumentarão.
O aborto, colocado nesta perspectiva, está ao nível da clonagem, podendo ambos ser entendidos como tendo por objectivo a assumida, quase podemos dizer programada, uniformização do panorama social.
Sabemos quanto é necessário haver coerência na regulamentação social, não só quanto aos objectivos “políticos” a atingir, mas essencialmente quanto aos objectivos civilizacionais na plenitude da sua asserção.
O aborto social corresponde a uma tosquia prévia, à demissão por parte da sociedade de algumas das suas responsabilidades. Portanto a sociedade não pode classificar como crime aquilo que resulta da sua permissividade, que tem em vista tão só a optimização das funções sociais dos seus membros.
Então, coerentemente com este princípio, a sociedade deveria punir ao mesmo nível reprodutivo, isto é, com a infertilização, que hoje já nem é necessário que passe pela decapitação genital, para quem maltrate os filhos com os laivos de violência com que se tem visto tantos casos ultimamente.
O espectáculo é de tal modo indigno que, por mais que se vocifere nas praças tribunícias, não se consegue dar ao aborto livre ou clandestino um carácter tão degradante, aviltante, animalesco como aquele que nos entra em casa no quotidiano com violência gratuita sobre os filhos.
Enquanto casos como o de Letícia e Sara perdurarem não me digam que há escândalo maior do que este, que se permite que se utilize a capacidade procriadora para a adopção de comportamentos demoníacos.
Eu que sou a favor que se dê à mulher, e só a ela, a última palavra nas decisões que dizem respeito ao aborto, direi também que se dê à sociedade o direito à última palavra, se não quanto há existência deste energúmenas/os, pelo menos quanto à sua reprodutibilidade.
Uma decisão tão grave como a de permitir o aborto livre e condicionado ao tempo de gestação, não a questiono, mas deve merecer que se faça a reflexão sobre estes assuntos conexos da clonagem e da infertilização forçada, para que se não desvirtue o modelo civilizacional em que vivemos, para que se não continue a cometer crimes infinitamente mais gravosos que aquele que se pretende agora despenalizar.
A mulher, na minha perspectiva, deve assumir como sua a função procriadora por excelência, deve-se negar ao homem/mulher qualquer possibilidade de auto reprodução, assim como se deve negar a capacidade reprodutora quando quaisquer dos intervenientes se não mostre digno de a assumir com todas as suas consequências e essencialmente com a obrigação de ser leal para o ser que nasce.Deve-se dar à mulher tempo para pensar na responsabilidade de ter um filho, não se pode perdoar ao homem ou à mulher a ignomínia, a baixeza de um comportamento desleal com um ser dependente e indefeso.

O Espírito de um lugar esquecido

Na luta incessante entre o passado e o porvir, entre uma identidade perdida e uma nova identidade a adquirir, em que nos deparamos impotentes perante o peso da nossa ascendência e o vazio do nosso futuro, inquirimos o espírito deste lugar de Ponte a que nos sentimos umbilicalmente ligados.
Também ele está perplexo, tão baralhado, podemos dizer que se pela e nos devolve rapidamente a questão, aliás, numa linguagem que já nos custa a entender. Sentimo-nos ainda mais confundidos, incapazes de lhe dar a pretendida resposta, de lhe fornecer uma saída, de lhe apontar um caminho.
As nossas linguagens já são tão diferentes que a minha primeira suspeita é que não vamos poder dialogar eficazmente. No fundo a linguagem traduz formas diversas de organização social e económica, de associação, de distribuição de esforços, de concentração de capital.
O velho lugar de Ponte, após muitas transformações Centro Histórico de Ponte de Lima já, no seu espírito, nos olha estranhos, desprendidos, perigosos, diabólicos. Também nós o olhamos estupefactos, como se fora a primeira vez. Se não fosse uma réstia de amor diríamos quanto é mais fácil construir tudo de novo.
Resistimos e tentamos familiarizarmo-nos de novo com ele, com este espírito do lugar que julgávamos conhecer. De tão próximo que críamos saber o que ele sabe, sentir como ele sente, emocionarmo-nos como ele se emociona, ter os mesmos sentimentos que lhe sustentam o ser.
Apalermamo-nos porque o achamos mais resignado ainda do que nós, mais alquebrado que um carvalho centenário, mais insensível que uma pedra da ponte, mais pasmado que uma galinha, mais ignorante do futuro que um animal de pasto.
O Centro Histórico está em manifesto conflito com o futuro mas conformado com a perda eminente da centralidade que os diversos poderes dispersam, da segurança que as suas muralhas outrora garantiam. O tempo, se não corrói as pedras, vai delapidando o edifício, vai-lhe sugando o sangue, vai esvaziando a alma, vai-lhe enfraquecendo a sua capacidade de reacção.
As pedras dão-lhe a patine dos séculos mas coarctam-lhe a plasticidade. As novas práticas são as proporcionadas pela maleabilidade dos novos materiais. Hoje brinca-se com “Legos”, trabalha-se com moldes.
São também novas formas de organização que polarizam as energias, sacralizam outros ritmos e rotinas, dão novos brilhos às vivências. Mas exigem outros espaços, outras panorâmicas, outras condições menos inóspitas e menos naturais, ambientes mais climatizados e artificiais.
São os centros de gravidade que se deslocalizam, criam-se novas correntes, novos fluxos convergindo para novas potencialidades. Vence-se acreditando nas próprias forças mas congregando outras à sua volta. A novidade é naturalmente atraente. Mas a força e lógica do que é novo não são copiáveis para o que é velho.
Coloca-se um dilema ao Centro Histórico de Ponte de Lima: Ou não se faz nada porque o ritmo de desertificação é imparável e os apreciadores de ruínas agradecem, ou se adapta ao futuro e resiste aos movimentos desagregadores.
O Centro Histórico era o palco da vida de alguns funcionários e proprietários mas de muitos artífices, comerciantes, prestadores de serviços. Muitos dos ofícios foram trucidados pelo progresso técnico, outros pela legislação ambiental e regulamentar que os deslocou. Mas outros ainda pela dificuldade ou proibição de circulação automóvel.
Incentivou-se uma autêntica lixiviação por via legislativa que pretendeu dar aos centros históricos uma salubridade laboratorial. Em seguimento destas políticas, para coroar o ramalhete, promoveu-se uma política zoológica de turismo. Pretendeu-se enjaular os nativos em redomas assépticas e deixar as ruas para os passeios displicentes dos turistas.
Esta pretensão de copiar modelos que tem a sua razão de ser em cidades monumentais em que a pressão turística é grande, o afluxo de milhões e as zonas históricas já há muitos anos passaram a zonas museus mas que aqui não têm qualquer viabilidade, só se justifica por excesso de parvoíce.
Para que o turista cá venha chega tão só que possa passear num meio seguro e natural, presenciar um modo de vida normal, conhecer uma terra com “algum” significado, de preferência ficar com uma recordação agradável. De resto que não vá em dívida e se arranje um modo honesto de ele deixar cá ficar algum.
A criação de um qualquer artificialismo é na minha opinião contraproducente para a captação desta importante indústria. Estando nós vocacionados para um turismo específico, não se justifica a imposição de grandes sacrifícios até porque os benefícios que podem advir estão longe de serem compensatórios.
Mas o fundamental aqui é que o artificialismo, que se possa criar à volta de uma realidade que vale por si, em nada a favorece. O erro de pretender submeter o Centro Histórico a uma disciplina rígida, pela qual são coarctados praticamente todos os direitos dos seus habitantes, vai pagar-se caro.
Ponte de Lima está a passar a ser só mais uma terra sem automóveis, sem gente, sem crianças, com pedras lisas no chão, com cães às poucas janelas abertas, com fantasmas atravessando a noite deserta.O espírito do lugar deambula triste por entre paredes nuas, com a melancolia de quem vê cada vez mais longínquo o dia em que possa readquirir a vitalidade de outros tempos, quando não era objecto turístico, nem se falava de noções como dormitório, centro comercial ou o próprio centro histórico.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

D. Pedro IV e as Feiras Novas

Qualquer nova informação é importante. Mais importante também é a forma de apresentar essa informação, de a tornar apelativa, interessante, significativa e esclarecedora.
Amândio de Sousa Vieira ofereceu-nos agora, neste Natal de 2006, uma brochura que satisfaz todos estes requisitos e sobre um tema como as Feiras Novas que a todos nós muito diz.
“D. Pedro IV e as Feiras Novas” relata-nos os trâmites que o processo de criação/autorização das Feiras Novas teve que seguir para que fosse permitido que em 1826 se realizassem as primeiras festas/feiras de três dias (19, 20, 21), que as festas religiosas de um dia, é certo, já existiam antes.
Sem por isso causar qualquer controvérsia, o processo decorreu durante regências e reinados diversos, imune às conspirações e conflitos que se desenrolaram num curto e atribulado espaço de tempo.
De leitura obrigatória para quem se interessa pela forma como se estruturou o nosso passado social, este pequeno livro ainda tem espaço para nos falar do Cardeal Saraiva que estaria em Ponte de Lima por ocasião desta festas e da célebre Semana Santa em Agosto feita em honra de Rainha D. Maria II, por ser entendida como a forma mais digna de o manifestar.

Balanço de um ano

Por esta ser uma época de uma natural tristeza, seja ao nível da temperatura, da paisagem e até da cara das pessoas. Por ser altura de algum recolhimento, que até pode ser de meditação, arrependimento ou exaltação, é hábito fazer agora o balanço de um ano que acaba.
Não é meu costume fazer balanços deste género que, como todos, temos de fazer muitos outros mais importantes e mais amiudadas vezes. O balanço da semana, do mês, e o mais trabalhoso de todos, no quinquénio. Quanto ao ano prefiro de longe o ciclo das colheitas.
Mas, que até há uma grande aversão pelo que é americano e eles o adoptam, de Outubro a Setembro, vamos respeitar o nosso, como tudo nesta coisa de dividir o tempo, um pouco arbitrário, de Janeiro a Dezembro.
Politicamente foi um ano frustrante. Tal talvez se deva, não há mesmo dúvida, a ser o primeiro de uma série de anos sem eleições, o que só por si representaria normalmente um alívio para o eleitor, mas que representa efectivamente uma carga de trabalhos por um lado e uma falta deles por outro.
Efectivamente há dois poderes que olham para o primeiro ano com olhos diferentes. Se o governo nacional faz agora o pior para aliviar um pouco a pressão lá mais para o fim da legislatura, o governo local nada faz para deixar os seus projectos e o respectivo dinheiro lá mais para o fim do seu mandato.
Mas se o governo nacional apoquenta alguns e mexe com todos, o governo local põe um pouco de calmaria na festa. E nós, sem outros apriorismos, sem revelar os nossos amores, estamos para analisar o pouco que se fez por cá.
A E.T.A.R. está, enfim, acabada e em funcionamento, de forma eficiente, o que é de aplaudir. Só se lamente que labore muito abaixo da sua capacidade, que só sirva uma pequena rede de saneamento, face à dimensão do concelho. A própria rede na Vila apresenta lacunas evidentes. Quando há muita pluviosidade nota-se que muitas ligações, decerto antigas, estão a alimentar as condutas de águas pluviais e não as condutas que vão para a E.T.A.R. e que até acontece o contrário, o que devia ir directo para o Rio vai encarecer o tratamento na E.T.A.R..
A colocação dos adutores de água que a hão de levar da E.T.A. de S. Jorge, junto à barragem de Touvêdo, a quase todo o Vale do Lima e não só, tem causado tais e tão injustificados transtornos que não há memória doutra obra assim. E ninguém se digna explicar seriamente porque tem que ser assim, que se não tem então estão a fazer de nós parvos.
O Festival dos Jardins deste ano teve algumas ideias interessantes. Dividi-me, perdoe-me o Director, entre o Jardim Português Integrado, que só peca pelo nome e o Sonho Meu, Sonho Meu. A ideia mais forte deste jardim vencedor era a de um barco de papel que nos levaria a um mundo de fantasia. Ora o seu papel era impresso e transportava precisamente as ideias deste jornal, o Alto Minho. Foi pois um prémio para o autor, os votantes e para os que colaboram neste Jornal.
Salientemos a inoperacionalidade do canil, a desordem da feira, a anarquia do nosso Verão. Muitos virão ao sarrabulho e a banhos em Agosto, mas a maioria não vem cá deixar os tostões e os de cá vão pô-los a render lá fora. È evidente que quem cá vem não quer qualidade, incapazes que somos de a oferecer nestas condições. Nós e os nossos imigrantes já nos sentimos cá a mais.
As nossas velhas festas estão a sofrer alterações que não controlamos. Os estereótipos impõe-se de tal forma que o poder municipal e de freguesia vão a reboque. Impingem-se festivais de folclore repetitivos como símbolos de originalidade e naturalidade. Copiam-se formatos para jovens sectários. Salvam-se as bandas de música que inovam e tentam remar contra a maré.
Um excelente Festival Folclórico da Confederação Internacional realizado em 1 de Agosto foi o que de melhor ocorreu neste domínio em Ponte de Lima. Grupos formados por arménios, chilenos, chineses, filipinas, hawaianos, sérvios e venezuelanos deram um espectáculo admirável, de classe mundial, que, no meio da trivialidade reinante, passou despercebido a muita gente que não esperaria tal qualidade e até diria que era mais um. Aqui o “folclore” enganou muita gente.
Tanto se cantam loas a coisas tão fracas que quando o Bom, o Excelente ou mesmo o Sublime nos chega, já ninguém acredita. Esperemos que se continuem a aproveitar estas oportunidades, já que está fora do nosso alcance organizá-las.
As Feiras Novas continuaram a revelar a sua imensa atractividade e a mostrar quão difícil é fazer a sua reconversão. A falha na iluminação, no fogo de artifício, nas condições higiénicas, se tornaram a festa menos esplendorosa, não foram de molde a toldar a sua grandiosidade, que as pessoas ficam cegas só pelo ambiente em que elas são vividas.
Mas tudo tem limites e cada vez mais se tem de pensar se é vantajoso manter tanta grandiosidade com tão pouca qualidade. Muitos dirão que, fosse tudo muito bem limpinho e organizado, e não viria cá tanta gente, a esta “nossa” pretendida Terra Rica da Humanidade.
Enfim fez-se um seminário sobre este tema no qual se desvendaram alguns propósitos. De entre estes, destaque-se o ridículo de pretender colocar a valia desta Terra ao nível do sarrabulho. Mesmo que saibamos que o Português dá a máxima importância à “mandioca”, por mais que queiramos reduzir a cultura à gastronomia, saibamos medir as proporções.
A Confraria do Sarrabulho, essa talvez enredada pelas desavenças entre o gastrónomo-mor Jorge Sampaio e o neo-hoteleiro Daniel Campelo, não sai da cepa torta, depois de um início já periclitante, que a aposta no bízaro já deu o que tinha a dar. O porco de Famalicão é o que está a dar e continuará assim por muitos anos.
Mas, voltando à Terra Rica, o seminário teve muita qualidade, tanto pelas intervenções de alguns portugueses, como dos três espanhóis que cá nos vieram transmitir a sua sabedoria. O contra foi que se saiu pouco da pedraria, da urbanística, da paisagem e falou-se menos da tal imaterialidade, que, lenta, se esvai com o que de mais genuíno se poderia preservar.
Que valeu, valeu. Já se vamos aproveitar alguma coisa, disso não sabemos. Uma intervenção profunda no Centro Histórico será dispendiosa e tem que ter em atenção os objectivos últimos que se querem atingir e que estão por definir. Há exemplos de sucesso mas também de muita desilusão. Encontrar um projecto consistente, auto sustentável e perdurável ainda vai dar muito que fazer.
Aquilo que poderia ser o grande momento do ano foi desperdiçado por inépcia da Câmara. A Carta Educativa é uma manta de retalhos, que devia ser estruturante mas promove a indefinição, que devia ser precisa mas é vaga, que deveria constituir uma mola de arranque para o futuro mas não sai da utilização dos velhos paradigmas de soluções pontuais e capelistas.
Na literatura o concelho mexeu, tendo sido apresentadas algumas obras de valor, em particular a nível da poesia, que o nosso ambiente é propício a esta maneira mais pessoal de abordar a realidade ou de “fugir” a ela.Em 2007 esperemos colher alguns frutos dos investimentos em projectos, da aplicação dos conhecimentos e da experiência obtidos, da correcção dos erros detectados mas não ambicionemos demasiado. É que ainda vamos estar na primeira metade dos mandatos locais e só para o ano seguinte se vai investir mais.

Os benefícios do micro crédito solidário

Esta história também podia ter como titulo “O azar de uns é a sorte de outros”. Efectivamente foi após o nosso amigo António Melo ter sido espoliado do seu instrumento de trabalho, a caixa de engraxador, que houve logo quem se lembrasse de que esse negócio, de certo modo desaproveitado pelo António, podia ser interessante para fazer uns trocados.
Que com certeza se o António vier a recuperar a sua caixa terá igualmente lugar. O episódio do desencaminhamento da caixa serviu sim para que certas pessoas, que nada tinham a ver com ele, soltassem a célebre palavra “Eureka”.
Juntou-se um grupo, cada qual contribuiu com o que pôde e eis que surgiu uma caixa nova, brilhante, esmerada, apetrechada com o que de mais moderno há nesta arte milenar de engraxar os sapatos dos outros que, lembrem-se, é bem diferente daquela outra em que alguns são artistas: o lamber das botas a alguém.
Ponte de Lima teve bastantes daqueles verdadeiros artistas na arte da engraxadela. Lembro-me de, no largo se Camões, cada café ter o seu engraxador preferido mas eles não se limitavam aos clientes de cada um, antes se esmeravam em fazer bom trabalho e conquistar clientes aos outros. Era uma competição sadia, levada por uns mais a sério, por outros mais desportivamente mas que não ia além de uma troca de elegantes mimos.
Os mais velhos lembrar-se-ão do João da Mena, do “Chicago”, do Tone “Picado”, do Abel dos Jornais e dos seus filhos. Houve depois um período áureo com estes e outros rapazes a fazerem verdadeiros campeonatos, principalmente nos domingos de manhã, no sentido de apurar qual o mais rápido e o mais eficaz a polir os sapatos alheios.
Sucedeu-se um declínio, fruto dos ténis, de novas técnicas de engraxadela no domicílio, da poupança em tudo que envolvesse algum dispêndio de dinheiro. O Largo de Camões ficou vazio.
Mas eis que pelos acontecimentos relatados algo de novo ocorreu. O micro crédito, tão louvável que já mereceu um Prémio Nobel, surgiu em Ponte de Lima e tem merecido os maiores elogios. A aventura ainda é recente mas auguramos um futuro auspicioso a este empreendimento pela adesão que tem tido.
O nosso novo engraxador não necessita de apresentação, que em menino era um daqueles que faziam as delícias de quem queria ver uma competição salutar nos domingos de manhã. Trata-se do Manuel Ferreira Soares, para os amigos Amado.
O Amado pratica um preço perfeitamente razoável e tem já angariado muita clientela. E mais, para atrair o elemento feminino, teve a feliz ideia de praticar preços diferenciados conforme os atractivos manifestados. Claro que uma menina do Porto de passagem por Ponte de Lima aproveitou a oferta, mas o certo é que gostou tanto do serviço que no fim o pagou a dobrar.
Temos a certeza que o negócio vai prosperar e que, aprendendo com este caso, outras pessoas se juntarão para ajudar mais alguns noutras soluções por via do trabalho. E que aqueles que precisam de um pequeno motor de arranque recorrerão a esta espécie limiana de micro crédito.
Tudo o que possa ser feito para incentivar outras e diferentes iniciativas que minimizem problemas sociais e promovam o bem-estar daqueles que mais dificuldades encontram nas suas vidas, é louvável. Um Bom Natal.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

O sortilégio do nascimento ou o cerimonial das prendas

A maneira como vivemos as festas depende muito da tradição e do modo como esta nos foi transmitida, mas a nossa experiência particular também é marcante. As festas vão mesmo evoluindo conforme as nossas condições e nós vamos intervindo ao ponto de, às vezes, subvertemos a sua natureza.
Não digo propriamente isso do Natal que, sendo uma festa muito antiga e generalizada, com diferentes formas de ser abordada, algumas mais apropriadas outra menos, tem algum substrato e algum exagero comuns. Cada um vive o Natal de modo particular, mas vai beber à fonte de todos os Natais.
Já se assume hoje em dia que o Natal começa por ser uma festa de presentes, de tal modo que o exagero é evidente. Numa sociedade consumista seria sempre de esperar que o comércio explorasse ao máximo esta última chance de se desfazer das suas mercadorias antes do fim de ano.
Tudo bem, o certo é que no espírito de muitas pessoas este aspecto, que tem a sua raiz lendária nas prendas levadas ao Menino pelos Reis Magos, suplantou tudo o mais, qual ilusão de que seria por um gesto trivial que nós iríamos corrigir um ano de fraco relacionamento com os amigos e a família.
É que para as crianças o “cerimonial” das prendas tem significado. Poderão assim memorizar alguns momentos mais relevantes da sua infância. Já os adultos não conseguem reduzir um ano de vida a um momento significante, a não ser que este momento seja muito negativo, o que não será o caso.
Depois a prenda é para ser um acto de vontade que não espera compensação, muito menos ao nível de uma outra prenda da mesma natureza e valor. Se é aceitável, e quiçá desejável, que entre adultos se possa trocar prendas, reconhece-se que é raro que não se esteja à espera de uma retribuição qualquer.
Nos adultos há uma tendência, em certas pessoas imparável, de avaliar as prendas e de as colocar na conta de ganhos e perdas. As crianças, como é evidente, colocam todas as prendas nos ganhos, com parâmetros diferentes dos nossos para avaliar o seu valor.
O certo é que hoje as crianças, graças à publicidade e porque lhes transmitimos cedo os nossos valores, cedo começam a avaliar as coisas também pelos nossos olhos. Enfim nós contagiamos o mundo todo com a nossa hipocrisia.
Façamos então um esforço para descontaminar o Natal deste aspecto contabilístico que o desvirtua e lhe corrói os fundamentos. Procuremos dar-lhe um significado mais próximo da genuinidade. Embora perto do Fim de Ano, como tal época de balanços, retiremos a balança do nosso horizonte natalício.
Temos de fugir da banalidade de esperar dos outros contra-prendas em géneros. A prenda só pode ter como contrapartida um esforço do outro para uma melhor compreensão no relacionamento futuro e isto é legitimo esperarmos mas não mais do que isto.
Um presente só pode ser mais uma tentativa nossa, repetível ou não, para mostrar a nossa disponibilidade em sermos amigos de alguém. Com presentes não compramos ninguém. Se alguém não estiver disponível para a nossa amizade corremos o risco de estar a injectar hipocrisia na nossa vida.
Mas o Natal felizmente que não é só prendas. O Natal tem como fundamento a festa do nascimento, sacralizemo-lo ou não, façamos dum nascimento particular a salvação do mundo ou de todos os nascimentos sérias apostas no futuro, na certeza de que a Humanidade chegará um dia a honrar o seu nome.
O Natal é o tempo da inocência maior que reside em quem nasce. Partilhando a esperança do provir, também nós nos congratulamos pela nossa existência e não é agora que nos vamos interrogar sobre a nossa razão de ser. A veneração do Menino é o deslumbre pela criação, enquanto acto que a simples interacção de forças ditas “brutas” não parecerá ser capaz de gerar.
O sortilégio de termos a capacidade de procurar no âmago da nossa memória as razões do ser, e de buscarmos na matéria o acto que despoleta a criação e as razões da sua própria “memória”, não são de molde a impedir que sacralizemos momentos marcantes, actos determinantes que fazem um percurso que terá sempre por incógnita maior o nascimento, por mais pequeno a que o possamos reduzir.
O Natal é uma vivência expressiva que nos permite situar num dia, numa época, aquilo que nos parece espartilhado e desconexo no dia a dia. Mas, não sendo tudo redutível ao Natal, havendo outros momentos igualmente importantes na nossa vida, não queiramos que quem é mais vulnerável e dependente reduza a vida a uma sequência impossível de Natais.
A sacralização do Natal insere-se na nossa história de memórias, de sabedorias e de premunições. A nossa capacidade imaginativa é a grande responsável pela sua adaptação ao correr dos tempos. Mantê-la viva pressupõe que não entreguemos a manutenção do nosso espírito a quem se pretenda mais “entendido” nestas coisas do sagrado, mas que nos preocupemos todos com isso.
Não há uma particular mensagem de Natal. Pressupomos que haverá mensagens que no Natal passarão melhor. Mas também é no Natal que surgem mais mensagens que nada têm a ver com a vivência que era pressuposto favorecer.
Então cada um tem de se preocupar em transmitir à sua maneira uma mensagem simples e séria, que é importante estarmos bem conscientes da maneira como ela é entendida pelos outros. Isto é, a mensagem não depende tanto da sua verbosidade mas mais da sua autenticidade.
Quando eu digo que quero que nós vivamos num espírito de comunhão, concórdia e paz digo que, além de escolher a forma que acho mais adequada, me preocupa que o conteúdo corresponda àquilo que literalmente os outros são chamados a entender.
Acreditamos que é possível que, com este espírito, outros se deixem contagiar. O primeiro passo é despoluir o ambiente dum mercantilismo atroz, manietante e decerto mais válido e apropriado para outras ocasiões.

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Arte serôdia para quem não precisa de saber ler

Longe de mim a pretensão de reescrever a história. De retocar quadros, retirar figurantes e colocar lá outros. Houve quem o fizesse e as técnicas à altura nem eram tão boas como hoje. E embora nós estejamos precavidos há sempre quem o continue a tentar, se não para ficar na história, para obter efeitos imediatos.
Quando olho para o nosso percurso histórico não vejo imagens fixas, horizontes iguais, figuras estáticas, gestos parados. Tenho uma visão histórica dinâmica embora admita reduzi-la a uma visão estática, datada, temporária essencialmente para poder comunicar.
Estou sempre disposto a admitir repensá-la, revê-la, reorganizá-la. A integrar na minha visão as visões instantâneas, fotográficas que outros e eu próprio nos vamos fornecendo. No pressuposto porém de que a História é muito mais que a história da Arte, por mais valor que esta tenha.
Admiro um quadro, uma imagem poética, uma fotografia, por si. Mas as obras artísticas também podem ser documentos históricos e como tal utilizados. Só que, se eu não souber o contexto que as informa, eu fico desinformado. Mas admito que o objectivo até seja esse. Quando a mim só lhes dou real valor se souber ir ao seu significado, que, às vezes, até extravasa a intenção do próprio criador.
Por isso se diz que é necessário ser culto para gostar de Arte. Se não a Arte é vista como um artificialismo, o que é um sinal evidente da maior ignorância. A Arte tem de ser vista com os sentidos, a inteligência a emoção e os sentimentos bem despertos. Se não, não se vê nada. E a Arte tem o privilégio de mostrar aquilo que nem o próprio criador tem intenção de revelar.
Por exemplo, quando se retrata uma figura típica num quadro, num roteiro, num poema ou numa simples foto, esse retrato é o espelho da sociedade que no retratado se revê, independentemente do retratista dar maior realce a um pormenor do seu aspecto. Por seu lado esse pormenor caracteriza mais o criador do que o criado, dá mais informação sobre o primeiro do que sobre o segundo.
Poderia aqui dar de barato que o exemplo é fraco e que o pitoresco teve o seu tempo também no domínio da Arte. Assim sendo, mais valeria considerá-lo como uma página virada na nossa História. Isso é feito pelos próprios artistas que a Arte está na sua História cheia de roturas, de saltos imprevistos.
Para mim, porém, todos os contributos e manifestações humanas, toda a barbárie e humanidade, toda a prepotência e humilhação, toda a sobranceria e generosidade, toda a ostentação e humildade, toda a lascívia e perversão, toda a festa e frustração, todas as intenções realizadas ou não, estando presentes na História do Homem, são as fontes da sua compreensão.
Na História nada se deita fora. Todo o auto de fé é um crime banido. A História tem de ter continuidade, ser perceptível e todos os documentos são importantes para isso. Se a Arte tem explosões é a História que lho permite, mas não se reduz a elas.
Na Arte procura-se uma nova identidade quando se dá a velha por perdida. Mas também se pode pretender reconstruir a identidade perdida. Isto pode dar origem a uma arte serôdia, fora do tempo que lhe foi próprio. Mas como a Arte se não vê só com inteligência, eu não pretendo fechar os olhos e dizer que se deva queimar. Historicamente sabe-se que a inteligência tem destas perversidades mas para que serve a evolução?
Utilizar na Arte modelos com um século de atraso, que já foram substituídos por outros, quando isso se insere na tal busca da identidade perdida é aceitável mas não pode ser imposto. E claro que diz muito do ambiente social e político que se viveu no negro miolo do século passado.
O facto de não rejeitar qualquer parcela do passado, por mais negro que pareça, não quer dizer que eu não o possa analisar friamente, tecer sobre ele as minhas considerações, e até abater sobre ele a minha virtual ira. Fraco passado que nos não deu a possibilidade de procurar uma identidade mais progressiva e uma Arte mais moderna.
Claro que tenho de recorrer de novo à inteligência para estabelecer a ligação entre a Arte, a História e a Política. A arte serôdia está sempre ligada a políticas retrógradas e obscurantistas. Quem afirmou que “Felizes aqueles que não sabem ler” andava cem anos atrasado na Arte, na Política e na Humanidade. Até nem sei para que escreveu, se não seria só para auto satisfação “condal”.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Crónicas de um tempo que é outro

Como já vem sendo habitual, demonstrativo do apreço que os seus leitores/espectadores vem manifestando pela obra de José Ernesto Costa, a apresentação de mais um número, o III, da sua “Crónica de um Outro Tempo” teve lugar na noite do dia 24 de Novembro, num Teatro Diogo Bernardes que os seus amigos encheram plenamente.
Não faltou uma forte presença institucional representada pelo Vice-Presidente da Câmara Municipal de Ponte de Lima, o Eng. Vítor Mendes e pelo Vereador da Cultura, o Filósofo Franklim Castro e Sousa. Não faltaram muitos Homens de Letras, como o poeta Cláudio Lima, que apresentou a obra.
Realcemos em especial que não faltou o povo anónimo, se nos é permitido dizê-lo, daquele que preferencialmente constitui o objecto das fotos por si recolhidas e das suas estórias, episódios da vida real, muitos dos quais até aqui só pertenciam à memória oral.
Aqui reside muito do seu mérito, na transcrição fidedigna, tanto fotográfica como escrita, do ambiente social, linguístico, dos aspectos lúdicos e preferencialmente alegres da existência. Que, como nos parece evidente, naqueles tempos só se utilizava a fotografia para retratar aspectos festivos e só se memorizava e recordavam aqueles episódios que davam muito mais colorido ao convívio de todos os dias.
José Ernesto Costa transmite-nos nestas Crónicas a vida no seu estado de pureza, tal qual era realmente “vivida”, os aspectos pessoais, familiares e de convívio, que raras são as fotografias ou referências a cerimónia oficiais ou intervenções do poder.
O pitoresco, a alacridade na qual os padres Laranjo e Passarinha têm um papel preponderante, não resultam do ridículo ou da má formação, antes constituam uma maneira natural e saudável de abordar a vida, que, por estar irremediavelmente perdida, pode parecer às gerações de hoje caricata e artificial.
José Ernesto Costa tem lutado por preservar este legado, apresentando-o numa contextualização familiar, coloquial, cúmplice, em que o agrado e a amizade que transmite em relação às suas “personagens” são uma imagem fiel daquilo que num outro tempo efectivamente se passava entre todos os de cá e os de lá da Ponte, sem artificialismos e distinções.
Haveria, claro, outras contextualizações para apresentar este espólio magnífico, mas será sempre possível a outros fazê-lo. Mas todos lamentarão que esta obra, constituída já por três volumes, vá ser agora suspensa, mesmo que temporariamente, segundo a intenção do autor.
Como soi dizer-se, as Crónicas de um Outro Tempo valem o que valem mas valem muito para a nossa identidade. Valem a pena, é imprescindível continuá-las.